Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

Interdividualidade

Rematar Clausewitz

Teatro da Inveja

“Interdividualidade” é um dos raros neologismos criado por René Girard. Como acontece em sua obra, o conceito é explicado diversas vezes, em livros distintos. Trata-se de uma ideia central, e compreendê-la é compreender o dinamismo da teoria mimética.

Provavelmente a mais sutil explicação de interdividualidade está no sétimo capítulo de Teatro da Inveja1, no trecho em que Girard discute a interpretação que os próprios personagens de Sonho de uma Noite de Verão dão aos acontecimentos da peça. Teseu apresenta a versão “romântica” e individualista; Hipólita é quem enxerga mais longe e consegue discordar de Teseu sem que este perceba.

(E para o leitor que não se lembra: os acontecimentos da peça são a sucessão alucinatória de amores dos quatro jovens perdidos na floresta “perto de Atenas”, que teria sido provocada pelas fadas.)

Porém, uma ressalva importante para que se compreenda bem a interdividualidade é dada por Jean-Michel Oughourlian logo no início do capítulo “O desejo sem objeto”, em Coisas Ocultas desde a Fundação do Mundo2

a diferença entre sujeito e modelo só existe num primeiro momento, que pode ser real e genético, mas que, com mais frequência, é teórico e didático.

Imaginemos portanto a situação triangular habitual da comédia shakespeareana: dois rapazes desejam a mesma moça. O desejo de um contagia o outro, aumentando o desejo deste. As disputas acontecerão entre os dois. Mesmo que um tenha desejado antes do outro, o desejo do “primeiro” é contagiado pelo segundo. É por essa razão, aliás, que compartilhamos certas coisas que podem ser compartilhadas, como a comida e a bebida: para sentirmos a comunhão pelo aumento do desejo.

É para esse detalhe que Hipólita atentaria. Diante dos acontecimentos fantásticos da noite na floresta de Atenas, Teseu enxerga apenas uma relação direta entre sujeito e objeto, como se cada jovem escolhesse o seu amor apenas por suas qualidades intrínsecas. O desejo, porém, não existe como relação direta entre sujeito e objeto. O desejo surge, vive e morre numa relação entre indivíduos. Por isso seria equivocado pensar que o desejo está apenas em um indivíduo de cada vez e pode subsistir dessa maneira. Assim, a ideia de que o desejo é interdividual é uma simples decorrência de sua natureza mimética.

É por isso também que só se pode dizer que o desejo depende de um outro se recordarmos que “eu” e “outro” são posições formais: o eu mimetiza o outro, o outro mimetiza o eu. O “outrocentrismo” formal da teoria mimética, portanto, faz com que nenhuma situação possa começar a ser adequadamente descrita sem que sejam conjugados e comparados diversos pontos de vista.

É razoável perguntar: por que não usar o termo “intersubjetivo”? Provavelmente para não enfatizar a particularidade de cada sujeito, mas sim aquilo que se produz de mimético entre cada sujeito materialmente considerado. Por trás da ideia de “interdividualidade” está uma intuição que talvez vá além do famoso “eu sou e minha circunstância” de Ortega y Gasset, porque mimeticamente eu sou eu enquanto sou para os outros e estes outros são para mim.

Sei que o texto até agora pode estar bastante abstrato, mas creio que exemplos do consumo podem deixar clara a interdividualidade.

Hoje qualquer texto de marketing enfatizará o componente identitário de cada aquisição. Fala-se em identificação com a marca. Os catálogos de moda, por sua vez, são puro desejo metafísico, transmitindo a imagem de um outro mundo em que as pessoas e as coisas são mais perfeitas, mais intensas, e parecem ter sido feitos para a Emma Bovary que existe dentro de cada um de nós. Porém, uma compra pode representar uma escolha entre várias, um produto com o qual você será visto. Mesmo que você julgue não dar valor a aspectos que considera inúteis, desejará ser visto, então, como alguém que, naquela área, preza antes a utilidade. Por isso, talvez, você comprou um carro assim ou assado, ou um computador assim ou assado, mas espera que seu critério seja evidente ou ao menos justificado aos olhos alheios.

Não se trata, portanto, de querer apenas o que outro quer, como os jovens enamorados de Sonho de uma Noite de Verão, mas também de mostrar para um outro que o objeto que se possui é objeto de um desejo justificado e confirmado pelo olhar desse outro, que ele faz sentido dentro dessa relação.

Assim, as fadas de Sonho de uma Noite de Verão são os sentidos criados dentro da relação dos quatro jovens a fim de ocultar a própria natureza do processo mimético. A peça, como Girard mostra em Teatro da Inveja, é uma obra-prima de desmistificação por mostrar justamente a origem dos mitos e, sob diversos aspectos, das mistificações. Se as fadas são confirmadas pelos discursos dos quatro jovens, a própria fala de um deles, “to choose love by another’s eyes”, como já discutimos neste blog, confirma o sentido mais profundo do processo.


  1. São Paulo: É Realizações, 2011.
  2. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2008, p. 349.

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2 Comments

  1. “É razoável perguntar: por que não usar o termo “intersubjetivo”? Provavelmente para não enfatizar a particularidade de cada sujeito, mas sim aquilo que se produz de mimético entre cada sujeito materialmente considerado. Por trás da ideia de “interdividualidade” está uma intuição que talvez vá além do famoso “eu sou e minha circunstância” de Ortega y Gasset, porque mimeticamente eu sou eu enquanto sou para os outros e estes outros são para mim.”

    Ao meu ver, a interdividualidade de Girard vai bem além do ensimesmamento orteguiano, no sentido que o primeiro mais parece uma introjeção (um mecanismo mais complexo, mais desenvolvido natural da psique), não uma mera projeção tal qual o segundo (mecanismo visto na literatura de Psicologia – especificamente na de desenvolvimento).

    Fique com Deus,

  2. *Um adendo a projeção é um mecanismo bastante primitivo da psique humana.

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