Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

Category: Terrorismo

René Girard: “Eu teria curiosidade de ter a sua idade…”

Publicada originalmente em Contrepoints.

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Imenso pensador francês, René Girard faleceu na quarta, 4 de novembro de 2015, em Stanford. Foi nesse mesmo campus que ele recebeu Pierre Farge para uma entrevista inédita em 2008. À época estudante nos Estados Unidos, Pierre Farge tomou notas, para si próprio, para reviver esse momento anos depois. Hoje advogado, envolvido no mundo da arte e da cultura, ele percebe a originalidade póstuma de seu conteúdo. Abordando as grandes linhas da obra do imortal, entre as mais importantes do século XX, a atualidade americana do começo da crise financeira, e sua confiança no futuro, esta entrevista transmite assim às gerações futuras a luz do empenho de uma vida.

PIERRE FARGE: O senhor se define de bom grado como “apocalíptico”: “compreender o mundo é compreender a ameaça, a atmosfera apocalíptica”, diz o senhor. Porém, para um cristão, o Apocalipse é outra coisa, é a realização da Boa Nova, a Revelação, o advento do Reino de Deus. O senhor não deveria então estar contente por fazer parte do mundo em que está?

RENÉ GIRARD: O senhor tem razão. Esse texto é muito mais contemporâneo do que se pensa. A atmosfera é cada vez mais apocalíptica: a globalização leva ao triunfo do desejo mimético, causa de rivalidade, de caos e de conflito, portanto de violência.

O senhor poderia ser mais explícito?

Para começar, a violência está ganhando porque a tecnologia, que era monopólio do Ocidente, se espalha, segundo o mecanismo do desejo mimético. Cada qual quer a mesma coisa que seu vizinho.

Assistimos a uma proliferação nuclear, como digo, a uma escalada para os extremos. Os países querem possuir a bomba nuclear, não para a dissuasão, como durante a Guerra Fria, mas para realmente servir-se dela. A bipolarização da época não está mais estabelecida para durar de maneira permanente. É isso que chamo de rivalidade mimética em escala planetária. Outro exemplo da atmosfera apocalíptica é o do 11 de setembro: pela primeira vez, os homens utilizam a tecnologia contra si.

Esses exemplos são a prova de que o homem pela primeira vez na história da humanidade a possibilidade da autodestruição, do Apocalipse, não é mesmo?

…Mas, no fim das contas, Jesus não dizia: “batei e será aberto?”

É um modo de ver.

O senhor decodificou os mecanismos fundadores da violência. Como explicar a escalada acelerada para os extremos desde o século XX?

Pela globalização, que acentua o desejo mimético; e pelo declínio do cristianismo, que o acentua mais ainda. O desejo mimético é denunciado diversas vezes na Bíblia. O Gênesis é uma sequência desses exemplos:

  • A história de Adão é Eva é uma cadeia mimética evidente.
  • Igualmente, a inveja no assassinato de Abel; Caim é fundador, pois, imediatamente depois, a lei contra o assassinato é criada: “aquele que mata será punido sete vezes”. Essa lei representa a fundação da cultura, a pena capital, o assassinato original se repete: todos tomam parte nele e ninguém é responsável.
  • Enfim, o último mandamento do Decálogo: “não cobiçarás a casa do teu próximo, a mulher do teu próximo, nem sua serva, seu boi, seu jumento…” O mandamento enumera todos os objetos que não devem ser desejados, mas para porque é impossível enumerá-los todos. Para não omitir nada, basta nomear o denominador comum: o próximo.
  • Assim, o desejo mimético é proibido. Jesus recomenda que imitemos ele e não o próximo para evitar as rivalidades miméticas, única fonte da violência.

Paralelamente, o declínio da religião favorece a violência. Como já disse, as relações humanas são necessariamente concorrenciais. Assim, só a religião, com seus meios sacrificiais, faz com que a sociedade aguente o tranco, apaziguando-a.

Toda religião é de fato fundada num bode expiatório. As religiões arcaicas, as guerras astecas por exemplo, eram feitas para obter prisioneiros, e dispunham de vítimas sacrificiais. É o cristianismo que vai denunciar pela primeira vez esse mecanismo, pois antes de “Jesus, bode expiatório por livre e espontânea vontade” (vítima inocente que aceita ser sacrificada), a guerra é indispensável para a manutenção de relações estáveis no seio da sociedade. O bode expiatório é sacralizado, pois reconciliou a sociedade, mas só funciona se não for compreendido, se não for teorizado, como é hoje. O cristianismo é portanto tudo e seu contrário ao mesmo tempo.

Assim, para você, a Boa Nova, para sair dessa escalada para o fim, é que nos basta retornar à mensagem da Bíblia, a qual nos propõe escolher entre o Desejo, que só leva à violência, e o Amor. Segundo o senhor, somente um Deus pode salvar. E, para isso, basta crer — algo de simplicidade bíblica. Porém, o que dizer àqueles que perderam a fé? Há alternativa? Complicado, não?

Eu não teria como responder. Foi por meio do meu trabalho que cheguei à verdade do cristianismo; pela oposição fundamental entre os textos bíblicos, o Cristo que denuncia pela primeira vez o mecanismo do bode expiatório, a origem sacrificial do mundo, e os mitos, que a confirmam. Trata-se de uma conversão mais intelectual do que espiritual.

A última frase de Rematar Clausewitz soa como sua divisa: “É preciso despertar as consciências adormecidas. Querer confortar é sempre contribuir para o pior.” O que responder a seus detratores, que censuram-no por uma ausência total de prova em seu raciocínio, de qualquer referência científica?

A verdade do texto bíblico não é uma questão de referencialidade / não-referencialidade. A Bíblia não precisa ser referencial para ser verdadeira. Ela é verdadeira na medida em que é a negação dos mitos que são, pelo contrário, mentiras, porque sempre confirmam, como falei, o mecanismo do bode expiatório, a violência. A Verdade da Bíblia está ilustrada na história de José, que vai contra esse espírito mítico, fonte de mentira e de traição. José é sempre salvo e nunca morto. Veja principalmente o tema do perdão concedido àqueles que apontaram um bode expiatório. Veja também que Cristo é uma vítima que consente. Isso ilustra bem o fim da ordem sacrificial, a denúncia do sistema emissário.

É essa a chave do seu raciocínio?

Dediquei minha carreira à relação entre a violência e o sagrado, e espero ter transformado a religião arcaica num enigma decifrável. Quanto à religião bíblica, o cristianismo opera uma revolução única na história universal da humanidade. Ao suprimir o papel do bode expiatório, ao salvar os apedrejados, ao proclamar o valor da inocência e do perdão, a fé cristã priva bruscamente as sociedades antigas de suas vítimas sacrificiais habituais. O mal não é mais expulso ao ser lançado sobre um culpado apontado, cuja morte só obtém uma falsa paz. Pelo contrário, tomamos o partido da vítima ao recusar a vingança, ao aceitar o perdão das ofensas. O que supõe que cada qual vigie o outro no que diz respeito a esses princípios fundamentais, e que cada qual vigie a si próprio. Contudo, no primeiro momento, a desordem é grande.

Retornemos a seu último livro. Segundo Clausewitz, “a guerra é apenas uma continuação da política por outros meios”. Hoje a guerra não tem mais o mesmo significado que na época do militar prussiano: o terrorismo nasce após o 11 de setembro, do qual o senhor falava há pouco. As ideias de Clausewitz não estão portanto ultrapassadas?

De fato, o World Trade Center marca uma mudança de época.

Passamos da era das guerras internacionais para a era do terrorismo. As primeiras eram decididas, e de certa maneira controladas, pela política, e o segundo escapa totalmente à política. Daí vem essa inevitável escalada para os extremos. Assistimos impotentes à explosão da violência pelo terrorismo. Para voltar ao mimetismo, os kamikazes do 11 de setembro, por sua eficiência, por seu conhecimento dos Estados Unidos, por suas condições de treinamento, eram um pouco americanos…

Para resumir, sem cristianismo temos o apocalipse, porque não existe mais a possibilidade de recurso à muleta sacrificial?

O princípio apocalíptico é exatamente esse. Como não há possibilidade ao menor recurso, há violência. Um cristão que vive sua religião sente isso. Assim, mesmo que ele se engane, ele sempre considera o fim bem próximo, e a experiência torna-se apocalíptica.

Você sabe o que está acontecendo no Congresso nesses últimos dias: os republicanos recusam-se a conceder a Henry Paulson o plano de salvamento dos bancos, recomprando até 700 bilhões de ativos tóxicos americanos. Se isso não é apocalíptico…

O senhor disse que gostaria muito de ser jovem hoje. Qual o conselho que me daria?

Eu teria curiosidade de ter a sua idade e de ter essa consciência do futuro. Você tem sorte, não é mesmo?

René Girard, da literatura ao terrorismo

Publicado originalmente na Gazeta do Povo

Em 4 de novembro último, nove dias antes dos atentados terroristas em Paris, faleceu na Califórnia o teórico francês René Girard, cujo último livro, Rematar Clausewitz, é uma longa meditação sobre o fim da guerra institucionalizada e sobre a nova era da violência política, que hoje pode irromper a qualquer momento, em qualquer situação — e não apenas no campo de batalha. Girard pensa em termos antropológicos, numa escala de milênios, mas, para nos restringirmos à época do general prussiano Carl von Clausewitz — aquele que é lembrado por ter dito que a “a guerra é uma continuação da política por outros meios” e que aparece no título do livro citado — é a Revolução Francesa que primeiro militariza toda a sociedade, decretando o alistamento militar obrigatório. Da reação espanhola aos enormes exércitos de Napoleão nasce a guerrilha. As guerras mundiais do século XX levam o processo adiante com ataques maciços a alvos civis. Entre estes, o terrorismo e as investidas de drones a diferença não é de natureza.

Todavia, seríamos profundamente infiéis a Girard caso o tratássemos como um teórico do “quem começou”, nem que seja porque, no próprio Rematar Clausewitz, ele observa que ninguém considera estar simplesmente agredindo outro, mas sempre reagindo a uma agressão — nem que seja uma agressão potencial que pede uma ação preemptiva. Essa intuição, que sugere que estamos fazendo como o outro antes que ele faça o que fará, nos leva ao cerne do desejo mimético, a primeira de suas duas teorias, exposta originalmente (ainda com o nome de “desejo triangular”) em Mentira Romântica e Verdade Romanesca (1961), dedicada à crítica literária. Nela, Girard propõe que o desejo não existe numa relação direta entre sujeito e objeto, mas que essa relação é sempre mediada por um terceiro. Dom Quixote deseja realizar proezas para ser como Amadis de Gaula. Emma Bovary deseja ter aventuras amorosas para ser como as heroínas dos livros que lê. Nós compramos cacarecos, fazemos viagens, na mesma esperança de que nossa vida seja tão especial quanto aquelas que vemos nos outros. Porém, também podemos ser disciplinados, piedosos, honestos, generosos, para honrar um modelo que se impõe a nós: um parente, um professor, um grande filósofo, o próprio Cristo. Na síntese do crítico João Cezar de Castro Rocha, que com René Girard e Pierpaolo Antonello escreveu o livro Evolução e Conversão (2000), a contribuição da teoria mimética é mostrar a centralidade do outro na formação do eu.

A segunda grande teoria de Girard, a do bode expiatório, diz respeito à maneira como a violência ritualizada em torno de uma vítima inocente dá origem à cultura — por isso seu segundo livro chama-se A Violência e o Sagrado (1972). Para Girard, a contribuição antropológica do judaísmo e do cristianismo consiste em ter revelado a inocência das vítimas, impedindo essa ritualização. O detalhe é que a ritualização servia de amálgama social por canalizar as violências contra uma única vítima e criar uma válvula de escape. Sem poder recorrer a bodes expiatórios, enxergamos a violência que há em nós mesmos — e, voltando a Paris, é por isso que vemos um Ocidente tão assolado pelas próprias culpas, e tão perplexo diante dos elementos arcaicos que o assediam.

René Girard discute o terrorismo

Rematar Clausewitz

Rematar Clausewitz

Cinthia Haven, em seu blog, já havia destacado, por ocasião dos atentados ao Charlie Hebdo em janeiro, um trecho de Rematar Clausewitz, publicado em 2007 na França por René Girard. Com os atentados de sexta em Paris, reproduzimos o mesmo trecho, sem no entanto fazer os cortes feitos por ela.

Além disso, vale a pena observar que, aqui no blog, já reproduzimos textos de Mark Anspach que de certo modo iniciam os esforços sugeridos por Girard no trecho abaixo:

  1. O 11 de setembro e o mito do martírio
  2. Para compreender Breivik

A tradução de Rematar Clausewitz foi uma dos momentos de maior intensidade intelectual da minha vida. Trata-se de um livro indispensável para começarmos a formar categorias para compreender a nova era de violência planetária.

Trecho de Rematar Clausewitz

Não vi nenhum livro sobre Atta [Nota de PSC: ver o primeiro artigo de Mark Anspach relacionado acima], o chefe do grupo de 11 de setembro, que pilotou um dos dois aviões. Ele era filho de um burguês egípcio. É estarrecedor pensar que ele passou as três noites anteriores ao atentado em bares com seus cúmplices. Há um lado misterioso e interessante nesse fenômeno. Quem aborda o problema da alma desses homens, daquilo que eles são, de suas motivações? O que o islã significa para eles? Qual o sentido de matar-se por essa causa? O número crescente de atentados no Iraque é impressionante. Acho estranho que haja tão pouco interesse por esses fenômenos que dominam o mundo, assim como a Guerra Fria dominava anteriormente. Ninguém teria imaginado, após a queda do Muro de Berlim, que estaríamos aqui, quase vinte anos depois. Isso abala nossa visão da história, tal como foi escrita a partir das revoluções americana e francesa, e que não leva em conta o fato de que o Ocidente inteiro foi desafiado e ameaçado por isso. Somos obrigados a dizer “isso” porque não sabemos o que isso é. A revolução islâmica foi reativada com atentados a duas embaixadas na África, durante o governo de Bill Clinton. Procuramos bastante, mas não achamos nada. Também não sabemos nem se Bin Laden é uma pessoa real. Será que as pessoas imaginam em que história entraram e de que história saíram? Não tenho muito o que dizer a partir daqui, porque essa realidade é desconhecida demais, e nossa reflexão aqui atinge seus limites.

Sinto-me, diante disso, um pouco como Hölderlin diante do abismo que o separava da Revolução Francesa. Mesmo no fim do século XIX, ainda havia a percepção de que alguma coisa extraordinária estava acontecendo. Estamos assistindo a uma nova etapa da escalada para os extremos. Os terroristas deixaram claro que têm todo o tempo do mundo, que sua noção de tempo não é a mesma que a nossa. Esse é um sinal claro do retorno da religião arcaica: um retorno aos séculos VII, VIII e IX, o que em si mesmo é significativo. Mas quem se ocupa dessa importância, quem toma sua medida? Será esse um trabalho para o Ministério das Relações Exteriores? É preciso estar atento a muitas coisas imprevistas no futuro. Assistiremos a coisas que certamente serão piores. As pessoas não vão mais continuar surdas.

No momento do 11 de setembro, houve um abalo, mas rapidamente a paz voltou a reinar. Houve um clarão de consciência, que durou algumas frações de segundo: percebemos que alguma coisa estava acontecendo. E um manto de silêncio veio nos proteger contra essa rachadura introduzida em nossa certeza de segurança. O racionalismo ocidental funciona como um mito: sempre fazemos um esforço maior para não ver a catástrofe. Não conseguimos nem queremos ver a violência tal como ela é. Contudo, só conseguiremos responder ao desafio terrorista mudando radicalmente nosso modo de pensar. Mas quanto mais os acontecimentos se impõem a nós, mais a recusa de tomar consciência deles se reforça. Essa configuração histórica é tão nova que não sabemos por onde começar a examiná-la. Ela é certamente uma modalidade daquilo que Pascal percebeu: da guerra da violência contra a verdade. Pensemos na pobreza daquelas vanguardas que pregavam a inexistência do real!

É preciso que entremos numa maneira de enxergar o tempo em que a batalha de Poitiers e as Cruzadas estão muito mais próximas de nós do que a Revolução Francesa e a industrialização do Segundo Império. Os pontos de vista dos países ocidentais constituem para os islamistas um detalhe sem importância. Eles pensam o mundo ocidental como algo que deve ser islamizado o mais rápido possível. Os analistas tendem a dizer que essas são minorias isoladas, muito alheias à realidade de seu país. No plano da ação certamente, mas e no plano das ideias? Não haveria aí, apesar de tudo, alguma coisa essencialmente islâmica? É preciso ter coragem de fazer essa pergunta, ainda que não se dispute que o terrorismo é um fato brutal que deturpa em seu próprio interesse os códigos religiosos. Ele não teria, porém, adquirido uma eficácia tão grande nas consciências se não tivesse atualizado alguma coisa desde sempre presente no islã. Este último, para grande surpresa dos republicanos leigos, ainda é muito vivo no plano do pensamento religioso. É inegável que hoje reencontramos certas teses de Maomé.

Assim, é preciso mudar radicalmente nossas maneiras de pensar, e tentar compreender sem preconceitos esse acontecimento com todos os recursos que a islamologia pode nos oferecer. A tarefa precisa ser realizada, e é imensa. Pessoalmente, tenho a impressão de que essa religião apoiou-se na Bíblia para recriar uma religião arcaica mais

forte do que todas as outras. Ela ameaça tornar-se um instrumento apocalíptico, o novo rosto da escalada para os extremos. Como agora não existe mais religião arcaica, é como se tivesse surgido uma outra, construída sobre a Bíblia, de uma Bíblia um pouco alterada. Seria uma religião arcaica reforçada por contribuições da Bíblia e do cristianismo, porque a religião arcaica evaporou diante da revelação judaico-cristã. Como o cristianismo acaba com o sacrifício onde quer que chegue, o islã parece sob muitos aspectos situar-se antes dessa expulsão.

É verdade que em sua atitude há ressentimento em relação à tradição judaico-cristã e ao Ocidente. Mas trata-se também de uma religião nova, isso é inegável. A tarefa que cabe aos historiadores das religiões, e até aos antropólogos, será mostrar como e por que ela surgiu. Porque em certos aspectos dessa religião há uma relação com a violência que não compreendemos e que por isso mesmo é mais inquietante. Para nós, estar disposto a pagar com a vida pelo prazer de ver o outro morrer não quer dizer nada. Não sabemos se esses fenômenos se relacionam ou não a alguma psicologia particular. Nossa incapacidade é total, não conseguimos falar disso, e também não podemos documentar o que acontece, porque o terrorismo é uma situação inédita que se vale dos códigos islâmicos, mas que não tem nada a ver com o islã clássico. O terrorismo atual é novo, até de um ponto de vista islâmico. Ele é um esforço moderno para contrapor-se ao instrumento mais poderoso e mais sofisticado do mundo ocidental: sua tecnologia. Ele faz isso de um jeito que não entendemos, e que talvez o islã clássico também não entenda.

Não basta, assim, condenar os atentados. O pensamento defensivo que opomos a esse fenômeno não é necessariamente um desejo de compreensão. Muitas vezes, ela é um desejo de incompreensão, ou vontade de conforto. Clausewitz é mais fácil de integrar a um desenvolvimento histórico. Ele nos fornece um instrumental intelectual para compreender a escalada da violência. Mas onde encontramos essas ideias no islamismo? O ressentimento moderno, de fato, nunca chega ao suicídio. Não temos, portanto, as cadeias analógicas que nos permitiriam entendê-lo. Não digo que elas não sejam possíveis, que elas não vão aparecer, mas confesso minha incapacidade de apreendê-las. É por isso que as explicações que damos muitas vezes não passam de propaganda enganosa contra os muçulmanos.

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