Um dos efeitos inesperados da criação do blog Miméticos foi a sugestão de um “cânon romanesco” brasileiro.

A ideia é perfeitamente compatível com a teoria mimética. O que René Girard mostra em Mentira Romântica e Verdade Romanesca é que o desejo tem uma história, e que essa história pode ser mapeada em certas obras-primas da literatura, porque certos autores teriam todos feito a mesma descoberta do papel do mimetismo nas relações humanas.

Nada impede, portanto, que outros autores tenham feito essa mesma descoberta, trazendo o mimetismo para o primeiro plano e explorando sua capacidade de gerar conflitos. Isso equivale a dizer que Mentira Romântica e Verdade Romanesca é um livro que pode ser reescrito de várias maneiras diferentes, a partir de autores diferentes.

Dos cinco autores lidos pelo francês René Girard naquela obra, três são franceses (Stendhal, Flaubert, Proust), um é espanhol (Cervantes) e o outro é russo (Dostoiévski), o que já dá um caráter ao menos “europeu”, e não “nacional”, ao estudo. A ideia de um recorte “brasileiro” — ou ao menos “de língua portuguesa” — pode parecer uma limitação externa ao assunto mesmo, que é a história do desejo.

O efeito disso, porém, é outro: além da confirmação da universalidade da descoberta, vem a possibilidade de falar dela em termos mais familiares, com referências mais próximas.

A pergunta que ficaria é: é possível mesmo reencontrar uma estrutura coesa como a de Mentira Romântica e Verdade Romanesca a partir de obras escritas em português? Aqui já começamos a sugerir as referências.

  • De Pedro Sette-Câmara:
  • José de Alencar, Precursor de René Girard