Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

Além do Desejo, de Daniel Lance

Além do Desejo

Além do Desejo

Além do Desejo, de Daniel Lance, um dos últimos lançamentos da Biblioteca René Girard, é de fato um livro instigante. Como diz o próprio René Girard na contracapa, “Este ensaio contém muitas intuições extraordinárias. Algumas que reconheço, outras que eu desconhecia; estas me parecem ainda mais interessantes que aquelas.”

Com uma recomendação dessas em mente, demos uma olhada no livro.

Lance — que pude conhecer no Seminário Internacional René Girard em São Paulo, há alguns anos — inicia o livro examinando três dramaturgos: Paul Claudel, Jean Genet e Tennessee Williams. Se a ligação entre Genet e Williams talvez não surpreenda, a associação dos dois, especialmente Genet, com Paul Claudel, é bastante surpreendente (e o próprio Claudel ficaria bastante surpreso, com certeza). Claudel é um dos autores mais assumidamente católicos do século XX; Jean Genet, chamado às vezes de Saint (“São”) Genet, é praticamente associado a uma postura satânica. Contudo, essa associação pode mostrar que a intuição dos mecanismos do desejo é a mesma, independentemente da atitude do artista. Não se trata, é claro, de separar o homem de sua arte (creio que nem Claudel, nem Genet aceitariam essa dissociação), mas de entender que há respostas diferentes.

Lance reproduz em pequena escala a estrutura da obra do próprio Girard, isso é, passa do estudo da arte para a antropologia, sempre orientado pela intuição girardiana fundamental de que o desejo pode orientar-se para qualquer objeto, dependendo apenas do modelo. Por isso, não faria sentido em falar em identidades sexuais que existiriam a priori. Teoricamente, o desejo de qualquer sujeito pode voltar-se para qualquer objeto, bastando apenas que mudem o modelo e as condições. Assim, Daniel Lance examina modalidades hetero- e homossexuais de rivalidade e de aprendizado, passando da sociedade ocidental moderna a sociedades antigas e a certas tribos nas quais existem modalidades institucionalizadas de homossexualismo.

Como destaca em seu prefácio o professor João Cezar de Castro Rocha, Lance dá uma espécie de “passo atrás” no desejo mimético, distinguindo o desejo “metafísico”, ou desejo pelo ser do outro, do desejo sexual — distinção essa que é claramente funcional, podendo, na prática, os dois desejos estarem perfeitamente associados. Lance, porém, declara interessar-se pelo aspecto sexual, o que o leva a fazer distinções que, por sua vez, parecem pautadas pelo critério metafísico:: uma das grandes ênfases do livro está na distinção entre sexualidade movida pela rivalidade (e em Coisas Ocultas desde a Fundação do Mundo é esse tipo que aparece) e sexualidade movida pelo aprendizado, isso é, sexualidade sem rivalidade, justamente porque os papéis sexuais estão perfeitamente diferenciados.

Vale ainda observar que, mesmo que Lance enfatize o aspecto “sexual”, como há um aspecto “metafísico” do desejo, isso é, um desejo pelo ser do outro, a sexualidade pelo aprendizado, presente por exemplo em sociedades guerreiras ou em ritos de iniciação de caçadores, parte do pressuposto de que o ser do homem mais velho é desejável e estabelece canais institucionais de transferência desse ser aos mais novos. Lance, é claro, não deixa de observar o aspecto de double bind que existe nas posições ativa e passiva dessa relação.

Se existe hoje em nossa cultura moderna uma certa guerra de identidades sexuais, o livro de Lance vem mostrar que a questão pode ser infinitamente mais complexa. Lance propõe um esquema, um continuum de sexualidades, e ao final afirma que podem haver tantas “sexualidades” quanto indivíduos, o que quer dizer que o desejo pode organizar-se de miríades de maneiras diferentes, com triangulações de tipo sujeito-modelo-objeto sobre triangulações. E, se há uma questão normativa, ética, para Lance, ela consiste fundamentalmente em tratar o outro sempre como um sujeito, e não como mero objeto.

1 Comment

  1. Robson Braga Marques

    29 de junho de 2015 at 17:33

    Tinha feito o pedido de um exemplar do livro aproveitando a promoção da Editora É e agora estou ainda mais ansioso pela leitura.

    O entendimento da sexualidade que a teoria mimética oferece sempre foi um dos elementos que mais me chamaram a atenção quando descobri os escritos de Girard.

    Ele me permitiu entender os meandros de meus comportamentos com tal lucidez e verdade que me encheu de alegria.

    De fato, até mesmo nossa sexualidade é contaminada e determinada pela inveja e rivalidade. Pelo menos no meu caso, a explicação da homossexualidade que Girard oferece se aplica perfeitamente: foi a forma particular em que me portei quanto ao desejo desde muito pequeno que determinou minha sexualidade. Nunca fui capaz de tomar uma postura decidida em face do mimético em todos os níveis; a fascinação e prostração diante do modelo era a regra. Sendo assim, na formação de minha sexualidade, em vez de ir em direção ao objeto indicado pelo modelo, fiquei bloqueado pelo obstáculo que ele representava. A supremacia e anterioridade temporal do desejo metafísico em relação ao objetal sempre foi flagrante em minha vida.

    Quanto ao livro de Lance também fiquei muito interessado nas ligações apontadas com a antropologia; as variadas formas e instituições que as sociedades criaram para manejar e controlar o mimetismo são fascinantes de serem estudadas.

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