Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

Category: Biblioteca René Girard (page 2 of 2)

Lançamento: Mímesis e Invisibilização Social

Mímesis e Invisibilização Social

A Biblioteca René Girard conta com um novo lançamento: Mímesis e Inviabilização Social: A Interdividualidade Coletiva Latino-Americana. Traduzido por Simone Campos, o livro foi organizado por José Luiz Jobim, Mariana Méndez-Gallardo, e Carlos Mendoza-Álvarez, o qual já tem um título publicado na biblioteca: O Deus Escondido da Pós-Modernidade.

A Sinopse:

Este livro é fruto de reflexões e debates realizados por um grupo latino-americano interdisciplinar (Filosofia, Antropologia, Ciências da Religião, Letras etc.) de teoria mimética que coloca em questão a pertinência e a urgência de pensar o crescente fenômeno da violência social no mundo. Sua finalidade é elaborar critérios para a compreensão deste fenômeno e oferecer pistas para gerar e acompanhar novas práticas a partir das quais prevaleçam a justiça, a equidade, a democracia. Trata-se de formular narrativas da reconstituição do tecido social, retomando sabedorias populares que permitam a superação dos conflitos e a edificação de sociedades inclusivas em que os outros se tornem visíveis e reconhecíveis em sua dignidade e diferença.

Texto de Contracapa:

Mímesis e Invisibilização Social: A Interdividualidade Coletiva Latino-Americana leva adiante uma nova fase da Biblioteca René Girard, a vertente “Diálogos”. Seu principal objetivo é o de ampliar a recepção da teoria mimética, enriquecendo-a pela diferença da abordagem. Essa vertente aproxima autores que não são necessariamente girardianos, porém cujas preocupações guardam relevantes afinidades eletivas com o instigante pensamento de René Girard.

Assim: contrastes e confrontos: “Diálogos” — portanto.

Em outubro de 2014, no lançamento de ¿Culturas Shakepearianas? Teoría Mimética y América Latina, de João Cezar de Castro Rocha, a Universidad Iberoamericana, graças à iniciativa de Carlos Mendoza-Álvarez, promoveu o colóquio internacional “La Interdividualidad Colectiva: Sobre las Paradojas de la Invisibilización Social del Otro”, a fim de discutir o quadro teórico proposto pelo autor brasileiro, com ênfase no conceito de interdividualidade coletiva e invisibilidade fraca, contribuições propriamente latino-americanas ao pensamento girardiano.

O presente livro reúne as contribuições apresentadas naquele colóquio internacional.

Além do Desejo, de Daniel Lance

Além do Desejo

Além do Desejo

Além do Desejo, de Daniel Lance, um dos últimos lançamentos da Biblioteca René Girard, é de fato um livro instigante. Como diz o próprio René Girard na contracapa, “Este ensaio contém muitas intuições extraordinárias. Algumas que reconheço, outras que eu desconhecia; estas me parecem ainda mais interessantes que aquelas.”

Com uma recomendação dessas em mente, demos uma olhada no livro.

Lance — que pude conhecer no Seminário Internacional René Girard em São Paulo, há alguns anos — inicia o livro examinando três dramaturgos: Paul Claudel, Jean Genet e Tennessee Williams. Se a ligação entre Genet e Williams talvez não surpreenda, a associação dos dois, especialmente Genet, com Paul Claudel, é bastante surpreendente (e o próprio Claudel ficaria bastante surpreso, com certeza). Claudel é um dos autores mais assumidamente católicos do século XX; Jean Genet, chamado às vezes de Saint (“São”) Genet, é praticamente associado a uma postura satânica. Contudo, essa associação pode mostrar que a intuição dos mecanismos do desejo é a mesma, independentemente da atitude do artista. Não se trata, é claro, de separar o homem de sua arte (creio que nem Claudel, nem Genet aceitariam essa dissociação), mas de entender que há respostas diferentes.

Lance reproduz em pequena escala a estrutura da obra do próprio Girard, isso é, passa do estudo da arte para a antropologia, sempre orientado pela intuição girardiana fundamental de que o desejo pode orientar-se para qualquer objeto, dependendo apenas do modelo. Por isso, não faria sentido em falar em identidades sexuais que existiriam a priori. Teoricamente, o desejo de qualquer sujeito pode voltar-se para qualquer objeto, bastando apenas que mudem o modelo e as condições. Assim, Daniel Lance examina modalidades hetero- e homossexuais de rivalidade e de aprendizado, passando da sociedade ocidental moderna a sociedades antigas e a certas tribos nas quais existem modalidades institucionalizadas de homossexualismo.

Como destaca em seu prefácio o professor João Cezar de Castro Rocha, Lance dá uma espécie de “passo atrás” no desejo mimético, distinguindo o desejo “metafísico”, ou desejo pelo ser do outro, do desejo sexual — distinção essa que é claramente funcional, podendo, na prática, os dois desejos estarem perfeitamente associados. Lance, porém, declara interessar-se pelo aspecto sexual, o que o leva a fazer distinções que, por sua vez, parecem pautadas pelo critério metafísico:: uma das grandes ênfases do livro está na distinção entre sexualidade movida pela rivalidade (e em Coisas Ocultas desde a Fundação do Mundo é esse tipo que aparece) e sexualidade movida pelo aprendizado, isso é, sexualidade sem rivalidade, justamente porque os papéis sexuais estão perfeitamente diferenciados.

Vale ainda observar que, mesmo que Lance enfatize o aspecto “sexual”, como há um aspecto “metafísico” do desejo, isso é, um desejo pelo ser do outro, a sexualidade pelo aprendizado, presente por exemplo em sociedades guerreiras ou em ritos de iniciação de caçadores, parte do pressuposto de que o ser do homem mais velho é desejável e estabelece canais institucionais de transferência desse ser aos mais novos. Lance, é claro, não deixa de observar o aspecto de double bind que existe nas posições ativa e passiva dessa relação.

Se existe hoje em nossa cultura moderna uma certa guerra de identidades sexuais, o livro de Lance vem mostrar que a questão pode ser infinitamente mais complexa. Lance propõe um esquema, um continuum de sexualidades, e ao final afirma que podem haver tantas “sexualidades” quanto indivíduos, o que quer dizer que o desejo pode organizar-se de miríades de maneiras diferentes, com triangulações de tipo sujeito-modelo-objeto sobre triangulações. E, se há uma questão normativa, ética, para Lance, ela consiste fundamentalmente em tratar o outro sempre como um sujeito, e não como mero objeto.

Espertos como serpentes

Espertos como Serpentes

Espertos como Serpentes

Quando se tem contato com a teoria girardiana pela primeira vez, começamos a enxergá-la por toda parte. Daí a fazer uma observação rigorosa a distância é muito grande. Aliás, é a distância que vai de uma impressão subjetiva à formulação de uma hipótese e a seu teste subsequente contra um corpus determinado, com o rigor e as ressalvas permitidas por uma investigação que não é realizada em laboratório.

Mesmo assim, nada impede que continuemos a enxergar o mimetismo e processos vitimários. O livro Espertos como Serpentes, de Jim Grote e John McGeeney, encontra-se numa posição particular: não é um livro teórico, mas prático; ele pressupõe a teoria mimética e pretende refinar nossa visão de situações do mundo corporativo descrevendo-as em termos girardianos. Por isso, este recente lançamento da Biblioteca René Girard tem algo de sui generis, ao menos dentro da coleção.

O estilo do próprio René Girard é, quase sempre, acadêmico, mas sem qualquer academicismo; seus livros são claros e, em muitos momentos, até mesmo eletrizantes. Outros livros da coleção, de inspiração girardiana, não perdem a clareza mas podem ter trechos mais áridos, em que a fluência da leitura de fato depende de prestar muita atenção a um argumento. Essa característica, é claro, não depõe contra um texto acadêmico.

Espertos como Serpentes certamente não é um livro acadêmico, e certamente não é um livro árido. Nem por isso é um livro com poucas informações. Organizado em verbetes de tamanho muito variável, o livro traz miríades de exemplos do mundo da administração, dos inevitáveis e tradicionais Peter Drucker e Lee Iacocca a exemplos de Bill Gates e da incontornável tirinha do Dilbert. Por isso, trata-se de um livro que pode servir a um estudante universitário, mas que, apesar de a bibliografia conter algumas dezenas de itens, também pode ser levado para a praia ou para a piscina. (E aqui falo como alguém que, apesar de trabalhar em casa há bastante tempo, também passou alguns anos no mundo corporativo.)

Assim, o livro de Grote e McGeeney ajuda a formular em termos miméticos as impressões que podemos ter no ambiente de trabalho e no estudo da competição e do mercado. Não se trata, porém, do ponto de vista de filósofos profissionais ou de professores, mas de duas pessoas que vivem no próprio mundo corporativo.

Mito e teoria mimética, de Richard Golsan

Mito e teoria mimética

Acaba de ser publicado pela É Realizações Mito e teoria mimética, de Richard Golsan. Escrito em 1993, o livro é uma introdução ao pensamento de René Girard tal como apresentado até a época — depois viriam mudanças importantes, como salienta no prefácio (p. 19) o professor João Cezar de Castro Rocha, coordenador da Biblioteca René Girard. O livro foi escrito para a série “Theorists of Myth”, como explica em nota (p. 23) o tradutor Hugo Langone.

Essas mudanças importantes merecem um post à parte, por isso vamos deixá-las para depois. Por ora salientemos que o texto realiza muito bem aquilo que pretende realizar, oferecendo um resumo da teoria. A primeira parte é dedicada à teoria do desejo mimético e apresenta em itens as abordagens girardianas de pontos como o complexo de Édipo, o narcisismo, o sadismo e o masoquismo etc. desde a perspectiva mimética. No segundo, dedicado ao tema do bode expiatório, também a partir de itens, seguimos um itinerário que vai da análise antropológica do bode expiatório à análise literária, passando por autores como Sófocles, Shakespeare e Céline, passando em seguida aos comentários girardianos de textos bíblicos. Talvez seja justo dizer que o mero fichamento do livro de Golsan resultaria num índice pessoal da obra girardiana produzida até a época.

Vale ainda destacar outros dois capítulos.

O primeiro (o quarto do livro) é a entrevista de Golsan com Girard. Em quase 30 páginas de (p. 179–205), René Girard responde as acusações de ser um apologista disfarçado do cristianismo (sem jamais ocultar que é católico romano) e afirma sua admiração por Virginia Woolf. Para Girard, seu romance As Ondas, “a exemplo de Em Busca do Tempo Perdido, e, de maneira distinta, também, de Ulisses, As Ondas são o romance definitivo e supremo, um romance que põe fim ao gênero do romance (…).”

(Não me parece descabido observar que o romance de Proust tem milhares de páginas e se estende por sete volumes, e o de Joyce, ainda que não tão grande, é mesmo assim monumental; já a edição da Wordsworth Classics para o original de As Ondas tem apenas 192 páginas, e o romance, há poucos anos em domínio público, foi traduzido no Brasil por Lya Luft.)

O segundo (o quinto do livro) é a apresentação das posições de nove críticos de René Girard ao longo de quatorze páginas (p. 157–171). Ei-los, com as respectivas objeções que fizeram-lhe:

  • Hayden White rejeita sua crítica da modernidade;
  • Sarah Kofman critica sua abordagem do narcisismo;
  • Toril Moi ataca sua concepção “orgulhosa, patriarcal e monolítica” do desejo;
  • Robert Greer Cohn considera que Girard esquematiza excessivamente o desejo;
  • Françoise Meltzer acha que Girard é capaz de distorcer qualquer texto para adaptá-lo a suas teorias;
  • Elizabeth Traube afima que o sistema interpretativo de Girard comprometeria evidências antropológicas obtidas diretamente;
  • James Williams considera que a teoria mimética não sobrevive ao critério de falseabilidade de Karl Popper;
  • Richard Kearney pondera que o mito passa a ser um bode expiatório;
  • Burton Mack, biblicista, diz que “a academia não precisa dos Evangelhos;
  • por fim, Lucien Scubla questiona a desvalorização do sacrifício como atributo distintivo do cristianismo.

    Imediatamente depois, capítulo ainda dedica quatro páginas ao trabalho de girardianos (p. 171–175).

    Estão disponíveis para leitura o prefácio completo de João Cezar de Castro Rocha, a introdução e parte do primeiro capítulo.

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