por Mark Anspach

Por que um poder imperial opressor encenaria uma sofisticada forma de sacrifício humano jogando jovens representantes de cada território conquistado uns contra os outros? Não faz sentido! Ao menos não para David Denby, crítico de cinema da New Yorker…

A América do Norte pós-apocalíptica da trilogia de Suzanne Collins divide-se em 12 distritos pobres dominados pela opulenta Capital. Todo ano, como punição por uma rebelião fracassada de 75 anos antes, a Capital exige que cada distrito ofereça um rapaz e uma moça como tributos. Os 24 tributos são confinados em uma enorme arena ao ar livre onde devem combater a fome e uns aos outros até que só um sobreviva. O vencedor da competição — transmitida pela TV — e seu distrito de origem são então ricamente recompensados.

Em sua resenha de 2 de dezembro de Jogos Vorazes: Em Chamas, o filme feito a partir do segundo livro da série, Denby admite que a “premissa básica” do primeiro “nunca fez muito sentido” para ele. “Como poderia um governo totalitário conter o povo ao mesmo tempo em que força alguns de seus filhos a lutar até a morte numa competição anual?”, pergunta. “O que poderia incitar a revolução mais do que a aflição de ver crianças morrendo?”

Bem, faça sentido ou não, muitas civilizações sacrificaram vítimas jovens numa escala muito maior — e isso para nem falar dos milhões de jovens que sacrificam suas vidas nos campos de batalha, muitas vezes por razões menos importantes do que os bens urgentes que o distrito vencedor recebe nos Jogos Vorazes. Os vigorosos romances do segmento young adult de Suzanne Collins são uma rigorosa exploração da lógica do sacrifício e de como ele pode ser usado para fins repressivos ou revolucionários.

Denby poderia ter aproveitado melhor as criações de Collins se tivesse investigado a antropologia dos rituais da vida real. A obra pioneira de René Girard sobre o sacrifício teria sido um bom lugar para começar. Em A Violência e o Sagrado, Girard define o sacrifício como uma válvula de escape periódica para todas as tensões e hostilidades acumuladas que ameaçam uma comunidade. Quando os impulsos violentos são redirecionados para vítimas rituais, recupera-se a harmonia. A participação coletiva no rito na verdade serve para unir as pessoas — e é essa a intenção por trás dos Jogos Vorazes.

Para garantir que ninguém fique sem entender o recado, esse propósito é afirmado explicitamente na cena de abertura do primeiro filme. “Acho que é nossa tradição”, diz o Idealizador dos Jogos a um apresentador de TV. “É algo que vem de uma parte especialmente dolorosa da nossa história, mas é assim que nós conseguimos nos curar. No começo era uma lembrança da rebelião, o preço que os distritos tinham de pagar, mas acho que hoje é mais que isso — acho que é uma coisa nos une a todos.”

Para que um ritual una a todos, todos precisam ser incluídos. “A cerimônia sacrificial exige uma demonstração de participação coletiva”, escreve Girard, ainda que de maneira puramente simbólica.” É por isso que os Jogos são transmitidos em telas gigantescas pelo país inteiro. E é pela mesma razão que é obrigatória a presença na loteria em que os tributos são selecionados.

Ainda que só meninas e meninos entre 12 e 18 anos possam ser escolhidos, todos os habitantes do distrito devem estar presentes quando os nomes são sorteados. Do contrário, aqueles que não participaram poderiam lançar a culpa pela morte das vítimas sobre aqueles que participaram, e o ritual geraria dissensão em vez de unidade. Para impedir que isso aconteça, a responsabilidade pelo sacrifício deve ser compartilhada igualmente entre todos os membros da comunidade.

A cena em que os habitantes do distrito reúnem-se na praça da cidade para a loteria é claramente inspirada pelo famoso conto de Shirley Jackson que chocou os leitores da New Yorker quando foi publicada em 1948. Há, porém, duas diferenças fundamentais. Primeira, o ritual anual na história de Jackson é simplesmente uma tradição; não é uma obrigação estabelecida por um governo totalitário. Segunda, os aldeães todos unem-se no apedrejamento da vítima. Isso garante que todos sejam igualmente culpados.

O problema com que se deparam os governantes do mundo criado por Suzanne Collins é como impor o sacrifício à população conquistada e ao mesmo tempo minimizar sua própria culpa pelas mortes decorrentes. A melhor maneira seria fazer com que todos participassem do ato de matar, como os aldeães de Shirley Jackson, mas isso só funciona no ambiente de uma cidade pequena. Uma participação tão direta não é viável na escala de um país inteiro.

Assim, por que não oferecer a participação indireta? É exatamente isso que fazem os Jogos Vorazes. Do ponto de vista do procedimento, é algo semelhante ao salto de uma cidadezinha da Nova Inglaterra para o governo representativo. Cada distrito deve mandar dois delegados para participar nos assassinatos em seu nome. Isso garante que cada distrito terá a mesma parcela de culpa nas mortes das vítimas.

Claro que todos sabem que, em última instância, a responsabilidade cabe aos governantes da Capital. Isso nos leva de volta à pergunta de David Denby. Os Jogos Vorazes não vão só fazer com que as pessoas odeiem a Capital ainda mais? Ver seus filhos morrendo não vai incitar o povo à revolução?

Mas as pessoas não apenas veem seus filhos morrendo. Elas os veem sendo brutalmente assassinados por jovens de outros distritos. Isso lhes dá um bom motivo para odiar os outros distritos. Enquanto as pessoas permanecerem divididas umas contra as outras, os governantes estão seguros.

Os Jogos Vorazes combinam astuciosamente a antiga estratégia de dividir para reinar com a lógica primitiva do sacrifício. Pode até ser verdade que ver jovens sendo mortos leve ressentimentos já quentes a um ponto de ebulição. Mas os próprios Jogos Vorazes oferecem uma válvula sacrificial para os impulsos violentos que liberam.

As pessoas não apenas veem seus próprios filhos morrendo; elas veem os filhos de distritos rivais sucumbindo à mesma violência. Nenhum distrito é dispensado do sacrifício. Até o distrito vencedor deve pagar seu preço em sangue, porque apenas um de seus dois tributos pode sobreviver.

Mesmo sem os Jogos Vorazes, o governo opressor da Capital provocaria ódio e ressentimento. Esses impulsos explosivos não poderiam ser contidos para sempre. É por isso que a Capital organiza um sacrifício anual.

“Não se pode negar a violência”, observa Girard, “mas pode-se dirigi-la para outro objeto”. Os Jogos servem para ventilar o potencial de violência numa direção que não coloca os governantes em perigo. As vítimas sacrificiais são substitutos para aqueles que de outro modo seriam o alvo da ira popular.

Mas manipular a violência exige muita esperteza. Sempre há o risco de que um sacrifício dê errado. Os Jogos Vorazes têm sua argúcia, mas não são perfeitos. São vulneráveis a ser subvertidos desde dentro pelos jogadores que rejeitem sua lógica assassina.

É isso que acontece nas duas primeiras partes da saga. A sequência inicial conta a história de como o menino e a menina do Distrito 12, Katniss e Peeta, recusam-se a seguir as regras, acendendo involuntariamente a faísca que vira uma chama na parte seguinte.

Como Denby não entendeu direito o primeiro filme — descrevendo-o em sua primeira resenha, publicada na New Yorker em 2 de abril de 2012, como um filme chato de ação cuja heroína “fica indo atrás de vários garotos com seu arco” (registre-se: Katniss não faz nada disso) —, ele não consegue entender como ele prepara o terreno para o que acontece em seguida. “Após sobreviver à competição com engenho e ousadia”, escreve, Katniss ganham fama e fortuna. “Contudo, a rebelião irrompe nos doze distritos do país…”

Essa sinopse sugere que a rebelião irrompe por acaso. Na verdade, Katniss e Peeta inspiram-na com seu exemplo. Eles não sobrevivem à competição simplesmente com engenho e ousadia, mas com sua obstinada determinação de não desistir de sua humanidade.

Seu primeiro ato de desobediência aconteceu antes mesmo de os Jogos começarem, quando deram as mãos durante a procissão de abertura, apresentando-se como amigos, e não como rivais. Dentro da arena, Peeta arriscou a vida para salvar Katniss, sofrendo um ferimento letal, e ela, por sua vez, arriscou sua vida para obter o remédio que permitiria que ele sobrevivesse.

Katniss também ficou amiga de uma menina de 12 anos chamada Rue. Quando Rue foi morta, Katniss enfeitou seu corpo com flores, num protesto simbólico contra a ideia de que ela deveria ficar contente com a morte de outro tributo. Esse gesto de insolência e solidariedade iniciou uma cadeia de acontecimentos sem precedentes. O distrito natal de Rue enviou a Katniss um presente cuja destinatária original era Rue — a primeira vez na história dos Jogos em que o povo de um distrito dava seu apoio ao tributo de outro distrito.

Então o corpulento rapaz do distrito de Rue, Thresh, aparece para socorrer Katniss no momento em que ela se vê sobrepujada ao buscar o remédio de Peeta. Thresh matou o agressor de Katniss e deixou Katniss partir. Só dessa vez, explicou, ele pouparia Katniss — por Rue.

Foi esse o momento da virada. Se Thresh tivesse matado Katniss, Peeta teria morrido sem o remédio. O engenho e a ousadia dos dois heróis teria sido inútil. O que salvou-os foi uma solidariedade que transcendeu as divisões entre os distritos — uma solidariedade que floresce outra vez no começo do segundo filme, quando Katniss homenageia publicamente Thresh e Rue.

Os governantes logo percebem o risco apresentado por essas expressões de solidariedade. Se as pessoas pararem de dirigir sua violência umas contra as outras, bem poderão dirigi-la para a Capital. A fim de conter a crise crescente, os governantes inventam uma forma nova e mais potente de sacrifício: uma nova rodada dos Jogos, colocando vencedores anteriores uns contra os outros.

Denby reclama que essa tentativa de solução “também não faz muito sentido”. Na verdade, ela se segue diretamente da lógica do sacrifício revelada por René Girard. “Quanto mais crítica a situação”, explica Girard, “mais preciosa deve ser a vítima sacrificial.” E quem poderia ser mais precioso do que os gloriosos vencedores dos Jogos Vorazes passados?

Preciosos, mas também potencialmente perigosos se, como Katniss, eles desafiarem o regime. Ao delegar a eles a tarefa de matar-se uns aos outros, a Capital espera conseguir eliminá-los sem sujar as próprias mãos e restaurar a lógica de sacrifício que não funcionou da última vez.

O sacrifício anterior falhou porque nem todos os participantes aceitaram-no. “A unanimidade é uma exigência formal”, enfatiza Girard. A “abstenção de um único participante torna o sacrifício pior até do que inútil — torna-o perigoso.” Quando restam apenas Katniss e Peeta, os dois abstêm-se de levar o ritual sangrento até o fim. Sua disposição de entregar as próprias vidas em vez de lutar um com o outro é o que faz deles modelos para os rebeldes.

Às vezes, recusar-se a matar pode ser um ato revolucionário.

*Mark Anspach é autor de Anatomia da Vingança — Figuras Elementares da Reciprocidade e de Édipo Mimético, ambos publicados pela É Realizações. Este artigo foi publicado originalmente no site da Fundação Imitatio.