por Christiano Galvão

Entre os anos de 1974 e 1976, uma equipe de etólogos comandada por Jane Goodall registrou uma série de confrontos violentos, ocorridos entre dois clãs de chimpanzés selvagens africanos, que poriam em cheque muito do que até então se supunha saber acerca do comportamento desses animais. Tudo começou com o assassinato, ou melhor, com o linchamento assassino sofrido por Godi, um jovem chimpanzé macho que pertencia ao clã do Vale Kahama – um dos vários clãs que habitam o Parque Nacional de Gombe, na Tanzânia. Segundo o testemunho de Hilali Matama, colaborador local da equipe, Godi estava sozinho, comendo ramos, quando um grupo de chimpanzés composto por cinco machos adultos, uma fêmea e seu filhote (todos do clã do Vale Kasakela), encurralaram-no e iniciaram um espancamento brutal, como jamais havia sido observado desde o surgimento da primatologia. Escaramuças entre primatas eram e ainda são bastante comuns quando há disputa por um objeto (reservas de água ou de comida, parceiros para acasalamento, etc.), mesmo dentro do próprio clã. Porém, essas disputas nunca tinham chegado ao nível de agressividade e, sobretudo, de atuação estratégica como naquele confronto. Era a primeira vez que se observava um grupo agir contra uma vítima isolada. E mais, um grupo constituído não só de machos.

Os agressores se aproximaram por trás, sorrateiramente e em fila. O ataque começou com dois deles agarrando as pernas de Godi, enquanto um terceiro, o maior do bando, saltou sobre sua cabeça deixando seu corpo de bruços e inteiramente vulnerável. Sobreveio então a saraivada de golpes, mordidas e pedradas. Os grunhidos de dor da vítima misturados aos gritos dos atacantes, ressoando num frenesi furioso, silenciaram a floresta. Após dez minutos de surra, Godi morreu. A convivência entre os dois clãs, que até então fora tranquila e sociável, se degradaria de modo irreversível. Não sabe se o conflito tinha começado antes, e se Godi tinha sido a vítima fatal de uma série de retaliações que estariam imperceptivelmente em transcurso. O fato é que seu assassinato, tal como o de um Franz Ferdinand simiesco, iria desencadear uma escalada de ataques e contra-ataques violentos, caracterizando uma situação de guerra, que se prolongaria por três anos e só terminaria com a morte do último macaco do Vale Kahama.

Os chimpanzés eram assassinos e vingativos!… Essa constatação provocou tamanha perplexidade, demandando uma avaliação tão cuidadosa, que Jane Goodall só a tornaria pública em 1990, no livro Through a Window: My Thirty Years With the Chimpanzees of Gombe1 (na edição brasileira: Uma Janela para a Vida: 30 Anos com os Chimpanzés da Tanzânia. Trad. Eduardo Francisco Alves. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991. Cap. 10: “A Guerra”). Pouco depois, notícias de assassinatos singularmente violentos (embora não com a proporção de um conflito generalizado) ocorridos entre outros primatas superiores, como orangotangos e gorilas, foram sendo continuamente divulgados. Questionou-se se aquilo seria um novo fenômeno comportamental, ou uma característica latente que estava se manifestando em decorrência de contingências ecológicas atípicas. Até agora, não há qualquer conclusão definitiva.

Comentando estas ocorrências, René Girard afirmou que, conquanto fossem potencialmente relevantes, seria precipitado dizer se elas tinham algo a acrescentar à teoria mimética. E que, aparentemente, elas ainda não facultavam uma aplicação direta desta teoria nas pesquisas etológicas. Com a prudência que lhe era peculiar, e ainda com a costumeira ironia, Girard exortou a não se deixar entusiasmar com estes fatos e acreditar que, em razão de comportamentos violentos estratégicos, os primatas decidiram tornar-se estruturalistas e jogar o jogo cultural lévi-straussiano!2 Mesmo que ali estivesse esboçado o mecanismo da vítima expiatória, e ainda que fosse notável o mimetismo das reciprocidades violentas, far-se-ia necessário que tudo isso resultasse no surgimento de uma ordem simbólica capaz de conter a violência. E, mais, o centro de significação dessa ordem devia ser fornecido pela própria vítima expiatória.3 Porém, nada disso havia se verificado.

Ocorre que, recentemente, num artigo publicado na revista Nature, um grupo de etólogos descreveu um estranho comportamento entre os chimpanzés que habitam uma região que vai da Costa do Marfim à Guiné-Bissau, cujas características exorbitam qualquer funcionalidade social presumível (alimentação, cópula, status), assumindo inusitados aspectos rituais. A descoberta foi quase incidental, motivada por guias nativos que chamaram a atenção dos etólogos para árvores ocas, e outras cujas raízes salientes, conformando reentrâncias, estavam repletas de pedras que eram ali depositadas por esses macacos. Intrigada, a equipe comandada pela primatóloga Laura Kehoe, da Universidade de Berlim, instalou câmeras automáticas nas imediações destas árvores (que, aliás, eram muitas) no intuito de averiguar se de fato aquilo era obra dos símios. Após duas semanas de filmagens ininterruptas — tempo que dura a baterias destas câmeras — eles obtiveram imagens que não só confirmavam o fato, mas também revelavam uma conduta nos chimpanzés que era tão incomum quanto misteriosa.

Tratava-se de um comportamento aparentemente padronizado, em que os chimpanzés, na maioria das vezes sozinhos, aproximavam-se de alguma destas árvores, olhavam em volta como se estivessem constrangidos, e, numa crescente ansiedade, pegavam a primeira pedra com que se deparavam, arremetiam contra elas e logo se retiravam em fuga. A pesquisa foi ampliada com a instalação de câmeras em todos os vales onde houvesse pedras amontoadas em árvores. Com efeito, depois de quatorze meses de coletas de dados, verificou-se que o rito se repetia em todos os lugares, e com poucas variações: ora a pedra era arremetida contra a árvore usando uma das mãos, ora usando ambas; em alguns casos ela era coletada fora da árvore, já em outros era retirada do amontoado interno e novamente arremetida. Por vezes os chimpanzés balançavam o corpo antes do arremesso, noutras esperneavam. Alguns gritavam antes de arremeter, outros depois. Mas sempre evadiam-se agitados.

O desgaste destas árvores e a ampla área ao longo da qual elas foram rastreadas indicam que não se trata de uma prática recente e tampouco restrita a um clã. Os indícios estavam por toda parte, só que nenhum dos etólogos tinha percebido. Agora a equipe se empenha em propor hipóteses que elucidem esse comportamento. A primeira delas, pouco plausível, aventou que seria um rito de autoafirmação dos machos, no qual o barulho produzido pelo arremesso das pedras serviria como uma demonstração de força. Porém, três constatações desabonam esta conjetura: primeiro, o rito não é praticado exclusivamente por machos (havia fêmeas com filhotes nas costas); segundo, o rito é quase sempre solitário, não havendo para quem se exibir; e, por fim, o barulho diminui à medida que a pilha de pedras aumenta. A outra hipótese, mais coerente com os dados, pautando-se pelo fato de que estas árvores estavam situadas nas zonas intermediárias entre os habitat dos vários clãs, tem cogitado um rito de interdição através dos quais os chimpanzés estariam delimitando seus respectivos territórios. Isso explicaria a ansiedade agressiva e recorrente que eles demonstram na execução do rito, e que parece ter um efeito catártico.

Considerando que essa hipótese venha a ser a mais provável, caberá então questionar por que esse rito se realiza como um apedrejamento? Seria esse ato uma advertência, uma rememoração, ou as duas coisas? Qualquer que seja a alternativa acatada, restará, invariavelmente, a convicção de que essas árvores têm uma carga simbólica bastante acentuada, cuja mensagem é muito clara e padronizada, precisando apenas ser repetida para firmar um princípio de ordem territorial. Com efeito, alguns arqueólogos já começam a sondar paralelos entre essas árvores e os remotíssimos amontoados de pedras da pré-história humana, mapeadas em todas as latitudes do planeta – quer sejam pirâmides, dólmens, estelas, ou mesmo os nossos sambaquis – que, por acumularem as funções de túmulo e/ou santuário, servem ao mesmo tempo como referência territorial e zona de interdição sagrada. Esses paralelos, se confirmados, poderiam franquear a inserção da teoria girardiana nas pesquisas etológicas como um paradigma interpretativo imprescindível. Pois, desde sua perspectiva, poder-se-ia sondar uma possível correlação entre a violência da prática ritual e a violência dos confrontos assassinos ocorridos entre os clãs.

Convenhamos que qualquer resposta só será obtida a longuíssimo prazo. Não obstante, para estes etólogos os dados parecem ratificar a emergência de uma ordem simbólica, de um fator pré-cultural de socialização; tanto que já se referem a esse comportamento em termos de uma “tradição simbólica”, que pode iluminar prospectivamente o futuro destes primatas ao mesmo tempo em que esclarece retrospectivamente alguns dados do nosso passado.

Referências

GIRARD, René. Um Longo Argumento do Princípio ao Fim. Trad. Bluma Waddinton Vilar. Rio de Janeiro: Topbooks, 2000.

GOODALL, Jane. Through a Window: My Thirty Years With the Chimpanzees of Gombe. Boston: Houghton-Mifflin, 1990.

______________. Uma Janela para a Vida: 30 anos com os chipanzés da Tanzânia. Trad. Eduardo F. Alves. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991.

Notas

  1. GOODALL, Jane. Op. cit. Boston: Houghton-Mifflin, 1990. pp. 98-112. Disponível online
  2. GIRARD, René. Um Longo Argumento do Princípio ao Fim. Trad. Bluma Waddinton Vilar. Rio de Janeiro: Topbooks, 2000. pp. 115-121. ↩︎
  3. Ibid. ↩︎