Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

O desejo “metafísico”

Continuando a série sobre noções básicas girardianas, vamos apresentar a ideia de desejo “metafísico”, que é discutida longamente no capítulo “Os homens serão deuses uns para os outros”, o segundo de Mentira romântica e verdade romanesca, e rediscutida e mencionada em diversos outros pontos da obra de René Girard.

Como de costume, a noção é simples, mas permite aplicações sofisticadas. Podemos dizer que existe no desejo mimético um aspecto “metafísico” porque ele, em última instância, volta-se não para um objeto, mas para o ser do modelo que o designa. Descendo à banalidade, pense no seguinte: você enxerga pessoas com seus smartphones, e pensa que elas são conectadas, felizes e eficientes; o que você deseja é ser, como elas, conectado, feliz e eficiente, e o smartphone é apenas um instrumento para isso. Tanto é que você sabe que, após adquirir o seu objeto de desejo, o mundo mágico em que você esperava adentrar não se materializa; você apenas transfere sua expectativa para outro objeto.

(É claro que você pode querer possuir um smartphone por razões puramente utilitárias; não é disso que estamos falando. Mas mesmo uma escolha primariamente utilitária pode ser influenciada pelo mimetismo — na escolha do modelo de smartphone, por exemplo.)

O ensaio “From the Novelistic Experience to the Oedipal Myth”, de Oedipus Unbound (Stanford: Stanford University Press), inicia exatamente com a frase: “O desejo não é deste mundo… É para entrar em outro mundo que se deseja” (p. 1). Ou, no mesmo “Os homens serão deuses…”: “Todos os heróis de romance esperam da posse [do objeto] uma metamorfose radical de seu ser. (…) O objeto constitui-se apenas num meio de alcançar o mediador; é o ser desse mediador que o desejo almeja.” E, logo em seguida, valendo-se do exemplo do Proust de Em busca do tempo perdido, Girard explica que o narrador da obra sempre deseja ser iniciado numa nova vida — “vida de esportes, vida rústica, vida ‘desregrada’” — a cada vez que conhece uma pessoa interessante.

Vale a pena observar que o aspecto “metafísico” do desejo mimético está presente tanto na mediação externa quanto na interna. Nas duas, o sujeito percebe a si mesmo como alguém carente de ser, alguém cuja existência é pobre, mesquinha. A existência do outro é que é mais rica e mais plena. A diferença, como observamos, é que na mediação externa o sujeito admite que a superioridade do modelo, e, na interna, não admite.

Agora, o caráter “metafísico” do desejo está associado a dois outros fenômenos.

O primeiro deles é a tendência — enfatizemos: tendência — ao desaparecimento do objeto. O desaparecimento, por sua vez, pode indicar a irrelevância. A explicação em simples: como o que na verdade se deseja é o ser do outro, o objeto que o outro designa como desejável tende a tornar-se irrelevante. Contudo, é importantíssimo observar que, numa rivalidade produtiva, como aquela entre Picasso e Matisse discutida no artigo do prof. João Cezar de Castro Rocha com que iniciamos este blog, o objeto nunca se torna irrelevante.

Existem algumas maneiras de um objeto tender à irrelevância. Na mediação interna, por exemplo, uma rivalidade pode fazer com que os rivais prestem cada vez mais atenção um no outro, o que parece ilustrado por uma fórmula popular: “o que é que ela/ele tem que eu não tenho?”, isso é, o que há no ser dela ou dele? Num grau ainda mais avançado, um rival pode contentar-se não com a posse do objeto designado, mas com o aniquilamento do outro. (E, mesmo nesse caso, pode não se sentir “contente” em sentido mais estrito.) Um dos segmentos do filme Relatos Selvagens mostra exatamente isso: o que começa com uma simples disputa pela dianteira na estrada termina com a pura vontade de aniquilação, quando o objeto (a dianteira na estrada) já perdeu qualquer relevância.

Por outro lado, tanto na mediação interna quanto na externa, o sujeito pode perceber que a posse do objeto não lhe trouxe a vida nova tão sonhada. Se “o desejo não é deste mundo”, o objeto pode rapidamente revelar-se parte deste mundo aqui, com toda a sua banalidade. Seja adquirindo uma capacidade igual à de outro, comprando aquele smartphone com que iniciamos o texto, passando em primeiro lugar num concurso, o poder do objeto de fazer com que sintamos que passamos a uma esfera superior da existência tende a esvanecer-se com uma rapidez muitas vezes assustadora. O desejo, porém, permanece: podemos pular de um objeto a outro, e, como no exemplo de Proust dado por Girard, ora querermos ser esportistas, ora querermos a vida “desregrada” etc. Podemos desejar um smartphone, um livro, uma viagem, o que for. E não custa observar que a internet presta-se maravilhosamente a essa modalidade do desejo: podemos passar horas apenas contemplando possibilidades que seriam dadas pelos objetos x, y ou z.

Quando eu tinha uns vinte anos, li um livro muito conhecido: Ter ou ser?, de Erich Fromm. Ainda hoje encontramos, no jornalismo, na auto-ajuda em suas diversas modalidades (sem preconceitos: estoicismo e Padres da Igreja também podem ser chamados de “auto-ajuda”), essa oposição, que pode ser formulada como uma oposição à atitude aquisitiva, que deve ser trocada pelo cultivo de qualidades. A solução da auto-ajuda pode ser boa, mas a oposição entre ter e ser é falsa, porque ao buscar ter qualquer coisa nós na verdade esperamos que essa coisa modifique o nosso ser. Queremos “ter” para “ser”, e não por outra razão. Mesmo assim, a ideia de cultivar qualidades tem a virtude de lidar com o aspecto metafísico do desejo mais diretamente.

Também vemos o aspecto metafísico do desejo nos momentos em que Girard fala da vontade de “canibalizar” o outro — isso é, de absorver seu ser. Mesmo quando se fala do canibalismo ritual, não-metafórico, algo do aspecto metafísico do desejo está em jogo, mas entrar nessa questão já nos traria complicações muito além do escopo pretendido deste post.

1 Comment

  1. “a oposição entre ter e ser é falsa”

    A verdadeira, talvez: ser ou parecer.

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

© 2019 Miméticos

Theme by Anders NorenUp ↑