Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

Pseudonarcisismo

A Conversão da Arte

A Conversão da Arte

A interdividualidade baseia-se na noção de intersubjetividade, mas o “pseudonarcisismo”, apesar de baseado na noção freudiana de narcisismo, inclui uma crítica a essa noção, apresentada por Freud no ensaio “Introdução ao narcisismo”1. Girard apresenta a noção de pseudonarcisismo de maneira mais sistemática em dois textos, ambos publicados no Brasil: o ensaio “Proust e o mito do narcisismo”, que aparece em A Conversão da Arte2, e em alguns dos capítulos iniciais de Teatro da Inveja3, especialmente os que tratam das peças As You Like It (Como Gostais, na tradução de Carlos Alberto Nunes, ou, se nos permitirmos algo mais contemporâneo, Do Jeito que Vocês Gostam) e Twelfth Night (Noite de Reis, a “décima-segunda noite” depois do Natal, perto do dia de Reis.) Em Teatro da Inveja, Girard admite que Freud, “um observador bom demais” (p. 212), reviu suas ideias sobre o narcisismo, pois aquilo que fora inicialmente definido como o desejo de si mesmo, ou o direcionamento da energia libidinal para si mesmo, pode manifestar-se, nos casos mais extremos, como uma forte dependência dos outros. No entanto, para Girard, “Freud nunca descobre o elo mimético entre os dois opostos” (p. 213).

Se pensarmos nas noções mesmas de desejo triangular ou mimético e de interdividualidade podemos construir a crítica ao narcisismo enquanto desejo por si mesmo. Basta observar que o desejo requer o olhar de um outro, seja esse outro real ou imaginário, próximo ou distante. A remoção de um dos vértices do triângulo nos leva à mentira romântica, que é, na literatura, a colocação em primeiro plano de uma relação de tipo sujeito-objeto, e não, como na verdade romanesca, de tipo sujeito-sujeito-objeto. Assim, na teoria mimética, não é possível eu me amar simplesmente porque sim: eu me amo na medida em que meu amor reflete o amor por mim que enxergo em outros a quem atribuo prestígio.

No entanto, como existe o desejo de demonstrar espontaneidade e autossuficiência, é possível criar a ilusão narcisista, e aliás com grande credibilidade. É possível demonstrar autossuficiência, demonstrar não dar importância à opinião alheia — no mesmo ato paradoxal em que se quer chamar a atenção para a própria independência, isso é, em que se deseja ser reconhecido como independente, e no mais das vezes por olhos bastante específicos.

Apesar de Girard usar exemplos principalmente de Proust e de Shakespeare, um dos autores mais didáticos do pseudo-narcisismo é Stendhal. Em suas curtas novelas, como “Vanina Vanini” e “San Francesco a Ripa”, Stendhal nos mostra os dilemas interiores dos personagens, sempre divididos entre demonstrar seu desejo e preservar a aparência de autossuficiência. Em O Vermelho e o Negro, é claro, a essa pressão também são acrescentadas as pressões da mediação externa (Julien Sorel querendo imitar Napoleão, ou Mathilde de la Mole querendo imitar seus antepassados), mas isso serve sobretudo para dar realismo à narrativa, pois as pessoas, na famosa vida real, sofrem diversas pressões simultâneas. Mesmo que Julien Sorel esteja disposto a humilhar-se diante de Mathilde, ele não poderia humilhar-se diante de seu mediador externo, Napoleão Bonaparte.

Se pensarmos que as definições de verdade e mentira dependem da intenção do sujeito, o pseudonarcisismo é uma verdade para quem desconhece o mimetismo é uma mentira (“romântica”) para quem o conhece. Pode ser importante crermos que mantemos intacto nosso amor-próprio enquanto amor-próprio, enquanto relação direta de nós conosco mesmos, em vez de percebermos que esse amor depende de enxergarmos o amor alheio.

Sim, eu sei que boa parte da literatura de auto-ajuda está sendo colocada em questão aqui. Outro dia mesmo li mais um texto de uma pessoa que falava em como aprendeu a aceitar-se graças à ajuda dos amigos e da família. Não é o caso de falar em “mentira” no sentido moral, nem, certamente, de acusar essa pessoa, mas apenas de observar que basta acrescentar um passo: amar-se, no caso dela, significou apenas mudar de modelos.

Existe, é claro, uma forte questão existencial. Aqueles que demonstram autossuficiência, isso é, que demonstram não precisar de nós, têm mais prestígio, por causa do caráter metafísico do desejo: “o desejo não é deste mundo… é para entrar em outro mundo que se deseja”. Queremos entrar no mundo dos sujeitos autossuficientes e precisamos parecer já estar neste mundo para sermos atraentes até para aqueles que desejamos. O ciclo pode ser infernal.

As comédias românticas, e também diversas histórias românticas que nada têm de cômicas, muitas vezes são construídas em torno do pseudonarcisismo, isso é, da necessidade de manter a aparência do amor-próprio e de ao mesmo tempo ver esse amor confirmado pelos olhos do outro. O mais comum é que elas sejam interpretadas como dilemas entre o orgulho e o amor, ambos concebidos como forças independentes, inexoráveis e escravizantes. E por isso, ao filosofar a respeito, o senso comum acaba falando no dilema entre “ser” e “parecer”. Mas, para o senso mimético, as noções de “ser” e de “parecer” podem ser bastante próximas, porque nunca se pode desconsiderar os olhos de um outro.


  1. Publicado no Brasil em excelente tradução de Paulo César de Souza. FREUD, Sigmund. Obras Completas Volume 12: Introdução ao Narcisismo, Ensaios de Metapsicologia e Outros Textos (1914–1916). São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

  2. Trad. Lília Ledon da Silva. São Paulo: É Realizações, 2011, pp. 103–128.

  3. Trad. Pedro Sette-Câmara. São Paulo: É Realizações, 2011.

2 Comments

  1. Outro dia encontrei na livraria um certo “Manual do Dândi: a vida com estilo”, escrito por Balzac, Baudelaire e Barbey d’Aurevilly (verdadeiro BBB), que é uma coletânea de ensaios inspirados na vida de George Byran, um plebeu inglês que, na virada do século XVIII para o XIX, tornou-se referência de “elegância autônoma” para toda a nobreza europeia. Os três escitores que, aprentemente conheceram esse sujeito em pessoa, procuram preservar-lhe o legado de uma vulgarização que estava confundindo o “dandismo” com mero estilo de se vestir. Barbey d”Aurevilly é o primeiro a protestar dizendo que não se trata de moda ou de uma arte exuberante e fútil de toillete. Mas de “uma ética ou atitude ultraindividualista, pela qual a notabilidade do sujeito decorre, paradoxalmente, do seu esforço de não ser notável. Um distanciamento cuidadosamente cultivado que vai surtir numa indiferença gélida e charmosa, semelhante a de um felino entediado… (félin blasé).” Balzac fala de “uma impassabilidade irônica que não se deixa afetar nem pelos infortúnios, quer sejam pessoais ou alheios”. E Baudelaire, numa síntese que serve de apresentação do livro, diz:

    “Que é, pois, essa paixão que, transformada em doutrina, fez adeptos poderosos, essa instituição não escrita que formou uma casta tão altiva? É, antes de tudo, a necessidade ardente de se prover, dentro dos limites exteriores das conveniências, de uma certa originalidade. É uma espécie de culto de si mesmo, que pode sobreviver à busca da felicidade a ser encontrada em outrem, na mulher, por exemplo; que pode sobreviver até mesmo a tudo aquilo que se chama de ilusão. É o prazer de surpreender e a satisfação orgulhosa de jamais se surpreender.”

    Quase caí na tentação de comprar o livro, tão fascinantes e melífluos são os textos. Por sorte, ocorreu-me um versículo bíblico que diz “a vaidade entristece a alma… e muito sofrer é a parte dos soberbos”. Agarrei-me aos textos de Dostoievski, de Proust e Girard, me persignei e larguei aquele volume pensando em quantas pessoas devem ter tomado aquele veneno acreditando ser um doce.
    Os editores deviam fazer como nos maços de cigarro e, na contracapa, colocar a seguinte advertência: “Assim se faz um homem do subsolo.”

    A propósito, fiquei pensando se o “ideal do dândi” não seria também um protótipo do “duplo angélico”? Ambos podem acabar como criaturas do subsolo, certo?

    Esclarecimentos, por favor.

    • Pedro Sette-Câmara

      13 de junho de 2015 at 11:54

      Na verdade, Cristiano, o seu comentário, um pouco mais desenvolvido, dava um belo post. “Estratégias do pseudonarcisismo no oitocentos”. A sério! Sempre com o mesmo princípio: para impressionar os outros, é preciso realmente dar a impressão de não estar nem aí para eles.

      O duplo angélico está relacionado, claro. Mas sejamos mais estritos. O duplo angélico é o duplo do autor. Se você considerar a persona pública do dândi a sua “obra”, talvez seja possível enxergar no “autor” o homem do subsolo.

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