Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

Trecho de Diário de um Pároco de Aldeia

Diário de um Pároco de Aldeia

Diário de um Pároco de Aldeia

Na sua palestra de apresentação do romance Diário de um pároco de aldeia, feita há alguns anos na É Realizações, o professor João Cezar de Castro Rocha mencionou que um trecho do livro servia como resumo de Rematar Clausewitz, de René Girard.

Trata-se do trecho abaixo. (Como não disponho do exemplar da É, fiz uma tradução do trecho especialmente para o blog.) Quem tiver um conhecimento mesmo superficial da visão girardiana do bode expiatório e do apocalipse, noções que ainda aprofundaremos aqui em posts próprios, dificilmente não vai ficar maravilhado. A “instituição” de que Bernanos fala é nada menos do que o mecanismo sacrificial; o que o cristianismo fez foi explicitá-lo para o mundo.

Com vocês, Georges Bernanos:

Conservamos, que seja. Mas é para salvar que conservamos, é isso que o mundo não quer entender, porque ele só pede uma coisa: durar. Ora, ele não pode mais contentar-se em durar.

O Mundo Antigo, por sua vez, talvez pudesse ter durado. Durado muito tempo. Ele era feito para isso. Ele era terrivelmente pesado, estava firmado à terra por um peso enorme. Tinha resignado-se com a injustiça. Em vez de ludibriá-la, ele a tinha aceitado em bloco, inteira, tinha feito dela uma elemento igual a outros, tinha instituído a escravidão. Ah! Sem dúvida, qualquer que fosse o grau de perfeição que ele jamais pudesse atingir, mesmo assim teria permanecido sob a maldição lançada contra Adão. Isso o diabo não ignorava, e aliás sabia melhor do que qualquer pessoa. Mas de todo jeito era uma empreitada difícil jogá-la quase inteira sobre os ombros de um gado humano, o peso do fardo talvez se reduzisse na mesma medida. A maior soma possível de ignorância, de revolta, de desespero, reservados a um tipo de povo sacrificial, um povo sem nome, sem história, sem bens, sem aliados — ao menos confessáveis — sem família — ao menos legal, sem nome e sem deuses. Que simplificação do problema social, dos métodos de governo!

Mas essa instituição que parecia inquebrável era na verdade a mais frágil. Para destruí-la para sempre, bastava aboli-la por um século. Talvez um só dia tivesse bastado. Uma vez que as castas outra vez se confundissem, uma vez que o povo expiatório se dispersasse, que força teria sido capaz de fazer-lhe retomar o jugo?

A instituição morreu, e o Mundo Antigo desabou junto com ela. Acreditava-se, fingia-se acreditar em sua necessidade, que era aceita como um fato. Ela não será restabelecida. A humanidade não ousará mais correr esse risco temerário, seria grande demais. A lei pode tolerar a injustiça ou até favorecê-la sorrateiramente, mas não vai mais sancioná-la. A injustiça não terá nunca mais um estatuto jurídico, isso acabou. Mas no entanto ela permanece espalhada pelo mundo. A sociedade, que não ousaria mais utilizá-la para o bem de um pequeno número, condenou-se assim a buscar a destruição de um mal que traz em sim, mal que, afastado das leis, reaparece quase imediatamente nos costumes para começar, às avessas, incansavelmente, o mesmo circuito infernal. Querendo ou não, ela agora deve partilhar da condição do homem, participar da mesma aventura sobrenatural. Outrora indiferente ao bem ou ao mal, conhecendo como única lei sua própria força, o cristianismo deu-lhe uma alma, uma alma a ser perdida ou salva.

2 Comments

  1. Nossa!… Tem como não gostar de Bernanos? E se lido desta perspectiva, causa dependência imediata e irreversível. Enquanto lia ( e me arrepiava) lembrei prontamente de um ensaio sobre neo-paganismo, do padre Hans Urs von Balthasar – que, por acaso, era um aficionado por Bernanos e Girard (aliás, Girard o considerava um dos poucos teólogos, juntamente com Raymund Schwager e James Alison … sorry Boff!…, que melhor compreendia a teoria mimética) – e que dizia o seguinte:

    “A crucificação de Cristo provocou um ruptura na história humana que é evidente, e não mera convenção cronológica. A Cruz quebrou a relação do homem com o mito e a filosofia. Chamou-o à Liberdade, permitindo distanciar-se dos poderes deste mundo e melhor situar-se em relação a eles. Uma revelação que não foi facultada ao homem antigo!… O homem de hoje, porém, acredita levianamente poder viver uma existência dupla, recusando essa revelação ao mesmo tempo que chama a si os seus efeitos sobre a cultura e o convívio social. Pretende desligar-se do Cristianismo e procurar na antiguidade outro caminho religioso. Mas, não sabendo distinguir entre a Gravidade e a Graça – como dizia Simone Weil – engana-se por confundir secularização com paganismo. Para ser um pagão autêntico, o postulante de hoje precisa renunciar até à secularização, renunciar às circunstâncias cristãs em que esta se desenvolveu e ainda se sustenta. É preciso que se realize, ou pelo menos tente se realizar, sem o Cristo e sem o Deus que Cristo revelou, para que sinta profundamente o que isso significa. Nietzsche viu-o bem quando disse que o pagão moderno, em sua pretensa apostasia, é tão somente um fanfarrão que não compreende o que significa verdadeiramente o anticristianismo – pois que essa é a única opção ao cristianismo, visto que o paganismo, enquanto tal, já não convence, está fatalmente descraditado.
    Se o homem de hoje se torna pagão é num sentido radicalmente diferente do homem antigo. Em toda a sua grandeza pervesa e cruel a religiosidade do pagão antigo era, apesar de tudo, uma atitude ingênua. Os pagãos de hoje já não gozam desta vantagem. A crucificação do Cristo projetou a existencia do homem num outro nível existencial [deu-lhe uma alma, nas palavras de Bernanos], fazendo-a adquirir uma dignidade que o homem antigo não conheceu, porque não podia.
    É daí que provém a impressão de rídiculo, de farsesco, de menoridade espiritual que se percebe nos homens que acreditam num retorno à antiguidade.”

    P.S.: Pedro, parabéns e obrigado pela tradução. Não fica nada a dever às anteriores

  2. Maurício G. Righi

    4 de junho de 2015 at 13:14

    Em alguns parágrafos Bernanos resume a história espiritual do mundo. A frase “Eu via Satanás cair do céu como um raio” indica o colapso metafísico do Mundo Antigo, muito embora continuemos a viver sobre os seus escombros. É notável que homens como Bernanos e Girard (dentre outros) tenham compreendido com tanta acuidade o que está “em jogo” na história. Eles são os verdadeiros profetas de nossa modernidade.

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