Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

A mediação externa

Mentira Romântica e Verdade Romanesca

Mentira Romântica e Verdade Romanesca

Continuando a série sobre as noções mais básicas da teoria mimética, é hora de falarmos dos dois tipos de mediação, a externa e a interna, começando pela primeira.

Por que “mediação”?

No post anterior da série, tentei mostrar em que consiste a natureza mimética do desejo, e também como detectá-la. Se aceitamos que o desejo é mimético, então há alguém a ser mimetizado. Esse alguém foi chamado por René Girard de “modelo” ou “mediador”. Na teoria, os dois termos são intercambiáveis, embora, é claro, como não existem sinônimos perfeitos, a escolha de um deles vai chamar mais atenção para algum aspecto particular. Se digo que alguém é meu “modelo”, ressalto a relação que existe entre mim, sujeito, e esse alguém. Se digo que esse alguém é meu “mediador”, como todo mediador media uma relação, também evoco o objeto dessa relação.

Teórico demais? Mas é simples.

No texto anterior, mencionei o fato de que José de Alencar disse ter desejado tornar-se escritor para obter a mesma glória de Joaquim Manuel de Macedo. Ou seja: o objeto é a glória, Joaquim Manuel de Macedo é o mediador. Se lermos os textos de Alencar e de Macedo, veremos que Alencar não tentou copiar o estilo do escritor mais antigo; o que ele queria era a fama. Macedo foi o mediador do objeto fama para Alencar. Mas também foi o modelo, alguém a ser imitado no quesito fama literária. Não houve disputa, e Alencar não teve a menor vergonha de declarar sua imitação. A glória literária é um objeto intangível, que pode ser partilhado por muitos escritores. Podemos admirar Homero e Shakespeare, Balzac e Flaubert, Macedo e Alencar.

Agora, Alencar conheceu a glória literária jovem, com 27 anos, quando publicou O Guarani, em 1857. O romance que deu fama a Macedo, A Moreninha, era de 1844. Havia portanto uma distância “espiritual” entre os dois escritores. Uma diferença de idade. Para Alencar, a carreira literária seria a realização de um sonho adolescente. Ele não pensou em destruir Macedo, não pensou em rivalizar com Macedo.

É por isso que essa forma de mediação é chamada de “externa”: porque o mediador está em outra esfera, “espiritualmente” distante. Não era possível que Alencar quisesse roubar o sucesso de A Moreninha: o livro já estava publicado, a repercussão já tinha acontecido. Mas Alencar podia desejar obter uma repercussão semelhante, em sua época.

René Girard principia Mentira Romântica e Verdade Romanesca com um trecho de Dom Quixote em que o próprio Quixote fala de sua imitação de Amadis de Gaula, o cavaleiro fictício cujas aventuras fizeram tanto sucesso na península ibérica. Hoje em dia as pessoas podem vestir-se como cavaleiros jedis, ou como personagens de Harry Potter: o que Dom Quixote faz é levar sua relação com o personagem Amadis de Gaula um tanto além do que costumam levar os fãs e leitores contemporâneos… Sim, leitor, pode usar a ideia de cosplay para começar a entender o fenômeno.

Ainda em Mentira Romântica e Verdade Romanesca, Girard fala de como em O Vermelho e o Negro, de Stendhal, Julien Sorel, seminarista e filho de serralheiro numa cidade do interior, sonha em imitar Napoleão, guardando um retrato do general e também seu livro de memórias. Outro caso discutido por Girard é o de Emma Bovary, a famosa madame Bovary, que, na adolescência, lia romances e sonhava com suas heroínas — exatamente como hoje se pode ler uma revista de celebridades para sonhar com a vida dos ricos e famosos. Assim, Julien Sorel encara todas as situações como batalhas a vencer, e Emma Bovary espera que a vida lhe proporcione a intensidade dos romances. (Aliás, aquilo que se costuma chamar de “bovarismo” é uma modalidade específica de mediação externa.) Nos dois casos, os modelos ou mediadores estão distantes: Napoleão está morto, os personagens da ficção estão na ficção.

Aqui já precisamos abrir um parêntese. É verdade que uma das características da mediação externa é o sujeito não ter pudor em declarar seu desejo de imitar um modelo, mas em O Vermelho e o Negro e em Madame Bovary tanto Julien Sorel quanto Emma Bovary ocultam sua imitação. Mas isso porque, no caso de Julien, o ambiente político era desfavorável, e, no caso de Emma, a imitação a levaria ao adultério, e não só.

O tipo mais comum de mediação externa em que realmente não existe qualquer pudor em declarar em alto e bom som a imitação de um modelo é a prática religiosa. Ser cristão é imitar Cristo, e um dos livros mais difundidos do cristianismo é justamente o manual intitulado Imitação de Cristo. O budista pretende imitar Buda, e obter a iluminação. Para um religioso, a conduta do modelo é o critério para dirimir dúvidas.

A prática religiosa consiste em tentar fazer com que um modelo suplante os outros modelos que possuímos. Mas isso também vale para o exemplo dado no primeiro texto: vou me divertir com meus amigos ou fico em casa estudando? Quem é meu modelo, os amigos, próximos, que possuem a diversão, ou o ideal distante, que possui o objeto que desejo (que pode ser a sabedoria, uma habilidade, a admissão a um programa acadêmico, um emprego público)?

Se pensamos nesse exemplo, verificamos como a palavra “desejo” coloca em jogo diversas faculdades da alma, e como elas variam segundo a situação. Poderíamos dizer que Dom Quixote, louco que seja, tem um ideal ligado à sua vontade, e pretende subordinar suas concupiscências à sua vontade a fim de realizar seu desejo, que é imitar Amadis de Gaula. Já Emma Bovary tem um ideal ligado à concupiscência, e sua vontade é fraca. Tanto que, no momento em que ela enfrenta sua primeira decepção séria, ao ser abandonada pelo amante, cai num estado que se assemelha ao que hoje chamamos de depressão: não come, não sai da cama, mal fala etc.

Na prática religiosa cristã fala-se na “noite escura da alma”. A “noite escura” pode ser entendida da seguinte maneira: após uma experiência mística de contato com o modelo, isso é, de realização do desejo que mobilizava a vontade, o modelo parece retirar-se. O risco é o de uma depressão, como no caso de Emma Bovary. Ainda que esses fenômenos tenham o conteúdo muito distinto, são estruturalmente semelhantes. É importante mencioná-los agora para podermos falar de outras noções no futuro.

Assim, resumindo: mediação externa é aquela relação em que se deseja mimetizar um mediador espiritualmente distante. Falamos “espiritualmente” distante porque o modelo pode, por exemplo, ser um professor com quem se tem contato diário; por mais que haja proximidade física, o sujeito (aluno) e o modelo (professor) estão em esferas muito distintas.

É, claro, ainda, que essa relação não é estática. O aluno pode julgar um dia que teve sucesso na imitação do professor, isso é, que sabe o que ele sabe. Pode-se até mesmo dizer que um dos objetivos do ensino é fazer a passagem entre essas esferas e avaliar essa passagem segundo algum critério observável, como um exame. Em Os Quatro Amores, C.S. Lewis fala de como o professor deve estar preparado para que um dia alguns de seus alunos tornem-se seus rivais, isso é, para que a relação entre eles deixe de ser de mediação externa e passe a ser de mediação interna.

Mas isso já seria adiantar o próximo capítulo. Fica então o gancho.

6 Comments

  1. Robson Braga Marques

    27 de abril de 2015 at 09:55

    Creio que pode-se erroneamente deduzir da teoria mimética que apenas a mediação interna é capaz de criar desordens, de que só esse tipo tem reflexos negativos. Uma visão que coloca a mediação externa como a face “boa” e produtiva da mimésis, aquela que é a responsável por toda a criatividade e inovação através da emulação distante e não violenta de um modelo.

    Penso que a coisa não é bem assim, a mediação externa pode ter reflexos tão patológicos quanto a mediação interna. Os caso de Dom Quixote e Emma Bovary são bastante ilustrativos disso. Mesmo com a distância física ou espiritual do modelo, o desejo pode assumir características igualmente destrutivas. A diferença é que o potencial destrutivo em vez de possivelmente levar à violência, de ir em direção ao Ser que o Outro encarna e se quer possuir, esse potencial destrutivo se volta para si próprio.

    A mediação externa pode, sim, ser muito produtiva. Um escritor ou artista só se torna grande ao emular produtivamente os melhores modelos. Qualquer atividade humana necessariamente passa pela mediação externa, sem ela simplesmente não haveria a humanidade como conhecemos, toda inventividade e aprendizado humano estariam impossibilitados. Mas, tudo depende de como cada pessoa em particular lida com essa mediação, creio que existem duas maneiras diferentes de se lidar com ela, algumas pessoas são capazes de assumir uma postura forte e decidida, são capazes de ir até o fim na emulação de seu modelo sem apresentar qualquer sintoma mais patológico. Outras pessoas não são capazes de lidar muito bem com essa mediação, vão, assim como Dom Quixote, a um nível doentio de emulação, ultrapassam certa barreira, sua fascinação pelo modelo vai longe demais; ou, como Madame Bovary, a fascinação sucedida de fracassos em alcançar o modelo, leva a certo comportamento depressivo, certa fraqueza de espírito.

    Não sei se essa distinção é válida, se essa visão de que há um meio de se lidar de uma maneira sadia, “forte” e decidida, com a mediação externa não passa de uma mistificação da minha mente. Afinal, nunca soube lidar muito bem com ela, me encaixo no grupo dos doentes, mais especificamente à maneira de Emma Bovary, a vontade de emulação sempre me levou a certo comportamento depressivo, a mediação interna em mim sempre assumiu feições auto-destrutivas.

    • Robson Braga Marques

      27 de abril de 2015 at 09:58

      corrigindo: a mediação externa em mim sempre assumiu feições auto-destrutivas.

    • Pedro Sette-Câmara

      27 de abril de 2015 at 18:32

      Caro Robson, você toca, é claro, num ponto importante: é muito fácil, numa leitura superficial, binária, achar que a mediação externa é “boa” e a mediação interna é “má”, quando o que Girard diz é que a mediação interna leva à rivalidade e à violência. Jean-Michel Oughourlian comenta em alguns textos, ainda não traduzidos, que o desejo, ao enfrentar obstáculos diversos, transforma-se em vontade, ou ao menos em vontade forte. O desejo pode, é claro, sucumbir diante do primeiro fracasso, preferir a depressão, e isso pode estar perfeitamete relacionado à mediação externa (“nunca escreverei como Shakespeare; por isso, prefiro nem escrever nada”).

  2. Sobre a Noite Escura, falarás mais? Onde Girard comenta o assunto?

    • Pedro Sette-Câmara

      27 de abril de 2015 at 18:24

      Caro Felipe, não me recordo de Girard comentar a “noite escura” de São João da Cruz diretamente. O que apresentei foi uma reflexão minha.

  3. Wellington Abreu

    6 de maio de 2015 at 12:36

    Caro Pedro! Primeiramente parabéns pelo seus artigos, eles tem me ajudado a entender bem melhor a teoria de Girard. Sou Wellington Abreu, acadêmico do 5º Período do Curso de Licenciatura em Filosofia da Faculdade Salesiana Dom Bosco de Manaus e estou formulando minha monografia em René Girard, em vista de fazer um diálogo sobre a violência que ele aborda, mas tentando relacionar com as atitudes éticas que o ser humano possui em seus comportamentos, se é que me faço entender. Eu gostaria de saber se você tem alguma reflexão sobre esta temática que pudesse contribuir com as minhas.
    Se houver e puder partilhar eu ficaria muito grato!!

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