Espertos como Serpentes

Espertos como Serpentes

Quando se tem contato com a teoria girardiana pela primeira vez, começamos a enxergá-la por toda parte. Daí a fazer uma observação rigorosa a distância é muito grande. Aliás, é a distância que vai de uma impressão subjetiva à formulação de uma hipótese e a seu teste subsequente contra um corpus determinado, com o rigor e as ressalvas permitidas por uma investigação que não é realizada em laboratório.

Mesmo assim, nada impede que continuemos a enxergar o mimetismo e processos vitimários. O livro Espertos como Serpentes, de Jim Grote e John McGeeney, encontra-se numa posição particular: não é um livro teórico, mas prático; ele pressupõe a teoria mimética e pretende refinar nossa visão de situações do mundo corporativo descrevendo-as em termos girardianos. Por isso, este recente lançamento da Biblioteca René Girard tem algo de sui generis, ao menos dentro da coleção.

O estilo do próprio René Girard é, quase sempre, acadêmico, mas sem qualquer academicismo; seus livros são claros e, em muitos momentos, até mesmo eletrizantes. Outros livros da coleção, de inspiração girardiana, não perdem a clareza mas podem ter trechos mais áridos, em que a fluência da leitura de fato depende de prestar muita atenção a um argumento. Essa característica, é claro, não depõe contra um texto acadêmico.

Espertos como Serpentes certamente não é um livro acadêmico, e certamente não é um livro árido. Nem por isso é um livro com poucas informações. Organizado em verbetes de tamanho muito variável, o livro traz miríades de exemplos do mundo da administração, dos inevitáveis e tradicionais Peter Drucker e Lee Iacocca a exemplos de Bill Gates e da incontornável tirinha do Dilbert. Por isso, trata-se de um livro que pode servir a um estudante universitário, mas que, apesar de a bibliografia conter algumas dezenas de itens, também pode ser levado para a praia ou para a piscina. (E aqui falo como alguém que, apesar de trabalhar em casa há bastante tempo, também passou alguns anos no mundo corporativo.)

Assim, o livro de Grote e McGeeney ajuda a formular em termos miméticos as impressões que podemos ter no ambiente de trabalho e no estudo da competição e do mercado. Não se trata, porém, do ponto de vista de filósofos profissionais ou de professores, mas de duas pessoas que vivem no próprio mundo corporativo.