Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

Por que Isabelle Caro morreu?

Anorexia e Desejo Mimético

Anorexia e Desejo Mimético

por Mark Anspach*

O golpe, duplo, foi chocante: primeiro a modelo anoréxica Isabelle Caro morreu num hospital francês, e em seguida a mãe se matou, desesperada. Tão pouco tempo depois da morte da filha em novembro, o suicídio de Marie Caro, em janeiro, reabriu o debate sobre as causas da anorexia. Deve-se culpar a imitação de modelos super-magras — ou será que meninas como ela são tolhidas por mães que não as deixam em paz? Em entrevistas e em suas memórias, Isabelle não hesitava em culpar a mãe por querer que ela permanecesse criança, ainda que ela própria vá ser lembrada como a modelo magricela que denunciou a moda das modelos magricelas. De um modo perturbador, a anorexia virou seu bilhete para a celebridade.

Isabelle Caro ganhou fama em 2007, posando nua para uma controversa campanha publicitária que advertia par aos riscos da anorexia, patrocinada pela marca de roupas italiana Nolita. Lançada a tempo de coincidir com o lançamento das coleções primavera-verão nas passarelas de Milão, a campanha foi concebida como um alerta para a indústria de moda e como aviso para as meninas que poderiam sentir-se tentadas a imitar modelos impossivelmente magras. A visão do corpo emaciado de Isabelle supostamente mostraria que a magreza extrema é repulsiva, não sexy.

“A mensagem é clara”, disse Isabelle à época. “Minha pele é seca, irritada, meus seios são caídos, meu corpo é o de uma idosa.” Infelizmente, a mensagem não foi nem um pouco clara. Retratos do corpo carcomido da menina de 20 anos com seus enormes olhos verdes apareceram nos sites chamados “pro-ana” mantidos por anoréxicas militantes, e associações italianas dedicadas a auxílio de vítimas de transtornos alimentares logo criticaram a campanha, considerando-a mal-direcionada.

A mensagem do anúncio deveria ser: “Você não quer ter essa aparência”. Mas o meio solapou a mensagem. Ao ter a audácia de exibir um corpo magro como uma vara em imensos outdoors ou em anúncios de página dupla nos jornais, a campanha inadvertidamente afirmava outra coisa: “Tenha essa aparência e você pode ser famosa.” Numa cultura obcecada com a celebridade, há muitíssima gente que faria qualquer coisa para se ver naquele outdoor — até mesmo adotar uma aparência que é literalmente “de morrer”.

A agente de Isabelle Caro disse que ela “queria ser modelo a qualquer custo”, mas não conseguia nada por causa de sua aparência doentia. A campanha da Nolita foi sua grande chance, trazendo-lhe documentários, e fazendo dela uma atração quente do circuito de talk shows. Ela apareceu em The Price of Beauty, com Jessica Simpson, e foi até jurada do France’s Next Top Model. Sua agente receava que ela estivesse dando mais entrevistas do que sua frágil saúde permitia. “Eu gritava com eles. Dizia que era perigoso fazê-la correr o mundo inteiro daquele jeito.” Isabelle acabou cedendo depois de voltar da filmagem de uma série de TV no Japão. Um site “pro-ana” exibiu sua foto com a legenda “morra jovem, permaneça bonita”.

Se a urgência de imitar é forte a ponto de fazer com que moças sejam desviadas do bom caminho por imagens de modelos magras demais, a solução não está em mostrar-lhes outra moça ainda mais magra. Como todo pai e toda mãe sabe, “faça o que eu falo, não o que eu faço” é uma estratégia educativa fracassada. Os jovens imitam o comportamento.

Ao pregar a anorexia enquanto mantinha seu próprio peso perigosamente baixo, Isabelle Caro estava dizendo a suas seguidoras: “Me tomem como guia, mas não me imitem!” O paradoxo por trás desse tipo de mensagem dúplice foi diagnosticado com precisão por René Girard, de Stanford, que o denomina “double bind mimético”. Como a imitação é a forma mais sincera de elogio, todos querem atrair seguidores, mas se estes imitarem bem demais, logo tornam-se uma ameaça para aquela pessoa que tomavam por modelo. Ninguém gosta de ser derrotado em seu próprio jogo. Daí a mensagem contraditória: “Faça como eu faço… Só não faça melhor!”.

A imitação se metamorfoseia imperceptivelmente em rivalidade — essa é a grande intuição de Girard, e ele a aplica de maneira brilhante à competitividade nas dietas (Ver Anorexia e Desejo Mimético. Trad. Carlos Nougué. São Paulo: É Realizações<, 2011). Inútil procurar alguma explicação psicológica misteriosa, nas profundezas. Escreve Girard: “O homem nas ruas compreende uma verdade que a maioria dos especialistas prefere não enfrentar. Nossos distúrbios alimentares são causados por nosso desejo compulsivo de perder peso.” Todos queremos perder peso porque sabemos que é isso que todos os demais querem — e, quanto mais os outros têm sucesso em perder quilos, mais sentimos que também precisamos perdê-los.

Girard não foi o primeiro a ressaltar a dimensão imitativa ou mimética dos distúrbios alimentares e sua ligação com a moda da magreza, mas ele enfatiza um aspecto que os outros não enxergam: a tendência para a escalada que há em toda moda: “Todos tentam superar todos na qualidade desejada, no caso a magreza, e o peso considerado o mais desejável numa moça acaba diminuindo.”

Na disputa universal por perda de peso, as anoréxicas são as “vencedoras”, com resultados muitas vezes trágicos. Mas, como explica Girard, é difícil convencer uma menina cujo peso está abaixo do saudável de que ela está fazendo algo de errado:

Ela interpreta todas as tentativas de ajudá-la como conspirações invejosas de pessoas que gostariam de roubar-lhe sua vitória tão dolorosamente adquirida, porque não conseguem igualá-la. Ela sente orgulho de realizar aquele que é talvez o único ideal comum a toda a nossa sociedade, a magreza.

Isabelle Caro sabia que era perigosamente magra, mas no fim ela não conseguiu renunciar ao status duramente conquistado que sua doença lhe trouxe. Kim Warani, sua amiga e colega, disse à AOL News que ela parecia “presa num círculo vicioso. Aquelas fotos faziam com que ela fosse famosa, o centro das atenções, e de certo modo aquilo deve ter sido difícil de abandonar.”

Depois de morrer, o homem que fotografou-a para a campanha da Nolita fez alguns comentários que impressionam por sua franqueza. “Não tenho lembranças felizes de Isabelle”, disse Oliviero Toscani. “Ela era muito egoísta e cheia de si, foi assim até morrer”, achando-se uma atriz e modelo de sucesso quando “seu único talento era ser anoréxica”.

Segundo o padrasto de Isabelle, a fala insensível de Toscani contribuiu para levar Marie, mãe dela, à própria morte. Ela já sentia uma culpa enorme, disse ele — não, como talvez se pense, por causa da doença da filha, mas por tê-la mandado para o hospital! Enquanto os pais acusavam os médicos de maus cuidados no tratamento, Warani dizia que ela “tinha morrido por estar tão enfraquecida pel anorexia”, depois de ter “perdido muito peso outra vez”.

Ao escolher seguir a filha ao túmulo, Marie Caro sem saber deu credibilidade à ideia de que tinha um apego patológico a Isabelle. E aquela ideia de que ela era uma mãe que simplesmente não queria que a filha crescesse? Como isso bate com uma leitura mimética dos fatos?

Bem, talvez permanecer com 12 anos de idade também tenha virado uma moda a imitar. Não é esse um elemento-chave no apelo da Nolita? O nome pode ter sido emprestado de um bairro hoje chique de Nova York, mas no contexto de roupas sexy para moças, ele inevitavelmente chama a sedutora juvenil essencial: Lolita. Claro que, ao trocar “Lolita” por “No-lita”, os estilistas conseguem matar dois coelhos contrários numa cajadada só: sempre podem dizer que estão dizendo “Não” à exploração de modelos-Lolitas. O anúncio de Toscani combinava dois nãos: “não-anorexia, No-l-ita”. Outra vez, porém, a mensagem era ambígua, e não só porque os dois nãos estavam rabiscados em batom rosa: desde quando ouvir que algo é vedado diminui o desejo? Só para começar, atração do proibido faz parte do que torna as Lolitas sedutoras.

Toscani mesmo há muito cultiva uma imagem de bad boy. Mesmo antes da campanha da Nolita, ele já era famoso por usar fotos chocantes de vítimas da AIDS ou de presos no corredor da morte para promover causas ao mesmo tempo em que vendia roupas. Quando irrompeu o furor em torno do anúncio da anorexia, a revista Time chamou-o de “eterno enfant terrible” da fotografia de moda: literalmente, a eterna criança mal-comportada, o menino travesso que nunca cresceu. Mas por que alguém iria querer crescer quando nossa cultura recompensa o mau comportamento com fama e fortuna?

*Mark Anspach é autor de Anatomia da Vingança — Figuras Elementares da Reciprocidade e de Édipo Mimético, ambos publicados pela É Realizações. Este artigo foi publicado originalmente no site da Fundação Imitatio.

1 Comment

  1. Este livro ainda não li. Mas o artigo me fez lembrar uma crônica de Eça de Queirós (ou seria de Ramalho Ortigão?) que fala de pessoas capazes de precipitar a própria morte na desesperada expectativa de que alguém lhes escreva um comovente necrológio.

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