Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

Paolo e Francesca

Paolo e Francesca

Paolo e Francesca, de Dante Gabriel Rossetti

A imagem que adorna o cabeçalho deste blog é um detalhe da pintura Paolo e Francesca, de Dante Gabriel Rossetti. Ela foi escolhida porque a narração do episódio de Paolo e Francesca por Dante Alighieri no final do Canto V da Divina Comédia é um dos exemplos recorrentes na obra de René Girard, que inclusive dedicou-lhe um artigo inteiro1. Entre as várias representações de Paolo e Francesca disponíveis, a de Rossetti foi selecionada porque mostrava o momento crucial, em que Dante diz: Galeotto fu’l libro i chi lo scrisse (verso 137), ou, numa tradução puramente literal, “Galeotto foi o livro e quem o escreveu”.

O que, sem algumas informações, parece um tanto truncado.

Vamos portanto ao começo dos começos — e perdoe-me o leitor que já conhecer a história.

O livro da pintura, que está nas mãos de Francesca, é aquele que hoje se costuma chamar simplesmente de Lancelot em prosa, para diferenciá-lo, por exemplo, da narração em versos de Chrétien de Troyes (cuja tradução é até vendida no Brasil, mas com o texto em prosa). O Lancelot em prosa, dividido em cinco partes, conta diversas histórias, incluindo a da demanda do Santo Graal. A história que nos interessa, porém, está na terceira parte, chamada “Lancelot”: é a do famoso romance adúltero de Lancelot com a rainha Guinevere, esposa do rei Arthur. Quem uniu os dois amantes foi justamente o cavaleiro Galeotto (ou Galehaut, ou Galehault — a variação de nomes é enorme), ex-inimigo do rei Arthur.

A Francesca em questão é, como diversos personagens da Divina Comédia, uma personagem real, Francesca da Rimini, que teria mantido um caso de aproximadamente dez anos com Paolo, irmão de seu esposo Giovanni, bravo guerreiro, mas manco, e filho do senhor da cidade de Rimini — daí que ela seja, em italiano, Francesca da Rimini. Giovanni os teria surpreendido e matado.

Já não há a menor dificuldade em completar o enredo: a história que os amantes contam a Dante em sua visita ao inferno é que estavam lendo o Lancelot em prosa juntos, tirando os olhos do livro e encarando-se à medida que a tensão entre Lancelot e Guinevere ia crescendo, até que chegaram à cena em que os dois se beijam. Então, imitando os amantes unidos por Galeotto, também eles se beijaram. O Galeotto do livro também uniu Paolo e Francesca (na versão de Dante). Ou ainda: a leitura desempenhou para Paolo e Francesca o mesmo papel que Galeotto desempenhou para Lancelot e Guinevere. Se colocarmos a frase nas posições sintáticas habituais, seu sentido fica claríssimo: o livro foi Galeotto; o autor do livro (quem o escreveu) também foi Galeotto, pois, ao narrar daquela maneira a história, angariando a simpatia do leitor para aqueles amantes adúlteros, fez de nós, Paolo e Francesca, adúlteros também, porque nós quisemos imitá-los.

O uso dessa forma “invertida” por Dante se explica pelo seguinte: a história do adultério de Lancelot e Guinevere era famosa, e Galeotto era um personagem que estava, por assim dizer, na boca do povo. Tanto que em espanhol a palavra “galeoto” chegou a ser sinônimo de “proxeneta”. Tentemos imaginar alguém dizendo em bom português oral: “Proxeneta foi o livro, proxeneta foi quem escreveu”, e captamos melhor o tom e o sentido daquele Galeotto fu’l libro i chi lo scrisse.

Se aceitarmos essa versão de Dante, é inevitável que pensemos em outra grande referência da teoria mimética: Emma Bovary, que, após passar a juventude lendo romances sentimentais, fica orgulhosa de si mesma por ter um amante e repete para o espelho: “Tenho um amante! Um amante!”2

Ou em Dom Quixote, cuja vida também é transformada pela leitura.

Mas retornemos a Dante por um momento.

No trailer da nova versão cinematográfica de Madame Bovary, temos a já carcomida interpretação de que Emma Bovary era uma mulher revoltada com a mesquinharia de seu cotidiano. Isso está escrito no trailer, não é uma interpretação: “Uma mulher… aprisionada pelas convenções… tentada pela paixão… ela queria libertar-se.”

Dante Alighieri, porém, colocou suas Emma Bovary macho e fêmea no inferno. Se acreditarmos que o próprio nome de Galeotto já sai da boca de Francesca de maneira pejorativa, veremos que ele próprio, autor, narrador e personagem do livro, não pretende ser um Galeotto, enfatizando o aspecto negativo daquela experiência de leitura. Mais ainda, Dante deixa claro que, enquanto um espírito contava a história, o outro chorava. Ninguém está contente com a situação.

E assim vem o momento mais impactante: ao ouvir aquela história, Dante sente tanta piedade (“pietade”, verso 140) que desmaia. O verso, o último do Canto V, é tão bonito que merece ser reproduzido: “E caddi come corpo morto cade”, que Vasco Graça Moura verte como “e como um corpo morto assim caí”3, e Jorge Wanderley como “E caí como corpo morto cai”4, muito próximo do original.

Por que ele desfaleceria? Quem sente piedade, sente simpatia. E, se sente simpatia, é porque se identifica com o objeto da simpatia.

Podemos supor que Dante de certo modo se reconheceu na história. Não que ele tenha sido adúltero, nem é essa a questão. Mas por ter percebido que ele, assim como tantos de nós, dedicados à leitura, pode ter sido “galeotizado” por algum livro, por ter encontrado em livros os modelos que quis imitar, para o bem ou para o mal. Por ter visto que poderia ser exatamente como Paolo e Francesca — e terminar no inferno.

O que, para um católico, não é uma boa perspectiva.

É realmente o caso de desmaiar.

***

Voltemos às razões para a escolha da pintura. O cabeçalho do blog tem certas limitações: por isso selecionei o enlace das mãos e o livro.

Não pretendo, certamente, que desmaiemos. Mas é comum que os interessados na teoria mimética já tenham passado por alguma experiência pessoal em que reconheceram o próprio mimetismo, reconhecendo-se portanto miméticos, dando o passo cognitivo que Paolo e Francesca só deram quando foi tarde demais.

Reconhecer o próprio mimetismo não significa absolutamente livrar-se dele, mas apenas reconhecer que, como disse numa palestra o prof. João Cezar de Castro Rocha, autor do nosso primeiro artigo, temos a liberdade de escolher nossos modelos.

Além de divulgar a teoria mimética e de discuti-la, este blog pretende, portanto, avaliar suas implicações éticas, que são indissociáveis dela.

Fica um convite para a leitura — e também para a sua contribuição.

NOTAS


  1. GIRARD, René. “The Mimetic Desire of Paolo and Francesca”. In: To Double Business Bound: Essays on Literature, Mimesis and Anthropology. Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 1978, p. 1–8.

  2. FLAUBERT, Gustave (1856). Madame Bovary. Ed. Thierry Laget. Paris: Gallimard, col. Folio Classique, 2001, p. 232.

  3. ALIGHIERI, Dante. A divina comédia. Trad. Vasco Graça Moura. São Paulo: Landmark, 2005, p. 69. Esta edição é bilíngue e foi consultada para o texto italiano (ou, mais propriamente, toscano medieval).

  4. ALIGHIERI, Dante. A divina comédia: Inferno. Trad. Jorge Wanderley. Rio de Janeiro: Record, 2004, p. 109.

2 Comments

  1. Maravilhoso o artigo. Nunca havia feito essa ponte entre a estória de Francesca e a rainha do rei Arthur.

  2. Fantástica explanação, esclareceu muitas dúvidas que eu tinha sobre o casal Francesca e Paolo. Obrigada!

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