Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

O desejo mimético

Já mencionamos aqui a entrevista de Michel Houellebecq em que o romancista diz conhecer René Girard “apenas por uma tese”: a do “desejo mimético”, resumida como “deseja-se aquilo que o outro deseja”.

Essa formulação, à primeira vista, pode parecer até mesmo escandalosa. Há séculos vivemos uma cultura individualista, que valoriza o eu, e existem excelentes razões para se apostar, por exemplo, num individualismo cognitivo. Existe toda uma tradição filosófica realista que toma a verdade como, antes de tudo, o objeto de um ato da consciência individual.

Ao mesmo tempo, parece muito fácil observar o mimetismo nos outros. É fácil enxergar as modas, por exemplo, principalmente quando não somos nós que as seguimos. O desejo mimético, nesse caso, parece um fenômeno alheio, do qual na melhor das hipóteses esperamos não participar.

Costumamos valorizar a originalidade, mas também somos capazes de apreciar o mimetismo deliberado. Para ficarmos em Houellebecq, uma leitura atenta de seu estudo sobre Lovecraft mostrará que diversos procedimentos do autor americano foram apropriados pelo francês, apenas com uma proposta diferente. Não parece descabido dizer que Partículas Elementares em parte nasceu da pergunta: e se Lovecraft escrevesse um romance quase todo realista sobre a revolução sexual? Teríamos aí uma espécie de mimetismo culto, aceitável a nosso paladar contemporâneo, porque se trata de um mimetismo consciente, em que um autor tenta de certo modo domesticar procedimentos de outro.

Não podemos dizer, então, que Houellebecq desejou algo de Lovecraft? Seu estilo, por exemplo? Que desejou causar em seu leitor a mesma impressão? Esse objeto de desejo, discernível ainda que imaterial, não vale como objeto?

Com esse pequeno exemplo já podemos começar a ver o que Girard quer dizer com desejo mimético. Desejar o que o outro deseja. Michel Houellebecq desejar escrever como H.P. Lovecraft desejava.

Se voltarmos ao Brasil, em Como e porque sou romancista José de Alencar conta que, na adolescência, admirado com a glória obtida por Joaquim Manuel de Macedo por sua Moreninha, desejava obter glória idêntica. Ele não quis imitar Macedo, mas quis possuir o mesmo objeto que ele. E, com certeza, gostaria de possuir esse objeto, igualmente imaterial, de maneira ainda mais plena do que seu modelo.

O primeiro artigo publicado neste blog, aliás, discute principalmente a relação entre Picasso e Matisse — uma relação de desejo mimético.

Contudo, a tese de Girard é mais abrangente. É fácil reconhecer o desejo mimético quando falamos em campos especializados. Podemos até mesmo dizer que uma condição indispensável do profissionalismo artístico é ter ao menos um modelo e conhecer seus procedimentos.

A parte da teoria mimética que pode começar a causar incômodo é aquela que fala em desejos miméticos inconscientes. Ela pode causar incômodo primeiro por um motivo razoável, que seria aquela pretensão de que alguém que nunca nos viu de repente pode explicar nossos desejos. No entanto, a palavra “inconsciente” não deve ser entendida em sentido psicanalítico. Se tomarmos a via do inglês, falaríamos antes em estarmos unaware de certos desejos, e não que se trata necessariamente de unconscious desires. O inconsciente parece convocar um profissional da psicanálise. Aquilo de que não estamos cientes só demanda que… tomemos ciência. Que fiquemos cônscios.

Boa parte das peças de Shakespeare depende dessa dinâmica. Um personagem deseja algo — normalmente sem saber a razão. Essa razão costuma ser simples: o amigo do personagem deseja o mesmo algo. No começo do texto falamos daqueles outros que seguem modas, e Shakespeare nos convida a enxergar certos personagens da mesma maneira. Eles amam com os olhos dos outros, com as palavras dos outros. Ou, de maneira mais contemporânea, “seguem padrões ditados pela sociedade”.

Claro que a teoria mimética inclui o convite para que nos tornemos cônscios do nosso próprio mimetismo. De fato, os interessados na teoria mimética começam por admiti-lo. Há na teoria uma forte dimensão ética, mas existe alguma teoria que não tenha? Uma teoria que não leve o sujeito a meditar sobre seu lugar no mundo dificilmente teria valor.

Ainda assim, parece haver elementos difíceis de aceitar. Serão todos os meus desejos miméticos? Quando escolho uma comida, uma roupa, estou sempre querendo mimetizar alguém, mesmo sem saber?

A resposta é bastante complexa. Podemos dizer que, por cima do instinto, existe a expectativa de que cada objeto novo nos transporte para uma nova realidade. A comida pode servir para que nos sintamos satisfeitos não só fisicamente mas também psiquicamente, isso é, podemos comer para sentir que estamos aproveitando a vida, assim como as pessoas que aproveitam a vida, ou para, se estivermos fazendo dieta, tornarmos nosso corpo mais parecido com o de um modelo. Cada roupa comprada, além do aspecto utilitário, serve para transmitir uma imagem, para que digamos que tipo de personagem queremos ser. (O personagem que não liga para o que veste é também um personagem.)

Em vez de parecer que chegamos a um ponto desesperador, no qual o eu desaparece, e não resta nada além de diversos mimetismos dirigindo cada uma de nossas vontades, chegamos na verdade a um ponto de libertação. Se tomo consciência do mimetismo, posso dirigi-lo. Posso simplesmente escolher meus modelos.

Assim, o desejo mimético não é um tipo especial de desejo. Seria talvez mais razoável dizer que todo desejo tem algo de mimético e, mesmo que o mimetismo seja inconsciente, ele pode ser trazido à tona e manipulado. Pode inclusive ser recusado — mas em prol de outro modelo, mais forte. Essa explicação, veja-se bem, está no nível estrutural. Ela pode ser aplicada a dois resultados possíveis de uma mesma situação. Por exemplo: posso largar os estudos para sair com os amigos, ou posso deixar de sair com os amigos para me concentrar nos estudos. O mimetismo está presente nos dois casos.

Quando René Girard escreveu Mentira romântica e verdade romanesca, o desejo mimético ainda tinha o nome de desejo “triangular”, por causa da estrutura sujeito-modelo-objeto. Mas o ponto mais interessante, nesse momento, é que René Girard de modo algum afirmou ter elaborado a teoria do desejo mimético como algo original. Antes, baseou-se nas obras de Cervantes, Stendhal, Flaubert, Dostoiévski e Proust, nas quais o caráter mimético do desejo está em primeiro plano. Por exemplo: Dom Quixote quer imitar Amadis de Gaula. Em O Vermelho e o Negro, de Stendhal, Julien Sorel quer imitar Napoleão, o sr. de Rênal e Valenod imitam-se mutuamente; Mathilde de La Mole quer imitar os antepassados da família. Emma Bovary, no romance de Flaubert, quer imitar as heroínas dos romances sentimentais que leu na adolescência. Em O eterno marido, (entre muitos exemplos), de Dostoiévski, um personagem só consegue desejar por meio do homem que foi um dos amantes de sua esposa falecida. Na obra Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, o protagonista confessa sua carência fundamental e enfrenta a realidade da imitação. Assim, a elaboração da teoria mimética na forma de ensaios e artigos pode ter sido feita por René Girard, mas segundo o próprio Girard trata-se de um saber já difundido na literatura, e não apenas entre os cinco autores selecionados.

O que interessa, é claro, é que a partir do momento em que se deixa de ver o desejo como algo que vai do sujeito direto para o objeto, e começa-se a enxergá-lo como algo que passa por um modelo, mais ou menos consciente, a quantidade de implicações que isso tem para os estudos do homem é enorme. É tão grande que talvez ainda não tenhamos sua medida. Mas já podemos dizer que dela nasce uma enorme empreitada, para a qual este blog pretende oferecer sua contribuição.

5 Comments

  1. Anderson Bortolai

    21 de abril de 2015 at 12:13

    Gostei do muito do texto e espero saber mais a respeito.

  2. Matheus Mavericco

    26 de abril de 2015 at 20:04

    Existe alguma obra do Girard em que ele aborda de forma mais específica o tema ou é algo que está espalhado ao longo de seus textos?

    • Pedro Sette-Câmara

      27 de abril de 2015 at 18:25

      Caro Matheus, o desejo mimético é um dos grandes temas da obra de Girard. Creio, porém, que ele é discutido de maneira mais direta em “Mentira Romântica e Verdade Romanesca” e em “Teatro da Inveja”.

  3. Li algumas das publicações e gostaria de elogiá-los. O blog é muito bom!

  4. Antonio Vicente Pereira Neto

    16 de fevereiro de 2017 at 15:12

    Parabéns pelo conteúdo desta publicação..minha dúvida foi tirada.

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