Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

Category: Cultura (page 2 of 2)

Ainda os linchamentos no Brasil

Já destacamos aqui o trabalho de Letícia de Souza Furtado e de Wilson Frank Jr. sobre o linchamento do Guarujá; esta semana, a escritora Vanessa Bárbara destacou em artigo para o International New York Times (link para a tradução) que os linchamentos no Brasil estão aumentando em número. Vanessa Bárbara informa que, segundo o sociólogo José de Souza Martins, “há pelo menos uma tentativa de linchamento por dia no Brasil”.

Destaquemos, no entanto, um trecho do artigo:

Em uma entrevista para uma revista online, Martins disse que os linchamentos são uma modalidade de comportamento coletivo cuja dinâmica, em parte, é regulada pelo contágio: quanto mais visibilidade ganham, mais linchamentos ocorrem. “A transformação do crime em espetáculo da mídia e das redes sociais tem sido um provável fator de multiplicação do número de linchamentos”, afirmou. “O noticiário emocional e não raro superficial e desinformado estimula a difusão dessa prática.”

Cabe sem dúvida uma investigação dessa mediação dos linchamentos. Não há dúvidas sobre o contágio por mediação interna que há em todo linchamento. Porém, poderíamos agora falar de um contágio prévio, por mediação externa, em que cada pessoa, ao ouvir falar de outros linchadores distantes, deseja ser linchadora também?

Para compreender Breivik

por Mark Anspach*

Baby, look at me

And tell me what you see…

Don’t you know who I am?

[Baby, olhe pra mim

E me diga o que está vendo

Você não sabe quem sou eu?]

Canção-título do musical Fame

Ele era uma lenda em sua própria cabeça: um Cavaleiro Templário dos tempos modernos, liderando uma hoste de valentes guerreiros numa gloriosa cruzada para salvar o Ocidente.

Mas na vida real Anders Behring Breivik era um completo fracassado que não conseguia fazer com que ninguém o levasse a sério — nem quando tentou render-se aos policiais cinquenta minutos depois de ter iniciado seu tiroteio na ilha Utøya. A gragação do primeiro telefonema de Breivik para a polícia, divulgada recentemente, deixa clara a frustração que deve tê-lo perseguido por toda parte.

O telefonema começa fluindo perfeitamente. “Alô”, disse ele, “meu nome é comandante Anders Behring Breivik da Resistência Anti-Comunista Norueguesa. Estou neste momento em Utøya. Quero me entregar.” Estava claro que ele tinha ensaiado essas palavras muitas vezes, e tinha conseguido recitá-las com a voz apenas um pouco abalada.

O policial, porém, não seguiu o script na cabeça de Breivik. Fez uma pergunta que levou o autodeclarado comandante da resistência a tropeçar. “De que número você está ligando?”

Breivik estava usando um telefone que tinha pego no chão. Ele não tinha ideia do número do qual estava ligando. Como um aluno pego desprevenido por uma arguição surpresa, ele tentou reformular a questão. “Estou ligando de um celular”, disse.

Mas o policial não ia liberá-lo assim tão fácil. “Você está ligando do seu celular…?”

“Não é meu”, explicou Breivik desesperado. “É outro telefone.” A conversa deve tê-lo deixado perplexo. Que importância tinha o telefone que ele estava usando quando tinha acabado de aniquilar dezenas de jovens com uma arma automática?

O policial não entendia que ele, Comandante Anders Behring Breivik da Resistência Anti-Comunista Norueguesa, tinha acabado de realizar a maior operação terrorista do pós-guerra de seu país?

A pergunta seguinte do policial foi esmagadora. “Como é mesmo o seu nome?”

Essa foi a última gota. Breivik desligou e voltou a matar civis desarmados. Era a única coisa que o suposto justiceiro solitário parecia conseguir fazer direito. No momento em que ele juntou coragem para ligar de novo para a polícia, ela já estava chegando para prendê-lo.

O telefonema de Breivik para a linha de emergência da polícia lembra a cena de Um Assaltante Bem Trabalhão [Take the Money and Run] em que os caixas do banco não conseguem entender o bilhete ameaçador do personagem de Woody Allen. Você está apontando uma “alma” para mim? Como é mesmo o seu nome?

A primeira coisa a entender em relação a Anders Breivik é que ele não passa de um zero à esquerda. É só olhar a foto dele usando uma ridícula roupa de mergulho, tendo pendurado ao ombro um misterioso dispositivo (uma “alma”) emperequetada com lanternas duplas. Ele queria ser Rambo, mas estava parecendo Maxwell Smart.

Porém, isso não o deixava menos perigoso. A segunda coisa a entender a respeito de Breivik é que ser considerado um zero à esquerda deixava-o repleto de raiva assassina. O que ele queria era botar essa raiva para fora de um jeito que finalmente faria com que as pessoas lembrassem de seu nome.

Depois que o boxeador recusou-se a chamar o antigo Cassius Clay pela alcunha que este tinha escolhido, Muhammad Ali surrou-o sem piedade no ringue enquanto perguntava “Qual é meu nome?”. Breivik não tinha o estofo para conquistar a fama como lutador. Não tinha a força, a capacidade ou a inteligência de um Muhammad Ali, mas tinha a raiva. Quando o policial esqueceu seu nome, ele disparou contra mais alguns adolescentes que estavam acampando, transferindo a eles o fardo de sua ira.

Claro que o próprio Breivik deu uma explicação muito diferente para suas ações. Disse que estava com raiva dos imigrantes muçulmanos e dos chamados “marxistas culturais”. Para um óbvio maluco hoje declarado insano por psiquiatras escolhidos pelo tribunal1, Breivik conseguiu que um bocado de gente inteligente debatesse seu “manifesto” internético feito de copiar e colar.

Levar a sério os pronunciamentos políticos é cair numa armadilha preparada por um malévolo psicopata. Breivik esperava que, cometendo um grande massacre, finalmente obrigaria as pessoas a prestar atenção nele, e, numa certa medida, ele conseguiu. Contudo, alguns comentadores chamaram a atenção para a curiosa falta de conexão entre sua retórica contra imigrantes muçulmanos e o fato de que ele atacou seus conterrâneos noruegueses.

Não que ele tenha ido atrás de noruegueses quaisquer; ele escolheu precisamente alvos associados ao Partido Trabalhista, que ocupa o governo, e que ele considerava responsável pelas políticas de imigração de seu país. O ataque ao prédio do governo em Oslo criou um diversionismo ideológico para impedir os observadores de compreenderem plenamente o principal crime de Breivik: o assassinato a sangue frio de 69 jovens que participavam de um acampamento de verão.

É verdade que eles representavam a próxima geração das lideranças trabalhistas. Breivik justificou suas ações, dizendo que eram “atrozes mas necessárias” para atingir seus objetivos políticos. Contudo, em fotos tiradas depois do massacre, Breivik não apresenta a sombria expressão de alguém que teve de executar uma operação atroz mas necessária. Em vez disso, ele exibe o sorrisinho satisfeito de um homem que finalmente conseguiu fazer algo que sempre quis.

Breivik sem dúvida é sincero em suas crenças políticas, mas deve ser julgado por seus atos. Seus atos sugerem que sua hostilidade em relação a imigrantes em última instância não era tão profunda quanto a animosidade que nutria pelos jovens noruegueses no acampamento de verão. O fundamental é que ele não teria disparado contra aqueles jovens — disparado repetidas vezes, cravejando-os de balas — a menos que os odiasse e quisesse que eles morressem.

Ele os odiava tanto que usou balas “dundum”, de ponta oca, que praticamente explodem dentro do corpo. O cirurgião-chefe de um dos hospitais que trataram as vítimas disse: “Essas balas infligiram danos internos absolutamente horríveis.” Mas isso não foi o bastante para Breivik, que afirma ter pedido um veneno altamente concentrado da China para injetar uma dose letal em cada bala.2

Baby, I’ll be tough

Too much is not enough

Ooh, I got what it takes.

[*Baby, eu vou ser durão

Demais não é o bastante

Ooh, eu tenho o que é preciso*]

Nenhuma pessoa sã seria capaz de explicar por que esse exagero é atroz mas necessário — é atroz, e só. A pergunta óbvia que os colunistas até agora não responderam é por que Breivik odiava tanto aqueles jovens. O que foi que eles fizeram a ele?

A resposta é: nada. Eles nunca lhe fizeram nada. Nem o conheciam. Ele era um completo estranho para eles. Mas isso não o impediu de perceber a si mesmo como uma vítima.

No recente Le Sacrifice Inutile [O Sacrifício Inútil], Paul Dumouchel sugere que a sociedade moderna criou uma nova categoria de vítimas: “vítimas de ninguém, indivíduos contra os quais ninguém cometeu nenhuma ofensa”. Quando os laços de solidariedade que caracterizam comunidades tradicionais se desfazem, algumas pessoas simplesmente caem pelas fendas. São as vítimas de ninguém em particular e de todos em geral. Mais precisamente, são “as vítimas da indiferença generalizada. Uma indiferença que não deve ser entendida como disposição psicológica de certos agentes, mas como um novo arranjo institucional”.3

No novo arranjo institucional, a maioria dos cidadãos é composta de estranhos. Esse luxo é desconhecido a membros das sociedades de outrora. Na ausência dos laços tradicionais de solidariedade, as pessoas hoje têm a liberdade de cuidar da própria vida sem se preocupar com aqueles que não são seus familiares imediatos nem fazer parte de seu círculo de amigos íntimos. O dano contra alguém não é um dano contra todos. Se alguém é vítima de um crime, cabe ao Estado intervir; os demais podem apenas ficar indiferentes. Mas quem intervém para ajudar as vítimas da indiferença?

Dumouchel refere-se às vítimas produzidas pelo funcionamento impessoal da economia moderna. Mas também há indivíduos que, mesmo sem estar em desvantagem econômica, sofrem com sua incapacidade de encontrar um lugar para si dentro do grupo. Esse problema não existe na mesma forma em culturas tradicionais em que cada qual tem seu lugar; trata-se de um fenômeno moderno, um sub-produto da liberdade de que desfrutamos.

As sociedades livres produzem um certo quociente de desajustados solitários como Breivik: indivíduos que sentem-se marginalizados na escola ou no trabalho, que não têm uma família feliz nem um círculo de amigos íntimos com que contar, que — na falta do casamento arranjado — nunca conseguem encontrar um par. Esses indivíduos não podem culpar a ninguém em particular por seu destino. Eles encontram a indiferença por toda parte, mas a indiferença não é crime — é a norma aceita no trato com estranhos. O problema de alguém como Breivik é que ele é um estranho para todo mundo.4

O protagonista de O Estrangeiro, o famoso romance de Albert Camus, leva uma vida entediante e genérica não muito diferente da de Breivik. Como o norueguês, Meursault tem alguns amigos superficiais; ao contrário dele, ele até tem uma namorada, mas não há ninguém com quem ele de fato se importe. Então, um dia, sem maiores deliberações, ele comete um ato de violência sem sentido, matando um homem com um único disparo, e disparando quatro outras balas contra o corpo sem vida. Subitamente, esse zé-ninguém sem ambições vê-se catapultado para o papel principal de um importante processo de homicídio.

O rebelde sem causa condenado de Camus pretende ilustrar o absurdo da existência. Numa reinterpretação radical, René Girard afirma que a pose de indiferença do anti-herói esconde um indivíduo solitário que não consegue admitir nem para si mesmo que “prefere ser perseguido a ser ignorado”. O assassinato que ele comete tão casualmente “é na verdade um esforço secreto para restabelecer contato com a humanidade”. Girard compara Meursault à criança malcriada ou ao delinquente juvenil que “precisa cometer um ato que forçara a atenção dos adultos mas não será interpretado como submissão abjeta”5.

No fim do romance, Meursault finalmente expressa o ressentimento oculto que o orgulho tinha silenciado, praticamente reconhecendo que, como diz Girard, “a única e exclusiva guilhotina que o ameaça é a indiferença” de outras pessoas. “Para que tudo possa se cumprir”, diz Meursault, “para que eu me sinta menos sozinho, restou-me esperar que haveria muitos espectadores no dia da minha execução, e que eles me receberiam com gritos de ódio”6.

Brevik sorria a caminho do tribunal, refestelando-se com a atenção que tanto desejara. Na juventude, ele flertara com a delinquência juvenil, tendo batido no diretor da escola7 e arrumado confusão com a polícia por causa de pichações. Essa última tentativa parece ter saído pela culatra, fazendo com que seu pai, já distante, cortasse relações com ele. Até seus companheiros de rebelião grafiteira o rejeitaram, aparentemente porque suspeitavam que ele os estivesse dedurando.8

Segundo uma entrada de 1995 em seu anuário escolar, “Anders fazia parte da ‘turma’, mas de repente deixou de ser amigo do pessoal” e muitas vezes começava a fazer “coisas imprevisíveis e idiotas”. Os investigadores disseram à Der Siegel que ele “repetidas vezes tentava encontrar algum lugar para encaixar-se, primeiro na cena hip-hop, depois na cena do grafite. Mas nada teve resultado.”9

Give me time,

I’ll make you forget the rest…

I’m gonna learn how to fly

High

I feel it coming together

People will see me and cry.

[Dê-me algum tempo,

E eu te faço esquecer o resto…

Vou te ensinar a voar

Alto

Estou sentindo que vai dar tudo certo

As pessoas vão me ver e chorar.

“Ele parecia um cara durão capaz de fazer coisas impensáveis para nós”, escreveu um amigo de infância que o conheceu até os 14 anos. “Como cuspir na adega, fazer xixi no depósito de um vizinho.” Ele também “sentia um prazer enorme em matar formigas”10. Esse último detalhe pode não ser insignificante. As formigas andam em multidões, formam uma sociedade organizada e fechada, e são indiferentes aos que as olham. A reação do jovem Breivik foi massacrá-las.

Baby, I’ll be tough…

[Baby, vou ser durão…]

Entre matar formigas e matar humanos há um grande salto, mas os humanos são para alguém como Breivik uma fonte de ressentimento muito maior do que as formigas jamais poderiam ser. As multidões de jovens em Utøya estavam apreciado a companhia uns dos outros num cenário particularmente glamuroso. Frode Berge, autoridade regional do Partido Trabalhista, descreve o acampamento de verão como “o lugar a que o líder do nosso partido e outros líderes de destaque” — incluindo o primeiro-ministro atual — “simplesmente têm de ir, sempre”. E, para completar, “Utøya é simplesmente linda”. Ela “oferece o ambiente perfeito para adolescentes”. Nesse momento o sr. Berge fica nostálgico:

O cheiro de uma fogueira combinado com o som de violões, gaitas, risos e conversas às 4h da manhã ficará comigo, como lembranças de adolescência imensamente preciosas, para o resto da minha vida. De fato, um dos lugares mais populares de Utøya é o Caminho do Amor, discretamente localizado na floresta a sul da ilha. Utøya é o lugar perfeito para um adolescente apaixonar-se.11

Se todo mundo que é alguém tinha de estar ali, onde isso deixa alguém que não é ninguém? Alguém sem lembranças idílicas da adolescência, lembranças de noites mágicas em torno de uma fogueira, alguém que nunca teve ninguém para caminhar junto romanticamente pela mata?

Breivik detestava os jovens no acampamento de verão porque eles eram os garotos cool e ele era um desajustado solitário. Mas eles não odiavam Breivik — eles estavam completamente alheios a ele. Isso só piorou as coisas. Ele achou um jeito seguríssimo de vencer a indiferença deles. O que ele dizia a eles enquanto os caçava com sua arma seria pungente se não fosse tão assustador. Segundo um sobrevivente de 16 anos, ele marchava pelo campo dizendo: “Vem brincar comigo. Não fique tímido.”12

Anders Breivik não conseguiu restabelecer contato com a humanidade, mas conseguiu obter a fama que queria — da pior maneira possível. Seus conterrâneos jamais esquecerão seu nome outra vez.

I feel it coming together

People will see me and cry…

I’m gonna live forever

Baby, remember my name

Remember, remember, remember, remember,

Remember, remember, remember, remember.

[Estou sentindo que vai dar tudo certo

As pessoas vão me ver e chorar…

Vou viver para sempre

Baby, lembre meu nome

Lembre, lembre, lembre, lembre

Lembre, lembre, lembre, lembre]


  1. Ver, de nossa autoria, o artigo “Anders Breivik’s Delusions of Grandeur”.

  2. Breivik injected his dum-dum bullets with poison to make them deadlier”. Daily Mail, 26 de julho de 2011.

  3. Paul Dumouchel, Le sacrifice inutile: Essai sur la violence politique, Paris, Flammarion, 2011, pp. 255–56.

  4. Na Noruega, os novos imigrantes que chegam como estranhos ao país não são recebidos com indiferença oficial; são beneficiados com programas oficiais que os ajudam a encaixar-se. O ressentimento de Breivik contra os políticos trabalhistas que recebem estrangeiros pode ter sua raiz na percepção de que estes recebem mais atenção solícita do que ele.

  5. René Girard, “Camus’s Stranger Retried”, in: To double business bound: Essays on Literature, Mimesis, and Anthropology*. Baltimore, Johns Hopkins, 1978, pp. 24, 30–31.

  6. Ibid., p. 31.

  7. Julia Amalia Heyer e Gerald Traufetter, “Norway Massacre Suspect Reveals All But Motive”, Spiegel Online, 26 de outubro de 2011.

  8. Robert Mendick, “Norway massacre: the real Anders Behring Breivik”, The Telegraph, 31 de julho de 2011.

  9. “Norway Massacre Suspect…”, Spiegel Online, 26 de outubro de 2011.

  10. John Archer, Alister Doyle e Peter Apps, “In Breivik’s past, few clues to troubled future”, Reuters, 2 de agosto de 2011.

  11. Frode Berge, “Utoeya island: Scene of Norway’s summer camp massacre” BBC News, 26 de julho de 2011.

  12. Nick Meo, Harriet Alexander e Robert Mendick, “Norway killings: The laughing gunman”, The Telegraph, 24 de julho de 2011.

*Mark Anspach é autor de Anatomia da Vingança — Figuras Elementares da Reciprocidade e de Édipo Mimético, ambos publicados pela É Realizações. Este artigo foi publicado originalmente no site da Fundação Imitatio.

Por que Isabelle Caro morreu?

Anorexia e Desejo Mimético

Anorexia e Desejo Mimético

por Mark Anspach*

O golpe, duplo, foi chocante: primeiro a modelo anoréxica Isabelle Caro morreu num hospital francês, e em seguida a mãe se matou, desesperada. Tão pouco tempo depois da morte da filha em novembro, o suicídio de Marie Caro, em janeiro, reabriu o debate sobre as causas da anorexia. Deve-se culpar a imitação de modelos super-magras — ou será que meninas como ela são tolhidas por mães que não as deixam em paz? Em entrevistas e em suas memórias, Isabelle não hesitava em culpar a mãe por querer que ela permanecesse criança, ainda que ela própria vá ser lembrada como a modelo magricela que denunciou a moda das modelos magricelas. De um modo perturbador, a anorexia virou seu bilhete para a celebridade.

Isabelle Caro ganhou fama em 2007, posando nua para uma controversa campanha publicitária que advertia par aos riscos da anorexia, patrocinada pela marca de roupas italiana Nolita. Lançada a tempo de coincidir com o lançamento das coleções primavera-verão nas passarelas de Milão, a campanha foi concebida como um alerta para a indústria de moda e como aviso para as meninas que poderiam sentir-se tentadas a imitar modelos impossivelmente magras. A visão do corpo emaciado de Isabelle supostamente mostraria que a magreza extrema é repulsiva, não sexy.

“A mensagem é clara”, disse Isabelle à época. “Minha pele é seca, irritada, meus seios são caídos, meu corpo é o de uma idosa.” Infelizmente, a mensagem não foi nem um pouco clara. Retratos do corpo carcomido da menina de 20 anos com seus enormes olhos verdes apareceram nos sites chamados “pro-ana” mantidos por anoréxicas militantes, e associações italianas dedicadas a auxílio de vítimas de transtornos alimentares logo criticaram a campanha, considerando-a mal-direcionada.

A mensagem do anúncio deveria ser: “Você não quer ter essa aparência”. Mas o meio solapou a mensagem. Ao ter a audácia de exibir um corpo magro como uma vara em imensos outdoors ou em anúncios de página dupla nos jornais, a campanha inadvertidamente afirmava outra coisa: “Tenha essa aparência e você pode ser famosa.” Numa cultura obcecada com a celebridade, há muitíssima gente que faria qualquer coisa para se ver naquele outdoor — até mesmo adotar uma aparência que é literalmente “de morrer”.

A agente de Isabelle Caro disse que ela “queria ser modelo a qualquer custo”, mas não conseguia nada por causa de sua aparência doentia. A campanha da Nolita foi sua grande chance, trazendo-lhe documentários, e fazendo dela uma atração quente do circuito de talk shows. Ela apareceu em The Price of Beauty, com Jessica Simpson, e foi até jurada do France’s Next Top Model. Sua agente receava que ela estivesse dando mais entrevistas do que sua frágil saúde permitia. “Eu gritava com eles. Dizia que era perigoso fazê-la correr o mundo inteiro daquele jeito.” Isabelle acabou cedendo depois de voltar da filmagem de uma série de TV no Japão. Um site “pro-ana” exibiu sua foto com a legenda “morra jovem, permaneça bonita”.

Se a urgência de imitar é forte a ponto de fazer com que moças sejam desviadas do bom caminho por imagens de modelos magras demais, a solução não está em mostrar-lhes outra moça ainda mais magra. Como todo pai e toda mãe sabe, “faça o que eu falo, não o que eu faço” é uma estratégia educativa fracassada. Os jovens imitam o comportamento.

Ao pregar a anorexia enquanto mantinha seu próprio peso perigosamente baixo, Isabelle Caro estava dizendo a suas seguidoras: “Me tomem como guia, mas não me imitem!” O paradoxo por trás desse tipo de mensagem dúplice foi diagnosticado com precisão por René Girard, de Stanford, que o denomina “double bind mimético”. Como a imitação é a forma mais sincera de elogio, todos querem atrair seguidores, mas se estes imitarem bem demais, logo tornam-se uma ameaça para aquela pessoa que tomavam por modelo. Ninguém gosta de ser derrotado em seu próprio jogo. Daí a mensagem contraditória: “Faça como eu faço… Só não faça melhor!”.

A imitação se metamorfoseia imperceptivelmente em rivalidade — essa é a grande intuição de Girard, e ele a aplica de maneira brilhante à competitividade nas dietas (Ver Anorexia e Desejo Mimético. Trad. Carlos Nougué. São Paulo: É Realizações<, 2011). Inútil procurar alguma explicação psicológica misteriosa, nas profundezas. Escreve Girard: “O homem nas ruas compreende uma verdade que a maioria dos especialistas prefere não enfrentar. Nossos distúrbios alimentares são causados por nosso desejo compulsivo de perder peso.” Todos queremos perder peso porque sabemos que é isso que todos os demais querem — e, quanto mais os outros têm sucesso em perder quilos, mais sentimos que também precisamos perdê-los.

Girard não foi o primeiro a ressaltar a dimensão imitativa ou mimética dos distúrbios alimentares e sua ligação com a moda da magreza, mas ele enfatiza um aspecto que os outros não enxergam: a tendência para a escalada que há em toda moda: “Todos tentam superar todos na qualidade desejada, no caso a magreza, e o peso considerado o mais desejável numa moça acaba diminuindo.”

Na disputa universal por perda de peso, as anoréxicas são as “vencedoras”, com resultados muitas vezes trágicos. Mas, como explica Girard, é difícil convencer uma menina cujo peso está abaixo do saudável de que ela está fazendo algo de errado:

Ela interpreta todas as tentativas de ajudá-la como conspirações invejosas de pessoas que gostariam de roubar-lhe sua vitória tão dolorosamente adquirida, porque não conseguem igualá-la. Ela sente orgulho de realizar aquele que é talvez o único ideal comum a toda a nossa sociedade, a magreza.

Isabelle Caro sabia que era perigosamente magra, mas no fim ela não conseguiu renunciar ao status duramente conquistado que sua doença lhe trouxe. Kim Warani, sua amiga e colega, disse à AOL News que ela parecia “presa num círculo vicioso. Aquelas fotos faziam com que ela fosse famosa, o centro das atenções, e de certo modo aquilo deve ter sido difícil de abandonar.”

Depois de morrer, o homem que fotografou-a para a campanha da Nolita fez alguns comentários que impressionam por sua franqueza. “Não tenho lembranças felizes de Isabelle”, disse Oliviero Toscani. “Ela era muito egoísta e cheia de si, foi assim até morrer”, achando-se uma atriz e modelo de sucesso quando “seu único talento era ser anoréxica”.

Segundo o padrasto de Isabelle, a fala insensível de Toscani contribuiu para levar Marie, mãe dela, à própria morte. Ela já sentia uma culpa enorme, disse ele — não, como talvez se pense, por causa da doença da filha, mas por tê-la mandado para o hospital! Enquanto os pais acusavam os médicos de maus cuidados no tratamento, Warani dizia que ela “tinha morrido por estar tão enfraquecida pel anorexia”, depois de ter “perdido muito peso outra vez”.

Ao escolher seguir a filha ao túmulo, Marie Caro sem saber deu credibilidade à ideia de que tinha um apego patológico a Isabelle. E aquela ideia de que ela era uma mãe que simplesmente não queria que a filha crescesse? Como isso bate com uma leitura mimética dos fatos?

Bem, talvez permanecer com 12 anos de idade também tenha virado uma moda a imitar. Não é esse um elemento-chave no apelo da Nolita? O nome pode ter sido emprestado de um bairro hoje chique de Nova York, mas no contexto de roupas sexy para moças, ele inevitavelmente chama a sedutora juvenil essencial: Lolita. Claro que, ao trocar “Lolita” por “No-lita”, os estilistas conseguem matar dois coelhos contrários numa cajadada só: sempre podem dizer que estão dizendo “Não” à exploração de modelos-Lolitas. O anúncio de Toscani combinava dois nãos: “não-anorexia, No-l-ita”. Outra vez, porém, a mensagem era ambígua, e não só porque os dois nãos estavam rabiscados em batom rosa: desde quando ouvir que algo é vedado diminui o desejo? Só para começar, atração do proibido faz parte do que torna as Lolitas sedutoras.

Toscani mesmo há muito cultiva uma imagem de bad boy. Mesmo antes da campanha da Nolita, ele já era famoso por usar fotos chocantes de vítimas da AIDS ou de presos no corredor da morte para promover causas ao mesmo tempo em que vendia roupas. Quando irrompeu o furor em torno do anúncio da anorexia, a revista Time chamou-o de “eterno enfant terrible” da fotografia de moda: literalmente, a eterna criança mal-comportada, o menino travesso que nunca cresceu. Mas por que alguém iria querer crescer quando nossa cultura recompensa o mau comportamento com fama e fortuna?

*Mark Anspach é autor de Anatomia da Vingança — Figuras Elementares da Reciprocidade e de Édipo Mimético, ambos publicados pela É Realizações. Este artigo foi publicado originalmente no site da Fundação Imitatio.

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