“Preso num mal-entendido
como um inseto num cofre.”

Bruno Tolentino, “E lhe cantei então este acalanto”, de A balada do cárcere

I

Na pequenina autobiografia que preparou quando ganhou o prêmio Nobel, Daniel Kahneman destacou um episódio de sua infância. Judeu na Paris ocupada pelos nazistas, não podia estar nas ruas após um certo horário. Um dia ficou brincando na casa de um colega até mais tarde, e decidiu voltar para casa sem exibir na lapela a estrela que o identificaria como judeu – e, naquela hora, também como infrator. No meio do caminho, depara-se com um oficial das SS, e entende que sua situação é realmente perigosa. Tem medo. Porém, o oficial o abraça, mostra-lhe uma foto tirada da carteira, e ainda dá ao pequeno Daniel um pouco de dinheiro. O menino foi salvo simplesmente porque se parecia com outro menino conhecido do oficial, e aquilo que era para ser um duplo sinal de perseguição, que faria dele uma vítima duplamente legitimada na ordem nazista, foi simplesmente escamoteado, posto de lado, ignorado. O equívoco do oficial impressionou o menino, que viria a estudar justamente como e por que as pessoas se equivocam.

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O episódio, por sua vez, convida a que façamos outra leitura. Podemos imaginar o que diria dele o teórico francês René Girard, para o qual a ciência dos equívocos é fundamental. Para Girard, a cultura tem sua origem no culto sacrificial, e esse culto é uma imitação de um assassinato real, praticado por um grupo de pessoas. Nesses dois atos – o primeiro assassinato e sua imitação – existem dois equívocos, que Girard trata com a palavra francesa méconnaissance, a qual não tem uma correspondência perfeita em português. O primeiro equívoco está em essa primeira vítima ser o que hoje chamamos de “bode expiatório”: alguém escolhido arbitrariamente para pagar o pato.

Imaginemos uma comunidade primitiva de hominídeos, com cerca de 100 a 140 pessoas. Surgem rivalidades. Um homem deseja a mulher do outro. Outro queria um pedaço da caça que não lhe foi dado. Todos começam a colocar-se contra todos, e existe ódio no ar. De repente, alguém que é manco, ou que tem algo de esquisito, parece manifestar por sua diferença a causa dos males da comunidade. Esta, após matá-lo, experimenta uma catarse, que serve de confirmação daquele seu primeiro juízo espontâneo: se ele nos pacificou, é porque era culpado; e, se ele tem o poder de trazer a desordem e depois a ordem, é porque é um deus.

Porém, para Girard, é preciso inequivocamente ser capaz de repetir o primeiro equívoco. A comunidade hoje está pacificada, mas amanhã… Quem disse que as rivalidades vão cessar para sempre? E como foi mesmo que resolvemos isso mesmo? Vamos imitar aquilo que fizemos da primeira vez. Seremos obrigados a fazer outra vítima, para que não nos matemos todos uns aos outros.

O detalhe, o pequeno detalhe, é que esse equívoco permitiu enganar nossos instintos assassinos, criar uma economia da violência, e, com isso, a perpetuação da espécie. Foi também a origem da cultura. Daniel Kahneman deve sua vida individual a um equívoco; todos nós devemos nossas vidas a um equívoco que, permitindo que apenas poucos fossem mortos, impediu que todos se matassem. Se não houvesse um manco, um esquisito, não estaríamos aqui.

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É claro que existe uma ambiguidade na atitude nazista em relação aos judeus. Num episódio famoso, Goebbels quis dar um cargo ao diretor de cinema Fritz Lang. Este explicou ao ministro da propaganda que, por motivos genéticos, isso seria contrário às leis do Reich. Goebbels respondeu que ele é quem decidia quem era judeu e quem não era.

No caso de Goebbels não há equívoco, mas a pura e simples má fé. Provavelmente Goebbels também não acreditava que os judeus fossem efetivamente culpados de tudo de ruim que existia na Alemanha, apenas se valendo dessa ideia para gerar o equívoco nos outros. Violentos, todos somos; e todos precisamos dirigir nossa violência para algum lugar. Não podemos, decerto, lançá-la contra inocentes, e, num Estado de Direito, nem mesmo contra os culpados; porém, nada mais fácil do que manipular esse equívoco, literalmente o mais antigo do mundo, e ainda o mais comum.

No livro em que veio a resumir suas décadas de pesquisas, Thinking, Fast and Slow (publicado no Brasil com o título de Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar, pela Objetiva), Kahneman observa que temos mais facilidade para enxergar os equívocos dos outros do que os nossos. De fato, basta prestar atenção no que se diz em quase todas as discussões políticas: um lado sempre tem muita habilidade para apontar as incoerências e falsidades do outro. Mais ainda, um lado não diz apenas que o outro está respeitosamente errado; cada adversário pressupõe que o outro está cego, e o desmistifica; isso quando não supõe simplesmente sua má fé. Não existe um debate, mas uma disputa para ver quem é mais desmistificador. Aos nossos olhos, o outro é um idiota útil. Ou Goebbels.

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Na cruz, pouco antes do véu do templo rasgar-se, Cristo disse: “Pai, perdoai-os, porque não sabem o que fazem.” Na perseguição coletiva, há um equívoco: a vítima era inocente do pecado de que era acusada, que em última instância era causar todas as desordens da comunidade. Ela foi escolhida de maneira arbitrária, mas não totalmente aleatória. Como dito, bastava que ela tivesse algum defeito, uma diferença que resumisse a crise interna da comunidade. No caso de Cristo, ela pode ter frustrado as expectativas: quem esperava um líder político ganhou um rabino alternativo. Você deveria matar um rabino alternativo porque achou que ele ia libertá-lo do imperialismo romano? Não, mas você sente que sim, porque a frustração é enorme.

O efeito daquela morte, da narrativa daquela morte, é sentido ainda no episódio da vida de Daniel Kahneman: não precisamos que ninguém nos diga que não se deve matar meninos judeus para que a Alemanha volte a ser grande. (Permitam-me redimir-me: agora mesmo no Facebook vi uma divertida montagem observando que Trump, assim como Hitler, bebe água todos os dias.) Ao travarmos contato com qualquer história de perseguição, tendemos a tomar o lado da vítima. Se aquelas comunidades primitivas justificavam seus equívocos por realmente acreditar neles, por experimentar a catarse que lhes parecia mágica, nós entendemos que o ingrediente mágico é falso: a vítima não é culpada; nós continuamos violentos, e matá-la é só um mecanismo de regulação da violência, cujo efeito é adiar o problema da nossa própria transformação.

Porém, enquanto fomos empurrando com a barriga, sacrificando inocentes, a humanidade pôde desenvolver-se. Agora que sabemos que as vítimas eram inocentes, ficamos sem a mágica. Nossas perseguições não podem ser ritualizadas para gerar cultura. O resultado é kitsch, grotesco, desprovido de credibilidade: nazismo.

Ou, como disse René Girard: totalitarismo é ter um bode expiatório sabendo-se que se tem um bode expiatório.

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Por que os judeus? Talvez Kahneman pudesse arriscar uma resposta. Girard é quem observa (muito didaticamente em Evolução e Conversão, longa entrevista dada a Pierpaolo Antonello e João Cezar de Castro Rocha) que a escolha das vítimas é arbitrária. Elas têm sinais, diferenças. Nós julgamos naturalmente por sinais. Em Rápido e Devagar Kahneman fala de um teste, de um questionário aplicado a um número significativo de pessoas. Considerando um rapaz meticuloso e introvertido, que gosta de ler, você acha que ele tem mais chances de ser bibliotecário ou agricultor? Quase todos dizem: “bibliotecário”. No entanto, o número de agricultores nos EUA (e provavelmente em qualquer país) é bem maior do que o número de bibliotecários. A oferta de rapazes introvertidos que gostam de ler é muito maior do que a demanda por bibliotecários. Porém, ao responder a pergunta, prestamos atenção nas qualidades do rapaz, não na parte que diz “tem mais chances”. Respondemos associando um estereótipo a outro, e presumindo uma relação de causalidade.

Analogamente: veja aquela mulher da terceira cabana, ela tem o cabelo esquisito e diferente, deve ser por causa dela que nós estamos querendo nos matar. Vamos resolver esse problema. E olha! Nosso ódio passou. Que ser fascinante! Estamos todos impressionados.

Analogamente, outra vez: esses judeus, segregando-se, falando hebraico, ídiche, sei lá, com esses narizes, com essas orelhas, controlando os bancos.

Agora, porém, sabemos que as vítimas são inocentes. E um judeu vem explicar: todas as pessoas, inclusive as de bem, estão à mercê dessas ilusões cognitivas. Não vai ser possível ritualizar esse equívoco porque nunca vamos recuperar a unanimidade daqueles grupos primitivos. Não é mais possível ficarmos todos à mercê dessa ilusão o tempo inteiro.

Para Girard, é isso o apocalipse: a revelação do mecanismo da violência. Com o corolário de que aquela ilusão cognitiva realmente nos protegia de nossa própria violência. Agora podemos nos matarmos uns aos outros, ou mudar. Não podemos contar que, na hora da perseguição, o oficial vá se lembrar do menino cuja foto está em sua carteira.

(Imaginemos o superior daquele oficial das SS defendendo-o: “General, perdoai-o, ele não sabia o que estava fazendo…”)

II

A história da vida de Kahneman, e particularmente de sua amizade e de sua colaboração intelectual com Amos Tversky, está contada no livro The Undoing Project, de Michael Lewis (aquele mesmo de Moneyball e The Big Short, lançado no final de 2017 nos EUA).

Por si, a história de dois amigos é um tema shakespeariano, e existem vários lances que remetem às leituras que o mesmo Girard faz de Shakespeare e das ilusões que impelem seus personagens.

Aliás, aqui, o viés do leitor se confirma: a história merece ser contada justamente porque inclui rivalidades e desentendimentos. Dizer isso não é um spoiler: se a primeira cena de uma obra mostra o encontro feliz de dois amigos, um de seus temas será os problemas da relação. Spoiler é dizer se, no final, eles se reconciliam.

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Michael Lewis conta que Amos Tversky era um sujeito impressionante. Alto, bonito, e herói em sentido estrito: quando cumpria o serviço militar obrigatório de Israel, arriscou a própria vida para salvar a de um subordinado. Como se isso não bastasse, as pessoas que o conheciam – os melhores professores das melhores universidades do mundo – diziam que ele era a pessoa mais inteligente que jamais tinham conhecido, e que a medida da sua inteligência era quanto tempo você levaria até perceber que Tversky era (muito) mais inteligente do que você.

Tversky sentia que seu ato de heroísmo o tinha definido, e que por isso precisava sempre estar à altura dele. Pelo que é relatado, parece que o mundo em volta concordava que ele mantinha o padrão. Tversky ainda era muito meticuloso, e veio a escrever um livro sobre os fundamentos da mensuração.

Entra Daniel Kahneman, seu colega no departamento de psicologia da Hebrew University, em Jerusalém. Kahneman tinha sido perseguido pelos nazistas na França, viveu se escondendo durante a guerra, e seu pai (químico-chefe da L’Oréal) morreu porque, enfim, era complicado tratar um judeu na França ocupada. Kahneman foi um adolescente introvertido, que escrevia ensaios sobre Pascal, e que namorou uma menina que veio a ser uma das grandes poetas de Israel. Decidiu virar psicólogo porque queria entender porque as pessoas se equivocavam.

Kahneman tinha seu seminário na pós-graduação, e um dia convidou o colega Tversky para apresentar um estudo de Ward Edwards que partia da seguinte pergunta: será que as pessoas em geral são capazes de fazer boas estimativas, comparáveis às dos estatísticos profissionais? A resposta que Tversky levava era: mais sim do que não. O que ele não esperava, certamente, era que Kahneman fosse convencê-lo do contrário: mais não do que sim.

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Imaginemos Mathilde de la Mole, a personagem de Stendhal, num salon parisiense. Adolescente, no auge da beleza, filha de um dos mais importantes nobres da França, sempre cercada de homens, cada desejo seu é uma ordem, cada palavra sua é uma gota de sabedoria. No baile mais importante do ano, quando ela se digna a falar com o secretário de seu pai, o seminarista Julien Sorel, é preterida, porque Sorel, cheio de ideias napoleônicas, prefere conversar com um conspirador espanhol. Não é o início de uma bela amizade, mas de um amor virulento: ela encontra seu primeiro obstáculo, e ele, um pobre rapaz do interior, sente que não pode perder a oportunidade.

Sim, agora suponhamos um herói militar, o homem mais inteligente segundo todo mundo, que aceita o convite de um colega seu da universidade, faz uma apresentação, talvez crente de que leva a última palavra de sua área àquele fim de mundo, e sai convencido de que as coisas não eram bem assim.

Mathilde de la Mole sabia que não podia viver sem aquele que parecia ser mais do que ela – o que não a impedia de ressentir-se disso.

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Kahneman e Tversky viraram amigos no dia em que Kahneman mudou a opinião de Tversky. Era a primavera de 1969. Começaram uma conversa que durou mais de dez anos, e que rendeu um prêmio Nobel. Kahneman conta (Tversky faleceu em 1996) que sabia que Tversky era muito meticuloso, mas que o mais interessante e mais produtivo era que, em vez de rejeitar e criticar as ideias que ele apresentava, Tversky sempre procurava o que havia nelas de mais certo – o que indica sua predisposição de que elas estariam certas. Essa é, realmente, a melhor sensação que existe: a de efetivamente ser ouvido.

Um detalhe que não deve passar despercebido é que Tversky abominava o cigarro e não permitia que fumassem na sua frente. A única exceção era Kahneman. Os dois passavam horas fechados em salas, rindo sem parar e discutindo suas ideias sobre como e por que as pessoas se equivocam, enquanto Kahneman fumava. O tempo todo. Sem falar que Tversky era o tipo super-organizado, e Kahneman, super-bagunçado.

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Quatro anos depois, começam a aparecer as dificuldades entre os amigos. Eis uma tradução do começo do nono capítulo:

“No outono de 1973, era bastante claro para Danny que os outros nunca entenderiam completamente sua relação com Amos. (…) O afeto que ele sentia quando estava sozinho com Amos desaparecia sempre que Amos estava na presença de uma plateia. ‘Quando estávamos com outras pessoas, éramos ou de um jeito ou de outro’, disse Danny. ‘Ou terminávamos um as frases do outro e contávamos um as piadas do outro. Ou então estávamos competindo. Ninguém nunca nos via trabalhando juntos. Ninguém sabe como nós éramos.’ (…) E no entanto era Amos que se dedicava mais a encontrar maneiras de mantê-los juntos. ‘Eu é que me segurava’, disse Danny. ‘Eu mantinha distância porque tinha medo do que aconteceria comigo sem ele.’”

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Em seu primeiro livro, Mentira romântica e verdade romanesca, Girard discute nossa primeira ilusão cognitiva: a noção de que não somos imitadores. A “mentira romântica” do título consiste em supor que desejamos os objetos diretamente. A “verdade romanesca” consiste em admitir a presença de um modelo que nos indica o que desejar. Mathilde de la Mole se ama a si própria porque todos a amam; sua “auto-estima” é na verdade uma “hetero-estima”, e ela fica balançada com o primeiro que desvia do padrão, procurando recuperar seu amor-próprio nos olhos dele. Ela precisa imitar o amor que ele sente por ela.

Stendhal discute isso tudo abertamente. Shakespeare, mais abertamente ainda. Os dois cavalheiros de Verona e Sonho de uma noite de verão tratam de amigos que apontam um para o outro o objeto a desejar. Em Os dois cavalheiros, Proteu se apaixona por Silvia, namorada de Valentino, apenas porque Valentino a elogiou, antes mesmo de vê-la pessoalmente – como alguém que precisa tomar o vinho indicado pelo amigo. Em Sonho de uma noite de verão, dois casais mudam o tempo todo o objeto de seu amor. A intervenção de Puck é um truque, que pode até mesmo ser removido sem prejuízo da trama dos garotos. Quando não há truque, há aquele velho escamoteamento: a autora de Cinquenta tons de cinza nos mostra, logo no primeiro capítulo, uma jovem que ouve a melhor amiga cantar todos os louvores ao milionário sadomasoquista Christian Grey; depois, no enredo, não há qualquer sugestão de que aí pode ter estado a semente da atração dela por ele.

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Ter todas as suas ideias ecoadas, repetidas, aprimoradas, nada mais é do que uma forma de imitação. Positiva, é claro. É a interlocução com a qual todos sonhamos. A pessoa que entende imediatamente o que você pensa. A desnecessidade de falar muito. A possibilidade de criar algo juntos, porque ambos estão dividindo algo puramente abstrato: ideias. Questões sobre a equivocação humana. Enquanto os dois estão a portas fechadas, estão imitando um ao outro, copulando intelectualmente, partilhando o que é multiplicado quando é partilhado.

Quando os dois estão com outras pessoas, porém, precisam dividir os olhares e as atenções delas. O prestígio não é tão fácil assim de dividir. Tversky sempre fora naturalmente a alma de qualquer festa. Kahneman, não exatamente. Lewis chega a descrevê-lo como “um Woody Allen sem o humor”. Assim, Tversky dominava qualquer ambiente. As pessoas começaram a ver Kahneman como um mero coadjuvante de todos aqueles brilhantes artigos acadêmicos que certamente iriam mudar (e mudaram) o pensamento econômico. Kahneman começou a perceber que Tversky não fazia nada para que as pessoas deixassem de pensar assim.

Haveria algum ressentimento da parte de Tversky por ter sido o primeiro a ceder? Houve ao menos um sinal de algum ressentimento. Quando o relacionamento entre os dois já estava abalado, Kahneman, então professor no Canadá, recebeu um convite para ir para Harvard. Ao contar a novidade a Tversky, ouviu como resposta: “Sou eu que eles querem.”

Tversky outrora recebia com generosidade as ideias de Kahneman. Agora, em sua correspondência, tinha passado a criticá-las com dureza. A interlocução ideal virara revisão de pares rivais. Kahneman, então, decidiu romper com Tversky, como se fosse um divórcio. Telefonou, se abriu, e se despediu. Dias depois, Tversky telefonou a Kahneman. Tinha câncer terminal, e morreria em pouco tempo. Obteve as drogas de que precisava, e, quando julgou oportuno, praticou a própria eutanásia. Kahneman fez o discurso no funeral. Ninguém imaginava que esse papel pudesse caber a outra pessoa.

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Podemos imaginar Kahneman falando de Tversky como o Fernando Pessoa do “Poema em linha reta”: “Todos os meus amigos têm sido campeões em tudo!”. Todavia, talvez tenha sido justamente essa posição de ressentimento, admitida desde sempre (ressentimento por ser perseguido quando criança, ressentimento por viver à sombra do amigo) que tenha dado a Kahneman a visão mais aguçada.

No começo de Rápido e Devagar – dedicado à memória de Amos Tversky – Kahneman nos diz que o lugar onde gosta de imaginar-se, como autor, é em volta do filtro d’água da firma, “onde são partilhadas opiniões, e trocadas as fofocas.” E explica: “Por que preocupar-se com a fofoca? Porque é muito fácil, e também muito mais agradável, identificar e rotular os equívocos dos outros do que reconhecer os nossos próprios.”

Kahneman sabe perfeitamente que poderia não apenas cometer o mesmo equívoco do oficial nazista. Sabe, também, que seria plenamente capaz de se juntar à multidão, com suas fofocas, contra algum garoto que estivesse andando na rua fora do horário prescrito. Mais do que acusar a multidão, ele se reconhece no lugar dela, e tenta entende-la. Imitá-la, talvez, mas para melhorá-la, como Tversky o ouvia para melhorar o que estava ouvindo.