Em 2007, foi publicado na França o volume De la Violence à la divinité, que reúne os textos franceses de Mentira Romântica e Verdade Romanesca, de A Violência e o Sagrado e de Coisas Ocultas desde a Fundação do Mundo. Na página 1001, na seção de Coisas Ocultas que se chama “Do sacrifício do outro ao sacrifício de si”, uma longa nota de rodapé, que ocupa quase toda a mancha gráfica, explica não apenas que algumas frases do texto original foram modificadas na versão de 2007, mas também a razão dessa modificação.

Trata-se de uma virada epistemológico fundamental no pensamento de René Girard, que merece ser destacada no blog por uma razão simples: mais de uma vez, ao longo de diversos anos, notei que o fundamento de certas críticas às posições religiosas de René Girard dizia respeito justamente a esse ponto, fulcral. Ainda ao final de Teatro da inveja encontramos a mesma posição antiga defendida. É em Um Longo Argumento do Princípio ao Fim, de 2000, hoje republicado em versão ampliada como Evolução e Conversão, que Girard apresenta essa importante virada epistemológica, a mesma que é explicada, em versão mais resumida, na coletânea francesa de 2007.

Fiquemos, então, com René Girard, entrevistado por João Cezar de Castro Rocha e Pierpaolo Antonello (Evolução e Conversão. Trad. Bluma Haddington e Pedro Sette-Câmara. São Paulo: É Realizações, 2011, pp. 233–237):

O julgamento de Salomão e o espaço não-sacrificial

Como já foi sugerido, o julgamento de Salomão é um dos mais poderosos textos antissacrificiais do Antigo Testamento, e central no desenvolvimento de seu argumento em Coisas Ocultas, no qual o senhor tentou definir a possibilidade de um espaço não sacrificial.1

É verdade. Coisas Ocultas construiu-se inteiro com base naquele texto, que desempenha um papel essencial em minha reflexão sobre o sacrifício. Como sabem, no texto há duas prostitutas que lutam por uma criança, ambas alegam diante de Salomão que a outra a roubou. Então Salomão traz a espada e ameaça partir a criança entre as mulheres. Uma delas aceita, enquanto a outra prefere desistir de seu filho, a fim de salvá-lo. Isso sempre me pareceu profético em relação ao Cristo, no sentido mais elevado. Na Idade Média, viam a figura de Cristo não na prostituta bondosa, mas em Salomão. A situação humana fundamental é a de um julgamento de Salomão sem Salomão algum! Em Coisas Ocultas, argumento que não se pode usar o mesmo termo para caracterizar a atitude de ambas as prostitutas. A prostituta má aceita o sacrifício sanguinário, homicida, e a outra o recusa. Na época, preferi não dizer que esta sacrifica a si mesma porque ainda temia que interpretassem suas ações como “masoquismo”. Não se pode considerar masoquista a mulher disposta a morrer por seu filho, simplesmente porque ela deseja salvá-lo. O texto afirma o tempo todo que ela desiste do filho para que ele viva. Portanto, não está seduzida pela morte, mas ama a vida e se dispõe a morrer apenas para poupar o filho. É nisso que consiste o verdadeiro sentido do sacrifício de Cristo.

Conforme escrevi em Coisas Ocultas, não vejo diferença maior do que a existente entre aquelas duas atitudes, daí não ter utilizado a mesma palavra para descrevê-las. Uma vez que o sentido do sacrifício como imolação, assassinato, é o antigo, decidi que o termo “sacrifício” deveria aplicar-se ao primeiro tipo, o sacrifício criminoso. Hoje mudei de ideia. A distância entre as duas atitudes permanece infinita, não resta dúvida; e é a diferença entre o sacrifício arcaico, que se volta contra um terceiro, tomando-o como vítima daqueles que estão lutando, e o sacrifício cristão, que é a renúncia de toda afirmação egoísta, inclusive da vida, se necessário, a fim de não matar.

Na verdade, as duas ações estão justapostas na mesma história.

Aí reside o ponto decisivo: porque uma semelhança também está em jogo. Se empregarmos o termo “sacrifício” no caso da prostituta bondosa, isso não significa que não poderemos utilizá-lo no caso da outra. Coisas Ocultas ainda foi escrito do ponto de vista da antropologia e, portanto, o cristianismo parece um tipo de “suplemento” em vez de converter tudo a sua perspectiva. Hoje escreveria o mesmo livro do ponto de vista dos Evangelhos, mostrando que veem a mulher má e o mau sacrifício como metáfora da inabilidade do ser humano para evitar a violência sem sacrificar os outros. Cristo, mediante seu sacrifício, liberta-nos dessa necessidade. E assim posso usar o termo “sacrifício” para nomear o ato de sacrificar a si mesmo como fez Cristo. Torna-se viável então dizer que, a seu próprio modo imperfeito, o primitivo, o arcaico é profético em relação ao Cristo. Não se pode encontrar diferença maior: de um lado, o sacrifício como assassinato; de outro, o sacrifício como disposição para morrer a fim de não tomar parte naquela primeira modalidade de sacrifício. Opõem-se radicalmente um ao outro, sendo contudo inseparáveis. Inexiste um espaço não sacrificial intermediário, de onde possamos descrever tudo com um olhar neutro. A história moral da humanidade é a passagem do primeiro sentido para o segundo, realizada por Cristo, mas não pela humanidade, que fez de tudo para escapar desse dilema e, sobretudo, para não vê-lo.

Essa mudança de perspectiva na sua teoria é ainda mais evidente quando comparada com o debate que o senhor teve com os teólogos da libertação em 1990 no Brasil. Franz Hinkelammert distinguiu os conceitos de “não sacrificial” e de “antissacrificial” para sugerir: “Será que realmente compreendemos o pensamento de Girard se o definimos como antissacrificial? Acho que não, porque seu pensa- mento é não sacrificial… A posição antissacrificial pode ser extremamente sacrificial”.2

Lembro dessa discussão e acho que ele está certo. Escrevi um artigo a respeito de minha posição mais recente sobre o assunto, que foi publicado em um volume em homenagem a Raymund Schwager3. Schwager, como eu, acha que precisamos ver um fenômeno espontâneo de bode expiatório por trás da crucificação, e também por trás dos mitos. Toda a diferença está no reconhecimento desse fenômeno, que não pode ser encontrado nos mitos, mas que está presente nos Evangelhos. Mas a coisa mais extraordinária dos Evangelhos é que esse reconhecimento vem do próprio Cristo, e não dos evangelistas, que fazem tudo que podem para seguir Cristo, o que conseguiram fazer, de modo geral.

Gostaria de escrever uma interpretação inteiramente cristã da história da religião que se confundiria, na verdade, com a história do sacrifício. Nessa interpretação, as religiões arcaicas são as verdadeiras responsáveis por educar a humanidade, levando-a a abandonar a violência arcaica. Então, Deus torna-se vítima, a fim de libertar o homem da ilusão de um Deus violento, ilusão essa que precisava ser desfeita, em favor da compreensão que Jesus tem do Pai. As religiões arcaicas podem ser vistas como um estágio anterior em uma progressiva revelação que culmina no Cristo. Assim, devemos concordar com os que dizem ser a Eucaristia oriunda do canibalismo arcaico: em vez de dizer “não”, temos de dizer “sim”! A verdadeira história do homem é sua história religiosa, que remonta até o primitivo canibalismo, este também um fenômeno religioso. E a Eucaristia o incorpora, pois recapitula aquela história de alfa a ômega. Tudo isso é essencial. Ao compreendê-lo, dá-se um reconhecimento de que a história do homem inclui um início homicida: Caim e Abel. Em suma, não dispomos de um espaço perfeitamente não sacrificial. Ao escrever A Violência e o Sagrado e Coisas Ocultas, eu estava tentando encontrar esse espaço no qual poderíamos compreender e explicar tudo sem envolvimento pessoal. Agora sei que tal empreitada não pode ser bem-sucedida.


  1. 1 Reis 3, 16–28. Ver Girard, Coisas Ocultas, p. 285–93.

  2. Franz Hinkelammert. In: Hugo Assmann, René Girard com Teólogos da Libertação. Um Diálogo sobre Ídolos e Sacrifícios. Petrópolis, Vozes, 1991, p. 42.

  3. René Girard, “Mimetische Theorie und Theologie”. In: Joseph Niewiadomski e Wolfgang Palaver (orgs.), Vom Fluch und Segen der Sündenböcke. Thaur-Vienna, Kulturverlag, 1995, p. 15–20. Também em Girard, Celui par qui le Scandale Arrive, p. 63 ss.