Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

A mediação interna

Após termos falado sobre a mediação externa, e já não havendo dificuldades quanto ao caráter mimético do desejo, é hora de falar sobre o tipo de mediação a que René Girard dedicou a maior parte de sua obra de crítica literária: a mediação interna.

Se a mediação externa é definida pelo desejo de um objeto designado por um mediador ou modelo espiritualmente distante, a mediação interna é definida simplesmente pelo desejo de um objeto designado por um mediador espiritualmente próximo. Por alguém que consideremos um par, um igual.

É preciso observar que essa relação não precisa ser estabelecida de maneira consciente (sem que, como já observamos, isso nos leve a um inconsciente em sentido freudiano). Você pode, por exemplo, julgar que sente um profundo desprezo por seu colega de escola; no entanto, ele está na mesma situação que você, no mesmo nível. Se ele tiver a mesma idade, é mais comparável ainda. Você pode tomá-lo como medida para si mesmo.

O raciocínio inverso também é válido. Você pode sentir-se um nada perto do seu colega. No entanto, ele continua sendo seu colega.

Se você se sente um nada perto do seu professor, do seu chefe, do presidente da sua empresa, do papa ou da rainha da Inglaterra, tudo bem: eles estão em outras esferas, estão separados por barreiras que você poderá transpor se cumprir certas condições, ou que jamais poderá transpor. Assim, você julga estar ocupando seu devido lugar; você não se sente humilhado.

Humilhar-se diante daquilo que parece legitimamente superior é sentido como uma virtude; humilhar-se diante do que parece igual é sentido como uma ofensa, uma indignidade.

Por isso, a cobiça da mediação interna é a cobiça por algo que parece devido. A criança deseja o brinquedo que todos os colegas têm; por que ela deveria ficar inferiorizada?

Quando o adulto deseja também aquilo que julga que todos têm, o último objeto de desejo da moda, ele está agindo da mesma maneira — apenas, ao contrário da criança, é muito mais capaz de justificar seu desejo, dando-lhe a aparência de um ato perfeitamente racional. Os adultos não são menos miméticos do que as crianças; são mais capazes de esconder o próprio mimetismo.

O desejo de esconder a mediação interna provavelmente nasce dessa dolorosa verificação de uma carência fundamental: eu não tenho o objeto que considero que me é devido porque meus pares o possuem. Como posso me apresentar diante deles sem ter esse objeto, que pode ser o brinquedo, o smartphone, um namorado ou uma namorada, ou mesmo algo mais intangível, como a capacidade de transmitir confiança, de ser “bem-resolvido”?

Pensemos no “Poema em linha reta”, escrito por Álvaro de Campos, o mais famoso heterônimo de Fernando Pessoa:

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

(…)

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,

Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…

Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Em consiste essa vileza, essa baixeza? Em ser o único que não possui o que todos possuem. Daí a vergonha, e daí a necessidade de esconder o desejo. (E a força do poema vem de confessar o que parece inconfessável.)

Mas não é essa a única razão. Em Teatro da inveja, Girard diz que Shakespeare logo descobriu a mediação interna e escancarou-a aos olhos do público — que não teria gostado muito de vê-la assim exposta. Em Os dois cavalheiros de Verona, a primeira peça que Girard discute no livro, temos dois amigos; um exalta as virtudes de uma moça, Sílvia, e o outro, é claro, apaixona-se por ela.

“É claro”? É claro dentro de um contexto de discussão da teoria mimética. Mas se quisermos pensar em exemplos da vida cotidiana, podemos lembrar das vezes em que exaltamos objetos que possuímos — nosso conhecimento duramente adquirido, nossos eletrodomésticos, nossos instrumentos — para nossos amigos, na esperança de sermos admirados por nossa diligência, por nosso bom gosto etc. Quem nunca ficou ressentido ao ver que um amigo nega a um objeto o entusiasmo que sentimos por ele, justamente depois que manifestamos esse entusiasmo?

Aí está o mimetismo: queremos aumentar nosso desejo por meio do olhar do outro, do entusiasmo do outro. Não só mimetizamos como queremos mimetizar. Se aceitamos a sugestão do amigo, queremos poder voltar e compartilhar com ele a experiência, seja para provar que o igualamos, seja para aumentar o prazer que fruímos na posse conjunta, seja, até, para dar a entender que o superamos no domínio daquele objeto.

Dou um exemplo em que se pode observar isso com facilidade: as discussões sobre vinho.

De um lado, há os que julgam que a partir de certa faixa de preço os vinhos são todos iguais, isto é, eles pensam que aqueles que dizem apreciar certos vinhos são apenas esnobes.

De outro, os que apreciam os vinhos podem desprezar aqueles que não os apreciam, e até verdadeiramente agir como esnobes.

De um terceiro lado, como que tentando contemporizar, vemos aqueles que dizem que o vinho depende do momento e da companhia. Estes admitem que o melhor do vinho é ser um pretexto para o mimetismo.

O exemplo, é claro, não foi escolhido a esmo. Ele permite que observemos uma tendência — enfatizemos: uma tendência — da mediação interna, que é a do “desaparecimento” do objeto. Repararam como os argumentos em torno do vinho na verdade dizem respeito a pessoas, e não a vinho?

Isso acontece porque a mediação interna é competitiva. Desejamos o objeto que o outro possui, ou que julgamos que ele possui, e acreditamos que ele deveria pertencer-nos. O outro, é claro, pode nos ver da mesma maneira. O apreciador de vinhos espera que o olhar do outro o reconheça como tal. O personagem de Shakespeare elogia a namorada para o amigo na esperança de que o olhar do amigo confirme seu desejo. Mas como convidar uma pessoa a desejar algo sem que ela tome posse desse algo? O vinho é compartilhável, mas a posição relativa de mestre dos vinhos não é. Nem a namorada.

É por essa razão que surge a violência. Porque há uma competição por um objeto indivisível. Daí que se diga que uma diferença entre a mediação externa e a interna é que a primeira é pacífica: pacífica no que diz respeito à relação entre o sujeito e o modelo, bem entendido, não no que diz respeito ao sujeito de modo geral. Nada impede, por exemplo, que se faça uma revolução em nome de um ideal, e no ato revolucionário diversas mediações, externas e internas, estarão em jogo ao mesmo tempo. Quem quer que estude a estética da Revolução Francesa, por exemplo, se depara com os ideais romanos da pintura de David. O objeto da mediação interna revolucionária era o controle do governo; o modelo da mediação externa era a república romana. Lembremos, aliás, que boa parte de toda retórica revolucionária consiste em abolir a distância espiritual entre governantes e governados, com o fim mesmo de tornar legítima a competição com os governantes.

Mas aí já estaríamos dando um passo à frente e saindo do escopo deste post. No entanto, a sugestão mostra a riqueza da teoria girardiana. É possível ler o discurso revolucionário como uma tentativa de transformar uma relação de mediação externa numa relação de mediação interna, e nesse estudo ainda seríamos ajudados por outras noções, que discutiremos no tempo devido.

2 Comments

  1. Robson Braga Marques

    1 de maio de 2015 at 19:16

    Creio que essa possibilidade das mediações interna e externa se complementarem, com uma se alimentando da outra, seja algo que aconteça com bastante frequência.

    Claro que essa conceitualização entre dois tipos de mediações foi importante para o Girard expôr a sua teoria; essa distinção é crucial para compreendermos os passos seguintes, onde a violência entra em questão com a proximidade espiritual do mediador e gera um problema fundamental para a sociabilidade humana, ao fim resolvido com a violência sacrificial. Mas, é óbvio, nenhuma teoria consegue traduzir toda a complexidade da realidade sem perdas pelo caminho. Na vivência do real descobrimos que as fronteiras que separam mediador e sujeito são bastante dinâmicas, uma mediação externa pode evoluir e tornar-se interna – uma sociedade em crise do Degree vê isso acontecer com frequência, uma mediação interna pode ter sua fonte de alimentação em um outro desejo onde o modelo está distante: a inveja sobre meus amigos que jogam bem futebol pode ter sua origem no desejo de ser o distante craque de futebol que tomo como modelo.

    Enfim, as astúcias do mimetismo não conhecem limites, às vezes é difícil acompanhar todos os seu ardis.

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