Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

Month: abril 2016

Notas sobre a Méconnaissance segundo Paul Dumouchel — 2

Terminando a exposição sobre a visão da méconnaissance apresentada por Paul Dumouchel, vamos descrever os exemplos dados por ele: o fenômeno do tarantisrenmo como apresentado no livro La Terra del Remorso do antropólogo Ernesto de Martino, bem como o conceito de "véu da ignorância", apresentado por John Rawls em A Teoria da Justiça.

O tarantismo

O tarantismo é uma crença hoje defunta do sul da Itália, originária da cidade de Taranto, segundo a qual uma pessoa pode ser curada da mordida de uma aranha — uma tarântula — dançando uma tarantella, muitas vezes por dias a fio.

De Martino começa La Terra del Remorso averiguando se o tarantismo é uma doença, física ou mental, ou uma forma menor de religião, uma formação cultural peculiar. A hipótese da doença é logo descartada, e o antropólogo se concentra na hipótese da formação cultural.

De acordo com Dumouchel, de Martino deixaria claro que os parentes e amigos das vítimas do tarantismo estariam perto de "saber a verdade sobre o tarantismo", cientes de que as pessoas afligidas por ele costumam estar passando por dificuldades, ou presas em conflitos insolúveis, como casamentos forçados, sem amor. Dumouchel suspeita que os envolvidos no tarantismo podem ter esse conhecimento maior justamente porque acreditam que uma aranha venenosa possa provocar um estado cataléptico do qual a pessoa sai por meio de uma espécie de exorcismo musical. A prova de que elas acreditam nisso é o fato de elas estarem dispostas a pagar quantias significativas para músicos que toquem a tarantella por dias a fio, e também para alimentar não apenas eles, mas também a pequena plateia que se forma em torno da pessoa "tarantata" (fazendo-nos pensar imediatamente no português "atarantado") até que ela, de tanto dançar, tenha um colapso de exaustão. O quarto da pessoa também é decorado com a aranha em mente, com cores da preferência dela, com cordas que, penduradas do teto, simulam uma teia. Por fim, os envolvidos no tarantismo faziam uma peregrinação anual à igreja de São Paulo em Galatina.

O "véu da ignorância" de John Rawls

O segundo exemplo de Paul Dumouchel diz respeito à noção de "véu da ignorância" apresentada no livro Uma Teoria da Justiça, de John Rawls.

Esse véu nasce de uma experiência hipotética. Algumas pessoas são convocadas a escolher a melhor teoria da justiça para regular suas vidas. Elas não podem saber nada, nem mesmo a respeito de si mesmas. Não sabem se são ricas ou pobres, nem qual sua própria profissão. Assim, cobertas por esse véu de ignorância, elas se tornam de certo modo anônimas aos próprios olhos. Todavia, elas têm acesso a informações gerais sobre a sociedade e as pessoas, a dados das ciências naturais etc. O objetivo do véu é impedir que as pessoas se tornem enviesadas a seu próprio favor. Constrói-se uma situação ideal na qual se tem a esperança de descobrir alguma coisa sobre a justiça. Assim que o véu da ignorância é levantado, as pessoas não podem se arrepender das decisões que tomaram. O remorso fica, portanto, deslegitimado. Ele pode ter uma causa, mas não uma razão.

Conclusão

No caso do tarantismo, a méconnaissance associa aranhas, dança, música e cores, e possibilita o remorso, permitindo aos agentes enfrentar um passado que lamentam. No caso de Rawls, a méconnaissance — o véu da ignorância — proíbe o remorso. Os agentes não podem lamentar as decisões tomadas naquelas condições ideais.

Dumouchel conclui — e ainda poderíamos nos perguntar até que ponto isto é uma divergência em relação ao próprio Girard — afirmando que existem muitos tipos de méconnaissance, mas que aquele que interpreta mal ("misreads") o papel da própria méconnaissance ameaça mais a estabilidade social do que o conhecimento da origem violenta da própria méconnaissance

Notas sobre a méconnaissance segundo Paul Dumouchel

René Girard produziu sua obra de maneira eminentemente ensaística. Apesar da existência de um dicionário com termos girardianos, ainda cabe aos estudiosos da obra do pensador francês perguntar-se sobre o uso que se faz de certos termos, seja para conhecer pontos de discordância ou com concordância, seja para apenas demarcar uma certa continuidade. É com esse espírito que pretendemos apresentar notas sobre a parte teórica do artigo de Paul Dumouchel De la méconnaissance (apesar do título em francês, o texto é em inglês; basta clicar abaixo de “full text”). O artigo tem mais duas partes, com discussões de exemplos, que não serão tratadas aqui.

Dumouchel começa fazendo uma observação para os leitores de língua inglesa, ainda mais pertinente para os leitores de língua portuguesa: a rigor, não existe um termo que traduza o francês méconnaissance. O substantivo, derivado do verbo méconnaître, costuma ser traduzido como “não conhecer” ou como “ignorar”, mas, como observa Dumouchel, seria mais preciso entender que ele indica “não reconhecer”. O próprio dicionário Grand Robert o confirma, acrescentando: “não identificar”. A própria palavra méconnaissance, portanto, não diz respeito a um puro e simples desconhecimento, a uma mera ignorância, mas a não reconhecer algo que no entanto se esperava ou se devia reconhecer.

Se connaissance é knowledge ou conhecimento, em inglês seria possível criar o neologismo mis-knowledge, mas o português não dispõe de um equivalente do prefixo anglo-germânico mis-, que foi herdado pelo francês moderno na forma mé-. O mais próximo que temos é o uso de “mal-“ na palavra malentendido, que indica não uma ignorância, mas que algo foi entendido sim, ainda que de modo enviesado. Porém, como a correspondência entre o francês “mé-”, o inglês “mis-”, e o português “mal-“ é uma aproximação bastante imperfeita, não parece recomendável propor o neologismo “malconhecer”.

Ficamos assim de certo modo forçados a contrapor méconnaissance a connaissance, ou conhecimento. Paul Dumouchel observa que, ao menos na tradição anglo-saxônica para a qual está escrevendo, costuma-se entender “conhecimento” como “crença verdadeira, justificada”. Nesse sentido, nem se pode falar em “conhecimento falso” sem cair em flagrante autocontradição. Se a méconnaissance, porém, não é uma ignorância, um desconhecimento, nem exatamente algo de todo falso, o que é?

Paul Dumouchel traz a noção utilitária de Karl Popper do conhecimento como algo objetivo, um “artefato exossomático”, que existe fora dos indivíduos e pode ser apreendido por eles com diversos fins, ou segundo diversas maneiras de agir sobre o mundo. Nesse sentido, pode-se falar de um conhecimento melhor ou pior, isto é, que permite uma ação mais ou menos precisa sobre o mundo.

Acrescenta-se a isso a noção de que a méconnaissance é uma espécie de mentira contada a si mesmo. Existem, é claro, espécies diversas de mentiras. Primeiro pensamos naquela espécie em que conhecemos o mundo e pretendemos manipular o entendimento de outras pessoas a seu respeito. Guardei o doce no lugar X e digo que acabou para não ter de dividi-lo. Porém, como bem observa Dumouchel, podemos mentir para nós mesmos, aproximando-nos da mauvaise foi de Sartre, querendo que o mundo seja diferente. O exemplo dado no artigo é o seguinte: vejo indícios claros de que minha esposa está sendo infiel; contudo, prefiro interpretar esses indícios de modo a sugerir que ela continua fiel. O que está em jogo é a maneira como escolho organizar esses dados, e isso, por sua vez, também permitira a “conversão romanesca”, que é a visão dos mesmos dados sob uma nova luz, e não o acréscimo de outros dados.

Sempre segundo Dumouchel, a méconnaissance reside portanto na intenção, ou na direção da atitude em relação ao mundo. O conhecimento teria a verdade como instância reguladora, buscando ajustar-se ao mundo. A méconnaissance buscaria ajustar o mundo a ela própria, recorrendo portanto à violência.

É importante fazer duas observações aqui.

Primeira, Dumouchel recorda que Girard diz repetidas vezes que a méconnaissance cresceria junto com o conhecimento. Se entendermos conhecimento como um artefato que permite agir sobre o mundo, não é difícil entender o que Girard quer dizer. Novas maneiras de agir sobre o mundo abrem novas possibilidades de conhecimento e de méconnaissance.

Segunda, e esta não está no artigo de Dumouchel: na nota de rodapé incluída no volume De la Violence à la Divinité, que já traduzimos no blog, bem como no trecho de Evolução e Conversão que discute a “virada epistemológica”, Girard fala da impossibilidade de se criar um “espaço não-sacrificial” onde possa surgir o conhecimento. O conhecimento, então, depende de uma decisão de sacrificar-se a si mesmo para não cometer violências contra o mundo. A instância reguladora, ética, nunca está ausente no conhecimento.

Voltando ao texto de Dumouchel, temos a observação de que Girard usa a palavra méconnaissance em pelo menos dois sentidos. Podemos ter a méconnaissance como a vontade de não examinar um determinado corpo de conhecimentos, ou a méconnaissance derivada da méconnaissance individual que pretende que o mundo, e especialmente a origem da cultura, não seja de uma certa maneira.

Paul Dumouchel ainda faz algumas observações interessantes na parte teórica de seu texto. Julga que o cristianismo abala a cultura mais por destruir uma unanimidade do que por revelar a inocência da vítima. O cristianismo pode ser a revelação da centralidade da vítima que acaba com a méconnaissance a respeito de sua inocência; porém, seria a quebra daquela “unanimidade menos um”, derivada da revelação, que iria extinguindo progressivamente a méconnaissance a respeito desse ponto específico. Mais ainda, retomando (no entanto, a conexão entre os dois pontos é nossa) o que disse sobre a méconnaissance residir na “direção” da atitude cognitiva em relação ao mundo, para Dumouchel é a atitude de caridade, de reconhecimento da fragilidade e da humanidade do outro, mais do que de sua “inocência”, que vai pouco a pouco neutralizando a méconnaissance.

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