Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

Modelo-obstáculo e double bind

Teatro da inveja

Teatro da Inveja

Podemos recapitular brevemente nossa trajetória: tendo estabelecido o caráter mimético do desejo, vimos que ele, por conseguinte, segue um modelo, percebido ou não-percebido. Se o modelo é percebido e distante “espiritualmente”, como na relação entre discípulo e mestre, escritor iniciante e escritor canonizado, ou entre o fiel de uma religião e um santo ou um deus, a mímesis é assumida e não há conflito entre quem imita e quem é imitado. Recordamos que é assim que Girard abre Mentira romântica e verdade romanesca: lembrando que Dom Quixote declara estar imitando Amadis de Gaula. Essa é a relação de mediação externa.

Porém, se o modelo está próximo, a situação se complica. O sujeito imitador não quer admitir a imitação; quer ser original, espontâneo, crer que o outro é um usurpador. O sujeito e o modelo podem brigar pelo objeto de desejo, e nesse caso as definições de sujeito e modelo passam a ser estritamente formais, porque um pode ser modelo do outro e vice-versa. Dom Quixote, por sua vez, nunca passa a ser modelo para Amadis de Gaula. Cristo não passa a querer imitar o cristão. Porém, na relação em que não há distância espiritual, a de mediação interna, quando eu desejo a namorada do meu amigo, ele passa a desejá-la mais por causa do meu desejo. E eu desejei-a porque ele a desejou. Quanto mais um deseja, mais o outro deseja. É difícil apontar onde começa a relação, porque o próprio desejo do amigo pela namorada nasceu de ele considerá-la desejável a olhos alheios.

Vejam só como podemos complicar a situação. Suponhamos um casal profundamente religioso. Um cônjuge desejou o outro porque viu nele a possibilidade de seguir uma vida conforme à religião. Sob esse ponto de vista, o desejo segue a lógica da mediação externa, porque há um ideal distante espiritualmente. No entanto, esse casal religioso pode ter amigos religiosos, desejar que esses amigos aprovem suas escolhas. Essa relação, de mediação interna, passa a coexistir com a de mediação externa.

Contudo, é claro que nenhum cônjuge deseja o adultério. Nenhum cônjuge deseja que o amigo em cujos olhos quer ver a confirmação do desejo pelo outro cônjuge quer que o amigo efetivamente possua esse outro cônjuge. Ou, em termos mais simples, o marido quer que o amigo considere sua esposa desejável, mas não quer que o amigo possua sua esposa.

Se a relação está clara, podemos usar o termo “técnico”: o marido está agindo como modelo-obstáculo, dizendo ao amigo, ainda que sem palavras: imite-me, mas não me imite. Deseje minha esposa, mas não a possua. É a mesma atitude da criança que leva o brinquedo novo para a escola para mostrar aos amigos: ela quer que os amigos desejem o brinquedo, mas não quer que eles o possuam.

Nós mesmos podemos agir como modelos-obstáculos e termos modelos-obstáculos. É só trocar a posição. É só vermos o brinquedo do amiguinho da escola para o cobiçarmos. Ou a namorada do amigo. Mas não podemos ter nem o brinquedo, nem a namorada.

É por isso que, na mediação interna, o modelo também tende a ser um obstáculo.

E é esse comando contraditório emitido pelo modelo, “imite-me, mas não me imite” que no pensamento de René Girard é chamado de double bind ou “duplo vínculo”.

Aqui é preciso fazer uma ressalva. O termo double bind foi tomado emprestado por René Girard da obra Steps Towards an Ecology of Mind do psicanalista Gregory Bateson. Na obra de Bateson, o double bind tem um sentido mais restrito, referindo dois comandos contraditórios emitidos por um superior para um inferior. Se um pai manda o filho fazer duas coisas que se cancelam mutuamente, se um patrão dá ao empregado duas ordens que se excluem, temos o double bind. Na obra de Girard, o double bind fundamental é: imite-me, mas não me imite, e surge em situações de mediação interna.

E vale ainda fazer outra observação. O termo double bind vem de Hamlet. No momento em que o rei Claudius deseja rezar, ele admite para si a culpa pelo assassinato do irmão. Ora, tem um assassino o direito de rezar? Assim, Claudius, dividido entre a culpa e a vontade de rezar, fica paralisado, e diz-se ”a man to double business bound” (ato III, cena 3), “um homem obrigado a duas tarefas”, que, no caso, excluem-se.

Nos primeiros capítulos sobre o teatro de Shakespeare de Teatro da inveja (o capítulo inicial trata do poema “O estupro de Lucrécia), Girard discute Os dois cavalheiros de Verona* e a estranheza que a peça provoca. A situação dramática é essa de que estamos falando: Proteu e Valentino são amigos, e Proteu deseja Sílvia, amada de Valentino, a ponto de raptá-la. No momento em que Proteu vai estuprar Sílvia, Valentino percebe que foi ele próprio quem instigou em Proteu o desejo por Sílvia, e oferece a moça ao amigo.

(A propósito: o próprio Girard explica de maneira bastante didática a mediação interna e o modelo-obstáculo nos capítulos de Teatro da Inveja dedicados a *Os dois cavalheiros de Verona.)

A estranheza desse desfecho é que aponta para a riqueza dramática ou narrativa de tantas peças e de tantos romances. Se, como leitores de Girard, a atitude de Valentino é perfeitamente compreensível, também devemos admitir que, enquanto público de teatro, parece-nos muito esquisito que um rapaz ceda assim a amada ao amigo. (Isso, é claro, para nem falar do ponto de vista da própria moça.) É que, como já dissemos, não temos problema em reconhecer nossos modelos externos, mas quando se trata do mimetismo interno, preferimos crer que somos espontâneos. E, por mais que se diga que a arte deve questionar, também parece razoável observar que aquela parcela do público que deseja ver-se frontalmente questionada quando sai para se divertir não é, digamos, grande o bastante para viabilizar comercialmente a maioria dos produtos culturais.

Girard afirma que Shakespeare teria deliberadamente construído suas peças posteriores de maneira a ocultar e revelar ao mesmo tempo os mecanismos da mediação interna. Essa ocultação espelha o desejo do público de não ver sua imagem direta no palco, que é acompanhado do desejo de reconhecer-se. Assim, o double bind, que é um risco em termos de relações humanas, pode perfeitamente servir de princípio de composição artística.

Resumindo, então, o double bind é o tipo de relação estabelecida por um modelo-obstáculo em relação ao sujeito que deseja. Essa relação é formal, ou seja, qualquer pessoa na relação pode desempenhar o papel de modelo-obstáculo para a outra, ao mesmo tempo em que tem essa outra como modelo-obstáculo. Esse tipo de relação existe na mediação interna, e é por causa dela que a mediação interna tende à violência: porque um objeto é cobiçado e proibido ao mesmo tempo. Enfatizemos, porém, o “tende”: se o objeto de desejo é algo que o sujeito pode comprar numa loja, ele não precisa necessariamente tomá-lo do modelo. Se o meu amigo me mostra as maravilhas da última engenhoca que comprou, posso eu mesmo comprá-la também, não preciso roubá-la. Ou posso, é claro, simplesmente conter a minha cobiça, inclusive por ter outros modelos, externos, que me indicam que a cobiça é indesejável. Importante é recordar, sempre, que em toda relação existem diversas pressões simultâneas, e que a força da análise mimética se perde se a reduzimos à mera aplicação de um modelo triangular.

2 Comments

  1. Robson Braga Marques

    4 de maio de 2015 at 17:12

    É realmente admirável a quantidade de comportamentos que a teoria mimética consegue dar conta. Lembro-me que ao primeiro contato relutei em aceitar tamanha simplicidade, mas depois de perceber o enorme alcance que esse simples pressuposto pode assumir me rendi completamente. Talvez seja certo que nenhuma teoria consiga traduzir perfeitamente toda a complexidade do real, ainda mais se tratando das ciências humanas e da dificuldade que o homem tem de entender objetivamente suas próprias construções sociais e comportamentos, mas Girard com extrema simplicidade consegue decifrar magistralmente essa estranha que criatura que somos.

    O fato do desejo ser mimético não é nem de longe algo simples, por traz desse enunciado subjaz uma enorme angústia ontológica que faz parte da existência de todo ser humano. A frase “Os homens serão deuses uns para os outros” é, de fato, uma bela ilustração do jogo mimético. Essa angústia ontológica trata-se de uma constante vontade de transcendência, de alcançar um Ser idolatrado por todos, buscamos a todo momento sermos vistos e adorados, seja pela posse de um objeto material, nas realizações amorosas ou no status e lugar social que nos encontramos. Ironicamente, o único meio de alcançarmos esse Ser é olhar em direção ao próximo e escrutinar os parâmetros do que é desejável, pois não temos esses parâmetros, toda dificuldade reside em que não sabemos o caminho das maravilhas, não sabemos como realizar esse Ser resplandecente e adorado. A busca por ser um deus diante de todos resulta numa grande escravidão, resulta em estar preso às sugestões dos próximos e do meio a qual nos inserimos.

    O double bind é a melhor prova de que na teoria mimética não há conceitos estáticos, tudo é dinâmico, instável e contraditório. Estamos envoltos numa rede de mediações, onde ora assumimos a posição de sujeito, ora de modelo, ora imitamos, ora somos imitados. Nosso objetivo quando dispomos o olhar em direção ao outro em busca do desejável é que nós mesmos sejamos objetos desse olhar. Mas, almejamos apenas os olhares, que o outro também alcance a posição invejada em que nos encontramos é uma afronta, não queremos compartilhar nossa transcendência, somos deuses vaidosos e ciumentos.

    Em Teatro da Inveja, dentre os inúmeros exemplos em que a genialidade de Shakespeare ilustra o conceito giradiano de double bind, o caso de Laerte em Conto de Inverno foi pra mim bastante marcante, seja por sua tragicidade, seja por seu final redentor. A imaginação que impele Laerte em seu ciúme é bastante ilustrativa de uma questão interessante: grande parte do desejo mimético trata-se apenas de paranóia, de desejar o que imaginamos o que o outro deseja, os modelos muitas das vezes são apenas personagens que nós mesmos inventamos.

    • Robson Braga Marques, creio que o exemplo que você citou de Conto de Inverno abre caminho para mais um termo da teoria mimética: o duplo angélico. Espero que o Pedro Sette chegue a ele bem rápido.

      Por sinal, gostaria de saber do Pedro Sette se o double bind, na concepção girardiana, se restringe apenas ao modelo obstáculo ou se, para além disso, pode ser compreendido como toda ação mimética de duplo vínculo auto-contraditório, como o pharmakon. Foi esse uso mais amplo que eu percebi (talvez mal) na leitura de A Rota Antiga dos Homens Perversos.

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