Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

Month: julho 2016

Rematar Clausewitz: Book Trailer

Está excelente o book trailer de Rematar Clausewitz, livro fundamental para compreender a ligação entre o colapso da guerra como instituição e a ascensão do terrorismo.

O livro pode ser comprado aqui.

Memórias de Uma Possessão

por Christiano Galvão

Se o universo romanesco – no sentido girardiano do termo – é um universo de possessos1, o romance “Até você saber quem é2, livro de estreia do escritor paranaense Diogo Rosas G., parece se inserir nesta categoria literária, na qual é possível vislumbrar as forças irreprimíveis e obsedantes do desejo transmudarem-se numa presença sombria, num outro, que se exterioriza, se personifica, até assumir aspectos demoníacos. Ainda que o autor alegue ter pouco a nos oferecer – dizendo que sua narrativa não é uma reportagem investigativa nem uma biografia, mas apenas o testemunho de um amigo, ou melhor, de um sobrevivente! – aquilo que ele narra, com precisão, sem excesso nem míngua, basta para revelar a fundura do terreno movediço pelo qual nos conduzirá.

Esse terreno são as lembranças de Roberto, a testemunha sobrevivente da perigosa e brilhante trajetória do escritor Daniel Hauptmann, seu amigo de convívio mais longo e íntimo. Numa narrativa que é, ao mesmo tempo, envolvente e sinistra, Roberto nos conta como Daniel, um precoce gênio literário, muito consciente de suas possibilidades, tanto quanto de sua torturante insignificância, empenha-se angustiadamente numa realização pessoal, e, como um Fausto contemporâneo, acaba por buscar no Maligno uma autoafirmação cínica de si mesmo. Porém, sem recorrer à magia romântica de Goethe, o autor aqui tem a sutileza de mostrar um homem que é já um possesso antes mesmo de se fazer pactário. E expõe a experiência de uma “queda” que, como bem observa Girard, possui uma força prodigiosa no plano da criação romanesca, por reverberar com toda a intensidade das crises existenciais3.

Obviamente, a força criadora do romancista também é determinante para a escolha desses temas e, sobretudo, para sua reconfiguração ficcional. E isso fica patente na agilidade fascinante, e capciosa, com que o autor maneja as memórias de Roberto, interligando temporalidades diversas, para delinear a personalidade intrigante de Daniel Hauptmann. Nesta sobreposição de perspectivas, nos deparamos com um jovem frustrado, insatisfeito, desesperado por não saber empregar seus talentos; e que padece a incerteza de uma chance, de um reconhecimento, tanto quanto o descrédito dos amigos e as cobranças intransigentes dos familiares. Circunstâncias que inoculam nele um ressentimento que se apura e, posteriormente, o possui.

Ressentido, Daniel Hauptmann odeia a faculdade de direito para a qual foi empurrado, desviando-se de seus propósitos; odeia a sua cidade natal, Curitiba, como um lugar de gravitação aprisionante que a todos paralisa e embota… Aliás, a ênfase que o autor dá ao ressentimento revela uma intuição estupenda da natureza do desejo que fervilha nesse personagem e, por vezes, denuncia-se na fúria gratuita de um gesto ou de um olhar:

Daniel olhava pra o céu azul através da janela aberta. Seu rosto, a princípio sereno, retesou-se devagar numa feia careta, sobrancelhas franzidas, com intensidade. Sem perceber que estava sendo observado, ele respirava pesadamente pelo nariz e projetava diante de meus olhos um filme mental de memórias de ódio e angústia4.

Essas expressões, tão repentinas quanto medonhas, deixam entrever aquilo que o habitava e que um dia se manifestaria violentamente. Antes disso, porém, Daniel buscava experiências compensatórias, e que pudessem introduzi-lo no mundo literário. Torna-se então tradutor, juntamente com Roberto – atividade que o contentaria, mas sem o apaziguar. Afinal, são pelas traduções casuais de poemas e tratados antigos que ele se depara com obras cujo tema é o “mistério da iniquidade”. Aos poucos, Daniel começa a perceber acenos furtivos do Demônio: quer seja nos versos de uma música que alguém canta, no número da rua onde sua namorada reside, ou até mesmo na fatalidade de um acidente de carro. Seus sentidos estão mais atentos, ou sugestionáveis, e captam, por toda parte, analogias possíveis que, pouco a pouco, o aproximam da realidade do Mal.

As lembranças de Roberto deixam a impressão de que foi a contemplação dessa realidade escusa que induziu Daniel a provar sua eficácia, e tentar obter dela algum benefício. É quando então lhe ocorre a ideia, radicalmente mimética, de emular o grande clássico da literatura nacional protagonizado pelo Demônio: Grande Sertão: Veredas!

A empreitada surte o efeito desejado. Daniel apropria-se do tema e consegue criar um romance ainda mais insólito – Os Diálogos do Castelo – que logo vira um best-seller e o eleva ao cume da carreira que tanto cobiçava. Roberto, que se torna seu agente literário, conta-nos como, a partir dali, Daniel usufruiu do prestígio mais irrestrito; como se tornou brilhante, vaidoso, promíscuo, espirituoso, caprichoso, altivo, apaixonado por si e pela sua obra. Depois de ter sofrido com a mediocridade como quem sofre a privação de um sentido, ele viu-se transformado no centro atrativo de todas as estimas, favores e elogios. Uma situação que concretizava a imagem de domínio e elevação denotada em seu sobrenome alemão: Hauptmann.

Porém, Roberto lembra também os requintes de soberba que ele demonstrava no trato com algumas pessoas, ora afetando indiferença ou antipatia, ora sendo francamente hostil. Essas atitudes levantam a suspeita de que Daniel estaria assimilando os procedimentos daquele em quem se tornara perito. E ele próprio parece sugerir isso numa das frases de seu tenebroso best-seller:

A inteligência, a sensibilidade e a espiritualidade  de Satã são sempre exatamente proporcionais à inteligência, à sensibilidade e à espiritualidade do indivíduo sobre quem ele está trabalhando.5

Essa sentença alude à reciprocidade vinculante que caracteriza o fenômeno dos duplos, e nos leva a questionar: quem estaria possuindo quem? Fica a impressão de que Daniel reforça e ostenta sua conduta antissocial com o fim de tornar mais convincente a figuração do Maligno em sua obra. Era como um empréstimo, ou permuta, pela qual ele canalizava seus ímpetos violentos e os objetivava no protagonista de Os Diálogos do Castelo. Mas de tanto dar voz e feição ao Tentador, Daniel, inopinadamente, começa a pressentir que aderir ao Mal é, a rigor, aderir ao Nada.

Talvez isso explique as oscilações bruscas de humor que, gradativamente, vão se agravando e desbotando o valor de todas as suas conquistas. Roberto nos fala então de um Daniel insone e outra vez frustrado em razão de algo que nem ele mesmo sabe o que seja, mas cuja ausência lhe é insuportável. O sucesso, que lhe trouxe tudo, parece tê-lo precipitado numa apatia em que seus desejos já não têm onde se fixar, e passam a vigorar num nível metafísico que o impeliria para qualquer obstáculo.

Tal como a figura bíblica do demônio que reencontra sua antiga morada em ordem e traz outros piores do que ele para ali habitar – o ressentimento retorna e o enreda num jogo de reciprocidades que se pervertem progressivamente. Daí a pouco, percebe-se que Daniel já não consegue mais dominar ou mesmo dissimular tal situação, mas que é ela que o domina. Nesse pormenor, faz-se ainda mais notável a intuição romanesca de Diogo Rosas G., que apreende esse fenômeno e confere aos obstáculos que ele demanda o aspecto simbólico que, de Goethe a Dostoiévski, de Thomas Mann a Guimarães Rosa, aparece como o “espírito que obstinadamente nega”!… Um espírito contra o qual, diz-nos Girard, todos os possessos se chocam, porque com ele se identificam, e nele querem se transformar6.

Desta perspectiva, a descrição do pacto de Daniel Hauptmann, tal como o autor a concebeu, é absolutamente genial. Sem entrar nos detalhes da cena arrepiante, basta dizer que nela podemos compreender o mistério do Mal como uma interação destrutiva entre duplos. Tema que, aliás, está presente em todo o romance, mas, sob formas tão variadas e esquivas, que só aos leitores mais atentos tornam-se perceptíveis.

Se o diabo – como diz o adágio – mora nos detalhes, ninguém deve se deixar levar pela fluidez e concisão deste romance singular. A cada página, Diogo Rosas G. desafia nossa capacidade leitura e usa as memórias de Roberto para mostrar mais do que conseguimos enxergar. Reparando então não somente no que está sendo dito, mas também no que é silenciado, talvez o leitor consiga corresponder à provocação expressa no título. Afinal, em suas páginas lê-se não apenas um, mas dois romances, com relatos e pontos de vista justapostos, dizendo de uma pessoa que acredita, segue e compactua violentamente com uma alteridade literária que ela própria promoveu. Trata-se, portanto, de um ardiloso jogo de duplos que põe em debate a verdadeira identidade do Maligno, e pode exigir mais de uma leitura “até você saber quem é”.

NOTAS

  1. GIRARD, René. Mentira Romântica e Verdade Romanesca. Trad. Lilia Ledon da Silva. São Paulo: É-Realizações, 2009. p. 341. ↩︎
  2. ROSAS G., Diogo. Até Você Saber Quem É. Rio de Janeiro: Record, 2016. ↩︎
  3. GIRARD, René. A Crítica no Subsolo. Trad. Martha Gambini. São Paulo: Paz e Terra, 2011. p. 23. ↩︎
  4. ROSAS G., Diogo, op. cit. p. 55. ↩︎
  5. Ibid., p. 67. ↩︎
  6. GIRARD, René. A Crítica no Subsolo. Trad. Martha Gambini. São Paulo: Paz e Terra, 2011. p. 110. ↩︎

A Nostalgia do Obstáculo Bondoso (um pouco de Downton Abbey)

Um dos grandes produtos culturais de exportação da Inglaterra é a série televisiva de época, que lá é chamada de period drama, drama de época, ou de costume drama, drama de figurino. A expressão “drama de figurino”, por sua vez, vale uma pequena meditação sobre a razão do sucesso desses dramas.

Vestidos com armações e espartilhos; fraques e cartolas; mais do que isso, a conveniência nada desprezível, assim que a situação econômica permite, de ter um criado que ajude você a se vestir. O traje das pessoas, jamais ditado apenas pela conveniência, aponta para a necessidade de fazer figura o tempo todo. Fazer figura, representar um papel sem a menor sensação de que se está apenas representando: papéis de mãe, pai, esposa, marido, filha, filho, com regras bastante claras.

Regras praticamente inquebráveis. E se você for quebrar uma regra… melhor ter um romancista para defender você, para explicar como a regra X foi quebrada mas na verdade foi para atender à regra Y que lhe é superior. Por exemplo: casar-se estritamente por amor.

O drama por trás dessa regra não é estruturalmente distinto de outros dramas menores. O espectador de Downton Abbey certamente tinha entre seus personagens favoritos Carson, o mordomo que guardava todas as regras. Quem não se lembrará de que, para Carson, era impensável que uma ajudante de cozinha — ou qualquer mulher — servisse a mesa junto com lacaios (footmen). Para essa regra ser quebrada, seria preciso uma situação realmente extraordinária.

Em cada situação social, havia, desde o ponto de vista moderno, inúmeros nãos: não falar certas palavras, não sentar-se de certo modo, e, para uma mulher, nem sequer sair desacompanhada!

Se a enunciação dessas regras de convivência pode causar até um certo escândalo, por que gostamos tanto de assistir a séries em que os personagens aceitam de bom grado submeter-se e elas, mesmo quando ameaçam não simplesmente sua felicidade, mas até sua tranquilidade?

No romance Middlemarch, por exemplo (também adaptado como costume drama pela BBC…), Dorothea Brooke acha que fez um péssimo negócio ao casar-se. Pior ainda, apaixona-se pelo cunhado. O que ela faz? Espera pacientemente o marido… morrer. E, depois da morte, ela e o cunhado têm sérios pudores quanto a verbalizar abertamente e entre eles próprios algo que sabem muito bem.

Para que meu argumento fique claro, convido o leitor ou a leitora ao seguinte exercício: se esse cunhado estivesse com uma camisa desabotoada no peito e mocassim, se essa senhora estivesse com um vestido solto e confortável, mas que demarca suas formas enxutas e cuidadas pelo personal trainer, se o cenário fosse o interior inglês de hoje, e “hoje” estivesse marcado por um modelo recente de BMW estacionado em frente à mansão… Esse drama seria aceitável? Por que essa mulher pelo menos não se divorciou? Ela nem era pobre…

Coloquemos de volta o figurino, em sentido amplo, e o drama se restabelece. Torcemos pelo amor de Dorothea e de seu cunhado, mas também torcemos para que o mundo em que eles vivem permaneça exatamente igual, e para que pessoas como eles continuem existindo.

A essa altura não é preciso acrescentar a primeira lição, que é óbvia e arquiconhecida: o obstáculo aumenta o desejo. Os sentimentos dos personagens-figurinos parecem mais intensos do que os sentimentos de personagens de jeans e tênis porque os primeiros estão submetidos a trocentas regras e os segundos podem fazer o que bem entendem. Por poderem — podermos — fazer o que bem entendem, seus principais sentimentos são angústia de não saber o que fazer e o tédio por já ter experimentado inúmeras coisas.

Isso explica o interesse das séries: qualquer pessoa prefere dedicar uma hora do seu dia a uma realidade que lhe parece mais intensa do que a sua própria do que a uma realidade que parece ter a mesma intensidade (não muita).

Agora, por que não existe revolta contra as regras que, se fossem aplicadas a nós mesmos, seriam consideradas intoleráveis?

Porque, em termos girardianos, são regras de mediação externa, nas quais as pessoas realmente acreditam. Elas têm antes de tudo a esperança de estar à altura dos papéis modelares que lhes foram reservados. O cunhado de Dorothea Brooke não veria o irmão como um rival; ele veria a situação toda como algo impensável. Mesmo Dorothea acharia que deve conter seu ressentimento do marido por causa de seus deveres de esposa, por ter desejado aquele casamento. A esperança de cada personagem é encontrar seu lugar numa ordem que lhes parece perfeitamente clara e boa, ordem essa na qual eles próprios acreditam.

Não por acaso Downton Abbey documentou certas mudanças na sociedade inglesa, mudanças trazidas sobretudo pela Primeira Guerra Mundial, mas apresentou seu último capítulo antes que as coisas mudassem demais. Os roteiristas e o público sabem perfeitamente que Carson têm razão: na hora em que se permitir que uma ajudante de cozinha sirva a mesa de um jantar aristocrático, onde é que esse mundo vai parar? Vai parar num lugar onde não se acredita mais que um obstáculo ao seu desejo possa ser um bem, e toda uma gama de possibilidades dramáticas extinguiu-se. A menos que a cena recomece em outro castelo, em outra região…

Porém, a situação é um pouco mais complicada. Retornaremos ao tema.

No Subsolo com Morrissey

Durante um show no Hollywood Bowl em 2007, logo antes de cantar The Boy with the Thorn in His Side, Morrissey cede o microfone a uma senhora da plateia, aparentemente da mesma geração que ele. Ela lhe faz elogios rasgados. Ele, sem demonstrar a menor emoção, simplesmente diz: “Eu paguei para que ela dissesse isso” (I paid her to say that). A plateia não ri. A banda começa a tocar. A música fala de um garoto com um espinho cravado no lado do corpo, que deseja desesperadamente ser amado.

Fui relembrar Morrissey após ficar ouvindo The Smiths, sua antiga banda, num restaurante. As letras me falavam do sujeito mais coitado do mundo — o sujeito desejante que, em tempos de mediação interna muito avançada, não tem qualquer referência externa. Afinal, como diz o título do mais famoso disco dos Smiths, The Queen Is Dead, a rainha está morta, isto é, não é mais possível crer na transcendência da ordem social, nem nas regras e tabus que continham, dirigiam e sublimavam o desejo. A posição social já não vale mais nada: seja você ferreiro ou rainha, precisa impressionar os outros, ao mesmo tempo em que demonstra não se impressionar assim tão facilmente com qualquer um.

Ou, para relembrar o título de um dos capítulos de Mentira Romântica e Verdade Romanesca, se os homens serão deuses uns para os outros, há muita vergonha em não ser um deus.

Já pode ir embora?

O sujeito que chega a esse cenário tem toda razão de ficar intimidado. Por isso Morrissey cantava em “How Soon is Now”: “eu sou o filho e o herdeiro de uma timidez criminosamente vulgar, sou o filho de nada em particular”. É melhor declarar que você não é ninguém antes que outro o faça. Porém, demonstrando o melindre do sujeito hipersensível, a letra muda de tom, e começa o fricote: “Cale a boca, como é que você pode dizer que eu faço tudo errado? Eu sou um ser humano que precisa ser amado, igual a todo mundo.” (Ainda resta uma tese de doutorado por fazer sobre a santarronice na cultura de massas.)

Mais uma mudança de voz: “Tem uma boate, se você quiser ir; vai que você encontra alguém que te ame de verdade.” E o tímido vulgar responde: “Aí você vai, fica sozinho, volta para casa sozinho, chora, e tem vontade de morrer.”

(Já não falavam em kidults nos anos 1980?)

O que também nos faz pensar na letra de “Unloveable”: “Eu sei que é impossível gostar de mim, não precisa me dizer…”

Uma luz que nunca se apaga

Em tempos de streaming, o usuário do Spotify que buscar “The Smiths” receberá imediatamente a informação de que a versão remasterizada “There Is a Light That Never Goes Out”, também de The Queen Is Dead é a música mais tocada da banda — no momento em que escrevo, em 8 de julho de 2016, são 49.917.386 execuções.

E do que fala a música? “Me leve para sair hoje à noite / Onde haja música, e gente jovem e viva”. É a mesma repetição do mesmo tema vinda do mesmo sujeito que contempla a sua total miséria. No entanto, sem que a letra dê qualquer sinal de que o sujeito saiu de casa, ele já começa a contemplar a própria morte: “E se um ônibus de dois andares bater em nós… Se um caminhão de dez toneladas bater na gente…”

Para quem passou a adolescência cercado por essas músicas, difícil não lembrar do que deve ter sido a única canção em que Morrissey pareceu ter consciência do buraco em que se metera: “Ask”. A letra diz: “A timidez pode impedir você de fazer as coisas que você quer.”

Impossível não imaginar a tia cuidadosa dizendo isso para o sobrinho de “How Soon is Now?”,

Estou cansado, quero dormir

Seria possível abrir uma discussão sobre a pertinência da “mentira romântica” para a cultura de massas. Por exemplo, no recente mega-sucesso editorial 50 Tons de Cinza, o leitor é informado desde o primeiro capítulo que o futuro objeto de amor da mocinha é admiradíssimo… pela melhor amiga da mocinha. Em momento nenhum o leitor é convidado a ligar uma coisa e outra, ao passo que quem tenha lido as primeiras dez páginas de Mentira Romântica e Verdade Romanesca enxergará isso de imediato.

Igualmente, nas letras pesquisadas dos Smiths, não existe qualquer consciência do papel do mimetismo, e talvez por essa razão as letras falem tanto de um sujeito que se debate sem saída. Ainda em The Queen Is Dead, Morrissey canta, em “I Know It’s Over”: “Eu sei que acabou, mas ainda me prendo”. Em “Asleep”, lado b do compacto de “The Boy with the Thorn in His Side”, Morrissey chega a desistir: “Estou cansado, quero dormir. / Cante para eu dormir.”

Ou ainda, como aparece na terceira canção mais executada dos Smiths no Spotify, já executada 31 milhões de vezes: “Please, please, please, let me get what I want”. “Por favor, por favor, por favor, deixe-me obter o que eu quero.”

Para quem escreveu, em “Cemetery Gates”, de The Queen Is Dead, que Oscar Wilde ganhava de William Butler Yeats, estamos muito, muito longe do dandismo; estamos já bem longe dos imitadores dos dândis.

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