Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

Entre a sociologia e a antropologia do romance

O texto abaixo é uma resenha do ensaio “Introduction aux problémes d’une sociologie du roman”, que pode ser lido na amostra grátis (free sample ou extrait gratuit) da edição Kindle do livro na Amazon americana ou francesa A tradução brasileira, “Introdução aos problemas de uma sociologia do romance”, foi publicada em Sociologia do Romance (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976; tradução de Álvaro Cabral).

O ensaio “Introduction aux problèmes d’une sociologie du roman”, de Lucien Goldmann (publicado em 1965 em Pour une sociologie du roman), teria contribuído para impulsionar a carreira de René Girard, então um professor relativamente jovem, que em 1961 publicara Mentira romântica e verdade romanesca. Goldmann, diretor da Ecole Pratique des Hautes Etudes, teórico marxista que se distinguia por afirmar a crise do marxismo em plena década de 1960, certamente deu prestígio ao recém-chegado René Girard ao compará-lo, em seu ensaio, a ninguém menos do que o consagrado Gyorgy Lukács.

Deve-se admitir, porém, que, na comparação, Lukács sai de certo modo vitorioso: Goldmann considera que as categorias propostas pelo húngaro em seu incontornável Teoria do romance são mais abrangentes e mais fecundas do que as de René Girard. Cabe-nos examinar a maneira como Goldmann buscou articular os dois autores.

O argumento de base de Goldmann é marxista, e esse argumento é que será o critério da comparação. Logo no início do ensaio, Goldmann sugere uma equivalência de termos: “O romance é a história de uma busca degradada (que Lukács chama de “demoníaca”) de valores autênticos num mundo igualmente degradado, mas num nível mais avançado, e de modo diferente.”

O “demônio” de Lukács é mencionado no capítulo “O idealismo abstrato” de Teoria do romance: Lukács considera que o protagonista é seduzido por um “demônio” (as aspas indicam que se trata de uma metáfora, não de uma adesão de Lukács a uma cosmologia abraâmica) que coloca sua alma em contradição com o mundo, e a partir daí enumera os impasses possíveis para o protagonista. O aspecto “demoníaco” corresponde ao que há de frustrante, de infrutífero na busca, que resultará, segundo Goldmann, em três tipos de romances:

  1. o de “idealismo abstrato”, remetendo ao capítulo de Lukács, romance “caracterizado… pela excessiva estreiteza da consciência do herói frente à complexidade do mundo (Dom Quixote, O Vermelho e o Negro);
  2. o “psicológico”, “orientado para a análise da vida interior, caracterizado pela passividade do herói e por sua consciência ampla demais para satisfazer-se com aquilo que o mundo da convenção pode proporcionar-lhe (a esse tipo pertenceriam Oblomov e A educação sentimental)”;
  3. o “educativo”, que “conclui-se por uma auto-limitação, a qual, se renuncia à busca problemática, nem por isso é uma aceitação do mundo da convenção, nem um abandono da escala implícita de valores… (Wilhelm Meister, de Goethe, ou Der grüne Heinrich, de Gottfried Keller)”.

A insistência de Goldmann na questão dos “valores” decorre de seu argumento de base, o critério da comparação há pouco mencionado, que podemos formular assim: os objetos possuem um valor “real”, definido por seus atributos, mas a produção para o mercado perverte esse valor real, que, seguindo a tradição marxista, Goldmann denomina de “valor de uso”, ao enfatizar o “valor de troca” dos objetos:

A relação natural, sã, dos homens e dos bens é com efeito aquela em que a produção é regida conscientemente pelo consumo futuro, pelas qualidades concretas dos objetos, por seu valor de uso.

Ora, aquilo que caracteriza a produção para o mercado é, pelo contrário, a eliminação dessa relação da consciência do homem, sua redução ao implícito, graças à mediação da nova realidade econômica criada por essa forma de produção: o valor de troca.

Pouco antes, Goldmann explica sua “hipótese”:

A forma romanesca nos parece com efeito a transposição para o plano literário da vida cotidiana na sociedade individualista nascida da produção para o mercado. Existe uma homologia rigorosa entre a forma literária do romance, assim como a definimos no esteio de Lukács e Girard [isso é, como “busca degradada”], e a relação cotidiana dos homens com os bens em geral e, por extensão, dos homens com os outros homens, numa sociedade produtora para o mercado.

Reformulando, para Goldmann o romance é uma busca degradada porque, sendo a forma literária da sociedade de mercado, o valor de uso dos objetos foi tornado implícito, porque seu valor de troca está em evidência. Essa degradação do valor dos objetos contamina as relações humanas; o protagonista fica fadado a não encontrar “valores autênticos” neste mundo.

Mais para o final do ensaio, Goldmann expõe um raciocínio no qual fica clara sua preferência por Lukács:

…a criação do romance nada tem de surpreendente. A forma extremamente complexa que ele aparentemente representa é aquela em que vivem os homens todos os dias, sendo obrigados a procurar toda qualidade, todo valor de uso, segundo um modo degradado pela mediação da quantidade, do valor de troca, e isso numa sociedade em que todo esforço para orientar-se diretamente para o valor de uso somente poderia engendrar indivíduos também degradados, mas segundo um modo diferente, o do indivíduo problemático.

Não esquecemos que, bem no início, Goldmann dissera que “a forma de romance estudada por Lukács é aquela caracterizada pela existência de um protagonista romanesco que ele de modo felicíssimo definiu com o termo herói problemático”.

Aproximando Girard de Lukács, dizendo que o primeiro toma termos de Heidegger mas confere-lhes um sentido particularmente lukacsiano, Goldmann valoriza Mentira romântica e verdade romanesca por trazer “uma precisão que nos parece particularmente importante” à análise de Lukács, explicando que a mediatização (médiatisation, que entendemos não como mediação interna ou externa, mas como a presença cada vez maior de mediadores) é o resultado do fortalecimento do mal ontológico, e que ela amplia cada vez mais “a distância entre o desejo metafísico e a busca autêntica”.

Parece-nos razoável dizer então que, para Goldmann, a presença do mediador, em sentido girardiano, é o resultado do desconhecimento (de uma méconnaissance, palavra que Goldmann não utiliza) do “valor autêntico” dos objetos, que em algum nível se confundiria com o “valor de uso”. Quando Lukács fala da quantificação, refere-se ao dinheiro, que tornou-se uma mediação entre as relações econômicas. Considerando o papel central da vida econômica no mundo liberal, a relação mediada pela quantidade contamina as demais relações humanas. O mediador girardiano seria, para Goldmann, uma tentativa de recuperar a visão direta do valor dos objetos.

O contraste entre as posições de Goldmann e de Girard já pode ser entendido a partir do título do ensaio de Goldmann, que fala em sociologia do romance. Como é sabido, a teoria mimética apresentada por René Girard, mesmo tendo nascido como crítica literária, desemboca numa antropologia.

Sem questionar as definições de “valor de uso” e de “valor de troca” de Goldmann, ponto fraco de seu ensaio, podemos observar que, sem negar o valor de uso de um objeto (a casa serve para dar abrigo, a comida para comer etc.), a teoria mimética observa que os objetos, enquanto objetos de desejo, têm seu valor dado pelo mediador, o que, aliás, independe de uma situação de mercado. Mesmo que um objeto seja desejado por seu “valor de uso”, ele pode também ser desejado apenas porque outro deseja, ou por ter sido importante para esse outro. A relação é antropológica antes de ser sociológica, relacionada à estrutura do desejo humano, e não a uma determinada estrutura social.

Aquilo que Goldmann denomina busca “degradada” seria na verdade uma relação de mediação interna em que o desejo assume uma natureza paradoxal: o objeto é desejado porque é interditado pelo modelo. Julien Sorel deseja Mathilde de la Mole na medida em que ela se recusa, e Mathilde deseja Julien na medida em que julga que ele está nos braços de outra.

Girard, ao contrário de Lukács, não apresenta uma versão ideal da sociedade que sirva de contraste com a sociedade de mercado; não há em Mentira romântica e verdade romanesca a noção de uma perversão de algo “normal” ou “objetivo”, mas apenas a estrutura do desejo triangular com suas variantes de mediação interna ou externa. Chama a atenção que Lukács afirme que Dom Quixote, Julien Sorel e Emma Bovary (mencionada apenas em nota de rodapé) têm a “consciência estreita” e que por isso, na visão de Goldmann, não saibam lidar com a complexidade do mundo, e que possamos identificar os dois protagonistas como exemplos primários de mediação externa (tendo como modelos Amadis de Gaula, Napoleão Bonaparte e as protagonistas dos romances sentimentais), mas que não identifique as pressões ligadas à mediação interna na vida desses personagens. As relações entre Sorel e o M. de Rênal, e entre Sorel e Mathilde de La Mole, são profundamente marcadas pela rivalidade frontal, pela disputa de posição. Isso faz com que Sorel, para mantermos o exemplo, seja mais do que um “herói problemático” que está isolado do mundo; ele pode estar isolado do mundo pela escolha de seu modelo, porque o narrador nos mostra sua relação de mediação externa com Napoleão (como, ademais, também tem Mathilde de La Mole com os antepassados de sua família); ele também sofre as mesmas pressões do desejo que todos os outros personagens.

Parece-nos, portanto, que o distanciamento entre as perspectivas de Girard e de Lucien Goldmann está dado no ponto de partida. Goldmann busca uma visão sociológica; busca a “homologia” entre a forma literária do romance e uma determinada estrutura social. Girard, por outro lado, enxerga no romancista o portador de uma intuição fundamental sobre o homem de todas as épocas, aquele que, explicitando os mecanismos do desejo, pode revelar algo sobre qualquer formação social possível. Goldmann vê o romance e a sociedade de mercado correndo em paralelo, e sendo ambos interpretados por um crítico; Girard, por sua vez, enxerga o romancista como um “quase-teórico” que acede diretamente a algo da natureza humana individual e sobretudo, para usar seu termo posterior, interdividual, isso é, algo que diz respeito a quaisquer relações entre os homens. Tanto é assim que, na obra posterior de Girard, a teoria mimética foi aplicada não apenas a outros gêneros literários, como o teatro grego e o elisabetano, mas também às próprias estruturas sociais.

4 Comments

  1. Robson Braga Marques

    21 de maio de 2015 at 22:34

    A despeito de Goldmann só se interessar pela teoria mimética apenas na medida em que ela o ajuda a refinar os conceitos lukacsianos, penso que o marxismo ainda pode ser frutífero em algumas interpretações. Creio que alguns conceitos marxistas ainda podem ser reaproveitados e levados à uma nova luz numa interpretação a partir da teoria mimética. Para tanto, devemos proceder inversamente a como faz Goldmann; não devemos nos aproveitar da teoria mimética para reafirmar os conceitos marxistas e sim reinterpretar, oxigenar, os conceitos marxistas a partir dos novos horizontes que a teoria mimética nos oferece.

    O percurso que Girard percorreu em suas pesquisas foi sempre o de beber das intuições dos grandes pensadores, como Freud e Levi-Strauss, e dar um passo além. Sempre reconheceu que no trabalho desses pensadores havia já certo movimento em direção à descoberta do mecanismo sacrificial. O complexo de Édipo, o conceito freudiano de assassinato fundador, os conceitos levi-straussianos de conotação positiva, negativa e o de eliminação radical já pressagiavam a descoberta do mecanismo sacrificial. Esses pensadores foram geniais ao darem os primeiros passos para uma descoberta do vitimário; suas formulações são parciais e incompletas, mas podemos extrair delas intuições luminosas.

    Penso que pode ser realizada essa mesma leitura com relação a Marx; em seu pensamento podem ser traçados alguns paralelos com a teoria mimética. Marx descobriu certa dinâmica sacrificial na economia, mas essa descoberta é usada para justificar uma nova vitimação, sua descoberta não conseguiu deixar de ser contagiada com o próprio espírito do mecanismo vitimário; a distinção de classes que vilaniza e heroiciza certos setores da sociedade está fadada a continuar a reproduzir o mecanismo sacrificial. Mas, a dinâmica da economia capitalista, suas crises que periodicamente estão a purificar, descartar, tudo que se tornou ineficiente, tem muitos aspectos que lembram o sacrifício. Penso que uma leitura de Marx a partir de Girard seria importante para entendermos a dinâmica sacrificial no mundo moderno, tendo em vista o caráter proeminente que o econômico assumiu para o homem desde a revolução industrial.

    A teoria mimética pode se aproveitar de algumas intuições de Marx e, com isso, propor uma interpretação mais abrangente dos dilemas sacrificiais da modernidade. A abordagem de Marx com relação a distribuição do excedente econômico, por exemplo, pode ser um ponto de partida. Não devemos concluir que essa distribuição se dá de forma simplista com a acumulação nas mãos dos maquiavélicos burgueses de todo o excedente fruto do suor dos proletários; o capitalismo é mais complexo que esse tolo maniqueísmo, a distribuição do excedente é feita de forma a controlar o mimetismo. Para um país, um capitalismo de sucesso é capaz de distribuir esse excedente entre uma farta classe média, que se regozija e reproduz o sistema porque conseguiu dar vazão aos seus impulsos miméticos a cada ida ao shopping.

  2. Concordo com você, Robson. E eu diria mais. Se Goldmann viu similaridades entre a crítica de Lukács e a de Girard é porque, resguardadas as distâncias, elas partem de uma mesma concepção da estrutura triangular do desejo. Marx, nos escritos da juventude (e com uma mãozinha de Hegel), já deixara expresso que o desejo humano não é espontâneo, mas alienado, dependente do olhar do outro. Ele afirma categoricamente que o desejo deixa de ser animal (mero apetite) e se “humaniza” quando se torna num desejo pelo desejo de outros. Ele definia isso, de modo um tanto redundante, como “desejo-carecimento”. Redundância essa que evidencia que nem ele, nem Hegel e tampouco Lukács conseguiam enxergar o mimetismo implícito (ou explícito). Ou, se enxergavam, achavam óbvio demais para ser verdade. Resultado: nunca conseguiram vencer a dicotomia sujeito(s)-objeto, de modo que o desejo humano, em sua busca degradada, nunca aparece como algo dependente do desejo alheio, mas como um refém do valor de troca, do dinheiro, do mercado, enfim de “entidades objetivas”, que oscilam entre o físico e o metafísico.

    • Robson Braga Marques

      23 de maio de 2015 at 16:29

      Realmente, a abordagem materialista de Marx o impediu de entender melhor o próprio homem e chegar a uma concepção mimética do desejo. Mas acho muito curiosa essa nota de rodapé que ele apontou em “O Capital”, na parte do livro em que ele discute a “forma relativa do valor da mercadoria”, onde ele postula que as mercadorias, ao entrarem no mercado, só assumem determinado valor ao serem comparadas com outras mercadorias; seria dizer que as mercadorias, assim como o desejo humano, só toma forma quando dá aquela espiada no outro:

      “De certo modo, passa-se com o homem o mesmo que com a mercadoria. Como não vem ao mundo com um espelho, nem como um filósofo fichtiano, cujo Eu de nada tem necessidade para se afirmar [“eu sou eu”], ele vê-se e reconhece-se somente num outro homem. Também este último lhe parece, em carne e osso, a forma fenomenal do gênero humano. [Somente pela sua relação com o homem Paulo, como seu semelhante, é que o homem Pedro se vê a si mesmo como homem. Desse modo, também o Paulo de carne e osso, na sua materialidade paulina, surge para Pedro como a forma de manifestação do gênero homem.]”

  3. Aquilo que Jó disse sobre Deus: “Ele passa junto a mim, e, não o vejo; roça-se em mim e vai adiante, mas não o percebo…” Hegel, Marx e Freud poderiam ter dito sobre o desejo mimético. Aliás, Girard diz que “fetichismo” é o conceito que vem em socorro das grandes inteligências quando são confundidas pelos fenômenos da mímesis.
    Esse trecho de “O Capital” me fez lembrar de outro que é tão expressivo quanto:

    “A existência das coisas enquanto mercadorias, e a relação de valor entre os produtos de trabalho que os marca como mercadorias, não têm absolutamente conexão alguma com suas propriedades físicas e com as relações materiais que daí se originam (…). É uma relação social definida entre os homens que assume, a seus olhos, a forma fantasmagórica de uma relação entre coisas. A fim de encontrar uma analogia, devemos recorrer às regiões enevoadas do mundo religioso. Neste mundo, as produções do cérebro humano aparecem como seres independentes dotados de vida, e entrando em relações tanto entre si quanto com a espécie humana. O mesmo acontece no mundo das mercadorias com os produtos das mãos dos homens. A isto dou o nome de ‘fetichismo’ que adere aos produtos do trabalho, tão logo eles são produzidos como mercadorias, e que é, portanto inseparável da produção de mercadorias”.

    Lukács e Goldmann (quiçá, todos os marxistas) devem ter se deparado com esse texto como com o canto de uma sereia. Na encílcica Spe Salvi, Bento XVI diz que as obras de Marx se fundamentam em profundas verdades humanas, todavia mal compreendidas e, consequentemente, descritas com certa leviandade. Lendo essa obra da perspectiva girardiana logo entedemos a afirmação do Papa Emérito.

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