Por Cláudio Ribeiro, Mestre em História pela Universidade Federal de Goiás (UFG)

Não cobiçarás a casa do teu próximo; não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem seu escravo, nem sua escrava, nem seu boi, nem seu jumento, nem nada do que lhe pertence.

(Êxodo 20, 17)

Aqueles que já tiveram a oportunidade de ler uma das muitas obras de Luís da Câmara Cascudo (1898–1986) certamente se deleitaram com a combinação de erudição, estilo saboroso e intuições poderosíssimas. Este amálgama fascinou, também, muitos de seus contemporâneos — entre eles, Mário de Andrade (1893–1945), colega do autor potiguar nas pesquisas em etnografia e tradições populares.

Pois bem, uma das obras mais impressionantes de Cascudo (mas ainda pouco debatida) é Civilização e Cultura — Pesquisas e Notas de Etnografia Geral, concluída em 1962, mas só publicada em 1973. Nela, Cascudo reflete sobre um vasto rol de elementos colhidos da antropologia, da arqueologia, de textos clássicos greco-latinos, bem como de textos religiosos — notadamente, da Bíblia judaico-cristã.

No terceiro tópico do capítulo 6 do livro (a edição de que me valho é da editora Global, de 2004. O leitor pode ir às páginas 157, 158 e 159), o mestre de Natal dá destaque a um dos elementos que, para ele, caracterizaram o processo de “estabilidade do ser humano” (do homem pré-histórico, diga-se). A esse elemento ele denomina “instinto aquisitivo”.

Para Cascudo, o instinto aquisitivo é o “irmão xipófago do instinto de conservação”, isto é, seu irmão siamês. Ambos teriam emergido juntos. Porém, ao contrário do instinto de conservação, que diz respeito às necessidades básicas de sobrevivência, como saciar a sede e a fome, a reprodução sexual etc., o instinto aquisitivo “supera as necessidades do homem”. Ele é a “vontade de possuir”. Parece constituir “um sentimento que sobrevive de épocas longínquas de carência e procura, avidamente, ressarcir-se”. Além disso, o instinto aquisitivo é identificado, por Cascudo, como um “movimento de cobiça” que “não depende da possível utilidade do objeto alvejado”.

Vale a pena nos atermos à palavra ora empregada: cobiça. Evidentemente, vindo de um erudito como Câmara Cascudo, o emprego dessa palavra não é aleatório. Avançando em sua argumentação, o autor menciona o principal documento histórico que trata do tema da cobiça: o último mandamento do Decálogo, presente no livro do Êxodo.

Vejamos:

O Decálogo (Êxodo 20, 17) inclui o desejo da mulher do próximo ou das coisas alheias como entidades vivas de possessão indébita e pecaminosa. Ponhamos na mente que a intenção, nas doutrinas civil e penal, é gesto em potencial, índice legitimador da premeditação, ato antecipado à própria ação material, de imprecisas, amplas e múltiplas raízes formadoras, mergulhadas e confusas no território mental.

Atentemo-nos a mais um detalhe.

Ao fazer referência direta ao Decálogo, Cascudo não repete a palavra cobiça, mas escreve: “desejo da mulher do próximo ou das coisas alheias”. E mais do que isso. Em seguida, ele destaca aquilo que as doutrinas jurídicas tipificam como crime premeditado, isto é, com indicativos da intenção de realizá-lo. Fá-lo, claro, para ressaltar o fato de que o desejo de “possessão indébita” das coisas alheias abre caminho à possibilidade da ação ofensiva, delituosa.

A esta altura, podemos nos reportar às reflexões que outro autor, também muito interessado em etnografia, arqueologia e em textos clássicos e religiosos, desenvolveu sobre o Decálogo. Refiro-me a René Girard (1923 – 2015).

No primeiro capítulo de um livro publicado em 1999, Eu via Satanás cair como um relâmpago (Tradução de Martha Gambini. Paz e Terra, 2012, pp. 25-40), Girard diz que “as traduções modernas (da Bíblia) lançam os leitores numa falsa pista. O verbo ‘cobiçar’ sugere tratar-se aqui (no texto do Decálogo) de um desejo fora do comum, um desejo perverso reservado aos pecadores empedernidos. Mas o termo hebreu traduzido por ‘cobiça’ significa simplesmente ‘desejar’. É ele que designa o desejo de Eva pelo fruto proibido, o desejo do pecado original.” Se Girard insiste que o termo hebreu, comumente traduzido por cobiça, na verdade significa, simplesmente, desejo, é para frisar que o décimo mandamento certamente “trata do desejo de todos os homens, do próprio desejo”, e não de uma espécie de desejo exclusivo de pessoas malévolas, psicopatas e afins. Segundo o teórico francês, isto leva a uma terrível constatação. Qual seja: a de que “o próximo é o modelo de nossos desejos.” O desejo humano é “desejo mimético”. É isso o que, no fim das contas, o Decálogo começa a revelar.

Se desejo a mulher do meu vizinho, ou a sua biblioteca de livros raros, ou o seu carro importado, muito provavelmente não é porque tudo isto me seja útil e necessário, mas, sim, porque estou desejando segundo o desejo desse meu vizinho. Fatalmente, tal natureza mimética do desejo humano incorre, mais cedo ou mais tarde, no que Girard denomina “rivalidades miméticas” e suas consequências violentas. Para o teórico do desejo mimético (cito ainda o capítulo 1 de Eu via Satanás cair como um relâmpago), “as rivalidades miméticas podem se tornar tão intensas que os rivais chegam a se injuriar reciprocamente, roubam as posses um do outro, corrompem as respectivas esposas e, finalmente, não recuam nem mesmo diante do assassinato”.

Claro, o leitor percebe que, nesse ponto, Girard está citando os interditos elencados no próprio Decálogo. Se o décimo mandamento fala em cobiça, em desejo, o faz justamente para indicar a matriz das consquências violentas elencadas nos quatro mandamentos anteriores (não matarás, não roubarás, etc.).

Vejamos como, em dois curtos parágrafos, o autor de Eu via Satanás cair como um relâmpago remata a questão:

Se o Decálogo consagra o seu último mandamento à proibição do desejo dos bens do próximo, é por reconhecer lucidamente nesse desejo o responsável pelas violências proibidas nos quatro mandamentos que o precedem.

Se deixássemos de desejar os bens do próximo, nunca seríamos culpados nem de assassinato, nem de adultério, nem de roubo, nem de falso testemunho. Se o décimo mandamento fosse respeitado, tornaria supérfluos os quatro mandamentos que o precedem.

Agora voltemos a Cascudo.

Parece-me que o intelectual potiguar, ao inserir a palavra desejo na frase em que menciona o Decálogo, logo após ter usado a palavra cobiça, para compor a descrição do que vem a ser o instinto aquisitivo, intuía o perigo de resvalar na falsa pista de que fala Girard. Curiosamente, os dois autores — que, ao que tudo indica, nunca tiveram contato um com o pensamento do outro — começaram a formular as suas respectivas hipóteses (do instinto aquisitivo e do desejo mimético) no fim dos anos 1950 e início dos 1960. Como eu disse no início deste artigo, Civilização e Cultura foi concluída em 1962. Já a primeira obra de Girard, Mentira romântica e Verdade romanesca, foi publicada em 1961.

Mas prossigamos…

No parágrafo subsequente àquele em que menciona o Decálogo, Cascudo destaca o paradoxo importante que o instinto aquisitivo encerra, posto que é um “elemento poderoso para criação do sentimento de propriedade, de estabilidade humana, de autossuficiência, de confiança, de personalidade agente”. Mas em contrapartida é, também, “o pai dos sete pecados capitais”. Segundo o autor de Civilização e Cultura, “estes — soberba, avareza, impureza, ira, gula, inveja, preguiça — podem explicar-se como resultados claros de desequilíbrio endocrínico, tendo base comum e única no instinto aquisitivo insatisfeito, recalcado, envenenando gestos e ações subsequentes, como a podridão lançada à fonte enodoa todas as águas vivas da corrente”.

Se o instinto aquisitivo já fora antes identificado como “um movimento de cobiça”, “uma vontade de possuir”, um desejo de “possessão indébita”, é claro que é nele que devem radicar os sentimentos correlatos aos sete pecados capitais, a depender das circunstâncias dos indivíduos desejantes e dos objetos desejados. O interessante é que, após apontar o instinto aquisitivo como o “pai dos sete pecados capitais”, Cascudo menciona a evolução de um gesto tipicamente definidor do ser humano; estritamente ligado, para ele, a esse instinto. Trata-se da forma côncava de nossa mão.

Diz Cascudo que uma “continuidade milenar sujeitou a mão humana, além da sua disposição anatômica, à forma côncava, exercitada no apanhar e segurar armas com que se batia e matava.” A mão côncava é “símbolo aquisitivo” e, como tal, também símbolo da violência, assinatura bioantropológica desta. Pensemos, neste ponto, seguindo a esteira das passagens bíblicas, no assassinato de Abel por Caim. Ou em uma famosa cena de 2001: Uma odisséia no espaço (1968), de Stanley Kubrick… “A mão que afaga é a mesma que apedreja”, quase desnecessário dizê-lo.

Na sequência, Cascudo, para ilustrar a presença praticamente ubíqua do instinto aquisitivo, o melhor, a sua “sobrevivência” em fatos prosaicos, que podem ser observados bem próximos a nós, nos dá um exemplo fantástico, em que o protagonista é ninguém menos que José Lins do Rego. Leiamos o texto:

Em 1924, foi meu colega na Faculdade de Direito do Recife, José Lins do Rego (1901-1957) que, ao falecer, era um dos maiores romancistas do continente. Zé Lins comprou por trezentos ou quatrocentos mil-réis — quase toda sua mesada mensal — um candelabro de sala, espetacular, que o deslumbrara. Não lhe seria útil em espécie alguma e, depois de gozar a ideia de ser proprietário da maravilha dispensabilíssima, desfez-se dela pela terça parte do preço que lhe custara. Não chegara a pendurá-lo no seu pequeno quarto de estudante, mas o instinto aquisitivo dominou-o muito mais fortemente que a lógica formal.

A vontade de possuir a “maravilha dispensabilíssima” levou José Lins a sacrificar quase toda a sua mesada. Este exemplo do domínio do instinto aquisitivo sobre o autor de Menino de Engenho reforça o ponto de contato entre as intuições de Girard e as de Cascudo. José Lins provavelmente comprou o candelabro pautando-se em algum modelo símile. Viu algum candelabro semelhante na casa de alguém que muito estimasse e rendeu-se à imitação, na primeira oportunidade que teve. E não surpreende o fato de que, logo após o relato, Cascudo abra um parágrafo para tratar da relação entre o instinto aquisitivo e a imitação, tendo em vista o pensamento de Gabriel Tarde (1843 – 1904), fazendo ressalvas a este:

Não sei se a todo-poderosa imitação, que Gabriel Tarde incluiu como fato social elementar, decisivo sobre normas de comportamento, sendo mesmo influenciadora de toute action à distance d’une esprit sur un outre [“toda ação à distância de uma mente sobre outra”], como as repetições provocadas pela fama, seja total e intrinsecamente a pura imitação. Será maquinal, irresistível e dócil nas crianças mas o sentimento pessoal do adulto já se debate no egoísmo, na autossuficiência, na vaidade pessoal, barreiras restritivas a uma forma submissa do mimetismo. Muito comum é a reação indignada dos imitadores notórios quando acusados de flagrante cópia. Na inconsciência da vassalagem não estarão convencidos da posse, e decorrentemente da integração do elemento plagiado no próprio organismo psíquico?

Cascudo, ao ponderar as teses de Tarde, percebe os caminhos que o ser humano adulto adota para não se reconhecer como animal mimético, para garantir sua auto-imagem de ser independente e autotélico, a sua autossuficiência, em suma, a sua afetação de singularidade. A isto, Girard denomina “mentira romântica”. Não à toa, o autor de Mentira Romântica e Verdade Romanesca por diversas vezes também teceu críticas a Tarde, destacando a sua incapacidade de ver as rivalidades miméticas, o potencial conflituoso da mímesis. Cascudo, por sua vez, formula uma última pergunta, que não deixei na citação do parágrafo, mas que trago à baila agora: “E o movimento da imitação, imitar para obter a mesma projeção ou sucesso do imitado, não será o instinto aquisitivo incontido de apropriar-se de uma técnica ou maneira determinante de êxito?”. Ao que responde, já caminhando para a conclusão de seu tópico: “na base radicular da imitação está o desejo insopitável da aquisição”.

Instinto aquisitivo e desejo mimético. Ambos soam como notas de um mesmo acorde. Um Cascudo está em Girard ou um Girard, em Cascudo. A leitura atenta de ambos pode ser muito profícua, ao que tudo indica.