por Natália da Silva Gama

Texto apresentado na Escola de Inverno René Girard, realizada nos dias 26 de julho a 1 de agosto de 2015, Petrópolis, Rio de Janeiro.

Um dos motivos principais de minha pesquisa sobre Sêneca e René Girard foi colhido de Literatura Européia e Idade Média Latina, de Ernest Curtius. Dos muitos textos que compõem o livro, algumas frases possuem especial afinidade com o modo como tentamos compreender a cumplicidade entre vida e literatura. Duas das muitas preciosidades do livro estão nas seguintes frases que cito. A primeira: “As formas são configurações nas quais se fazem visíveis e palpáveis certos fenômenos de ordem espiritual”. A segunda: “Como toda a vida, a tradição é um interminável fenecimento e renovação.”

Vida. Arte. Tradição. Fenecimento. Renovação.

Sobre esses cinco pilares, estamos construindo o fazer desta pesquisa, que, de forma muito moderada, busca entender, ou ao menos conhecer em parte, um legado cultural, uma história sobre o modo como nos relacionamos e podemos responder tanto às circunstâncias que nos são impostas quanto àquelas que criamos. Embora essas respostas e o conteúdo das questões possam mudar de época a época, de pessoa a pessoa, o dilema de decidir sobre algo permanece em contínua reedição. Diante desses conflitos reeditados pela vida, a arte, particularmente a literatura, nos confere um recurso, um conjunto exemplar de regras narrativas e situações com as quais podemos ampliar o modo de reorientar a própria vida, reconduzindo a própria história. Na verdade, o que se busca fazer é um trabalho de memória. Um resgate consciente de uma herança — cultural e pessoal.

Explico:

Recuperemos a primeira citação: “As formas são configurações nas quais se fazem visíveis e palpáveis certos fenômenos de ordem espiritual”. São as formas pelas quais a cultura ultrapassa os monumentos e revela não só um passado e uma expressão da vida, mas também inicia o espírito em antigas experiências, permitindo, em alguma medida, fazer delas memória, ou seja, renová-las. “Fazer memória”, no sentido que empregamos, refere-se à tradição litúrgica cristã, em que um acontecimento passado é presentificado, ou seja, faz-se presente e presença. Isto é: o mesmo acontecimento repercute não só no plano exterior, mas também se torna parte da vida interior. Nesse sentido, fazer memória equivale, aqui, a entender a cultura como uma longa recordação iniciadora. Precursora de um modo de ser, de ver, de sentir.

Para ir ao encontro dessas formas, estamos recuperando impressões da obra de autores latinos do fim da Antiguidade, mas especificamente de Sêneca. Guardadas as devidas proporções, nos aproximamos desses autores como quem se volta para os seus ancestrais, para sua genealogia. Por muito tempo, foi a tradição literária que conservou a identidade do espírito europeu, preservando-o em continuidade.

Hoje, palavras como continuidade e tradição podem soar, no mínimo, estranhas ou obsoletas a uma cultura cujo apreço pelo novo, célebre e original é elevado ao extremo. Séculos de cultura são esquecidos em breves instantes. Resgatar a tradição literária, no nosso caso um capítulo da literatura latina do fim da Antiguidade, os textos de Sêneca, é um esforço de rememoração da linguagem, a fim de preservar, através desta, um saber perpassado como herança.

Nossa decisão por privilegiar especialmente Sêneca em nossas pesquisas foi provocada principalmente por duas razões. A primeira foi a ressonância da obra de Sêneca na Idade Média, no teatro clássico francês, no teatro da idade de ouro espanhola e, mais particularmente, no teatro elisabetano, que pode ser proveitosamente estudada a partir do pressuposto básico da teoria mimética, ou seja, a centralidade do outro na determinação da identidade. Em termos de história literária e de literatura comparada, esta ideia traz aos estudos literários uma dupla chave: apropriação e renovação da tradição.

Pensando a cultura latina à luz da teoria mimética, as técnicas da imitatio e da aemulatio recebem enfoque privilegiado para nosso estudo comparado, pois revelam, no âmbito estético e intelectual, o caráter agônico e o papel decisivo do alheio na constituição do próprio. Caráter esse que pode conduzir a rivalidade mimética a uma grande produtividade artística. Esse é o traço que buscamos delinear e assimilar em nossos estudos literários.

Dissemos anteriormente que duas foram as razões para o retorno a Sêneca. Além do fenômeno da máxima fortuna do filósofo e dramaturgo no teatro moderno, como falamos, há uma segunda razão: a fidelidade a si mesmo.

Sêneca faz parte do grupo daqueles autores, como Girard também, que um único aspecto do pensamento ou de sua doutrina conduz a todo seu sistema de reflexão. Uma coerência interna que traduziu o desafio da emulação propiciado pelo diálogo com a tradição já firmada em Roma. No teatro, nos diálogos e nas cartas, Sêneca traz na teoria e na prática seu método de composição (a assimilação do outro), destacando seus modelos e os propósitos adotados para a própria vida. Reconhecendo o outro, Sêneca reconhece a si e confere, assim, um sentido para a própria história. Longe de qualquer garantia de êxito nos projetos escolhidos, esse reconhecimento lhe permite adquirir intimidade consigo mesmo e a fidelidade a um propósito (seja estético, ético, político ou moral). Da contínua lembrança do entrelaçamento de culturas e tradições, da meditação constante, Sêneca, na literatura e na filosofia, nos permite fazer memória da tradição.

Seguindo o exemplo dado, procuramos, em nossos estudos literários, fazer memória desses escritos — com a proposta de recuperar e discutir as mediações entre o alheio e o próprio, entre a vida, a arte e “a tradição como um interminável fenecimento e renovação”.

Natália da Silva Gama é doutoranda em Literatura Comparada na UERJ.