Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

Month: maio 2016

Simpósio de Teoria Mimética na ABRALIC em Setembro

# PRAZO DE INSCRIÇÃO PRORROGADO ATÉ 14 DE JUNHO #

O XV encontro da ABRALIC, a Associação Brasileira de Literatura Comparada, acontecerá no Rio de Janeiro entre 19 e 23 de setembro de 2016.

No encontro haverá um simpósio dedicado à teoria mimética. Ressaltemos, em conformidade com a apresentação do simpósio, que não é preciso que as propostas de trabalhos sejam da área de literatura comparada, mas apenas que dialoguem com a teoria mimética.

O prazo para propor comunicações vai até 14 de junho. Os resumos devem ter de 400 a 500 palavras, como diz a ficha de inscrição.

Para alunos de pós-graduação, será preciso associar-se à ABRALIC (R$ 200) e pagar a taxa de participação no encontro (R$ 40). O primeiro prazo de associação será 30 de junho, e a associação pode ser feita após a aprovação da comunicação.

Você pode seguir a ABRALIC no Facebook e no Twitter, e, é claro, ir ao próprio site da ABRALIC.

TEORIA MIMÉTICA: DESDOBRAMENTOS E POSSIBILIDADES

> COORDENADORES:

Marcus Vinícius Nogueira Soares – UERJ

> Johannes Kretschmer – Universidade Federal Fluminense

> RESUMO: A trajetória de René Girard teve como base a interdisciplinaridade. Seu primeiro livro, Mentira Romântica e Verdade Romanesca (1961), é um brilhante ensaio de crítica literária e de literatura comparada. Em seu segundo livro A Violência e o Sagrado (1972), o "crítico literário" reinventou-se, ampliando suas áreas de interesse até abarcar a antropologia, os estudos da religião e a análise do mito. Por fim, com a publicação de Coisas Ocultas desde a Fundação do Mundo (1978), como o título sugere, em sua alusão ao Evangelho de São Mateus, o "crítico literário-antropólogo" voltou a forjar uma nova identidade por meio de uma apropriação muito particular das Escrituras. A partir de então, a preocupação teológica e antropológica constituiu o eixo de sua teoria. O cruzamento das duas disciplinas não só levou à elaboração de uma antropologia propriamente mimética, como também favoreceu o esboço de uma teologia antropologicamente orientada. Mencione-se ainda uma leitura antropológica que encontra na Bíblia a matriz da noção de intertextualidade. Nos dois casos, a força da obra girardiana reside na capacidade ímpar de descobrir relações inesperadas entre textos das mais distintas tradições. A formação de paleógrafo e de crítico literário deixou marcas permanentes em sua reflexão. Assim, mesmo quando suas preocupações intelectuais conheceram novos rumos, a leitura detetivesca de textos continuou a ser um dos traços mais originais de sua abordagem. Dado o caráter interdisciplinar da Teoria Mimética, este simpósio acolherá propostas que se relacionem com os pressupostos do pensamento girardiano.

Palavra-chave 1: René Girard

Palavra-chave 2: Teoria Mimética

Palavra-chave 3: Violência

Palavra-chave 4: Bode expiatório

Entre a mentira romântica e a verdade romanesca

Uma das importantes observações feitas por João Cezar de Castro Rocha em suas introduções à coleção René Girard da É Realizações é a seguinte: mesmo em seus escritos sobre literatura, Girard não está interessado na literatura em si, na literatura como entendida pelas faculdades de Letras, na “literariedade”, mas na capacidade que a literatura tem de investigar o desejo mimético, o contágio da violência etc. Não por acaso, a obra de Girard logo passa da literatura à antropologia, e depois se dirige para os estudos bíblicos. Em alguma entrevista (o leitor fica convidado a enviar o link), alguém dizia que, antes de escrever Rematar Clausewitz, Girard estaria na dúvida entre trabalhar com Virginia Woolf (especialmente o romance The Waves) ou com Carl von Clausewitz; sabemos qual foi sua decisão.

Na leitura mais superficial de Mentira Romântica e Verdade Romanesca, logo ficamos sabendo que existiriam dois tipos de obras. A “mentira romântica” englobaria as obras nas quais existe uma relação direta de desejo entre o sujeito e o objeto. A “verdade romanesca” dos cinco autores discutidos no livro — Cervantes, Stendhal, Flaubert, Dostoiévski e Proust — consistiria em trazer a natureza mimética ou triangular do desejo para o primeiro plano. Alonso Quijano torna-se Dom Quixote para imitar os livros que lê; Emma Bovary tem amantes para ter uma vida cheia de emoções, como as das heroínas dos romances que lê. Julien Sorel quer ser como Napoleão. Nas obras de Dostoiévski e de Flaubert, encontramos a predominância da “mediação interna”: os personagens imitam mais a si mesmos do que figuras distantes de seus mundos “espirituais”, caracterizando a “mediação externa”.

Contudo, o próprio Girard comenta que a percepção do mimetismo nos autores estudados pode ser escalonada em graus. Nenhum destes chega a um esboço de sistematização (exceto Shakespeare, que viria a ser discutido em Teatro da Inveja), trabalho que fica com a teoria. Porém, como o próprio Girard fala, no prefácio a To Double Business Bound, do “potencial quase-teórico da literatura”, não apenas a continuidade entre literatura e crítica fica estabelecida, como abre-se a porta para uma resposta satisfatória à questão de muitos leitores, sem a menor pretensão de tornar-se críticos literários, lerem literatura para entender melhor as próprias vidas.

Do lado crítico, uma das primeiras observações a fazer é que muitas vezes a mentira romântica e a verdade romanesca aparecem juntas na mesma obra. Por exemplo, o breve primeiro romance de Michel Houellebecq, Extension du Domaine de la Lutte [Extensão do Domínio da Luta], que reúne praticamente todos os temas que virão a ser tratados em seus romances posteriores, mistura a consciência aguda da competição violenta pelos mesmos objetos com uma crença determinista de que o desejo por esses objetos é totalmente ordenado por uma lei natural e impessoal — não por um terceiro, próximo ou distante. Todavia, como no caso do tarantismo, é a crença nessa lei impessoal, “natural”, que permite a Houellebecq abordar a onipresença da violência.

Assim como no caso de um continuum entre o conhecimento e a méconnaissance, mesmo que tenhamos a verdade romanesca e a mentira romântica como pólos ideais, existe um enorme terreno pelo qual forçosamente nos movimentamos, sem no entanto perder de vista a dimensão ética, orientada pelo reconhecimento da centralidade de um outro na estruturação do eu.

Da Guerra ao Ritual: as Árvores Sagradas dos Chimpanzés

por Christiano Galvão

Entre os anos de 1974 e 1976, uma equipe de etólogos comandada por Jane Goodall registrou uma série de confrontos violentos, ocorridos entre dois clãs de chimpanzés selvagens africanos, que poriam em cheque muito do que até então se supunha saber acerca do comportamento desses animais. Tudo começou com o assassinato, ou melhor, com o linchamento assassino sofrido por Godi, um jovem chimpanzé macho que pertencia ao clã do Vale Kahama – um dos vários clãs que habitam o Parque Nacional de Gombe, na Tanzânia. Segundo o testemunho de Hilali Matama, colaborador local da equipe, Godi estava sozinho, comendo ramos, quando um grupo de chimpanzés composto por cinco machos adultos, uma fêmea e seu filhote (todos do clã do Vale Kasakela), encurralaram-no e iniciaram um espancamento brutal, como jamais havia sido observado desde o surgimento da primatologia. Escaramuças entre primatas eram e ainda são bastante comuns quando há disputa por um objeto (reservas de água ou de comida, parceiros para acasalamento, etc.), mesmo dentro do próprio clã. Porém, essas disputas nunca tinham chegado ao nível de agressividade e, sobretudo, de atuação estratégica como naquele confronto. Era a primeira vez que se observava um grupo agir contra uma vítima isolada. E mais, um grupo constituído não só de machos.

Os agressores se aproximaram por trás, sorrateiramente e em fila. O ataque começou com dois deles agarrando as pernas de Godi, enquanto um terceiro, o maior do bando, saltou sobre sua cabeça deixando seu corpo de bruços e inteiramente vulnerável. Sobreveio então a saraivada de golpes, mordidas e pedradas. Os grunhidos de dor da vítima misturados aos gritos dos atacantes, ressoando num frenesi furioso, silenciaram a floresta. Após dez minutos de surra, Godi morreu. A convivência entre os dois clãs, que até então fora tranquila e sociável, se degradaria de modo irreversível. Não sabe se o conflito tinha começado antes, e se Godi tinha sido a vítima fatal de uma série de retaliações que estariam imperceptivelmente em transcurso. O fato é que seu assassinato, tal como o de um Franz Ferdinand simiesco, iria desencadear uma escalada de ataques e contra-ataques violentos, caracterizando uma situação de guerra, que se prolongaria por três anos e só terminaria com a morte do último macaco do Vale Kahama.

Os chimpanzés eram assassinos e vingativos!… Essa constatação provocou tamanha perplexidade, demandando uma avaliação tão cuidadosa, que Jane Goodall só a tornaria pública em 1990, no livro Through a Window: My Thirty Years With the Chimpanzees of Gombe1 (na edição brasileira: Uma Janela para a Vida: 30 Anos com os Chimpanzés da Tanzânia. Trad. Eduardo Francisco Alves. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991. Cap. 10: “A Guerra”). Pouco depois, notícias de assassinatos singularmente violentos (embora não com a proporção de um conflito generalizado) ocorridos entre outros primatas superiores, como orangotangos e gorilas, foram sendo continuamente divulgados. Questionou-se se aquilo seria um novo fenômeno comportamental, ou uma característica latente que estava se manifestando em decorrência de contingências ecológicas atípicas. Até agora, não há qualquer conclusão definitiva.

Comentando estas ocorrências, René Girard afirmou que, conquanto fossem potencialmente relevantes, seria precipitado dizer se elas tinham algo a acrescentar à teoria mimética. E que, aparentemente, elas ainda não facultavam uma aplicação direta desta teoria nas pesquisas etológicas. Com a prudência que lhe era peculiar, e ainda com a costumeira ironia, Girard exortou a não se deixar entusiasmar com estes fatos e acreditar que, em razão de comportamentos violentos estratégicos, os primatas decidiram tornar-se estruturalistas e jogar o jogo cultural lévi-straussiano!2 Mesmo que ali estivesse esboçado o mecanismo da vítima expiatória, e ainda que fosse notável o mimetismo das reciprocidades violentas, far-se-ia necessário que tudo isso resultasse no surgimento de uma ordem simbólica capaz de conter a violência. E, mais, o centro de significação dessa ordem devia ser fornecido pela própria vítima expiatória.3 Porém, nada disso havia se verificado.

Ocorre que, recentemente, num artigo publicado na revista Nature, um grupo de etólogos descreveu um estranho comportamento entre os chimpanzés que habitam uma região que vai da Costa do Marfim à Guiné-Bissau, cujas características exorbitam qualquer funcionalidade social presumível (alimentação, cópula, status), assumindo inusitados aspectos rituais. A descoberta foi quase incidental, motivada por guias nativos que chamaram a atenção dos etólogos para árvores ocas, e outras cujas raízes salientes, conformando reentrâncias, estavam repletas de pedras que eram ali depositadas por esses macacos. Intrigada, a equipe comandada pela primatóloga Laura Kehoe, da Universidade de Berlim, instalou câmeras automáticas nas imediações destas árvores (que, aliás, eram muitas) no intuito de averiguar se de fato aquilo era obra dos símios. Após duas semanas de filmagens ininterruptas — tempo que dura a baterias destas câmeras — eles obtiveram imagens que não só confirmavam o fato, mas também revelavam uma conduta nos chimpanzés que era tão incomum quanto misteriosa.

Tratava-se de um comportamento aparentemente padronizado, em que os chimpanzés, na maioria das vezes sozinhos, aproximavam-se de alguma destas árvores, olhavam em volta como se estivessem constrangidos, e, numa crescente ansiedade, pegavam a primeira pedra com que se deparavam, arremetiam contra elas e logo se retiravam em fuga. A pesquisa foi ampliada com a instalação de câmeras em todos os vales onde houvesse pedras amontoadas em árvores. Com efeito, depois de quatorze meses de coletas de dados, verificou-se que o rito se repetia em todos os lugares, e com poucas variações: ora a pedra era arremetida contra a árvore usando uma das mãos, ora usando ambas; em alguns casos ela era coletada fora da árvore, já em outros era retirada do amontoado interno e novamente arremetida. Por vezes os chimpanzés balançavam o corpo antes do arremesso, noutras esperneavam. Alguns gritavam antes de arremeter, outros depois. Mas sempre evadiam-se agitados.

O desgaste destas árvores e a ampla área ao longo da qual elas foram rastreadas indicam que não se trata de uma prática recente e tampouco restrita a um clã. Os indícios estavam por toda parte, só que nenhum dos etólogos tinha percebido. Agora a equipe se empenha em propor hipóteses que elucidem esse comportamento. A primeira delas, pouco plausível, aventou que seria um rito de autoafirmação dos machos, no qual o barulho produzido pelo arremesso das pedras serviria como uma demonstração de força. Porém, três constatações desabonam esta conjetura: primeiro, o rito não é praticado exclusivamente por machos (havia fêmeas com filhotes nas costas); segundo, o rito é quase sempre solitário, não havendo para quem se exibir; e, por fim, o barulho diminui à medida que a pilha de pedras aumenta. A outra hipótese, mais coerente com os dados, pautando-se pelo fato de que estas árvores estavam situadas nas zonas intermediárias entre os habitat dos vários clãs, tem cogitado um rito de interdição através dos quais os chimpanzés estariam delimitando seus respectivos territórios. Isso explicaria a ansiedade agressiva e recorrente que eles demonstram na execução do rito, e que parece ter um efeito catártico.

Considerando que essa hipótese venha a ser a mais provável, caberá então questionar por que esse rito se realiza como um apedrejamento? Seria esse ato uma advertência, uma rememoração, ou as duas coisas? Qualquer que seja a alternativa acatada, restará, invariavelmente, a convicção de que essas árvores têm uma carga simbólica bastante acentuada, cuja mensagem é muito clara e padronizada, precisando apenas ser repetida para firmar um princípio de ordem territorial. Com efeito, alguns arqueólogos já começam a sondar paralelos entre essas árvores e os remotíssimos amontoados de pedras da pré-história humana, mapeadas em todas as latitudes do planeta – quer sejam pirâmides, dólmens, estelas, ou mesmo os nossos sambaquis – que, por acumularem as funções de túmulo e/ou santuário, servem ao mesmo tempo como referência territorial e zona de interdição sagrada. Esses paralelos, se confirmados, poderiam franquear a inserção da teoria girardiana nas pesquisas etológicas como um paradigma interpretativo imprescindível. Pois, desde sua perspectiva, poder-se-ia sondar uma possível correlação entre a violência da prática ritual e a violência dos confrontos assassinos ocorridos entre os clãs.

Convenhamos que qualquer resposta só será obtida a longuíssimo prazo. Não obstante, para estes etólogos os dados parecem ratificar a emergência de uma ordem simbólica, de um fator pré-cultural de socialização; tanto que já se referem a esse comportamento em termos de uma “tradição simbólica”, que pode iluminar prospectivamente o futuro destes primatas ao mesmo tempo em que esclarece retrospectivamente alguns dados do nosso passado.

Referências

GIRARD, René. Um Longo Argumento do Princípio ao Fim. Trad. Bluma Waddinton Vilar. Rio de Janeiro: Topbooks, 2000.

GOODALL, Jane. Through a Window: My Thirty Years With the Chimpanzees of Gombe. Boston: Houghton-Mifflin, 1990.

______________. Uma Janela para a Vida: 30 anos com os chipanzés da Tanzânia. Trad. Eduardo F. Alves. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991.

Notas

  1. GOODALL, Jane. Op. cit. Boston: Houghton-Mifflin, 1990. pp. 98-112. Disponível online
  2. GIRARD, René. Um Longo Argumento do Princípio ao Fim. Trad. Bluma Waddinton Vilar. Rio de Janeiro: Topbooks, 2000. pp. 115-121. ↩︎
  3. Ibid. ↩︎

Méconnaissance e totalitarismo em The Wire

Num artigo para a Revue des Deux Mondes, René Girard define o totalitarismo como “ter um bode expiatório sabendo-se que se tem um bode expiatório”. É uma diferença fundamental para a sociedade primitiva, pois nela o mecanismo do bode expiatório depende, como se sabe, da méconnaissance, isto é, de uma organização dos dados feita a partir do ponto de vista dos agressores. E se, como vimos anteriormente, no caso do tarantismo, é a crença num elemento “mágico” que permite que certos dados sejam abordados, no totalitarismo não haveria nenhuma crença que servisse de justificativa. Se cruzarmos essa definição com a noção de méconnaissance, veremos que o aspecto voluntário desta fica enfatizado. Como a méconnaissance não é uma ignorância, mas uma determinada organização dos dados que permite uma ação menos eficaz sobre o mundo. Também podemos dizer que o totalitarismo, pensando na definição dada por Girard, é antes uma atitude de méconnaissance cínica que pode estar presente em qualquer ato estatal, ainda que, é claro, não necessariamente em todos os atos estatais, independentemente de o regime que pratica o ato ser “democrático” ou “totalitário”.

Considerando o vasto gênero de obras que pretendem criticar esses atos estatais de méconnaissance “inocente” ou totalitária, é hoje impossível não destacar a série americana The Wire, julgada por muitas pessoas (inclusive por mim mesmo) a melhor produção televisiva de todos os tempos.

A trama de The Wire começa de um jeito que poderia parecer familiar aos brasileiros: um tenente da polícia de Baltimore monta uma força especial para combater traficantes e assassinos usando antes a violência do que a força bruta. No entanto, alguns de seus subordinados acham que esse negócio de inteligência é ridículo, e que o negócio é ir até onde os bandidos moram e mostrar quem é que manda — a polícia, claro. Os três chegam de carro a um dos projects, os conjuntos habitacionais de Baltimore, e começam a gritar, ameaçando os moradores, que respondem sem pudores, lançando garrafas e até eletrodomésticos do alto do prédio. Logo os temerários policiais são abordados por alguns rapazes. Um deles, menor de idade, dirige-se ao agente Pryzbylewski — na série, tratado quase sempre como “Prez” — de maneira, digamos, irreverente. Prez dá-lhe uma coronhada na cara; o garoto acabará, nos episódios seguintes, perdendo a visão do olho golpeado.

(O vídeo mostra a sequência inteira e termina com a fala de Daniels.)

Não, agente Pryzbylewski. Ele não ‘te irritou’. Ele fez você temer pela sua segurança e pela de seus colegas. Imagino até que talvez… Alguém o tenha visto pegar uma garrafa e ameaçar os agentes Hauk e Carv, os quais já tinham sido sofrido ferimentos causados por projéteis voadores. Em vez de usar força letal numa situação como essa, talvez você tenha preferido abordar o menor, ordenando que ele largasse a garrafa. Talvez, quando ele ergueu a garrafa de maneira ameaçadora, você tenha usado uma lanterna, e não sua arma de serviço, para incapacitar o suspeito. Se você falar besteira quando falar com a corregedoria, eu não tenho como dar um jeito, você vai ter de se virar.1

Destaquemos as observações principais:

  1. A vítima da coronhada é o garoto, agredido de maneira indiscutivelmente desproporcional.
  2. Pryzbylewski poderia ser “vítima” da corregedoria.
  3. O tenente Daniels quer “ficar do lado” de seus homens para não ser ele próprio mal visto. (Dizer que “ser mal visto” seria equivalente a “ser perseguido” parece um exagero, mas talvez se possa dizer que qualidades “mal vistas” se aproximam de “sinais vitimários”.)
  4. Ao mesmo tempo, o tenente Daniels pode ficar mal visto se sua nova unidade estrear praticando a mesma violência inútil que ele próprio condenou.
  5. Todos os agentes, exceto o garoto golpeado, são agentes estatais.

Lembremos que a vítima da coronhada não é um bode expiatório no sentido “técnico” de A Violência e o Sagrado (ele teria de voltar e apaziguar uma comunidade inteira para isso, ser divinizado etc.), mas é sem dúvida um bode expiatório em sentido corrente, alguém que recebe a culpa por conveniência.

O detalhe mais interessante é que os policiais não seriam “vítimas” no mesmo sentido que o garoto foi vítima de uma coronhada. Os policiais passariam por processos administrativos e não sofreriam qualquer violência física institucional. No entanto, um dos mocinhos da história, o tenente Daniels, destaca-se por saber manejar a linguagem burocrática e preservar a instituição de suas próprias faltas; a violência praticada por policiais em serviço é, por definição, institucional.

Daniels tem remorsos, acompanha a situação do garoto, é acordado no meio da noite quando ele perde a visão. Ele sabe o que fez: tem consciência, mas não tem medo. Seus superiores não vão repreendê-lo, e, no fim, a única pessoa que vai sofrer terá sido o garoto, sem que qualquer um dos envolvidos desconheça alguma causa fundamental daquele ato de violência.

  1. No original: “No, officer Pryzbylewski. He did not ‘piss you off.’ He made you fear for your safety and that of your fellow officers. I’m guessing now, but maybe… He was seen to pick up a bottle and menace officers Hauk and Carv, both of whom had already sustained injury from flying projectiles. Rather than use deadly force in such a situation, maybe you elected to approach the youth, ordering him to drop the bottle. Maybe when he raised the bottle in a threatening manner, you used a Kel-Lite instead of your service weapon to incapacitate the suspect. Go practice. You fuck the bullshit up when you talk to internal I can't fix it, you're on your own.” ↩︎

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