Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

Category: Biblioteca René Girard (page 1 of 2)

Lançamento de Culturas Shakespearianas no Rio e em São Paulo

Não deixe de conferir a entrevista com João Cezar de Castro Rocha feita por nosso colaborador Cláudio Ribeiro!

Lançamento de Culturas Shakespearianas em Belo Horizonte

Lançamento de Culturas Shakespearianas

Uma Resenha de O Livro da Imitação e do Desejo

O Livro da Imitação e do Desejo

Vítor Hugo dos Reis Costa, email:victordafilosofia@gmail.com

É com a mais pura satisfação que encontramos estudos que apresentam, antes de nós e de maneira incomparavelmente melhor do que poderíamos fazer, nossas ideias, impressões e conclusões acerca daquilo que investigamos – sobretudo quando a investigação é realizada de forma tão apaixonada que faz simbiose com a própria vida.

Porém, quem conhece a prática da pesquisa acadêmica nas universidades — especificamente na área das humanidades, onde eventualmente as paixões são um ingrediente que condiciona e possibilita uma pesquisa autêntica — sabe que o sentimento de alegria diante da descoberta de uma obra que nos contempla e nos ultrapassa eventualmente vem acompanhado de uma discreta mancha de ciúme, de inveja, de rancor (isso na melhor das hipóteses). Porém, seja qual for o sentimento dessa constelação afetiva ressentida que acompanhe a apreciação de uma obra dessas características, será um sentimento agridoce: a beleza e a inteligência não raro adoçam, embelezam e redimem qualquer desejo de ser o autor de uma obra que, infelizmente, não é nossa.

Esse é meu sentimento diante de O Livro da Imitação e do Desejo, de Trevor Cribben Merrill.

O texto de Merrill, dividido em nove capítulos, é, segundo o que o próprio autor promete no subtítulo da obra, uma leitura de Milan Kundera com René Girard. Com e não por meio de. Ou seja: quem quer que folheie as páginas de O Livro da Imitação e do Desejo deve desistir de esperar uma vasta ou sistemática exposição do pensamento girardiano. Pelo contrário: deve, talvez, presumi-lo. Merrill, no máximo, nos oferece alguns delicados suportes textuais em que as ideias de Girard acerca da arte do romance podem ser vistas em suas simplicidade e profundidade. O livro, como o subtítulo promete, será um passeio pela vasta obra ficcional e ensaística de Milan Kundera com

René Girard – aliás, o autor da obra preferida de Kundera sobre a arte do romance: em Os Testamentos Traídos, Kundera faz essa afirmação, en passant, numa nota de rodapé, ao elogiar Mentira Romântica e Verdade Romanesca.

Qualquer apreciador da obra romanesca de Milan Kundera sabe que a bibliografia de estudos sobre Kundera disponível em língua portuguesa é escassa. Se o apreciador em questão, que é o meu caso, tem o interesse em eventuais relações entre a prosa de Kundera e o pensamento filosófico, a escassez se aproxima da nulidade. É impossível não saudar, portanto, a tradução da obra de Merrill para o português feita por Pedro Sette-Câmara e publicada pela É Realizações.

Sobre o livro, é difícil não notar: é a obra de um apaixonado que, como ele próprio confessa no texto, aprecia tanto os romances de Kundera que gostaria de tê-los escrito – e eu mesmo só gostaria de ser o autor do estudo de Merrill sobre Kundera porque também gostaria de ser e não sou o autor da obra de Kundera. É para mim difícil imaginar como seria minha vida sem as histórias do romancista tcheco.

Dividido em nove capítulos, o livro é um sobrevoo temático que põe em relevo alguns dos temas mais obsessivamente perseguidos pela pena de Kundera. Porém, como o próprio romancista tcheco sustenta em seus ensaios – A Arte do Romance, Os Testamentos Traídos, A Cortina, Um Encontro – a única missão de um romance é explorar a existência humana em suas estruturas e possibilidades. E embora uma afirmação desse teor talvez sugira que Kundera deveria escrever fenomenologia ou outra forma de reflexão filosófica, para o romancista tcheco é só no romance que as estruturas e possibilidades aparecem de forma concreta e singular, encarnadas em situações. Todavia, como Kundera, enquanto ensaísta, não se furta a comentar sua própria obra romanesca – bem como a dos clássicos consagrados pela tradição – Merrill lê Kundera com Girard mas também lê Kundera com Kundera.

O primeiro capítulo da obra já evidencia a sagacidade e a pretensão de Merrill em seu título: “As Mulheres Buscam Homens que Tiveram Belas Mulheres”. Quem conhece o pensamento de Girard já percebe pulsante o apelo à ideia do desejo mimético na formulação dessa frase e talvez pudesse atribuí-la ao próprio Girard se não soubesse, através de Merrill, que é um excerto de um conto de Kundera. Pinçando a frase do conto e a transformando em aforismo, Merrill sugere que Kundera é um moralista da linhagem de La Rochefoucauld – embora o próprio Kundera se defina como um “hedonista apanhado na armadilha de um mundo demasiadamente politizado”.

O livro segue perseguindo o desejo mimético, em suas condições, consequências e variações, pela extensão de toda obra romanesca de Kundera. Merrill trata da rivalidade que se segue da imitação entre as irmãs de A Imortalidade – romance preferido de Merrill, considerado por este a obra-prima de Kundera –; da transformação da admiração pelo mediador, razão da gênese da própria imitação, em inveja; da pequena “teoria do ressentimento” de Kundera, que acompanha sua reflexão acerca de uma palavra tcheca – litost – que o romancista considera intraduzível para outras línguas e indispensável para a compreensão da condição humana; da complexificação do triângulo mimético no par de casais que formam Tereza, Tomas, Sabina e Franz do famoso A insustentável leveza do ser, onde a leveza é sinônimo de força e o peso de fraqueza mas também de imitação; do kitsch estético, político e existencial que acompanha os regimes totalitários e impõe a imitação do modelo como regra de conduta em um mundo de imagens, slogans e uma verdadeira olimpíada mimética e exibicionista dos padrões de excelência comportamental.

Nos capítulos finais, Merrill deixa evidentes sua inspiração girardiana e sua paixão por Kundera. As considerações sobre a sabedoria específica da arte do romance e sobre o nascimento do romancista a partir de uma conversão – a saber, da saída de uma atitude lírica para uma atitude trágica – a partir da qual essa sabedoria do romance pode ser captada são considerações nas quais parece ser possível ver a comunhão das ideias de Girard e Kundera – e, evidentemente, do próprio Merrill. O romance não deve pretender moralizar, ensinar, edificar: ele deve ser comprometido com a exploração das verdades mais estruturais, fundamentais, transcendentais da condição humana, por mais desagradáveis que elas eventualmente sejam, por mais que atinjam frontalmente nossas vaidades. E as verdades da imitação e do desejo que Girard desbravara em Mentira Romântica e Verdade Romanesca podem ser observadas na paisagem romanesca da inteligência meditativa e do procedimento polifônico de Kundera. Se a mentira – romântica segundo Girard, lírica segundo Kundera – surge para amenizar a angústia ou saciar a vaidade, a verdade romanesca é aquela que surge detrás das cortinas atrás das quais escondemos o que não suportamos – como o caráter imitativo de todos os nossos desejos.

Poderíamos nos perguntar, então: estamos “condenados à imitação”, segundo Kundera e Girard, assim como o estamos à liberdade, segundo Sartre? Como entender a paz de Tomas ao final de A Insustentável leveza do Ser, ao abandonar seu destino? Ou a experiência quase-mística de uma solitária Agnes, em A Imortalidade, ao perceber (longe do marido, longe da irmã que a imitara a vida inteira, longe da terra natal, em um exílio talvez apenas tão libertador quanto aquele que o próprio Kundera experimentou ao se instalar na França) que é uma felicidade imensa se sentir destituída de seu ego – ou, pior, que a insustentável leveza de ser é a de ser um “eu”, e que ser um “eu” é sofrer? Seremos sempre miméticos? É nossa natureza? Parece que sim. Na teoria mimética, a liberdade consiste em ser capaz de assumir o mimetismo e escolher o seu modelo. Porque teremos um modelo de qualquer jeito. Ler Kundera e Girard com Merrill é explorar essas e outras questões que emergem da fecunda iluminação da arte do romance pelas luzes dos gênios de Kundera e Girard.

O livro ainda conta com uma resposta à Elif Batuman, escritora que atribuiu certos infortúnios pessoais à um eventual efeito pernicioso da obra de Girard no caráter de algumas pessoas. Também há um apêndice em que Merrill, num esforço de delicadeza, menciona o incontornável caráter de exilado de Milan Kundera, perpétua chave de leitura de não poucas obras acerca do escritor e da obra do escritor – chave de leitura a partir da qual se deduz, não raramente de modo reducionista, todo o gênio romanesco de Kundera de sua condição de exilado.

A edição brasileira conta também com notas sobre teoria mimética e literatura por parte de João Cézar de Castro Rocha e com um posfácio de Trevor Merrill com considerações sobre o desejo triangular num conto de Milan Kundera.

Um escândalo para toda a sociedade

Evolução e Conversão

Evolução e Conversão, pp. 108-110.

JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA E PIERPAOLO ANTONELLO: …poderíamos dizer que, assim como o desejo mimético não é uma invenção moderna, o mecanismo do bode expiatório é visível não apenas nos rituais primitivos ou sociedades arcaicas, mas também está presente no mundo moderno.

RENÉ GIRARD: É verdade. E para compreender como o mecanismo do bode expiatório funciona nas sociedades modernas, é necessário mais uma vez começar com o desejo mimético. O paradoxo do desejo mimético consiste no fato de parecer solidamente fixado em um objeto específico, quando, na verdade, é inteiramente oportunista. Quando tende a tornar-se oportunista, o desejo mimético orienta-se paradoxalmente por modelos substitutos, antagonistas substitutos. A era dos escândalos na qual vivemos corresponde a um deslocamento do desejo. Um grande skándalon coletivo equivale ao pequeno skándalon entre dois vizinhos multiplicado muitas vezes. Permitam-me insistir que, nos Evangelhos, skándalon significa rivalidade mimética, e, portanto, a ambição vazia, os ridículos antagonismos e ressentimentos recíprocos que todo mundo sente por todo mundo, pela simples razão de que nossos desejos às vezes são frustrados. Quando o skándalon em pequena escala se torna oportunista, tende a unir-se ao maior skándalon em curso, tranquilizando-se pelo fato de sua indignação ser partilhada por muitos. Nesse momento, a mímesis se torna “lateral”, em vez de voltar-se apenas para o vizinho, e isso é sinal de crise, de contágio crescente. O escândalo maior devora os menores, até restar um único escândalo, uma única vítima – assim funciona o mecanismo do bode expiatório. O ressentimento crescente que as pessoas sentem por causa do aumento da magnitude dos rivais miméticos desencadeia um ressentimento maior em direção a um elemento da sociedade, por exemplo os judeus durante o nazismo na Alemanha, o caso Dreyfus na França do final do século XIX, os imigrantes africanos na Europa contemporânea, os muçulmanos nos recentes atentados terroristas. Há um magnífico exemplo desse fenômeno em Júlio César, de Shakespeare: o recrutamento mimético dos conspiradores contra César1. Na peça, Ligário, um dos conspiradores, está muito doente, mas a ideia de matar César o restabelece, e seu ressentimento difuso se concentra. Ele esquece tudo, pois César passa a ser o alvo fixo de seu ódio. Que progresso! Infelizmente, nove entre dez políticos agem assim. O chamado espírito partidário não é nada além de escolher o bode expiatório que todos os demais. Porém, graças à revelação cristã da inocência fundamental daqueles vitimados como bodes expiatórios, e da arbitrariedade fundamental da acusação contra eles, essa polarização do ódio logo é revelada como aquilo que é, e a resolução unânime final não acontece. Como já falei do cristianismo, permita-me esclarecer rapidamente meu argumento a respeito da posição especial que ele ocupa na história do mecanismo mimético (ainda que a maioria dos meus leitores provavelmente já saiba disso).

Resumindo, antes do advento do judaísmo e do cristianismo, o mecanismo do bode expiatório era aceito e justificado porque permanecia despercebido. Ele trazia a paz de volta para a comunidade no apogeu da crise mimética caótica. Todas as religiões arcaicas baseavam seus rituais exatamente em torno da reprodução do assassinato fundador. Em outras palavras, elas consideravam o bode expiatório culpado da erupção da crise mimética. Por outro lado, o cristianismo, na figura de Jesus, denunciou o mecanismo do bode expiatório, mostrando o que ele verdadeiramente é: o assassinato de uma vítima inocente, morta para pacificar uma comunidade tumultuada. É nesse momento que o mecanismo mimético é totalmente revelado.

  1. Ver Júlio César, Ato II, Cena I. Ver igualmente René Girard, Shakespeare: Teatro da Inveja. Trad. Pedro Sette-Câmara. São Paulo, Editora é, 2010, p. 367-69. ↩︎

Só Dom Quixote quer ser Don Juan no século XX

O Livro da Imitação e do Desejo

O Livro da Imitação e do Desejo, de Trevor Cribben Merrill, um dos dois novos títulos da Biblioteca René Girard, da É Realizações, trata da obra de Milan Kundera. O livro é aquilo que um bom livro de crítica deve ser: acessível apenas por ser claro e bem escrito, não por buscar uma facilidade motivada pela condescendência, e esclarecedor porque nos leva a ver o mundo como Milan Kundera o enxerga. Gostar de literatura é gostar de obras que nos parecem relevantes porque explicam-nos para nós mesmos; uma parte importante da boa crítica ajudaria nesse trabalho, e faria com que lêssemos melhor aquilo que gostávamos ou que gostaríamos de ler.

Apesar das palavras gentis que Trevor me dirige no fim da entrevista, como tradutor, como interessado em René Girard, só posso dizer que, graças ao livro de Trevor, tornei-me também leitor de Milan Kundera.

1. No prefácio a To Double Business Bound (uma das poucas obras de René Girard ainda inéditas em português), René Girard fala da continuidade entre literatura e crítica e do potencial “quase teórico” da literatura. No prefácio de O Livro da Imitação e do Desejo, você fala da mesma coisa. Para alguém familiarizado com a teoria mimética de Girard, essa continuidade parece óbvia. Porém, como torná-la clara para alguém que vê a crítica como comentário a respeito de obras, ou, na melhor das hipóteses, como teoria que só lida com texto?

TREVOR: Em A Abadia de Northanger, Jane Austen descreveu a vergonha de uma moça que foi pega lendo um romance (e zombou dela). Mesmo ganhando prestígio no século XIX e no começo do século XX, o romance era percebido como gênero inferior, entranhado demais nos detalhes bagunçados da vida para ser verdadeiramente puro e autocontido, ao mesmo tempo em que não era objetivo o bastante para merecer o pomposo rótulo de “científico”. No entanto, Austen diz que um bom romance exibe “as mais poderosas faculdades da mente” e “o mais vasto conhecimento da natureza humana”. Assim, em vez de ficarmos envergonhados de gostar de romances, deveríamos vê-los como fontes de sabedoria e até de conhecimento antropológico. Como observou João Cezar de Castro Rocha, Girard tem sua própria “hermenêutica particular”. Como Austen, o pensador francês levou a literatura a sério, especialmente como meio de esclarecer os paradoxos das interações humanas. Seus ensaios sistematizam e agregam aquilo que os romancistas descreveram intuitivamente, isto é, o ir e vir do desejo assíncrono, as manobras da sedução e do coquetismo, a conjunção do amor e da rivalidade. Nesse sentido, eles podem ser vistos como continuação da literatura.

2. Aquilo de que mais gostei em seu livro é que ele está longe de ser uma mera “aplicação” das ideias de René Girard aos romances de Milan Kundera. Você realmente faz o leitor descobrir o desejo mimético como se fosse uma novidade, mesmo que esse leitor já tenha lido cinco vezes todos os livros de Girard. Imagino, porém, que você tenha lido Kundera primeiro. O que você achou quando descobriu uma obra de crítica que se conectava com os romances de Kundera?

TREVOR: Você tem razão! Eu era um grande admirador de Kundera antes de conhecer Girard. Na verdade, foi Kundera quem me levou a Girard. Em Os Testamentos Traídos, seu maravilhoso livro de ensaios, há uma nota de rodapé em que Kundera diz que Mentira Romântica e Verdade Romanesca é “o melhor livro que já li sobre a arte do romance”. Quando li essa nota de rodapé (na época eu estava em Paris), não perdi nem um minuto — vesti o casaco e fui direto para a livraria! Porém, levei algum tempo para perceber o quanto as ideias de Girard iluminavam os romances de Kundera. Talvez porque, na ficção de Kundera, assim como em nosso mundo contemporâneo, a obviedade do desejo mimético seja tão estonteante que ele acabe um pouco como aquela carta do conto de Edgar Allan Poe, que um ladrão esperto esconde à plena visão. O chefe de polícia usa muitos meios sofisticados para vasculhar o apartamento, chegando a espetar as almofadas do sofá e a desmontar todos os armários, mas nunca enxerga o documento que procura, que está bem no compartimento das cartas! Acho que eu era um pouco como esse chefe de polícia. Existe uma resistência a enxergar as operações do desejo mimético, especialmente, talvez, quando são reveladas de um jeito tão flagrante. Mas quando percebi que Kundera estava o tempo todo brincando explicitamente com o jeito como deixamos a influência dos outros transformar nossa percepção do mundo, tudo pareceu tão óbvio que fiquei com medo de que outra pessoa fosse perceber e publicar um livro sobre o mesmo assunto antes de mim!

A obra de Kundera fala desse medo mesmo (que todos os escritores têm), especialmente em suas maravilhosas meditações sobre a “grafomania” em O Livro do Riso e do Esquecimento. Dois açougueiros podem se dar bem, desde que suas lojas não fiquem na mesma rua. Agora, se os dois decidirem virar escritores… cuidado!

3. Em seu livro, você coloca Kundera no mesmo nível de Cervantes. Por que Cervantes? Por que não, por exemplo, Flaubert ou algum outro escritor?

Antes de tudo porque o crítico americano Harold Bloom escreveu que Kundera, como Cervantes, praticava o romance “autoconsciente”, o romance ciente de sua própria condição de literatura. Todavia, ele também disse que Kundera escreveu apenas obras de época que não sobreviveriam à época do comunismo na Tchecoslováquia. Assim, para Bloom, Cervantes é muito superior. O que ele não enxerga é a similaridade — os homens de Kundera, jovens e sinceros, que sonham tornar-se grandes Don Juans são Quixotes do erotismo. E os grandes Don Juans de sua ficção (como o mítico dr. Hável de Risíveis Amores, conhecido em toda a Boêmia por suas conquistas) são como versões vilipendiadas dos guerreiros da Idade Média. Assim como, na época do século de ouro espanhol, querer colocar uma armadura e ser um cavaleiro era algo deveras ridículo, quando veio a década de 1960 e as mulheres estavam (vou exagerar apenas para que fique claro) dispostas a ir para a cama sem preocupar-se com coisas como virtude, honra, e se seus irmãos iriam matar seu namorado, querer ser Don Juan era uma fantasia de outra época. Porém, no mundo de Kundera, todos querem ver-se como Don Juans… Nos anos 1980 e 1990, os universitários americanos, tendo conhecido A Insustentável Leveza do Ser graças à medíocre adaptação cinematográfica, entenderam equivocadamente os romances de Kundera, achando que eles eram manifestos em favor de um erotismo sofisticado. Na verdade, eles são análises engraçadas de um mundo sem tabus, cheio de vaidade e de equívocos, onde o hedonismo tornou-se um ideal impossível, e Don Juan não passa de uma sombra vazia de si próprio. Ao avaliar Kundera, Harold Bloom não enxergou nada do aspecto cervantesco de sua ficção.

4. Como tradutor, não posso deixar de perguntar sobre a multiplicidade de idiomas envolvidos em qualquer projeto ligado a Kundera. Você lê tcheco? Sabendo da fluência de Kundera em francês, podemos considerar as versões francesas de suas obras, revistas por ele, originais? Ao escrever seu lviro, você usou as traduções inglesas (minha tradução brasileira usou as traduções atualmente em catálogo pela Companhia das Letras). Você achou que alguma coisa se perdeu? Como eu mesmo já traduzi ficção — contos de Alice Munro, por exemplo — sei que pode ser difícil preservar a atmosfera do texto, mesmo que o sentido esteja correto.

TREVOR: Eu não conseguiria ler uma palavra de tcheco nem se a minha vida dependesse disso, mas fui apresentado aos romances de Kundera por uma expatriada tcheca chamada Karen von Kunes, que criticava a decisão de Kundera de abandonar seu idioma nativo e escrever em francês. Porém, se um autor declara, como fez Kundera, que uma certa edição de sua obra é a definitiva, não vejo motivo para não aceitarmos o que ele diz, a menos que tenhamos algum desejo perverso de limitar a autoridade do autor sobre suas próprias criações. Algumas décadas atrás, a ideia de que os textos fugiam ao controle dos autores era uma das teorias da moda (a “morte do autor”), mas, em nossa época, em que grassa a infração de direitos autorais, ela se tornou uma realidade assustadora. Mais do que nunca precisamos respeitar a propriedade moral do autor sobre o que escreve, seu direito de estabelecer os limites de sua obra. Nas traduções inglesas, aquelas feitas a partir do francês por Linda Asher, e naquelas que Kundera e seu editor americano, o falecido Aaron Asher, revisaram minuciosamente, pouco ou nada se perde em relação à edição francesa. Os leitores de língua inglesa de Kundera podem confiar que encontram a obra do autor exatamente como ele queria que fosse lida. Como tradutor literário de autores como Munro, você sabe, como diz, que é um desafio produzir uma tradução fiel. Ao mesmo tempo, você sabe que, se o tradutor tem talento e cuidado, pode oferecer aos leitores o presente de uma tradução fiel. Permita-me aproveitar a oportunidade para dizer que, na minha opinião, você fez isso com meu próprio livro — e sou muito grato!

(Publicado no blog O Estado da Arte em 24/09/2016)

Deus Ineffabilis, novo livro de Carlos Mendoza-Álvarez

Deus Ineffabilis

No XV Congresso da ABRALIC semana que vem (19 a 23 de setembro, na UERJ), teremos a presença de três autores da Biblioteca René Girard: William Johnsen (em sua segunda visita ao Brasil), Carlos Mendoza-Álvarez, e Trevor Cribben Merrill.

Carlos Mendoza-Álvarez lançará durante a ABRALIC seu segundo título da Biblioteca René Girard, Deus Ineffabilis — Uma Teologia Pós-Moderna da Revelação do Fim dos Tempos.

O objetivo desta obra é aprender a evocar Deus com esperança, no meio dos escombros da sociedade pós-moderna. A teologia fundamental da ideia de revelação proposta em Deus Ineffabilis responde às inquietudes dessa sociedade, que busca um habitat sustentável, onde todos possam caber.

Padre dominicano nascido no México, Mendoza-Álvarez graduou-se em Filosofia em seu país natal e doutorou-se em Teologia na França e Suíça. Procura articular a hermenêutica de Paul Ricoeur, a ética da alteridade de Emmanuel Levinas e a teoria mimética de René Girard, numa análise fina da condição pós-moderna.

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Book Trailer: Evolução e Conversão

Evolução e Conversão foi publicado primeiro no ano 2000 com o título de Um Longo Argumento do Princípio ao Fim. Quando a É Realizações o incorporou à Biblioteca René Girard, foram acrescentados os trechos (traduzidos por mim) que o aproximaram de seu primo americano, Evolution and Conversion.

O livro serve como uma biografia intelectual de René Girard, e também como uma densa introdução à sua obra. Graças às copiosas notas de rodapé, aliás, é possível seguir inúmeras pistas e assim recompor uma parte importante do panorama das humanidades do século XX. Mais do que isso, há realmente no livro a sensação de uma aventura intelectual, de uma ambição perseguida, de um balanço do que já tinha sido feito, inclusive com o levantamento dos problemas a resolver.

Anorexia e Desejo Mimético

Anorexia e Desejo Mimético

Um livro pequenino que serve como ótima introdução ao pensamento mimético, ao estilo da análise mimética, é Anorexia e Desejo Mimético. René Girard, Mark Anspach (cujos artigos já foram publicados neste blog, e cuja introdução ao volume Oedipus Unbound é primorosa), e Jean-Michel Oughourlian dão voltas em torno do tema da anorexia. Digo “dão voltas” porque o tema é analisado em si, mas também serve como eixo para analogias.

No prefácio, Oughourlian discute especificamente a anorexia do ponto de vista psicológico, enfatizando o que há nela de rivalidade:

Rivalidade com quem ou com quê? Antes de tudo, consigo mesma, com seu corpo, com suas necessidades, num esforço de dominação e de controle de si que seria, ao mesmo tempo, um desafio e uma forma de ascese. Mas também rivalidade com os outros, luta pelo poder: a anoréxica torna-se muito rapidamente o centro da atenção familiar, e seu prato torna-se uma espécie de circo romano onde se enfrentam os desejos rivais dos que a rodeiam – e que querem que ela coma – e seu próprio desejo, sua recusa, que deixa sem respirar toda a família envolvida nesse combate cotidiano que termina com o recurso ao “poder médico”, que manifestará a derrota e a renúncia de seus pais e o aparecimento de um adversário enfim à sua altura.

Em outra parte do livro, Girard mostra como a bulimia nervosa pode ser uma chave para interpretar a cultura contemporânea:

Certamente, tudo parece ultrapassado na medida em que nossa cultura pós-moderna renuncia ao princípio da novidade a qualquer preço, substituindo o fetichismo da inovação por um ecletismo caótico. Mas, longe de reabilitar a piedosa e paciente imitação dos clássicos, o pós-modernismo se assenhoreia insolente e indolentemente de tudo o que encontra no passado, sem seguir nenhum critério discernível e sem nos fornecer esses víveres nutritivos que nos faltam cruelmente. A nova escola nega implicitamente qualquer valor permanente ao passado de que extrai tudo. Ela regurgita rapidamente tudo o que ingurgita tão indiferentemente. Sou muito tentado a reduzir tudo isso ao equivalente estético não da anorexia desta vez, mas dessa síndrome da última moda, a bulimia nervosa. Tal como nossas princesas, nossos intelectuais e artistas estão alcançando o estágio bulímico da modernidade. (p. 71)

Imperdível também é o prefácio de João Cezar de Castro Rocha, organizador da coleção, que faz um paralelo com a noção de anorexia discutida no livro e… o famoso conto “O Cobrador”, de Rubem Fonseca!

Rematar Clausewitz: Book Trailer

Está excelente o book trailer de Rematar Clausewitz, livro fundamental para compreender a ligação entre o colapso da guerra como instituição e a ascensão do terrorismo.

O livro pode ser comprado aqui.

Lançamento: Mímesis e Invisibilização Social

Mímesis e Invisibilização Social

A Biblioteca René Girard conta com um novo lançamento: Mímesis e Inviabilização Social: A Interdividualidade Coletiva Latino-Americana. Traduzido por Simone Campos, o livro foi organizado por José Luiz Jobim, Mariana Méndez-Gallardo, e Carlos Mendoza-Álvarez, o qual já tem um título publicado na biblioteca: O Deus Escondido da Pós-Modernidade.

A Sinopse:

Este livro é fruto de reflexões e debates realizados por um grupo latino-americano interdisciplinar (Filosofia, Antropologia, Ciências da Religião, Letras etc.) de teoria mimética que coloca em questão a pertinência e a urgência de pensar o crescente fenômeno da violência social no mundo. Sua finalidade é elaborar critérios para a compreensão deste fenômeno e oferecer pistas para gerar e acompanhar novas práticas a partir das quais prevaleçam a justiça, a equidade, a democracia. Trata-se de formular narrativas da reconstituição do tecido social, retomando sabedorias populares que permitam a superação dos conflitos e a edificação de sociedades inclusivas em que os outros se tornem visíveis e reconhecíveis em sua dignidade e diferença.

Texto de Contracapa:

Mímesis e Invisibilização Social: A Interdividualidade Coletiva Latino-Americana leva adiante uma nova fase da Biblioteca René Girard, a vertente “Diálogos”. Seu principal objetivo é o de ampliar a recepção da teoria mimética, enriquecendo-a pela diferença da abordagem. Essa vertente aproxima autores que não são necessariamente girardianos, porém cujas preocupações guardam relevantes afinidades eletivas com o instigante pensamento de René Girard.

Assim: contrastes e confrontos: “Diálogos” — portanto.

Em outubro de 2014, no lançamento de ¿Culturas Shakepearianas? Teoría Mimética y América Latina, de João Cezar de Castro Rocha, a Universidad Iberoamericana, graças à iniciativa de Carlos Mendoza-Álvarez, promoveu o colóquio internacional “La Interdividualidad Colectiva: Sobre las Paradojas de la Invisibilización Social del Otro”, a fim de discutir o quadro teórico proposto pelo autor brasileiro, com ênfase no conceito de interdividualidade coletiva e invisibilidade fraca, contribuições propriamente latino-americanas ao pensamento girardiano.

O presente livro reúne as contribuições apresentadas naquele colóquio internacional.

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