Nota: estamos em plena Escola de Inverno René Girard, onde vamos discutir a nota acrescentada à edição recente dos três primeiros livros de Girard com o título De la Violence à la divinité. Assim, traduzimos a nota, publicada na página 1001 da obra (Paris: Grasset, 2007), e remetemos o leitor a uma discussão mais ampla do tema, feita pelo próprio Girard em Evolução e Conversão e já destacada no blog.

A oposição entre um pensamento “sacrificial”, sempre infiel à inspiração evangélica e um “pensamento não-sacrificial”, o único fiel, pelo contrário, a essa mesma inspiração, reflete uma última ilusão humanista e “progressista” em minha interpretação do cristianismo. Apenas livrei-me dessa ilusão após a publicação original do presente livro [Coisas Ocultas desde a Fundação do Mundo]. A meus olhos, aliás, a verdadeira oposição entre o cristianismo e a religião arcaica deve ser definida como a oposição entre o sacrifício de si e o sacrifício de outro. Essa oposição define perfeitamente a relação entre o sacrifício arcaico, fundado no assassinato fundador, aquele que reclama imolações rituais, e o sacrifício de Jesus nos Evangelhos, o dom de si na crucifixão. O sentido cristão está sempre presente, ao menos de maneira implícita, no sentido mais corrente da palavra “sacrifício” em nossos dias, o sentido de uma renúncia ao objeto desejado, de uma privação que impomos a nós mesmos, de uma mortificação, não necessariamente neurótica, por ser a única capaz de, sem violência, findar as rivalidade miméticas. Essa última definição corresponde perfeitamente, no julgamento de Salomão, à oposição entre a prostituta má, aquela que aceita o assassinato do bebê para apaziguar sua paixão mimética, e a boa prostituta, que sacrifica até seu amor maternal, sacrificando-se a si mesma por conseguinte, em nome da sobrevivência desse bebê. A boa prostituta sacrifica-se para que o bebê viva e seu sacrifício corresponde admiravelmente ao do Cristo, que sacrifica a própria vida para fazer a vontade do pai e salvar a humanidade, não apenas morrendo por nós, mas, pelo mesmo ato, esclarecendo-nos quanto a nossa própria violência. A fim de refleti-la em sua exatidão, modifiquei algumas frases essenciais do presente livro. Como não tenho nenhuma vontade, aliás, de dissimular, nem sobre esse assunto, nem sobre nenhum outro, as variações no meu pensamento, deixei outras frases como estavam. Espero que os leitores não tenham muita dificuldade de destinchar a mistura. Também eliminei da presente reedição algumas passagens geralmente muito breves que deixaram de convencer-me, ou que jamais me convenceram, destacando-se uma opinião absurdamente negativa sobre a Epístola aos Hebreus. Hoje repudio essa leitura. Ela jamais refletiu em mim nada além de um gesto de recuo deveras efêmero, ao fim de análises mais cansativas do que o previsto, sob a perspectiva de análises suplementares. Para desculpar certas fantasias, certas imprecisões de linguagem na edição original da presente obra, não posso fazer mais do que recordar a atmosfera festiva e até um pouco mágica que reinava em Baltimore, no estado de Maryland, entre Jean-Michel Oughourlian, Guy Leffort e eu mesmo, durante o tórrido mas glorioso verão de 1977, inteiramente consagrado por nós à redação de Coisas Ocultas desde a Fundação do Mundo.