Nos dois últimos artigos de Mark Anspach publicados no blog, pudemos ler uma discussão sobre terroristas: de um lado, o grupo de muçulmanos que praticou os atentados do 11 de setembro e, de outro, o ateu pró-cristianismo e anti-islã Anders Breivik. Em nenhum momento, Anspach discutiu posições pró-islã ou pró-cristianismo, nem deu a entender que a causa dos atentados esteja nas ideias professadas pelos terroristas. Antes, Anspach abordou pessoas, e quis elucidar suas motivações. Os motivos declarados seriam — Anspach não disse isso diretamente, mas a inferência é razoável — pretextos. Isso nos permite, é claro, conciliar o fato de que existe uma minoria de muçulmanos terroristas com o fato de que também existe uma esmagadora maioria de muçulmanos pacíficos; e, numa escala distinta, uma minoria de cristãos pró-ocidente ou de pró-cristãos e pró-ocidente raivosos e uma maioria pacífica.

A abordagem mimética pretenderia, então, estudar as motivações. É fácil pensar que há nisso o risco do psicologismo, e há mesmo, sobretudo se o pesquisador não enxerga que ele próprio também é mimético e não se esforça para conhecer seu lugar e suas tentações. Também é fácil pensar que então a teoria mimética teria a obrigação de dar uma resposta sistemática, explicando todos os casos de terrorismo — mas isso seria a busca da pedra filosofal. No entanto, como o próprio René Girard salienta em diversos momentos, o que lhe interessa é mais a continuidade e a semelhança do que a unicidade e a diferença. Por isso, uma abordagem mimética começara perguntando se não existe nada em comum os terroristas do 11 de setembro e Anders Breivik. Afinal, usamos até o mesmo nome para eles, e, mesmo que até agora não tenhamos proposto nenhuma definição do termo terrorista, captamos a sua referência de maneira imediata.1

Os terroristas discutidos por Anspach têm em comum o traço de serem “desajustados”, misfits, no original, que num literalismo poderíamos traduzir como “mal-encaixados”. (Poderíamos ainda ir além e observar que o prefixo inglês mis-, assim como o francês mé-, de méconnaissance não possuem correspondência exata, necessitando ser adaptados caso a caso.) Mis-fit, como verbo, seria “encaixar mal” ou “encaixar imperfeitamente”. Não se trata de um alheamento completo. Eu mesmo não me encaixo na sociedade tupinambá, mas eu não seria um desajustado nela no mesmo sentido em que Breivik ou Mohammed Atta são desajustados em suas respectivas sociedades.

Esse desencaixe é que nos leva a um ponto essencial, discutido por René Girard em diversos textos, conhecido entre os girardianos como “psicologia do subsolo”.

Se o pseudonarcisismo consiste na estratégia de demonstrar-se autônomo diante de olhos alheios, e portanto em adequar essa estratégia a olhos alheios sempre específicos, a psicologia do subsolo nasce da percepção de todo o jogo do pseudonarcisismo ao mesmo tempo em que se percebe a própria posição de perdedor como um desencaixe no jogo, pois essa posição parece ilegítima. Em algum momento de Mentira Romântica e Verdade Romanesca Girard diz que as patologias do desejo nascem de “uma promessa não-cumprida”, e a promessa provavelmente pode ser formulada assim: “você será um vencedor no jogo do pseudonarcisismo”.

O perdedor quer então virar a mesa de maneira violenta, e xatamente como alguém que, perdendo num jogo de tabuleiro, chuta o tabuleiro e espalha todas as peças. É uma tentativa desesperada de atribuir a si o prestígio do modelo, fazendo com que os outros o imitem: se ele está chateado, então todos vão ficar chateados.

O termo “psicologia do subsolo” vem das Memórias do Subsolo de Dostoiévski. O personagem, um ser mesquinho e ridículo, passa a ser amado por uma prostituta. Ele a manda embora. Não por estar cheio de opções e preferir uma relação com uma mulher não-estigmatizada, mas apenas para preservar para si próprio sua ilusão de autonomia. Se ele aceitasse o amor dela, teria de aceitar ver-se como ela o vê, para então imitar o amor dela por ele, e desempenhar o mesmo papel para ela. Daí, aliás, nascem muitas das histórias de amor da literatura: ao olhar uma pessoa sem imitar os olhos que a estigmatizam, o sujeito permite que a própria pessoa se veja com olhos amorosos.

Agora, o estudo da motivação sugere que qualquer discurso que consiga convencer um ressentido pode se tornar uma ideologia terrorista. É mais fácil dizer que o sistema é viciado — o que pode ser ao mesmo tempo verdadeiro e irrelevante para a questão discutida — do que tentar tornar-se um bom jogador. É mais fácil virar o tabuleiro do que perder com graça. A motivação do terrorista pode não ser algo tão estranho e distante. O terrorista pode ser um Werther que não se tornou Wilhelm Meister.

Claro que existem vários outros tipos de recusa do sistema viciado, inclusive positivos. Pode-se adotar uma posição ascética, religiosa, ou, no plano político, uma posição reformista, que evita o contágio do ressentimento, justamente por reconhecer que a psicologia do subsolo, correndo solta, pode levar a uma situação ainda pior.2


  1. Observemos, contudo, que um exame maior do terrorismo pode também levar a diferenças. Talvez precisemos acrescentar algumas noções para entender, por exemplo, Carlos, o Chacal.

  2. No plano político, um dos personagens históricos que mereceriam mais estudo, nesse sentido, é o russo-alemão Alexander Herzen. Herzen foi um dos primeiros liberais da Rússia, no tempo anterior a Marx em que liberalismo e socialismo utópico ainda poderiam ser confundidos. Após uma fase radical, Herzen, que era milionário, viajou pela Europa e testemunhou as revoluções da década de 1840. Tornou-se um reformista, tendo percebido que a derrubada do sistema czarista pelas forças radicais das cidades russas dificilmente levaria a uma situação melhor. A posição ética de Herzen era então complexa: aceitar a injustiça apenas na medida em que sua derrubada imediata pode levar a uma situação ainda mais injusta. Que dizer de sua capacidade de percepção histórica? Podemos dizer que o comunismo soviético representou um progresso em relação ao jugo do tzar? Não que estejamos defendendo o tzarismo. Certamente a teimosa recusa do czar Nicolau II em reformar o sistema contribuiu para sua derrocada. Mas entre a autocracia monárquica e o centralismo democrático há nada menos do que o clamor para que se escreva uma história mimética.