Diante do gênero “filme americano de high school”, é muito fácil acreditar que suas obras todas se confundem e que, portanto, nenhuma delas merece muita atenção — o que não impede o gênero de ter seus clássicos. E um olhar girardiano pode permitir que o espectador se divirta bastante.

Girard repete algumas vezes que os adultos são tão miméticos quanto as crianças; sua única “vantagem” é ser muito mais capazes de esconder seu mimetismo, porque, como Adão e Eva surpreendidos por Deus, sabem que estão nus.

A adolescência, fase híbrida, presta-se muito bem a representações dos dramas ligados ao mimetismo justamente porque o sujeito sabe que está nu, sem ter ainda aprendido a esconder de si próprio o mimetismo. Ao mesmo tempo, o desejo de diferenciação já é bastante marcado. Desse conflito podem sair comédias ou tragédias: é só variar a dosagem dos ingredientes.

Um dos filmes clássicos adolescentes dos últimos anos sem dúvida é Meninas Malvadas (Mean Girls), com roteiro de Tina Fey a partir de um livro sobre a high school americana no qual o desejo metafísico está presente desde o título: Queen Bees and Wannabes, de Rosalind Wiseman (Nova York: Harmony, 2002), ou, bem literalmente, “as abelhas-rainhas e as[os] que querem ser”.

Podemos pensar que o verbo ser em “querer ser” tem um complemento, que seria “abelha-rainha”. Porém, se lembrarmos do aspecto metafísico do desejo mimético, vemos que o sujeito deseja simplesmente “ser”, o que significaria não aparentar nenhuma carência diante dos outros e ser desejado por eles. A palavra inglesa wannabe, contração de [to] want to (“querer”) e de [to] be (“ser”), já indica metade do caminho: uns são, outros apenas querem ser. E dizemos que esses outros são meros wannabes porque suas estratégias de pseudonarcisismo não nos convencem. (Aliás, as oportunidades que o tema oferece para discutir termos estrangeiros não têm fim: podemos dizer que o que falta aos wannabes é o italiano sprezzatura.)

Não dá para dizer que Meninas Malvadas é uma obra-prima romanesca (dentro daquilo que o gênero permite) justamente por faltar-lhe tirar as consequências das próprias premissas que apresenta. O filme demonstra grande consciência do mimetismo por apresentar uma cena clássica que abre muitos filmes do gênero, inclusive Crepúsculo: a cena em que os novos amigos do protagonista, um estranho na escola, apontam-lhe a figura mais desejada da escola. Em Crepúsculo, por exemplo, essa cena é apresentada como algo meramente informativo: o laço entre a mocinha e o vampiro vai surgir por uma afinidade espontânea entre os dois… Em Meninas Malvadas, a nova aluna, Cady Heron, imediatamente percebe a garota popular, Regina George, como alguém que pertence a outro mundo. O melhor é que isso é apresentado de duas maneiras: Regina George é apontada como vilã por aqueles que a perseguem, e é como a rainha natural da escola por aqueles que a adoram. Sem querer, ou sem saber, aqueles que a repudiam contribuem tanto para que Regina George (e não é preciso lembrar que regina, em latim, significa “rainha”) seja atraente quanto aqueles que não escondem que a adoram.

Cady Heron admite para si mesma que quer ser Regina George. O que se segue é uma clássica (e muito divertida) história de rivalidade e de artimanhas, e devemos admirar a maneira como o cinemão americano consegue repisar e repisar os mesmos clichês, sabendo que são clichês, ironizando-os de maneira amorosa. “É o de sempre, mas o que fazer? Nós gostamos, somos assim.” Como no teatro de Shakespeare, parte da força vem da adesão aos clichês. O que muda é o tratamento que se dá a eles. E, como no teatro de Shakespeare, esse tratamento é modificado pela consciência do mimetismo.

No entanto, como dito antes, Meninas Malvadas não chega a dar o passo que o próprio Shakespeare, de certo modo, só daria no final de sua carreira, e não serei ridículo a ponto de censurar Tina Fey por não ter feito de Meninas Malvadas uma obra à altura do Conto de Inverno ou de A Tempestade. O que não impede o questionamento do aspecto talvez utópico do filme, que é exatamente onde ele naufraga.

O filme tem algo daquilo que em bom português chamamos de “responsabilidade social”, isso é, a apresentação de modelos e situações programáticas que transmitam alguma lição ao espectador. (Devo dizer neste momento que só costumamos nos sentir repelidos por isso e condenar esse aspecto numa obra de arte quando nós mesmos não concordamos com a lição: nesse caso, acusamos a obra de “didatismo” etc.) por basear-se na ideia romântica (em sentido girardiano) de “auto-estima”.

Na cena final, Cady Heron é coroada rainha do baile da escola justamente porque as pessoas acreditam que ela praticou uma grande violência contra a rainha anterior, Regina George. Fazendo um discurso ao ser coroada, Cady Heron despedaça a coroa e distribui os cacos à multidão, exaltando as qualidades intrínsecas de cada pessoa e dizendo que todos ali fazem parte da realeza. Se a suposta rainha má negava prestígio, a rainha boa (que, aliás, também tinha acabado de ganhar um campeonato de matemática) está distribuindo prestígio. Claro que existe uma grande diferença nas duas atitudes, mas essa diferença não pode ser traduzida como “aprender a amar-se por si”, porque os olhos de um outro continuam sendo necessários. A diferença é entre um outro mesquinho e um outro generoso, que continua sendo um outro. Trata-se do truque de mágica mais procurado de nossa época: receber prestígio de outro, visto como modelo, e acreditar que isso equivale a aprender a ter “auto”-estima.

Se a obra bate nesse limite, isso não a impede de explorar até mesmo fenômeno da crise de indiferenciação que se alastra por toda a escola, e que é magistralmente resolvida. Nem de lidar com o bode expiatório da maneira como aparece em tempos modernos: queremos perseguir aqueles que consideramos perseguidores, achamos justo direcionar para eles nossa violência.

É por isso que esse pequeno clássico de um gênero considerado menor pode ser um filme mais denso do que muitas obras infinitamente mais pretensiosas…