Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

O 11 de setembro e o mito do martírio

por Mark Anspach*

Esta é a história de um fracassado nato que se suicidou em Nova York no dia 11 de setembro de 2001. Como muitas outras pessoas morreram naquele dia, poucos conhecem a solitária existência desse homem.

Deprimido e sem perspectivas profissionais, aos 33 anos ele nunca tinha tido uma namorada. Aos 27, ele tinha preparado instruções para seu funeral, traindo sua amargura. “Não quero que mulheres venham à minha casa pedir desculpas pela minha morte”, escreveu.

Na época em que fazia pós-graduação, seus colegas de quarto zombavam dele e o mantinham afastado. Tudo o que ele fazia era estudar, mas ele não tinha nascido para ser acadêmico. Ele só tinha se matriculado para agradar o pai dominador.

Suas duas irmãs mais velhas eram bem-sucedidas: uma era cardiologista, a outra professora de zoologia, e ambas tinham casado com médicos. Seu pai lhe tinha dito que precisava ouvir a palavra “doutor” antes do nome dele também.

O zeloso filho precisou de sete anos de luta para completar o mestrado. Então, jogou a toalha. Mas não teve coragem de dizer isso ao pai. Em vez disso, falou que tinha entrado num programa de doutorado.

Será que isso bastou para deixar o pai contente? Não quando seu filho retardatário tão obviamente precisava de ajuda com sua vida amorosa. O superpai entrou em cena e arranjou seu casamento com uma boa menina de seu país natal. Enfim o rapaz tristonho estava noivo. O casamento aconteceria assim que ele completasse o doutorado.

Agora sua vida estava toda organizada — e era tudo mentira. Ele nunca ouviria a palavra “doutor” antes do nome. Ele nunca se casaria com a noiva distante. E mais cedo ou mais tarde a verdade iria aparecer.

O futuro não prometia nada além de humilhação e de vergonha. Ele só conseguia enxergar uma saída — abraçar a morte com que já tanto fantasiara.

No dia 11 de setembro de 2001, Mohamed Atta tirou a própria vida jogando um avião contra o World Trade Center.

Quando Atta morreu, ele e os demais sequestradores levaram consigo milhares de nova-iorquinos. Mas, como diz Adam Lankford em The Myth of Martyrdom [O Mito do Martírio] (Palgrave Macmillan), seu livro iconoclasta de 2013, isso não deveria cegar-nos para os motivos pessoais que os levaram ao suicídio.

Claro que sua ideologia moldou suas ações, mas ela não serve de explicação total para aquilo que eles fizeram. Há muitas pessoas no mundo que compartilham a mesma ideologia, mas a maioria delas não joga aviões em prédios. A razão é simples: a menos que elas estejam tão desesperadas quanto Atta, preferem viver. “A religião e as opiniões políticas de Atta influenciaram a forma de seu suicídio e o alvo de sua raiva”, escreve Lankford, “mas elas não foram a causa subjacente de suas ações”.

O caso de Atta é importante. Ele era o líder. Ele pilotou o primeiro avião a acertar as Torres Gêmeas. Mas ele estava longe de ser o único indivíduo perturbado do grupo.

O piloto do segundo avião a acertar as torres, Marwan al Shehhi, tinha dito à família que estava passando por um período complicado. Ao contrário de Atta, al Shehhi era próximo do pai — talvez próximo demais. Quando estava na universidade, em outro país, a notícia da súbita morte do pai al Shehhi abalaram-no muito. Ele decaiu nos estudos e distanciou-se dos outros membros da família. Quando enfim disse-lhes que estava enxergando a luz no fim do túnel, o que ele efetivamente queria dizer era que estava ansioso para morrer.

Hani Hanjour, o piloto que acertou o Pentágono, era um solitário, tímido de doer. Um amigo da família que o recebeu nos Estados Unidos disse que ele ficava entocado no quarto “feito um ratinho”. Antes de se meter com terroristas, o “ratinho” sonhava em cruzar os ares — como comissário de bordo. Infelizmente, seu irmão convenceu-o a tentar ser piloto. Após ser rejeitado diversas vezes, ele conseguiu entrar numa escola de pilotagem, e foi tão mal que os instrutores sugeriram que ele desistisse. Como observa Lankford, Hanjour finalmente teve a oportunidade de virar piloto de avião “do único jeito que conseguiria: numa missão suicida, para derrubar o avião e causar um incêndio”.

Falta ainda o quarto piloto, Ziad Jarrah, que admitia estar “insatisfeito com a vida” e ansioso para não morrer “de maneira natural”. Enredado num tempestuoso relacionamento com uma mulher que tinha ela própria tentado o suicídio, Jarrah, que abandonara a faculdade, tinha violentas alterações de humor, que dificultavam-lhe concluir aquilo que começava. Ele quase desistiu da trama do 11 de setembro e começou a rir em seu vídeo de mártir. O avião de Jarrah foi o que caiu no mato, sem nem se aproximar do alvo. Sua missão suicida foi um fracasso sob todos os aspectos, exceto um: permitiu-lhe cometer suicídio.

Será que ele não podia simplesmente pular de uma janela? Claro — mas assim iria direto para o inferno. A maior parte das discussões sobre a motivação religiosa para o terrorismo suicida concentra-se na cenoura: a promessa de um bilhete instantâneo para o paraíso dos mártires. Mas há também um bom chicote impelindo as almas desesperadas para o martírio: a ameaça de que arderão com os condenados caso se matem por fraqueza pessoal.

O temos da punição eterna ajuda a explicar as baixas taxas de suicídio no mundo islâmico. Outro fator é o estigma cultural associado ao ato. Se Mohamed Atta tivesse tido uma overdose com comprimidos para dormir, isso teria trazido a ele e a sua família exatamente aquela vergonha e aquela desgraça de que ele estava tentando fugir. Considerando suas crenças, ele tinha todos os incentivos para disfarçar seu suicídio com a capa do martírio.

Além disso, quando alguém está tão cheio de ressentimento quanto Atta, pode perfeitamente ficar tentado a morrer numa irrupção dramática de violência, levando consigo tantas pessoas quanto conseguir. Em anos recentes, vimos uma procissão constante de indivíduos perturbados sucumbirem a essa tentação — que compartilhem ou não compartilhem a visão de mundo dos sequestradores do 11 de setembro. Por que tratar estes últimos como se fossem especiais?

Lankford apresenta bons argumentos para colocar os terroristas suicidas na mesma categoria que assassinos furiosos ou atiradores escolares como Eric Harris e Dylan Klebold, o duo de Columbine. Três anos antes do 11 de setembro, Harris escreveu que eles gostariam de “roubar mas muitas bombas mesmo e jogar um avião em Nova York com a gente dentro”. Os assassinos de Columbine e os sequestradores da Al Qaeda eram atraídos pelo mesmo tipo de ataque porque, como diz Lankford, “em algum nível mais profundo, eles tinham muito mais em comum do que jamais tínhamos percebido”.

Cedo demais aceitamos as palavras dos terroristas do 11 de setembro. Por mais que condenemos suas ações, ainda acreditamos que eles deram suas vidas apenas por uma devoção desinteressada a uma causa. Em suma, compramos aquilo que Lankford chama de “mito do martírio”. Por alguma razão, aceitamos esse mito em vez de reconhecer os sequestradores como aquilo que obviamente são: indivíduos desequilibrados dedicados a dar livre curso a uma pulsão de morte.

Lankford tem o cuidado de observar que essa descrição dificilmente serve para todos os terroristas. Os estudos mostram que a maioria deles é mentalmente estável. Eles podem colocar-se em risco, como os soldados, mas isso não os torna suicidas. São os suicidas que são voluntários para o “martírio”. Os outros valorizam demais as próprias vidas para deliberadamente derrubar um avião ou estourar a si próprios.

Os estudiosos familiarizados com pesquisas anteriores presumiram equivocadamente que os terroristas suicidas são exatamente como os terroristas comuns — uma amostra representativa — quando, na verdade, são em grande parte uma amostra autorrefletida. Esse erro é deveras elementar para ser cometido por aqueles que se dizem especialistas. Apenas uma pequena porcentagem dos ataques terroristas incluem o suicídio. O senso comum teria sugerido que essas operações atrairiam indivíduos suicidas.

Lankford precisou cavar apenas um pouco para descobrir indícios nesse sentido. No caso do 11 de setembro, não eram só os pilotos que eram perturbados. Pelo menos dois dos outros sequestradores parecem ter exibido sinais ainda mais claros de patologia. Em 1999, Ahmed al Nahmi começou a agir de um jeito que levou seus familiares a temer que ele tivesse um “transtorno bipolar”. No mesmo ano, Wail al Shehri teria caído numa depressão forte o bastante para que ele tivesse de parar de trabalhar e procurar tratamento médico. Os amigos descreviam-no como potencialmente “suicida”.

Lankford expressa perplexidade por pistas tão transparentes ficarem tanto tempo sem ser notadas. Um jovem professor com parcos recursos à disposição “não deveria ser capaz de descobrir as motivações secretas de terroristas suicidas em apenas poucos anos”, observa, “enquanto o resto do mundo essencialmente não consegue, na década que se seguiu ao 11 de setembro”. Essa incapacidade por si constitui um problema. Por que, após o 11 de setembro, o mito do martírio ganhou tanta força?

Não é possível responder essa pergunta sem levar em conta as dimensões míticas do próprio acontecimento. O ataque às Torres Gêmeas foi imediatamente percebido como inaugurador de uma nova era histórica por meio de um ato decisivo de violência espetacular — um ato de “violência fundadora”, para tomar emprestada uma expressão de René Girard, teórico cultural de Stanford.

Segundo Girard, os mitos e os rituais do mundo inteiro baseiam-se em atos sacrificiais de violência fundadora que permitem que a comunidade una-se em torno das vítimas. O ataque ao World Trade Center teve um impacto similar. O próprio Girard caracterizou-o como “um estranho retorno do arcaico dentro do secularismo da nossa época”.1

Em dezembro de 2001, Jean-Pierre Dupuy, colega de Girard em Stanford, esteve em Manhattan e decidiu fazer a peregrinação ao Ground Zero. Ele foi tomado pelo sentimento de intensidade religiosa que o local inspirava em todos que dele se aproximavam — uma consciência de temor reverencial por estar na presença do sagrado. Refletindo depois sobre essa sensação, Dupuy explicou que se tratava do produto de um sacrifício humano de tempos modernos:

Os perturbados perpretradores do 11 de setembro não fizeram um sacrifício de suas próprias vidas, como a ideologia do mártir (…) pretende que acreditemos. Não, trata-se de um verdadeiro sacrifício, no sentido antropológico do termo. Se os terroristas, por meio de seu ato hediondo, sacralizaram o local de seu crime, isso aconteceu porque, como indica a etimologia do termo, eles sacrificaram vítimas inocentes.”2

Etimologicamente, um “sacrifício” é um ato sacro, ou um ato que sacraliza alguma coisa. Ao realizar um bárbaro sacrifício humano numa escala de tirar o fôlego, os sequestradores sacralizaram tanto as vítimas quanto o local do crime. Com suas piscinas gêmeas refletoras postas nos ocos onde antes havia as torres, o memorial do 11 de setembro corporifica nosso senso intuitivo de que um local onde morreram milhares deveria permanecer sagrado.

Mas eis o detalhe: inevitavelmente, sem perceber, algo do sagrado arcaico liberado por seu crime terrível passou para os próprios sequestradores.

A prova é que aceitamos o mito do martírio. Achamos que os sequestradores também sacrificaram as próprias vidas. Acreditar nisso é dar-lhes uma nobreza indevida. Como observa Adam Lankford, quando um homem que odeia a vida comete suicídio, ele não abdicou de nada de grande valor para si próprio. Não houve sacrifício.

Ao vender seu suicídio como ato de auto-sacrifício, os sequestradores sequestraram parte do sagrado para si. Eles não fizeram com que nós os víssemos como heróis, mas cercaram-se de uma aura enganosa de sacrifício que nos impede de vê-los como fracassados suicidas.

Mohamed Atta era aquele tipo de desajustado angustiado que, num contexto cultural diferente, poderia dar atirado nos colegas de escola. As organizações terroristas como a Al Qaeda vão atrás dessas pessoas e, em vez de lhes dar a ajuda de que precisam, recrutam-nas para que cometam crimes horripilantes.

Quando esses indivíduos buscam o assassinato em massa, perdem qualquer direito à nossa simpatia. É tarde demais para salvá-los, mas talvez não seja tarde demais para impedir os demais de tomá-los como modelos. O primeiro passo, como insiste Lankford, é desmistificar os terroristas suicidas, desmontando o mito do martírio.


  1. Robert Doran, “Apocalyptic Thinking after 9/11: An Interview with René Girard,” SubStance, Vol. 37, No. 1, 2008, p. 25.

  2. Jean-Pierre Dupuy, “Anatomy of 9/11: Evil, Rationalism, and the Sacred,” SubStance, Vol. 37, No. 1, 2008, p. 46–47.

*Mark Anspach é autor de Anatomia da Vingança — Figuras Elementares da Reciprocidade e de Édipo Mimético, ambos publicados pela É Realizações. Este artigo foi publicado originalmente no site da Fundação Imitatio.

2 Comments

  1. Pedro,
    Acho equivocado o paralelo com os meninos de Columbine que eram meninos com personalidades antissociais, inseridos noutro contexto completamente diferente – não pessoas doentes mentais, religiosas ou qualquer coisa do gênero.
    Ao meu ver, os terroristas de hoje (Blackblocks, Hackers, Anarquistas ambientalistas e Terroristas islâmicos) têm mais relações de parentesco entre si, assim como os terroristas niilistas de”Os Demônios de Petersburso”.
    Com os últimos massacres e o assassinato de Theo Van Gogh, parece-me sensato dizer que tais eventos têm relações diretas com o encontro de um tipo de Islã (que nunca foi lá uma religião muito pacífica e fácil de compreender, muito pelo contrário) e um tipo de ideologia política de esquerda.
    Fora isso, ainda temos as questões relativas às inúmeras ramificações do Islã, suas tendências essencialmente teocráticas, apenas quebrada em países, por assim dizer, ocidentalizados como Turquia e Líbia, dentre tantas outras questões.
    Abraço!

  2. Pedro,
    Acho equivocado o paralelo com os meninos de Columbine que eram meninos com personalidades antissociais, inseridos noutro contexto completamente diferente – não pessoas doentes mentais, religiosas ou qualquer coisa do gênero.
    Ao meu ver, os blackblocks, hackers, anarquistas ambientalistas e criaturas do gênero têm mais relações de parentesco com os terroristas islâmicos.

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