Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

A Emulação pela Pedra: História de uma Realeza Sagrada no Sertão de Pernambuco

por Christiano Galvão

I

Nos últimos dois séculos, a historiografia brasileira registrou a ocorrência de dezoito movimentos religiosos populares, identificados como cultos milenaristas, cuja característica comum era a crença num fenômeno escatológico iminente que, sublevando as estruturas cósmicas, haveria de instaurar uma ordem de valores em conformidade com suas próprias expectativas. Dentre estes, consta a seita da Pedra Bonita, que se notabilizou por um misticismo violento que demandava a prática de sacrifícios humanos. Fundada por dois supostos videntes, no ano de 1836, esta seita compunha-se de pessoas que aguardavam o retorno miraculoso de Dom Sebastião, o rei português desaparecido há três séculos numa cruzada africana. Conforme os registros e crônicas ainda disponíveis, os sectários acreditavam que o retorno do rei lhes propiciaria toda sorte de benefícios: os pobres enriqueceriam, os ricos teriam suas posses redobradas, os velhos rejuvenesceriam, os doentes reaveriam a saúde, e os negros se tornariam mais brancos do que a lua.1 Porém, havia uma condição: o rei voltaria através de dois enormes rochedos, semelhantes às torres de um castelo soterrado no meio do sertão, e que deviam ser lavados com sangue humano. Esta demanda teria então motivado os ritos sacrificiais que deixaram testemunhos de uma violência estarrecedora: pais atiravam os filhos do alto dos rochedos, maridos degolavam as mulheres, adultos de ambos os sexos se ofereciam para serem imolados, e até cães eram mortos para que fosse maior a quantidade de sangue. No intervalo de 8 horas, essa chacina mística (como ficou conhecida) vitimou 82 pessoas e 11 animais, e só foi contida quando os sitiantes vizinhos alertaram as autoridades policiais.

Na época, este acontecimento teve ampla repercussão, sendo divulgada na imprensa nacional e estrangeira. Algumas dessas reportagens se tornaram referências históricas, como uma crônica investigativa publicada na revista do Instituto Histórico de Pernambuco, com o título de Memórias do Reino da Pedra Bonita.2 E também no livro The Brazil and The Brazilians: Portrayed in Historical and Descriptive Sketches of Travel and Residence in Brazil3,⁠ do reverendo metodista Daniel Parish Kidder, que, no 1845, teve publicação simultânea nos Estados Unidos e na Inglaterra. Nas décadas seguintes, a história dessa seita ainda serviria de tema para três importantes romances brasileiros.

No entanto, em nenhum destes documentos observou-se qualquer tentativa de analisar as circunstâncias em que essa seita teve origem e, por conseguinte, sondar as causas de um misticismo tão autodestrutivo. Eis então as questões que pautarão essa pesquisa. Recorrendo ao paradigma analítico da Teoria Mimética, tentar-se-á aqui um cotejo de todos os dados históricos com o intuito de investigar as dinâmicas relacionais que irromperam como forças entrópicas no âmago desse movimento religioso.

II

Para reconstituir o contexto social e cultural que, provavelmente, formatou as expectativas e atitudes dessa seita, recorreu-se a um acervo de fontes primárias constituídas dos documentos processuais, correspondências oficiais e reminiscências jornalísticas que reportaram sua ocorrência. Contudo, levando em conta as lacunas de esquecimento e silêncio que condicionam estes documentos, procurou-se confrontá-los com dados extratextuais, ou seja, os testemunhos do cotidiano (relatos de usos e costumes locais), através dos quais informações paralelas pudessem suscitar conjeturas mais esclarecedoras. Este método de releitura comparativa também implicou num recuo temporal que permitiu inteligir os dados de uma perspectiva mais ampla, facultando a percepção prévia de uma grave crise identitária, ou crise de indiferenciação, que, presume-se, teria resultado do processo de conquista e ocupação dos sertões brasileiros.

III

Os documentos são unívocos em mostrar que as estratégias expansionistas do governo imperial haviam suscitado nos sertões do Brasil uma realidade social tensa e positivamente conflituosa. Basicamente, estas estratégias consistiam em empregar toda a gente ociosa (brancos pobres, índios assimilados e negros alforriados) que não havia se inserido na cadeia produtiva formal, constituindo um excedente populacional em situação de marginalidade. Essas pessoas eram arregimentadas em milícias incumbidas de combater a resistência indígena e estabelecer fazendas que seriam núcleos de povoamento e administração nas terras ainda inexploradas. A posse desses núcleos seria, portanto, a recompensa para essa guerrilha expansionista. Daí tantos fazendeiros sertanejos deterem as patentes de coronel, capitão, major, etc.

Todavia, o sertão tinha peculiaridades geográficas, ou ecológicas, que tornariam inviável a reprodução de um modelo coercível de estratificação social. As políticas imperiais tinham estabelecido um processo de divisão territorial com relativa igualdade de acesso para todos os milicianos (quer fossem brancos, índios ou negros), mas o clima adverso e a escassez de recursos naturais limitaram as atividades econômicas, de sorte que as modalidades de produção eram semelhantes, não favoreciam uma interdependência de atividades diversificadas e, por conseguinte, não geravam riquezas. Nestas circunstâncias, a posse de latifúndios e os títulos honoríficos conferidos aos milicianos não pareciam suficientes para sustentar qualquer prerrogativa de autoridade ou prestígio social. Tudo não passava de um improfícuo capital simbólico, cedido pela civilização distante e transfigurado em ídolo ocasional.

Nos termos da teoria mimética, pode-se dizer que o governo imperial atuando, externamente, como um modelo-mediador transformou o sertão numa zona de intensa mediação interna, onde cada miliciano tendia a reivindicar uma ilusória importância, que era tão controversa quanto disputável. Logo, tensões internas eclodiam por toda parte, e como inexistissem aparelhos regulatórios comprometidos com o império, seus mandatários improvisados fizeram da violência indiscriminada o método mais eficaz para o exercício do poder.

As peculiaridades raciais também agravavam a situação de anomia social, porque, em se tratando uma população bastante híbrida, as distinções de branco e negro, indígena e alienígena eram demasiado fluídas, e não representavam objetivamente nada do que aquelas pessoas podiam dizer acerca de si mesmas, ou uma das outras. Sem estar baseada em referentes concretos, a identidade individual ou grupal estilhaçava-se em contradições, suscitando uma vida comunitária intrinsecamente ressentida, conflituosa – ou, como diz Girard, uma comunidade indiferenciada.

IV

A indiferenciação torna-se perceptível não só por esses dados históricos, mas também pelos costumes locais que atestam uma obsedante necessidade de afirmar-se em detrimento dos outros. Costumes que podem ser entendidos como dinâmicas culturais de emulação, que condicionavam violentamente as reciprocidades. De fato, vasculhando os arquivos policiais do sertão, é possível obter amostras representativas dessa dinâmica operando nas formas mais elementares do convívio social, como as relações familiares, as atividades lúdicas e religiosas.

No primeiro caso, abundam os registros de intrigas, agressões e crimes hediondos associados à rotina doméstica, e em sua maioria envolvendo parentes por afinidade (sogros, cunhados, enteados, etc.). No segundo caso, os documentos evidenciam que as ocasiões de lazer eram muito propícias à emergência de conflitos individuais ou generalizados, que resultavam do aspecto provocativo dos divertimentos (trocavam-se ofensas através de canções improvisadas; as danças eram como mímicas de confrontos, etc.). E no terceiro caso, os documentos testemunham como as superstições fomentavam um perturbador sistema de troca de acusações, agravando as desconfianças mútuas e os antagonismos reprimidos.

Tem-se então a impressão de que essas dinâmicas culturais, pautadas pela emulação, serviam para formatar a percepção da realidade forjando discursos e atitudes aparentemente justificáveis para as reciprocidades hostis. Mas estas justificativas eram apenas tentativas equivocadas de inteligir a experiência comum, cujo significado, obscuramente pressentido, permanecia abaixo do limiar de consciência dos indivíduos envolvidos. Ou seja, num estado de méconnaissance acerca da crise de indiferenciação que, afetando áreas sempre mais amplas da existência coletiva, frustrava todo e qualquer esforço para obter-se alteridade.

Neste contexto, é possível perceber como a violência vai gradativamente escapando ao controle do grupo social, como se fosse uma dinâmica autônoma que os privava de sua própria autonomia. E assim passaria a ser pressentida como uma força transcendente com a qual aquele grupo precisa transigir para sobreviver. Com efeito, no mais importante relato histórico acerca dessa seita, alude-se a atuação de um espírito das trevas que tinha suas coerências no implacável propósito de fazer perder a coletividade4,⁠ podendo afetá-lo de maneiras diversas. Apesar do tom supersticioso, trata-se de uma afirmação bastante significativa porque expressa o sentimento de quem se reconhece ultrapassado por uma violência que é capaz de influenciar estruturalmente uma comunidade inteira.

A violência assim concebida como uma força transcendente pode projetar-se numa entidade que parece apta à mediação ou compensação de conflitos. Isso esclarece porque a figura do rei Dom Sebastião resurge no imaginário da população sertaneja como aquele que, através do derramamento de sangue, poderia restabelecer todos os símbolos identitários. Desta perspectiva, compreende-se que Dom Sebastião já não era somente o monarca redentor que outros grupos milenaristas aguardavam pacificamente. No sertão do Brasil, ele se tornara no avatar da violência à qual um grupo social, atônito e inseguro, apelou como reserva última da ordem que ela mesma tinha anulado.

  1. LEITE, Antônio Áttico de Souza. Memória sobre a Pedra Bonita ou Reino Encantado na Comarca da Villa Bella Província de Pernambuco. Em: Revista do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, 1903. Tomo XI, N° 47. pp 216-249. ↩︎
  2. LEITE, Antônio Áttico de Souza. Op. cit. ↩︎
  3. KIDDER, Daniel P.; FLETCHER, James C. Brazil and The Brazilians: Portrayed in Historical and Descriptive Sketches of Travel and Residence in Brazil. New York: Childs & Patterson, 1857. Vol. 2, p. 255. Disponível online: https://archive.org/details/brazilbrazilians00kidd, acessado em: 29 de Julho de 2014. ↩︎
  4. LEITE, Antônio Áttico de Souza Leite. Op. cit. pp. 19-20. ↩︎

O Poder do Mito

Tenho a rara sorte de traduzir profissionalmente textos associados àquilo que pesquiso em meu doutorado. Traduzir contratos ou manuais de instruções seria sem dúvida muito mais rentável, mas, para mim pessoalmente, a vantagem acabaria aí, e nem só de pagar boletos vive o homem.

Recentemente, traduzi o prefácio que Jean-Pierre Dupuy, professor de Stanford já citado em textos anteriores meus para o Estado da Arte, redigiu para o livro de Maurício G. Righi que será lançado durante o Congresso da Associação Brasileira de Literatura Comparada. Espero ter a oportunidade de falar do livro quando for lançado; agora, quero me ater a uma simples distinção feita no prefácio que traduzi, e que pode nos levar direto da pré-história, ou talvez dos comecinhos da história (aliás, tema do livro de Righi), até o cinemão maniqueísta de Hollywood. Não se trata de um salto maluco no tempo, mas de uma simples comparação abalizada.

A distinção é a seguinte: Dupuy observa que, até a Segunda Guerra Mundial, a antropologia considerava que os mitos e ritos primitivos diziam respeito a processos sociais. Depois da Segunda Guerra, essa ideia some, e em seu lugar ganha força a ideia estruturalista de que os ritos e os mitos têm muito a dizer sobre a inteligência que os criou, e nada sobre processos sociais.

Todavia, se de um lado lembramos de áridos estudos estruturalistas de Lévi-Strauss embrenhado nas matas brasileiras, de outro pensamos imediatamente nas fórmulas de roteiro do cinema. Antes eu diria "cinema americano", mas essas fórmulas, como o McDonald's, já se espalharam pelo mundo; e se é bom saber que no lugar mais exótico você poderá comer aquele mesmo sanduíche do seu bairro, também vale perguntar por que você viajou para um lugar exótico.

Mas voltemos. Hoje é impossível encontrar um manual de roteiro que não fale na "jornada do herói". Essa jornada é uma espécie de mito estrutural básico, elaborada pelo americano Joseph Campbell por meio da comparação de vários mitos, e respaldada nas ideias psicológicas de, por exemplo, Carl G. Jung, de que os mitos arcaicos se referem a processos psicológicos. Assim, tudo, do seu parto e do seu primeiro machucado no parquinho até seu casamento e sua aposentadoria, pode ser revestido de um caráter… mítico.

Jogue no caldo o simples fato de que homens como Campbell e Jung (e, numa certa medida, nós mesmos) cresceram lendo romances que apresentavam vidas ordenadas como processos de aprendizado, a começar por Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister. A descrição de longos períodos de uma ou mais vidas humanas com uma reflexão sobre a experiência, numa certa medida, parece até mesmo definir o gênero romance (e satisfazer nossa sede de sentido).

Os mitos, então, entram como uma espécie de chave da vida individual. A "jornada do herói", cujo apelo seria comprovado por ter estado no fulcro de pequenas tribos e grandes civilizações, permaneceria viva, hoje, como uma possibilidade que cada pessoa poderia realizar sozinha. Unindo passado e presente, o cinema pode se valer desse apelo como quem se vale de um mecanismo, de um truque: aprenda a escondê-lo bem o suficiente, que o apelo vai funcionar. Esconda bem a jornada do herói, mas mantendo-a presente, que as plateias virão.

Este, porém, não é o ponto em que direi que a jornada do herói é falsa. Que sentido tem dizer que um truque é falso? O que interessa é dizer como um truque funciona, e talvez refletir sobre os motivos pelos quais gostamos desse truque.

Volto então à distinção de Dupuy. Os mitos, em vez de se referirem a processos interiores da mente ou da alma humana (aliás, vejam como isso é confortável: o mundo "objetivo" fica abandonado de antemão às ciências "duras", evitando toda sorte de perguntas inconvenientes), podem referir-se a processos sociais. Essa foi a ideia retomada por René Girard, teórico francês com quem Dupuy conviveu, cuja obra pesquiso e traduzo.

Resumindo muito a teoria, para Girard a religião arcaica seria um mecanismo administrador da violência. Seu surgimento teria marcado o nascimento da cultura, não porque o homem teria se deslumbrado com o cosmos, mas porque teria tropeçado num meio de evitar que sua própria comunidade se aniquilasse.

Uma comunidade pré-histórica teria cerca de 100 a 140 pessoas. Imaginemos disputas se alastrando, o rancor tomando conta de cada membro. Dois indivíduos julgando que um terceiro é a causa de seus males. Gradualmente, com certa rapidez, a violência se dirige para um único membro. (Eu poderia dizer: para um tênue paralelo, pense em como é fácil atribuir todos males contemporâneos ao papa, a Dilma Roussef, a Donald Trump, à imprensa etc.) Esse único membro então é morto pela comunidade, e sua morte serve como válvula de escape para a violência. É uma catarse mesmo, uma purgação do mal.

Passar da raiva para a paz, ainda mais para a paz coletiva, é uma experiência forte, que parece confirmar a suposição que levou ao assassinato: nós o matamos porque ele era mesmo culpado. Porém, se ele nos trouxe toda essa paz, é porque é um deus. A violência fica então ancorada naquele indivíduo, e a reencenação de sua morte começa a oferecer à comunidade pequenas catarses periódicas.

Essa reencenação se chama rito. O mito, por sua vez, seria a história da perseguição dessa vítima inocente, cuja morte no entanto foi necessária para salvar a tribo. Porém, a história dessa perseguição é feita do ponto de vista dos perseguidores, que de jeito nenhum encaram esse assassinato como um mero cálculo econômico. Somos nós, modernos, que desmistificamos os mitos e os vemos assim. Na perspectiva dos próprios mitos, o morto era culpado etc.

Como Girard teria operado essa desmistificação? Usando o mesmo método que Campbell usou para formular sua "jornada do herói": comparando textos. Seu livro O Bode Expiatório começa com uma interpretação de um poema de Guillaume de Machaut em que judeus são acusados de envenenar a água de uma cidade. Hoje, quando lemos esse texto, sabemos que a acusação é falsa, e até um leitor com pouco treinamento é capaz de apontar onde está a falsidade. O mesmo vale para textos de perseguições de bruxas. Daí a pergunta, cuja resposta já foi dada aqui: e se lêssemos os mitos como lemos textos de perseguições? E se a leitura desmistificadora que é aplicada a esses textos simplesmente fosse aplicada a outros, mais antigos?

A "jornada do herói" seria o modelo daquela primeira história simples, oferecendo uma explicação que justifica a violência contra um indivíduo ("estávamos em paz, ele veio nos envenenar, como vamos nos salvar?") e dispensando aquele que adota seu ponto de vista de examinar a si mesmo. Todos os estágios – o chamado à aventura, o enfrentamento – seriam justificativas da necessidade da derrota final do inimigo. A catarse experimentada pelo espectador na sala de cinema seria um eco distante daquela que nossos antepassados sentiram ao matar o vizinho, e seu maravilhamento seria também aparentado daquele que nossos antepassados sentiram ao ver que o assassinato coletivo poderia ter efeitos tão ricos.

Todavia, os melhores pajés, assim como os melhores roteiristas, sabem perfeitamente onde a ênfase deve ser colocada, porque essa catarse depende do foco de nossa atenção. E ousamos dizer que talvez os melhores estudiosos dos mitos possam interessar-se mais por uma explicação que abarca outras explicações, do que pela explicação que apenas os coloca na mesma linhagem dos pajés – ainda que sem a autoridade social desses pajés, e sem o dinheiro dos melhores roteiristas.

Descrição da Teoria Mimética, por René Girard

Em março de 2009 René Girard dedicou algumas horas a produzir, usando caneta e papel, um breve resumo da teoria mimética. Para nós, interessados em permanentemente reinvestigar seus fundamentos, trata-se de um documento inestimável. Anteriormente disponível no site da Fundação Imitatio, sua versão inglesa original hoje pode ser encontrada no Scribd. — PSC

Descrição da Teoria Mimética

René Girard, março de 2009

A Teoria Mimética ou Imitativa é uma explicação do comportamento humano e da cultura humana.

Os seres humanos imitam uns aos outros em tudo, inclusive no desejo. O resultado é que eles escolhem os mesmos objetos e competem por eles. Paradoxalmente, portanto, a mesma força imitativa que une as pessoas também as afasta. A teoria mimética afirma que esse fenômeno mal compreendido é a mais importante causa da violência humana, e que a vingança é a forma mais importante assumida por ele. A vingança é a primeira instituição caracteristicamente humana. Chamamos esta primeira intuição de momento do desejo mimético ou da rivalidade mimética.

A vingança ilimitada destruirá a espécie, a menos que algum antídoto apareça. Paradoxalmente, o antídoto se origina nos mesmos impulsos miméticos que causam o problema. A reciprocidade mimética da vingança é desviada para uma única vítima, que mimeticamente atrai toda a violência para si. É esse o processo que os gregos chamavam de Katharsis, que significa as purificações da violência por meio de uma morte solene e sacrificial. Chamamos essa segunda intuição de momento do bode expiatório.

A religião arccaica é essencialmente a repetição ritualizada dessa morte sacrificial, com o fim de renovar sua eficácia. Chamamos essa terceira intuição de momento da religião.

O cristianismo, como aponta corretamente a antropologia ateísta, é exatamente o mesmo esquema, com uma diferença fundamental, ignorada sistematicamente pela moderna antropologia: a atribuição da culpa é invertida, e a vítima expiatória é explicitamente redimida. É por isso que o cristianismo, longe de ser apenas mais uma religião, revela a mentira de todas as religiões (incluindo de si próprio, quando mal compreendido).

Philosophical Journal of Conflict and Violence: René Girard

Foi lendo o blog L’Émissaire, da Association Recherches Mimétiques, que fiquei sabendo da edição especial da revista acadêmica Philosophical Journal of Conflict and Violence dedicada a René Girard (conteúdos em inglês e em francês).

A revista declara-se interessada em publicar mais artigos de jovens estudiosos de René Girard – oportunidade a ser levada em conta.

Todos contra a multidão

Foi o filósofo Jean-Pierre Dupuy quem primeiro estabeleceu uma relação entre o terrorista e Cristo: se este, na cruz, pede ao Pai que perdoe a multidão anônima que pediu sua crucifixão, pois esta "não sabia o que fazia", o terrorista decide executar uma violência contra uma multidão anônima. Violência essa que, claro, é uma vingança contra algo que nem sequer foi feito diretamente a ele.

Hoje em dia também falamos muito em violência simbólica, noção que qualquer pessoa considera frescura até ver suas preferências tripudiadas por aí. Pois consideremos a seguinte hipótese: se nem eu nem o leitor pretendemos jogar aviões contra prédios, dirigir caminhões contra multidões, nem por isso deixamos de olhar a multidão anônima como uma força cega e temível, incapaz de diálogo, fazendo dela um verdadeiro objeto de nossas ações.

Provavelmente o leitor não pensa assim diretamente, formulando o argumento de si para si. Afinal, pergunto socraticamente: o leitor não crê na democracia? Pois crer na democracia significa crer em debate público, em persuadir e em ser persuadido, em presumir que os concidadãos são todos seres racionais.

E no entanto…

No entanto uma grande parte dos filmes e das séries mais populares trata a multidão anônima como uma força cega e irracional, que na mais generosa das hipóteses precisa ser salva de si mesma.

Pode ser preciso dar um passo para trás para apresentar o raciocínio.

Identificação

Toda obra dramática ou ficcional depende de uma certa identificação por parte do destinatário. Até este artigo depende de alguma simpatia para ser lido até o fim (concordar com ele é outra história). Normalmente, a identificação acontece entre o destinatário — o leitor ou espectador — e algum personagem. O destinatário da obra pura e simplesmente torce por um bom desfecho para seu personagem favorito, ou aprecia sua atitude moral enquanto comove com as agruras sem fim que ele pode sofrer. O destinatário também pode se identificar com o narrador, e apreciar o mundo que ele cria. Como quer que seja, se você não está lendo o livro ou vendo o filme para a escola, continua a ver por causa dessa identificação.

O outro não vai entender

Agora vejamos as premissas dramáticas de filmes e séries populares. Os X-Men são mutantes… incompreendidos pela multidão. Batman é o herói… que sabe que é preciso enfrentar a multidão para o próprio bem dela. Todo filme ou romance de espionagem se baseia na premissa de que uma informação não deve estar ao alcance de todos — ou então que é obrigatório que esteja ao alcance de todos.

Isso para nem falar em tantos filmes, perfeitamente adultos, que parecem ignorar que seus próprios personagens são capazes de ter uma conversa e se resolver, porque se o filme reconhecesse explicitamente essa possibilidade que ele mesma deixa implícita, então não haveria filme. Nesse caso, existe a expectativa da incompreensão individual, não coletiva; mesmo assim, a premissa dramática é que não se pode confiar no juízo alheio.

A grande ironia disso tudo é que temos produtos culturais feitos para as massas que estão denunciando as massas para elas próprias. Se você morasse em Nova York e visse um filme do Batman ou dos X-Men, poderia perfeitamente se perguntar: mas eu estou sendo chamado a partilhar de um segredo e compreender as dores do protagonista perseguido pelas massas ignaras, ou eu mesmo faço parte dessas massas ignaras? Se Hollywood gasta milhões e milhões de dólares para denunciar essas massas ignaras… quem será a verdadeira vítima dessa história? Será que ninguém está presumindo que eu seria incapaz de entender algo mais nuançado?

Jane Austen e a vítima injustiçada

Um recuo responde essas perguntas.

Jane Austen teve sucesso como escritora ainda em vida, atraindo os comentários de sua família. Auden dizia achar fantástico que pessoas que não sabiam o que queriam fazer da vida dissessem que seriam escritores, e não dentistas ou advogados. Nunca vi um leigo em advocacia ou em odontologia querer ensinar o ofício a esse profissional, mas a arte de contar histórias parece, no senso comum, depender apenas da vaga vontade de contá-las.

Após muitos encontros familiares, Jane Austen resolveu produzir um "projeto de romance com base nas sugestões de amigos e parentes" que é o equivalente ficcional do famoso carro desenhado por Homer Simpson.

Para meu argumento aqui, o ponto mais chamativo desse projeto de romance é que sua protagonista é uma moça indefesa perseguida incansavelmente, gratuitamente, por um vilão malvado. Isso bate perfeitamente com o que Adam Smith diz, na Teoria dos Sentimentos Morais, sobre a história da vítima injustiçada ser aquela que evoca o máximo de simpatia.

Quer dizer, a história da vítima injustiçada como aquilo que o público pede já é algo arquiconhecido há pelo menos quase um quarto de milênio… Ou mais, como veremos.

Porém, antes de verificarmos isso, uma observação: Austen jogava com a identificação com a protagonista. As massas que veem o Batman devem identificar-se com o Batman — não com a massa que fica no plano de fundo, vociferando, segundo a narração.

Um dia litúrgico contra Hollywood?

Se voltarmos ao começo do argumento, temos a diferença entre o Cristo e o terrorista. Pois pensemos na nossa visão atual dos Evangelhos. Sabemos que o Cristo é inocente. Esperamos que o Pai atenda seu pedido de perdoar as massas. E por que duvidaríamos de que elas "não sabem o que fazem", se é o próprio Cristo quem diz? (Para usar o linguajar moderno, quem duvidasse disso já se tornaria suspeito de "culpar a vítima"…)

Assim como os parentes de Jane Austen, assim como os espectadores do Batman, nós nos identificamos com Cristo. O próprio misticismo cristão sugere que perseveremos em sua imitação, aceitando perseguições injustas. No filme de Rossellini sobre São Francisco, um discípulo pergunta ao santo de Assis: "O que é a perfeita alegria?" Após Francisco e discípulo serem escurraçados de uma casa e jogados na lama por um homem que não queria louvar Cristo, Francisco diz: "Esta é a perfeita alegria."

E no entanto…

No entanto, na liturgia da Sexta-Feira Santa, a congregação que assiste ao rito é convidada a fazer o papel de massa anônima e violenta. Sacerdote e leitores dividem a narração e os personagens da Paixão de Cristo: a congregação só se pronuncia na hora de dizer: "Crucifica-o, crucifica-o!".

O que, num paralelo, seria mostrar que nós somos também o vilão que persegue a mocinha de Jane Austen, nós preferiríamos matar o Batman.

A multidão violenta, afinal, só é uma boa premissa dramática quando é feita dos outros. Descobrir-se parte dela é o contrário da maior diversão. E talvez até nisso haja ao menos um certa novidade.

“A lua, também, humilha seus súditos”: Sylvia Plath no Subsolo

Por Cláudio Ribeiro, Mestre em História pela Universidade Federal de Goiás (UFG)

Criminosa indefinida,
Morro com variedade infinita –
Enforcada, faminta, queimada, pendurada.

— Sylvia Plath

1. “Santa padroeira da autodramatização”

Recentemente, levando adiante a leitura do livro Podres de Mimados: As Consequências do Sentimentalismo Tóxico (É Realizações, 2015. Tradução: Pedro Sette-Câmara), de Theodore Dalrymple — pseudônimo do psiquiatra britânico Anthony Daniels —, lembrei-me do artigo “O Suicídio de Sylvia Plath e a sombra de seu pai”, escrito pelo doutor em literatura e etnólogo Mark Anspach, publicado neste blog em 6 de abril de 2015.

Podres de Mimados

A lembrança me ocorreu quando cheguei ao quinto dos seis ensaios do livro, cujo título é “O Culto da Vítima”. Dalrymple, assim como Anspach, se debruçou sobre o seguinte problema referente a Sylvia Plath: o ódio que a poetisa destilou contra seu pai, o alemão Otto Plath, no poema “Papai” [“Daddy”], que integra o livro Ariel (Verus Editora, 2007. Tradução: Rodrigo Garcia Lopes e Maria Cristina Lenz de Macedo).

Em “Papai”, Plath escreveu o seguinte: “Um motor, um motor / Me cuspindo como uma judia / Uma judia com destino a Dachau, Auschwitz, Belsen. / Dou para falar como uma judia. / Vai ver sou mesmo uma judia. (…) Sempre tive medo de você, / Com sua Luftwaffe, seu linguajar posê. / E seu bigode asseado, / Seu olho ariano, azul forte. / Homem-panzer, homem-panzer, ah, você”. No afã de nos fazer crer na imagem opressora e cruel do pai alemão, Plath compara-se às vítimas do Holocausto. Ainda que Otto não tivesse ligação nenhuma com o nazismo, a filha insistiu na comparação, em outro poema, “Lady Lazarus”, no qual lemos os versos: “Um tipo de milagre abundante, minha pele / Brilha feito um abajur nazista (…) / Meu rosto inexpressivo, fino / Linho judeu.”

Logo no início de “O Culto da Vítima”, Dalrymple diz que, apesar do fato de ter sido uma boa poetisa, ele tem dúvidas quanto ao sucesso de Plath advir apenas de seu talento. Para o psiquiatra, o drama doméstico da escritora “tem um profundo apelo para aqueles que desejam atribuir a suas próprias tribulações pessoais, domésticas, e de relacionamentos, um significado além de sua medida imediata.” Plath, segundo Dalrymple, tornou-se a “santa padroeira da autodramatização”, isto é, um paradigma de autopiedade e autovitimização. Daí viria grande parte de sua fama.

Como é sabido, a autora de Ariel foi traída e abandonada pelo marido, o também escritor Ted Hughes, e veio a cometer suicídio em 11 de fevereiro de 1963, contando trinta anos de idade.  Seu pai, no entanto, faleceu quando ela era uma garotinha. Por que, então, tanto ódio expresso no poema “Papai”?

Darymple ressalta que, mesmo tendo ela sido “muito mais afortunada do que milhões, ou talvez dezenas de milhões de seus concidadãos, mesmo considerando a morte prematura dele, ela o culpa por seu próprio sofrimento”. Dalrymple então cita “Papai” (e, na sequência, “Lady Lazarus”) como exemplos do modo como Plath “descreve seus esforços para fugir à influência” de Otto, que “vem mais da sua ausência do que da sua presença”. Assim, acentua o autor, “por causa da origem alemã do pai, só por causa disso, ela o identifica com o nazismo”. E o faz “a fim de atrair a atenção do leitor para o seu sofrimento, para sua angústia existencial”. Só por causa disso, “Plath julgou adequado referir a uma das piores e mais deliberadas aplicações de sofrimento em massa de toda história humana (o Holocausto).”

Apesar de dar destaque a um problema importante que circunda a figura de Plath, escapa a Dalrymple um ponto nevrálgico ao qual Anspach deu um contorno preciso.

2. “E voltar, voltar, voltar para você”

A autovitimização hiperbólica de Plath não se devia apenas ao fato de ela estar insuflada por um “sentimentalismo tóxico”, mas, sobretudo, por ela ter nutrido uma devoção tão grande e tão intensa por Otto (a ponto de chamá-lo de “Colosso”, em outro de seus poemas), quanto o ódio que sentia por ele. Dalrymple chega a tangenciar isso quando diz que Plath “descreve seus esforços para fugir à influência do pai, que vem mais da sua ausência do que da sua presença”. Mas é Mark Anspach quem torna claro o problema ao apontar o seguinte fato: a amálgama de ódio e devoção por Otto era tão forte que teria feito com que Plath se matasse a fim de “voltar” para o pai, como fica explícito em outros versos de “Papai”: “Mordeu meu coração em dois lugares. / Tinha dez anos quando o enterraram. E aos vinte tentei morrer / E voltar, voltar, voltar para você.”

Plath, lembra Anspach, não tinha dez anos quando seu pai foi enterrado, mas oito. Aos dez, ela tentou se matar pela primeira vez, e acabou por mesclar as memórias do primeiro fato com as do segundo. Aos vinte, como diz na sequência, “tentou morrer” mais uma vez. A palavra “voltar” é repetida três vezes não por acaso. Se lermos novamente “Lady Lazarus”, como faz Anspach, perceberemos que, por três vezes, Plath tentou o suicídio: “Tentei outra vez. / Um ano a cada dez / Eu dou um jeito”. Na terceira, conseguiu, e “voltou para o pai”.

Anspach, mencionando a biografia The Death and Life of Sylvia Plath [A Morte e a Vida de Sylva Plath], escrita por Ronald Hayman, diz que a poetisa “idolatrava o pai quando era pequena, sendo louca por seus elogios.” Otto era “filho estudioso e trabalhador de um ferreiro que imigrou para os EUA adolescente e estabeleceu uma carreira dando aulas de alemão e de biologia.” Entretanto, “ele era um tirano doméstico com uma vontade de ferro, que subjugava a mãe de Sylvia — uma inteligente ex-aluna 21 anos mais nova — e que talvez tenha tido um lado sádico. A fim de exibir seu desdém pelos preconceitos normais que governam o comportamento humano, escreve Hayman, ‘ele costumava esfolar um rato, cozinhá-lo e comê-lo na frente dos alunos’.” Daí o misto de ódio e fascínio pelo “homem-panzer”, com assustadores “bigode asseado” e “olhar ariano”.

Apesar disso tudo, “a coisa mais brutal que Otto fez aos olhos de Sylvia foi abandoná-la morrendo cedo”, destaca Anspach. A sua morte prematura se deu de forma impactante e irônica. Otto pensou ter câncer depois de começar a sentir os mesmos sintomas que um amigo, afetado pela doença, sentia. Como o amigo, mesmo se tratando, sucumbiu, Otto sequer cogitou procurar ajuda médica. Decidiu-se por “abraçar a morte”. Ocorre que o que ele tinha não era câncer e, sim, diabetes. Quando descobriu, já era tarde. Morreu das complicações derivadas desta outra doença. A “morte voluntária” de Otto penetrou a economia psíquica de sua filha de oito anos.

O principal argumento que Anspach esboça, apoiando-se na teoria mimética de René Girard, é o de que Sylvia Plath, quando criança, tomou o pai como um modelo a ser imitado. Quando Otto morreu, a poetisa não perdeu apenas o pai, mas também o mediador que lhe sugeria o objeto que deveria ser desejado. A poetisa desejava segundo o desejo de seu pai. Mimetizava o desejo do “Colosso”. O modo como Otto morreu, argumenta Anspach, foi encarado por Plath como suicídio e, citando mais uma vez o biógrafo da autora americana, ela “‘começou a ver a própria morte como a sequência inevitável da morte dele’.” Conclui, então, Anspach: “Nada poderia ser menos desejável intrinsecamente do que a morte. Mas se o pai, aquele gigante ameaçador, abraçou-a voluntariamente, então a morte pode muito bem ter parecido a Sylvia o único objeto capaz de conferir a ela a plenitude superior que, em sua profunda infelicidade, ela sentia faltar-lhe.”

Por isso, já quase no término de “Papai”, Plath diz “Fiz de você um modelo”. Na sequência, vem o verso “Um homem de preto com um quê de Mein Kampf”, que Anspach identifica como a figura de Ted Hughes, despontando como substituto do pai, homem que, assim como Otto, talvez tivesse também um quê de sádico. Plath, casando-se com Hughes, procurou um mediador similar a Otto. Sua autovitimização crescia na mesma medida que sua necessidade por um modelo admirável que fosse, ao mesmo tempo, um obstáculo odioso.

Fica então a dúvida: a filha /esposa Sylvia Plath era masoquista? E mais: há uma relação intrínseca entre masoquismo e autovitimização? Anspach não chega a discutir isso. Mas acredito que sejam perguntas importantes. E será ainda o teórico do desejo mimético quem nos ajudará a esboçar as respostas.

3. “Enforcada, faminta, queimada, pendurada”

Ao longo das páginas de Ariel, outros exemplos de autovitimização, acompanhados do intrincado par ódio /fascínio, podem ser observados. Em “Carcereiro” [“The Jailer”], por exemplo, escreve Plath: “Criminosa indefinida, / Morro com variedade infinita — / Enforcada, faminta, queimada, pendurada.” Mais adiante, seguem estes versos: “O que fariam as trevas / Sem febres para devorar? / O que faria a luz / Sem olhos para apunhalar, o que ele / Faria, faria, faria sem mim.” “Ele” é seu modelo substituto, Ted Hughes. Se em “Papai”, Plath repete três vezes a palavra “voltar”, tendo em vista seu primeiro e grande mediador que foi Otto, a escolha pelo substituto talvez tenha a sua confirmação com a repetição, também por três vezes, da palavra “faria”. Hughes é comparado às trevas que devoram as febres e à luz que apunhala os olhos. Misto de luz e trevas, ele é quem a encarcera; é dele que ela espera se ver livre. Mas, ao mesmo tempo, o que “ele faria” se não a tivesse para aprisionar ou libertar? Plath mede o seu desejo de “ser livre” com a régua do prestígio que atribui ao “carcereiro”.

O comportamento de Plath, de acordo com a terminologia clínica, poderia ser classificado como masoquista. E é exatamente sobre tema “sadismo e masoquismo” que trata o oitavo capítulo do primeiro livro de René Girard, Mentira Romântica e Verdade Romanesca (É Realizações, 2009. Tradução: Lilia Ledon da Silva), publicado em 1961. Nesse livro, Girard desenvolve intuições a respeito do desejo mimético e seus desdobramentos, a partir da analise das principais obras de romancistas como Cervantes, Stendhal, Dostoiévski e Proust. Mas, longe de se aferrar ao receituário psicanalítico, Girard reflete sobre o assunto desde um ponto de vista “romanesco”. Isto é, o teórico francês busca penetrar o “subsolo” do desejo mimético (que implica a relação triangular sujeito /objeto /modelo — já exposta aqui), orientado pelos autores mencionados, qual um Dante, guiado por um Virgílio, penetra o Inferno.  É neste “subsolo” do desejo mimético que ocorre os jogos de espelho ocasionadores daquilo que Girard denomina “mal ontológico”, “desejo metafísico” e “transcendência desviada”. Estes três termos descrevem fenômenos nos quais o dito masoquista (e também o sádico) está enredado.

Mentira Romântica e Verdade Romanesca

Ao acompanhar os romancistas de gênio, que desvelam a “verdade romanesca”, Girard conseguiu fazer a distinção entre duas formas principais de mediação do desejo. Por um lado, há a “mediação externa”, que ocorre quando o sujeito desejante adota como modelo a ser imitado alguém que não lhe esteja espiritualmente próximo. É o caso de Alonso Quijano, em Dom Quixote, que tem como modelo Amadis de Gaula — personagem dos livros de cavalaria. De outro lado, há a “mediação interna”, que ocorre quando o modelo está bem próximo ao sujeito, ao ponto de se tornar para ele um obstáculo, um rival. É o caso dos senhores de Rênal e Valenod, em O Vermelho e o Negro: um espelho do outro e o outro, espelho do um. Pois bem, as duas formas de mediação podem afundar o sujeito no “subsolo”, tal como ocorre com o narrador de Memória do Subsolo, de Dostoiévski. Isso acontece quando o sujeito perde de vista o objeto e passa a desejar o próprio Ser do modelo, padecendo, assim, de um “mal ontológico”. Neste caso, o sujeito geralmente diviniza o modelo, identificando-o ou com Bem supremo ou supremo Mal. A isto, Girard dá o nome de “transcendência desviada”. Em vez de haver uma “transcendência vertical”, em que o desejo está orientado à plenitude de um Deus perfeito — como é o caso do Cristianismo, no qual Cristo é o modelo a ser imitado —, há um desvio para o “Outro”, geralmente próximo, que se torna um “Deus”. O sujeito, assim, passa a almejar a falsa plenitude que o modelo lhe sugere.

Aquele que frequentemente recebe o epíteto de masoquista é, para Girard, o mais lúcido e o mais cego das vítimas do “desejo metafísico”. É o mais lúcido porque só ele, “entre todos os sujeitos desejantes, percebe a ligação entre a mediação interna e o obstáculo”. Por outro lado, é o mais cego “porque, em vez de levar essa tomada de consciência até as conclusões para as quais ela aponta, em vez de, em outros termos, fugir da transcendência desviada, ele se esforça paradoxalmente em satisfazer seu desejo precipitando-se sobre o obstáculo, entregando-se à infelicidade e ao fracasso.” Essa dualidade entre lucidez e cegueira se dá principalmente no terreno da “mediação interna”. Ela vem da aproximação do modelo, do mediador. À medida que diminui a distância entre mediador e sujeito, diz Girard, “as fases do processo metafísico se aceleram”. Todo desejo metafísico tende, assim, ao masoquismo, “pois o mediador se aproxima sempre que a luz que ele traz consigo é, por si só, incapaz de curar o mal ontológico; ela apenas fornece à vítima o meio de precipitar a evolução fatal.”

As vítimas do desejo metafísico, entre elas os masoquistas, cobiçam, sentencia Girard, “a divindade do mediador e é por essa divindade que elas aceitarão, se necessário for, — e é sempre necessário — ou até procurarão, a vergonha, a humilhação e o sofrimento.” Em seu âmago, no mais íntimo de seu ser, o masoquista “vomita o Bem ao qual ele acredita estar condenado e adora o Mal perseguidor, pois o Mal é o mediador.”

4. “A lua, também, humilha seus súditos”

Ainda que, em seu terceiro livro, publicado em 1978, cujo título é Coisas Ocultas Desde a Fundação do Mundo: a Revelação Destruidora do Mecanismo Vitimário (Paz e Terra, 2008. Tradução: Martha Gambini), Girard renuncie ao uso da expressão “masoquista” para designar o tipo de pessoa que sofre este módulo do “mal ontológico”, sua descrição permanece alinhada àquela exposta do livro de 1961. Diz o teórico do desejo mimético que é “nas vilanias que o fazem sofrer, nos desprezos com que será cumulado que ele (o ‘dito masoquista’) lerá cada vez mais os sinais da superioridade absoluta do modelo, a marca de uma autossuficiência bem-aventurada necessariamente impenetrável à sua própria insuficiência.”

Claro está que o perfil de Sylvia Plath, dados os excertos de sua obra poética que aqui expusemos, orbitava o vórtice do “desejo metafísico”, com forte inclinação a sua face “masoquista”, na qual, diga-se de passagem, ainda com Girard: “não é ao sofrimento e à sujeição (como certa psicanálise simplificadora tende a conceber) que esse imitador aspira, mas à soberania quase divina cuja proximidade é sugerida pela crueldade do modelo.” Pois bem, se, por fim, lermos alguns outros versos de Plath, desta vez de um poema sintomaticamente intitulado “Rival” [“The Rival’], veremos que isto fica mais límpido ainda: “Se a lua sorrisse, pareceria com você. / Você também deixa a impressão / De algo lindo, mas aniquilante. / Ambos são bons em roubar a luz alheia. / A boca da lua se lamenta ao mundo; a sua é insensível.” (…) “E o seu maior dom é fazer tudo virar pedra.” (…) “A lua, também, humilha os seus súditos”

“Rival”, assim como “Carcereiro”, foi escrito para Hughes, mas poderia igualmente ser lido como destinado a Otto Plath. Nestes versos, o que sobressalta é a amálgama de ódio e fascínio, o “lindo” e o “aniquilante”, cuja síntese nos é dada pela imagem da lua que, como o modelo infernal do “desejo metafísico”: “humilha os seus súditos”. Levando em conta as palavras “síntese” e “amálgama”, só me resta concluir dizendo que, ao pensar na figura trágica de Sylvia Plath, enquanto esboçava este artigo, me vinha à mente, em constância vertiginosa, uma quadra de um célebre poema de Paulo Mendes Campos: “Na face dos outros vi / a sintaxe do cristal; / na amálgama dos espelhos, / embrulhei o bem no mal.”

Uma Visão Girardiana do Terrorismo

Psychopolitics

Trecho do segundo capítulo de Psychopolitics, entrevista de Trevor Cribben Merrill com Jean-Michel Oughourlian.

Desde um ponto de vista girardiano, o terrorismo popular está situado num tempo pré-sacrificial: dessa vez, a violência infiltrou-se na comunidade, como acontecia antes do advento do mecanismo do bode expiatório. O inimigo está por toda parte e em lugar nenhum, e por definição é impossível identificá-lo antes que ele comece a agir. Logo todo mundo é inimigo de todo mundo, e nos vemos numa crise sacrificial, com a violência cega e indiferenciada espalhando-se por toda parte.

Ao contrário da guerra convencional, em que era necessário derrotar o inimigo e conquistar seu território, na guerra contra o terrorismo o que está em jogo são os membros da população. Maquiavel, depois de ter reconhecido cinicamente que "os homens mudam seu governante na esperança de melhorar de situação", advertia: "não importa o quão poderosos sejam seus exércitos, para entrar num país você precisa da boa vontade dos habitantes." Obviamente, MacArthur [o general responsável pela tomada do Japão após a Segunda Guerra Mundial] tinha lido Maquiavel, e Bush, não!

David Galula observa, por sua vez: "Quais, então, são as regras da guerra contra-revolucionária? (…) Temos pouco além de fórmulas — razoáveis em sua medida –, como 'A inteligência é a chave do problema', ou 'Deve-se conquistar o apoio da população'."

Com o terrorismo, o respeito mútuo entre soldados, o respeito de Napoleão em Austerlitz pelo dois imperadores que combatia, até o respeito de soldados como Montgomery e Eisenhower por um soldado como Rommel, é trocado pelo desprezo.

As forças legalistas ou o exército ocupante têm desprezo pelos terroristas, e não aplicam as leis da guerra ao lidar com eles. Durante a Segunda Guerra Mundial, os alemães atiravam nos guerreiros da resistência, a quem consideravam terroristas, sem hesitar, ao mesmo tempo em que respeitavam as leis da guerra ao lidar com prisioneiros militares.

Os guerreiros da resistência (desde seu próprio ponto de vista), considerados "terroristas" pelo governo incumbente ou pelas forças de ocupação, também sentem profundo desprezo pelos soldados ou pela polícia contra a qual estão lutando, e que eles qualificam de "forças repressivas".

Numa insurreição ou numa guerra do tipo que hoje é chamada de terrorista, os sentimentos nobres que predominavam nas guerras convencionais são trocados por sentimentos de degradação: como acabamos de dizer, os inimigos sentem desprezo um pelo outro, mas também ódio, ressentimento, inveja, ciúme. Desde um ponto de vista girardiano, na psicologia mimética, o inimigo é visto como um modelo-rival ou até como um modelo-obstáculo, que não inspira nada além de sentimentos negativos.

A esses sentimentos acrescenta-se outro, ainda mais deletério: a suspeita. O inimigo está do lado de dentro, ele pode ser qualquer um, até meu vizinho. Por isso, preciso suspeitar de todo mundo. A suspeita corrói os laços sociais: os ingleses ficaram horrorizados ao descobrir que os terroristas que explodiram os metrôs e ônibus eram cidadãos britânicos! Eles estoicamente suportaram o choque dos bombardeios dos V1 e V2, mas descobrir que alguns de seus concidadãos, que vivam entre eles, os detestavam, sentiam desprezo por eles, e queriam matá-los, escandalizou-os ao extremo.

Depois da suspeita generalizada vem o medo. Esse medo é sujo, ele empesteia a população, e é o medo que dá a esse tipo de conflito o nome de terrorismo. A população pode de fato ficar aterrorizada, e o governo pode adotar medidas degradantes a fim de "aterrorizar os terroristas", e a humanidade recua por todos os lados. Como escreve Galula: "Alguns contra-revolucionários caíram na armadilha de imitar os revolucionários em escalas tanto grandes quanto pequenas, como mostraremos. Essas tentativas nunca tiveram sucesso."

Insurreição, revolução, e agora o terrorismo brotam em chão podre: pobreza, humilhação, ressentimento, frustração. O terrorismo é uma violência política adiada, isto é, uma forma de vingança. O estudo dos processos vindicativos e das técnicas vindicativas nos ensina que a violência não pode apagar a vingança; só o dinheiro pode: "o dinheiro de sangue". É por isso que arrisco uma hipótese: a violência terrorista, que é uma vingança terrível, é solúvel numa sustância única: dinheiro. Em vez de gastar somas astronômicas em armas, gastemos em vez disso em estradas, em hospitais, em escolas, em casas, em empresas, para criar empregos etc. Em vez de financiar a guerra, compremos a paz.

Neste ponto, estou completamente de acordo com Guy Sorman: "No ano 328 antes da nossa era, e se devemos acreditar no historiador romano Quintus Curtius, Alexandre Magno em vão tentou conquistar o Afeganistão. Após algumas batalhas selvagens, mas inconclusivas, começaram as negociações entre os chefes tribais e o general grego. Este queria chegar à Índia. 'Por que você está nos combatendo?', disseram os afegães, 'quando bastaria comprar-nos?'. Foi o que Alexandre fez imediatamente."

O que é extraordinário é que todos os valores da guerra de que falávamos antes, coragem, heroísmo etc., são pervertidas pelo terrorismo no sentido de que o terrorismo é o resultado da humilhação, da pobreza, da fraqueza. Aquele que deseja lutar contra o terrorismo é afligido pela suspeita, envenenado por sentimentos negativos: depois da suspeita, vem o medo. Ele em certo sentido fica paranoico, porque suspeita de todo mundo, tem medo de todo mundo.

Como pensamos sobre a religião?

Publicado originalmente no blog O Estado da Arte.

No começo de O Reino, livro em que conta o período em que foi católico, o escritor francês Emmanuel Carrère se pergunta como pôde acreditar nas teses absurdas em que o catolicismo se baseia. Um homem nasceu de uma virgem, e depois ainda ressuscitou. Há exatamente uma semana (escrevo este artigo sete dias depois da Quinta-Feira Santa), muitas pessoas que talvez concordem com Carrère afastaram-se de seu trabalho por causa dessa crença: um tremendo efeito prático que se repete todos os anos, cerca de quarenta dias após a primeira Lua cheia depois do começo do outono (no hemisfério sul). Duvide-se de Cristo, não da folga em seu nome.

A religião também é frequentemente usada como metáfora. Quando se diz que tal coisa é como uma religião, quer-se dizer que alguém é inflexível em relação a certas crenças ou práticas. Se são crenças ou práticas que aprovo, trata-se de um devoto; se as desaprovo, sem dúvida é um fanático, talvez esquisito, quiçá perigoso.

Fala-se ainda, inclusive academicamente, sobre as religiões seculares, as religiões civis. Sim, é verdade que a Revolução Francesa afirmou o Ser Supremo (aguardamos ainda manifestações do Ser Supremo sobre a Revolução Francesa), formalizou ritos civis. Também é verdade que as nações mais jovens, formadas no século XIX, quiseram criar seus ritos, uniformizando a educação, colocando as crianças para cantar o hino todos os dias, e que todas as nações ritualizam procedimentos meramente burocráticos, como posses de cargos, trocas de mandato. É verdade que, principalmente com urnas eletrônicas, esses procedimentos podem ser verdadeiramente misteriosos; mas não era bem disso que eu estava falando.

Ou era, em certa medida. As questões com que esbarramos ao examinar o senso comum sobre a religião são de duas ordens: como já mencionado, a adesão a certas teses, consideradas absurdas e extraordinárias até por seus defensores, e, como sugerido, uma organização, de multidões grandes e pequenas, espontânea ou deliberada, em torno de certas ideias, ou de certas pessoas.

(A parte do mistério e da urna eletrônica é mais do que uma insinuação de fraude; ainda existe, de fato, algo de misterioso no contágio de opiniões e de motivações que leva enormes números de pessoas a aderir a candidatos – candidatos esses aos quais, como no Brasil, elas são constrangidas a considerar. Algo tão misterioso que o fraudador se sente compelido a agir.)

E quando se fala de multidões ou quando se faz parte de uma multidão, ressurgem as alusões religiosas. Não creio, ao contrário do que talvez o leitor espere, que haja algo de equivocado nisto tudo. Penso que todas essas comparações relacionam-se com uma intuição correta, que é aquela que faz com que não percebamos que “religião secular” seria uma contradição em termos, um oximoro. Não é na medida em que, por religião, pretende-se indicar não a adesão a certas teses consideradas absurdas, mas a própria atitude de adesão, seja a teses, a objetos abstratos como a nação ou um ideal, adesão essa que em determinado momento renunciaria à crítica (você acreditaria que o adepto crítico de uma religião é verdadeiramente seu adepto?). Assim religião e mistificação se confundiriam, e as duas dimensões dessa atitude – intelectual e volitiva – estariam reunidas no mesmo gesto.

Porém, mesmo essa visão pode pecar por ser excessivamente moderna.

Se adotarmos a visão de René Girard, a cultura humana surgiu de um jogo entre proibições e rituais. O objetivo das proibições era evitar a imitação, a perda de identidade, a violência coletiva; o objetivo dos rituais era controlar a imitação, a perda de identidade, a violência coletiva. Tente imaginar uma crise coletiva dentro de um grupo de hominídeos de 100 a 140 membros, todos desprovidos de linguagem, e que essa crise é resolvida porque a violência é dirigida para um único membro. A catarse produzida é maravilhosa, e a diferença entre nós e aqueles hominídeos é que nós vemos apenas uma catarse, e eles veem uma ação divina. (O que não impede que nós modernos, tenhamos outras maneiras de nos equivocarmos quanto a esses mesmos pontos.)

A religião, segundo Girard, surgiria como uma tecnologia de controle da violência, mas sem que o pajé fosse um grande cínico, arguto como um desconstrucionista e manipulador como um ilusionista. Todos acreditavam na mesma ilusão, aderindo a teses não como um católico adere aos artigos do Credo, formulados após muitas disputas, mas aderindo a uma certa experiência coletiva, imitada muito antes de ser formulada.

A ideia de que a religião nasce como a imitação empírica, provavelmente anterior à linguagem, de uma crise primeva que impediu o colapso de uma comunidade inteira, e que aliás só depois começou a ser formulada em narrativas, ou mitos, pode ser uma chave para entendermos os problemas apresentados na primeira parte deste texto: a religião fica voltando, como um termo de comparação, a esferas que ninguém consideraria propriamente religiosas. Ou até a esferas que gostariam de definir-se pelo secularismo – que, no senso comum, é o oposto da religião, o que quer que um e outro sejam.

Teríamos aí também uma chave para entendermos porque se espera que a vida secular produza efeitos que se atribuía à religião, como um sentido de comunidade, e até de identidade comum. Porém, claro, este seria apenas o começo do problema. Se um primitivo duvida de seu rito, se acha que as proibições são besteira, ele pode realmente colocar em risco a sua pequena comunidade. Por outro lado, se inventarmos uma letra parodiando o hino nacional e a preferirmos na hora de cantá-lo na escola, o país continuará existindo.

A vida secular parece viver nesta contradição, porque ela seria justamente isto: não precisar crer em algo transcendente como uma “nação” para esperar que as instituições de controle da violência (polícia, poder judiciário) funcionem. Contudo, as instituições do Estado secular não param de se perguntar como emular unidade, como fazer com que as pessoas demonstrem a sincera adesão a certos valores.

Não basta ser ateu em relação ao Estado secular, dizendo-lhe: você é apenas um mecanismo de controle da violência, melhor do que os demais, mas nem por isso transcendente. Temos ainda ideólogos, de direita e de esquerda, que, como velhos pajés sinceramente iludidos, pedem que associemos nossa adesão ao Estado-nação, ou a mecanismos globais de controle, a algo vago, intangível, para fora deste mundo. E temos, claro, cínicos, argutos como desconstrucionistas, e manipuladores como ilusionistas.

Temos, sobretudo, poucos que digam: eu mesmo tenho essa atitude religiosa, de tipo primitivo, que enxergo nos outros; sou capaz de aderir religiosamente a praticamente qualquer coisa, porque é possível desejar a verdade de qualquer coisa, recusando-se respeitosamente a criticá-la; apontar todo o meu aparato crítico para um lado, mas não para outro (principalmente o próprio). É o impasse secular, que está intimamente ligado ao problema sem fim da religião.

A Solidariedade dos Viventes e o Perdão: Jacques Derrida / Evando Nascimento

Segundo informa o Suplemento Pernambuco:

De 17 a 20 de abril, ocorre no Rio de Janeiro o colóquio internacional A solidariedade dos viventes e o perdão: Jacques Derrida/Evando Nascimento: questões de ética, política e estética. Além da solidariedade dos viventes – tema caro ao filósofo franco-argelino -, também serão abordados outros temas de interesse de Jacques Derrida (1930-2004) como poesia, hospitalidade, o estrangeiro e os animais. O evento ocorre na Pós-graduação em Letras da UERJ e na Mediateca da Maison de France.

As conferências, mesas-redondas, e cursos dividir-se-ão entre a UERJ e a Maison de France. A programação detalhada está neste arquivo PDF.

A Crítica da Vítima de Daniele Giglioli

Em Crítica da Vítima (trad. Pedro Fonseca. Veneza e Belo Horizonte: Editora Âyiné, 2016), o professor Daniele Giglioli quer nos conduzir por um campo minado. Discutir a vítima é discutir um dos poucos verdadeiros tabus da nossa sociedade.

O problema que interessa a Giglioli está no coração das discussões políticas contemporâneas. A formulação que o professor da Universidade de Bergamo apresenta é aguda em sua simplicidade: como pode a vítima, impotente por definição, ter sido transformada em fonte de poder?

Numa entrevista dada ao canal da editora no YouTube, Giglioli cita o caso dos eleitores de Trump, que teriam votado nele por representar as "verdadeiras" vítimas. No entanto, isso nada difere, estruturalmente, de todas as outras eleições: qual candidato não recebeu poder justamente para representar as vítimas? Daí o mais comum argumento retórico de hoje: elas são vítimas falsas, nós é que somos as verdadeiras vítimas; façamos algo, porque já somos vítimas, ou porque não queremos vir a ser vítimas.

Em outro vídeo, Giglioli localiza o problema nos últimos vinte ou trinta anos, embora ele mesmo examine, no livro, textos anteriores a essa faixa de tempo, como os de Pasolini. Por outro lado, René Girard, um dos autores com que Giglioli dialoga, colocaria esse reposicionamento da vítima numa escala de milhares de anos. Para Girard, o assassinato da vítima humana inocente (da falta de que é acusada) estaria no centro da cultura humana. Um rito arcaico seria a reencenação de um assassinato coletivo espontâneo com vistas a produzir o mesmo efeito catártico, isto é, de expulsão da violência.

Os mitos desmistificados

Ainda segundo Girard, os mitos, que teriam surgido depois dos ritos, seriam narrativas daquelas agressões primeiras, mas contadas desde o ponto de vista de agressores sinceramente equivocados, sinceramente capazes de deslocar sua violência para fora de si. Por exemplo: podemos imaginar que Semele foi "possuída por Zeus" e fulminada por Hera, ou estuprada e morta; podemos dizer que a lenda do nosso boto cor-de-rosa amazônico é uma bela peça de folclore, ou atentar para a parte da história que diz que nas noites de Lua cheia o boto vira um homem que "possui" as mulheres, isto é, estupra-as.

Estruturalmente, não há diferença entre dizer que foi Zeus, que foi o boto, ou que se abusou de uma mulher por "ser um homem de outra época" – e aqui enxergamos a força da interpretação girardiana, que pode unir mitos ancestrais e situações contemporâneas e até cotidianas.

É esse tipo de atitude que, segundo Girard, sustenta a ordem arcaica e que ainda enxergamos em nacionalismos políticos, por exemplo. Aquilo que parece tosco a olhos contemporâneos é a óbvia transferência simplificadora de culpas. Um francês poderia, por exemplo, afirmar que o problema são os imigrantes, sem atentar para o fato de que décadas antes o ex-ministro Alain Peyrefitte se perguntava, em Le Mal Français, o que é que tinha feito a França capitular diante da Alemanha.

Essa nossa capacidade de desmistificar os mitos em todas as suas variantes seria, para Girard, uma decorrência da tradição judaico-cristã, principalmente dos Evangelhos. Estes seriam paródias dos mitos, repetindo a mesma história fundamental, mas desde o ponto de vista da vítima agredida: ao lê-los, sabemos que Cristo é inocente.

A vítima no centro, mas inocente

Se as ordens arcaicas foram constituídas sobre vítimas consideradas culpadas, as modernas – e é este o paradoxo que interessa particularmente a Giglioli – também querem construir-se sobre as vítimas. Porém, não porque elas sejam culpadas, mas porque são inocentes. Essa inocência, por sua vez, torna-se um escudo identitário, a partir do qual postulam-se a verdade e a inatacabilidade. Afinal, todos conhecemos casos em que o questionamento da vítima é entendido como hostilidade a ela, quando não sua culpabilização. Lembremos de Cristo: "odiaram-me sem motivo", ou "odiaram-me gratuitamente" (João 15, 25).

Aqui é que se deve recordar que estamos num campo minado. Quando nossa disposição não é mais debater de frente, mas desconstruir o discurso alheio, tudo o que dizemos pode e será usado contra nós sem que ninguém leia nossos direitos. Toda advertência é necessária: criticar não é culpar, não é opor-se; criticar não é nem sequer uma posição intermediária entre a rejeição categórica e a aceitação incondicional, mas tentar compreender e aceitar o que pode haver de ambíguo.

Se esta resenha mantém o suspense e mantém um tom genérico, Giglioli não se exime de discutir casos concretos, e talvez venha a deixar desconfortáveis alguns leitores, que podem sentir-se indevidamente encurralados por um dilema: qual deve ser o mais potente, o espírito crítico ou a narrativa da vítima?

Para não deixarmos outra questão fundamental, ainda vale observar que a atividade crítica não pode fundar a estabilidade social. Em contraposição a ela, a narrativa da vítima torna-se… a opção conservadora.

Literatura argentina: vanguarda da vítima

Giglioli não parece estar interessado, ao menos não neste livro, nos casos latino-americanos. É pena. A obra considerada fundadora da literatura argentina é a biografia do caudilho Facundo Quiroga escrita por Domingo Faustino Sarmiento, que veio a ser presidente da Argentina ao final do século XIX. Sarmiento abre o texto sacando o super-trunfo retórico que é colocar-se na posição de vítima: conta que foi linchado por mazorqueros e por isso exilou-se no Chile, de onde passa a publicar em jornal um longo ataque ao presidente argentino Rosas: são os capítulos que, coligidos, formarão Facundo, ou Civilização e Barbárie. Em seguida, após descrições de usos e costumes, temos as narrativas das barbaridades cometidas por Facundo e por Rosas.

Claro que em nenhum momento se espera que o leitor simpatize com os violentos. Porém, se o liberal Sarmiento sabe criticar muito bem a tirania nas vertentes metódica (Rosas) e caótica (Facundo), narrar como ninguém as truculências que deram origem à Argentina, por que esse mesmo espírito crítico não poderia voltar-se para o narrador? É o próprio Sarmiento quem diz que a "barbárie" opõe-se à "civilização" num esquema de retribuições.

Produtividade

O ensaio de Giglioli, com toda sua densidade, descreve portanto uma série de paradoxos produtivos. No caso argentino, entre a narrativa da vítima e a percepção aguda da violência, produz-se uma literatura nacional. Se fazer a crítica da vítima certamente não é acusá-la, criticar também não é necessariamente resolver ou esgotar um problema. A visão de Girard tem a elegância das grandes soluções. Por outro lado, o exame de Giglioli nos leva de um olho do furacão a outro. Sendo possível conter os ânimos, valeria um grande debate, e não só do leitor consigo mesmo. Talvez até a pergunta seja: somos capazes de iniciar esse debate – e de sobreviver a ele?

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