por Júlia Reyes (UERJ)

(Apresentação feita na Escola de Inverno René Girard em 2015.

É uma honra ter a oportunidade de apresentar meu projeto de doutorado em Literatura Comparada pela UERJ aos alunos, alunas, e aos três professores da Escola de Inverno 2015, tendo em vista os diálogos que cada um dos teóricos convidados pode oferecer para o desenvolvimento da presente pesquisa.

Esta apresentação me oferece a escuta atenta de professores que dialogaram com a teoria mimética em diversas áreas de conhecimento e a profícua troca de ideias com interlocutores que podem auxiliar meu trabalho. Por isso, expresso minha alegria e gratidão por esta oportunidade.

A Escola de Inverno nos auxilia na compreensão da teoria girardiana, de suas dinâmicas e de seus componentes. Podemos dialogar sobre a teoria mimética em nível interdividual e pensar nas relações pessoais e também em sua relação com a geopolítica, com a economia, com as relações de poder, com a justiça e com os modos de organização e de gestão de atividades e de empreendimentos sociais que afetam indivíduos e comunidades e que também possuem um caráter mimético. Essas questões perpassam as produções de Carson McCullers (1917–1967), que escreveu e viveu na metade do século XX nos Estados Unidos, um país assolado pelos linchamentos e discursos racistas e heteronormativos.

Temos ainda a oportunidade de dialogar dentro do campo dos estudos bíblicos e das questões sobre violência inderdividual, sobre vingança, sobre ressentimento, sobre arrependimento, sobre perdão e sobre compaixão, as quais a obra de Girard discute ao ressaltar o desejo mimético e sua zona sombria e as possibilidades de superação da rivalidade e da violência através de uma conversão ética que propõe uma convivência que não seja atravessada por um mimetismo violento. Portanto, é com muita gratidão que aceito o convite para expor meu trabalho em sua fase inicial.

Meu projeto de pesquisa foi intitulado “Diálogos entre a teoria mimética de René Girard e The Heart is a Lonely Hunter (1940) de Carson McCullers”. Nessa pesquisa, o objetivo geral é fazer uma análise do primeiro romance da escritora estadunidense Carson McCullers (1917–1967) e de alguns de seus contos buscando uma interface com as proposições de Girard e da teoria mimética, definida pelo autor da seguinte maneira: “A Teoria Mimética ou Imitativa é uma explicação do comportamento humano e da cultura humana”.1

A ideia de relacionar a teoria mimética com as produções de McCullers surgiu da observação de que a autora, em muitas de suas obras, apresenta enredos com personagens que podem ser considerados outsiders, outcasts, marginais, freaks, forasteiros, ou seja, pessoas que estão fora de concepções normativas pré-estabelecidas culturalmente.

René Girard realça um mecanismo de resolução do conflito generalizado denominado “bode expiatório”, identificado na vítima sacrificial das sociedades arcaicas. Nele, uma vítima extingue, com seu sacrifício, a escalada das violências sociais endógenas de uma dada comunidade, promovendo o retorno da ordem social ameaçada pelas rivalidades entre os integrantes de seu grupo. Carson McCullers, por sua vez, dá destaque a personagens que não se enquadram em padrões normativos2, como anões, surdos-mudos, alcoólatras, adolescentes deslocadas, mulheres, negros, crianças e homossexuais.

Escolhendo personagens outsiders, McCullers trabalha contextos de inclusão e exclusão, de violência e de relações humanas que dialogam com as reflexões girardianas, pois os personagens considerados “diferentes” são bodes expiatórios potenciais da comunidade a que pertencem ou na qual se inseriram. O fato de McCullers ter escolhido personagens que se destacam do grupo social por serem desviantes da norma faz com que a autora precise retratar as relações sociais de forma a apresentar e resolver os conflitos inerentes à presença de tais personagens no espaço social. Paralelamente, Girard investigou esse tipo de dinâmica de conflitos humanos ao longo de sua trajetória teórica.

A partir da coincidência entre os dois autores que trabalham com excluídos e incluídos (os bodes expiatórios no caso de Girard, e os outcasts no caso de McCullers), uma hipótese de trabalho foi delineada, buscando-se as confluências entre os dois autores. O destaque concedido por McCullers a personagens fora de padrões normativos torna, na minha hipótese, essas personagens bodes expiatórios em potencial e faz com que a autora precise resolver essa tensão entre personagens desviantes e não-desviantes retratando dinâmicas sociais de exclusão ou também de aceitação dos indivíduos vistos como “diferentes” em seus livros.

Portanto, existia uma possibilidade de que, mesmo sem conhecer a teoria de Girard, McCullers tenha intuído e trabalhado sobre a rivalidade mimética e o mecanismo do bode expiatório enquanto escrevia. Essa hipótese é baseada também nas reflexões de Girard em Mentira Romântica e Verdade Romanesca (1961), em que o autor apresenta intuições teóricas a partir da leitura de romancistas modernos. Assim, outra hipótese a ser respondida é se Carson McCullers é uma escritora “romanesca”.

A primeira intuição de Girard versa sobre o caráter fundamentalmente mimético do desejo humano, que ilumina as rivalidades interdividuais. A segunda intuição girardiana destaca a solução encontrada para apaziguar e diluir as tensões sociais advindas de tais rivalidades, o mecanismo do bode expiatório. A análise literária dos contos e do romance de McCullers vai dialogar com essas intuições.

No primeiro romance de Carson McCullers, The Heart is a Lonely Hunter (1940) temos a apresentação de duas personagens principais que são surdos-mudos: Spiros Antonapoulus e John Singer. Os dois moravam juntos há dez anos e eram os únicos surdos-mudos de uma pequena cidade estadunidense. Quando Spiros Antonapoulus, depois de aprontar diversos atos escandalosos e obscenos em público, é enviado para um hospício, John Singer fica sozinho e isolado, pois mesmo sabendo ler lábios, ele perde seu melhor amigo e interlocutor. Essa condição faz com que o vínculo social de John Singer torne-se muito fraco, transformando-o assim em um bode expiatório em potencial.

Há também as outras personagens do romance, Dr. Copeland, um doutor negro que cuida exclusivamente de pacientes negros e está em conflito com a família; Biff Brannon, o dono do New York Café, onde os personagens se encontram, Mick Kelly, uma adolescente apaixonada por música e piano, e Jake Blount, um viajante socialista que prega sobre suas crenças, bebe muito e tem um comportamento volátil. Todas as personagens interagem com John Singer, projetando nele qualidades que admiram. Esse fato reforça ainda mais a possibilidade de John Singer ser visto como um bode expiatório simbólico da trama.

René Girard observa, em seu segundo livro, A Violência e o Sagrado (1972) que os indivíduos potencialmente escolhidos como bodes expiatórios são em geral aqueles que possuem um elo frágil com a sociedade, pois ninguém poderá, depois de sua imolação, reclamar sua morte e empreender um plano ou ação de vingança. Girard assinala a respeito da escolha de vítimas sacrificiais:

Encontramos em primeiro lugar os indivíduos que apresentam um vínculo muito frágil ou nulo com a sociedade: os prisioneiros de guerra, os escravos, o pharmakós. Na maioria das sociedades primitivas, as crianças e os adolescentes ainda não iniciados também não pertencem à comunidade: seus direitos e deveres são praticamente inexistentes (Girard 2008, p. 24).

Assim, um disparador da possível relação entre os dois autores tornou-se possível, mas não se restringe à presença de bodes expiatórios.

Compaixão x reciprocidade violenta

Na terceira intuição de René Girard, referente ao livro Coisas Ocultas Desde a Fundação do Mundo (1978), a religião é o processo de institucionalização do mecanismo do bode expiatório. A emergência da cultura e o surgimento do fenômeno religioso são, em Girard, como assinala João Cezar de Castro Rocha3, dois momentos de um mesmo processo (Rocha 2014, p. 64).

Diante da interface entre a teoria mimética e os estudos bíblicos, tenho a intenção de trabalhar o romance e os contos de McCullers do livro The Ballad of the Sad Café (1951) sob a perspectiva da dissolução da vingança e do tema do amor, da compaixão e do perdão, sentimentos contrários à rivalidade mimética. Buscarei averiguar o conceito de “inteligência da vítima” em oposição à reciprocidade violenta e ao mecanismo do bode expiatório; se a inteligência da vítima está presente nos contos de McCullers e de que forma é trabalhada em cada um deles.

René Girard considera Jesus como a vítima inocente por excelência, aquela que é capaz revelar que o mimetismo, quando transformado em rivalidade mimética, revela nossa tendência de atuarmos como perseguidores de inocentes e como acusadores. Essa seria a postura satânica, oposta ao amor gratuito de Jesus e de Deus Pai.

James Alison retoma essa reflexão de Girard, estabelecida marcadamente em Coisas ocultas desde a fundação do mundo (1978) e em Eu via Satanás cair como um relâmpago (2012). Em O Pecado Original à Luz da Ressurreição: A Alegria de Descobri-se Equivocado (2011), James Alison propõe o conceito de “inteligência da vítima”, continuando as reflexões de Girard, que tinha definido Satanás como o mau mimetismo.4

A vítima ou bode expiatório pode ser um membro social escolhido de forma estratégica por se desviar da normalidade, seja por possuir características positivas ou negativas em relação aos outros integrantes do grupo. Podemos discutir a vítima que será sacrificada nas sociedades de hominídeos, e podemos discutir a vítima como um membro socialmente hostilizado e excluído. René Girard, em Eu via Satanás cair como um relâmpago (1999) diz o seguinte sobre a definição de bode expiatório:

Portanto, a expressão bode expiatório designa: 1) a vítima do rito descrito no Levítico 2) todas as vítimas de ritos análogos que existem nas sociedades arcaicas e que são também chamados de ritos de expulsão; e finalmente 3) todos os fenômenos de transferências coletivas não ritualizadas que observamos ou pensamos observar ao nosso redor. (GIRARD, 1999, p.227).

James Alison, em O Pecado Original à Luz da Ressurreição: A Alegria de Descobrir-se Equivocado (1998) reforça que o envolvimento dos seres humanos com a morte se caracteriza de uma forma específica, na qual a constituição do desejo humano é “forjada no modo de skandala, por meio do qual recebemos a morte, uns dos outros, e causamos morte uns nos outros em nossos mútuos envolvimentos vitimários” (p.237). Por outro lado, Alison explica que mesmo os seres humanos aprisionados em uma reciprocidade violenta, chamada por Girard de “psicologia interdividual”, onde reside um desejo que nos conduz à morte, nossa ou dos outros, há outra possibilidade de comportamento que não leva à morte. Jesus e os Evangelhos pregam outra orientação a que é possível ascender.

A “inteligência da vítima”, conceito de James Alison, refere-se à inteligência de um ser humano que recusa a vingança e o ressentimento, instituições típicas da rivalidade mimética, alguém que não condena o algoz e segue o ensinamento de Jesus. Jesus não ensina o desejo relacionado à morte, mas um ensinamento ético que “busca nos libertar ao nos ensinar uma nova forma, mas não menos recíproca de desejo, a qual nos permitirá cumprir a lei e os profetas a partir do coração” (Alison 1998, p. 236).

James Alison ressalta que a intuição psicológica interdividual de Jesus é encontrada nos Evangelhos de Mateus e de Marcos: “O antídoto ao desejo tomado de rivalidade, presente entre os discípulos em sua busca por grandeza, pode ser sorvido no aprendizado de remodelar o desejo em função de buscar e receber o não importante, como as crianças fazem (9, 36–37). São os sem importância que não ficarão escandalizados (9, 42), pois são eles, marginais e periféricos diante do mundo complexo dos desejos adultos, que são realmente capazes de receber a gratuidade de Deus (10, 14–15) (ALISON, 2011, p.236).

Assim, os aspectos fabulares, infantis, cômicos e góticos dos personagens de Carson McCullers podem ainda ser investigados em seu aspecto infantil e dramático particular, como a pré-adolescente Mick Kelly; seu irmão, o garoto Bubber/George; ou os amigos surdos-mudos John Singer e Spiros Antonapoulus, pois a atmosfera influenciada pelo realismo russo da autora é marcada por personagens e tramas com tons realistas e lúdicos, de aspectos trágicos e cômicos, de forma que a inocência de alguns personagens outsiders seja demarcada e espalhe-se como um tom, uma atmosfera própria que contamina e acompanha a leitura e que no plano do conteúdo por acompanhar o contexto da “inteligência da vítima”.

Assim, a leitura do romance de Carson McCullers será feita na tentativa de relacionar seu romance com a teoria mimética e com a inteligência da vítima, bem como a análise de seus contos, que também será realizada sob a perspectiva da inteligência da vítima, da compaixão, do amor e do arrependimento por oposição à rivalidade mimética, ao mecanismo do bode expiatório e à reciprocidade violenta.

A presente pesquisa ainda está em uma fase inicial, e a preocupação central é a compreensão da teoria mimética e a revisão bibliográfica das obras de René Girard. Apresentei aqui alguns caminhos de análises possíveis e espero que as perspectivas que insinuei estejam de acordo com o pensamento girardiano e tornem-se posteriormente reflexões literárias mais claras e consolidadas, que indiquem que a literatura pode ser trabalhada através da interface com a teoria mimética, considerando que enfrentamos os problemas de rivalidade e violência desde as sociedades arcaicas, e que muitos escritores podem articular essas questões em suas produções.

A literatura e a análise literária, nesse prisma da relação com a teoria mimética, não estaria circunscrita exclusivamente ao campo da estética, da análise literária tradicional ou da descrição formal, mas estaria também ligada ao domínio da filosofia, da antropologia e dos estudos bíblicos, ressoando a amplitude da teoria girardiana.

Finalizo por aqui, e agradeço a atenção de todos e todas e a disposição em dialogar.

Referências bibliográficas

ALISON, James. O pecado original à luz da ressurreição: a alegria de descobrir-se equivocado. Trad. Mauricio G. Righi. – São Paulo: É realizações, 2011.

Girard, René. A violência e o sagrado. Tradução: Martha Conceição Gambini. São Paulo: Editora Universidade Estadual Paulista, 1990.

_____. Coisas ocultas desde a fundação do mundo. Trad. Martha Gambini. São Paulo: Paz e Terra, 2009.

_____. Mentira romântica e verdade romanesca. Trad. Lilia Ledon da Silva. São Paulo: É Realizações Editora, 2009.

_____. Eu via Satanás cair como um relâmpago. Trad. Martha Gambini. São Paulo: Paz e Terra, 2012.

ROCHA, João Cezar de Castro. Culturas shakespearianas?: Teoria mimética y América Latina. México: Sistema Universitario Jesuita: Fideicomiso Fernando Bustos Barrena, 2014.

Júlia Reyes, colaboradora regular do blog Miméticos, é doutoranda em Literatura Comparada pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), onde desenvolve pesquisas na área de Letras com ênfase em literatura estadunidense e sua interface com a teoria mimética proposta pelo filósofo francês René Girard (1923-).


  1. “Mimetic or imitative theory is an explanation of human behavior and human culture”. Girard, René. “Account of mimetic theory”, março de 2009. (Consulta em 14 de setembro de 2011.)

  2. René Girard, em Eu via Satanás Cair como um Relâmpago (1999) afirma sobre as vítimas: “As vítimas podem ser aleijados, enfermos, miseráveis, desfavorecidos, indivíduos mentalmente retardados, mas também grandes inspiradores religiosos, como Jesus ou os profetas judeus, ou ainda, atualmente, grandes artistas ou pensadores. Todos os povos têm tendência a rejeitar, sob um pretexto ou outro, os indivíduos que escapam de sua concepção do normal e do aceitável” (GIRARD 1999, p.51).

  3. ROCHA, João Cezar de Castro. Culturas Shakesperianas?: Teoria Mimética y América Latina. México: Sistema Universitario Jesuita: Fideicomiso Fernando Bustos Barrena, 2014.

  4. Girard, em Eu Via Satanás Cair como um Relâmpago (2012), esclarece: “Como é o mestre do mecanismo vitimário, Satanás é também o mestre da cultura humana que não tem outra origem além do assassinato. Em última análise, é o diabo, ou, em outras palavras, o mau mimetismo, que se encontra na origem não somente da cultura cainita, mas de todas as culturas humanas” (p. 134).