Há nos autores do desejo mimético uma voz quase-teórica, que sempre foi silenciada: primeiro pela concepção da arte como mero entretenimento, depois pela ideia de “arte pela arte”, e agora por metodologias críticas que mais do que nunca negam qualquer força investigativa a uma obra literária.” — René Girard, “Introduction”. To Double Business Bound. Essays on Literature, Mimesis and Anthropology. Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 1978.

O primeiro livro de René Girard, Mentira Romântica e Verdade Romanesca, é sem dúvida um livro de crítica literária; o segundo (na contagem habitual do próprio Girard, já que depois do primeiro haveria A Crítica no Subsolo, sobre Dostoiévski), A Violência e o Sagrado, é um livro de antropologia. Porém, mesmo esse livro de antropologia traz uma importante menção ao mito de Édipo e a seu tratamento no teatro grego. É no capítulo “Édipo e a vítima substituta” que Girard propõe pela primeira vez a possível inocência de Édipo, inocência essa que já seria sugerida pela peça Édipo Rei, de Sófocles — aliás (ainda que por outras razões), a peça que Aristóteles cita nada menos do que dez vezes em sua Poética.

Mais ainda, podemos dizer que em Mentira Romântica… já existe uma teoria não simplesmente da literatura, mas do homem: a teoria do desejo mimético, que não pretende aplicar-se apenas a personagens, nem ser uma explicitação de convenções literárias. Mesmo que tenha nascido da observação de personagens, o desejo mimético vai aplicar-se às pessoas. Não que haja algo de original nisso. Freud já tinha se baseado em obras literárias para desenvolver suas teorias psicanalíticas. E falo de obras literárias mesmo, não apenas de mitos (nem apenas de peças gregas antigas) como os de Édipo e de Electra.

Como assim? Mentira Romântica e Verdade Romanesca não era um livro de crítica literária?

Podemos dar mais voltas, se quisermos: a primeira obra de “crítica literária’ em forma de tratado do Ocidente, a já citada Poética de Aristóteles, traz em suas primeiras páginas uma afirmação não sobre a literatura em geral, nem sobre as artes em geral, mas sobre o homem: o homem possui, desde a infância, o “instinto [ou a capacidade inata] de imitar” (1448b). E é interessante observar que, ainda que Platão considere (República, Livro III) que apenas o drama e, numa obra narrativa, os diálogos sejam propriamente imitativos, Aristóteles não considera que todos os modos são “representações [ou imitações] da vida” (Poética, 1447a).

Essas reflexões nada fazem senão sublinhar que a obra de René Girard pouco tem de original no sentido romântico e moderno da palavra —, o que, esperamos, está em conformidade com o espírito mesmo mesmo dessa obra. Isso, porém, não a impede de ser revolucionária no sentido de voltar a um ponto original: Platão e Aristóteles já tinham unido a ciência do homem e a arte da palavra com o elo da imitação.

É Girard que, em To Double Business Bound, fala no potencial quase-teórico da literatura, noção retomada por William Johnsen em seu Violência e Modernismo. Afinal, agora distanciando-se de Platão e de Aristóteles, que discutiram principalmente (mas não exclusivamente!) o drama e a poesia com o objetivo de discutir… o drama e a poesia, Girard usa a literatura e o teatro para falar do homem.

Contudo, não há de ter sido por acaso que sua teoria tenha partido do romance, e não do drama e da poesia, gêneros que no entanto desenvolveram-se muitíssimo desde que foram tratados pelos filósofos gregos antigos. O romance moderno, surgido com Dom Quixote (1605) ou com os romances ingleses e franceses do século XVIII, é um “instrumento de investigação da realidade”, e, nesse ponto é preciso ceder a palavra a Antonio Cândido, um dos críticos mais generosos e argutos no que diz respeito à definição do romance. Vejamos um trecho do capítulo significativamente intitulado “Um instrumento de descoberta e interpretação”, de Formação da Literatura Brasileira:

Complexo e amplo, anticlássico por excelência, [o romance] é o mais universal e irregular dos gêneros modernos. Mais ou menos equidistante da pesquisa lírica e do estudo sistemático da realidade, opera a ligação entre dois tipos opostos de conhecimento; e como vai de um pólo ao outro, na gama das suas realizações, exerce atividade inacessível tanto à poesia quanto à ciência. O seu fundamento não é, com efeito, a transfigurada realidade da primeira, nem a realidade constatada da segunda, mas a realidade elaborada segundo um processo mental que guarda intacta a sua verossimilhança externa, fecundando-a interiormente por um fermento de fantasia, que a situa além do quotidiano — em concorrência com a vida. Graças aos seus produtos extremos, embebe-se de um lado em pleno sonho, tocando de outro no documentário. Os seus melhores momentos são, porém, aqueles em que permanece fiel à vocação de elaborar conscientemente uma realidade humana, que extrai da observação direta, para com ela construir um sistema imaginário e mais durável. Alguma coisa de semelhante ao “grande realismo”, de Lukács, ou à “visão ética”, de F.R. Leeavis, com mais flexibilidade do que está contido no dogmatismo destes dois críticos. (Itataia: Belo Horizonte e Rio de Janeiro, 1993, vol. 2, p. 97.)

Se a literatura tem um lado investigativo, então a expressão “potencial quase-teórico da literatura” começa a ganhar corpo. Falta, é claro, uma definição mais precisa, mas essa ainda está por ser buscada.

Esse potencial, porém, não foi buscado por Girard apenas no romance. Como já observamos, sua interpretação dos mitos deve algo ao teatro grego; e, quando sua teoria já estava mais desenvolvida, ele a reencontrou no teatro elisabetano de Shakespeare.

As questões levantadas — para as quais não posso oferecer ainda nem uma tentativa de resposta — são inúmeras. A literatura pode ser mais valiosa do que a observação direta, ao menos em certos casos? Isso se deve à sua natureza necessariamente esquemática, quando comparada à vida concreta?

E, mais ainda, mais importante, esse “potencial quase teórico” não diz respeito ao valor existencial que muitos leitores dedicados atribuem a seus livros favoritos? Esses livros não são amados, ao menos em parte, por aquilo que seus leitores julgam ter aprendido com eles?

Leitores esses, aliás, que incluem o próprio Girard, além de Freud e de outros.

O que não deixa dúvidas sobre a importância da questão a explorar.