por Júlia Reyes

Uma síntese (brutal)

Quando Eu via Satanás Cair como um Relâmpago foi publicado, em 1999, o caminho reflexivo e teórico de René Girard já tinha sido pavimentado com seus três primeiros “livros-evento”1 : Mentira Romântica e Verdade Romanesca (1961), A Violência e o Sagrado (1972) e Coisas Ocultas desde a Fundação do Mundo (1978). Conceitos e questões propostas nesses três primeiros livros são retomados à luz do discurso religioso cristão, sem que a teoria mimética seja posta de lado. Desta vez, René Girard dialoga diretamente com os textos judaico-cristãos, especialmente com o Antigo Testamento e os Evangelhos.

Neste livro, Girard apresenta uma leitura dos textos bíblicos sob a perspectiva da teoria mimética, destacando passagens e elementos-chave que iluminam etapas, elementos e aspectos do ciclo mimético. Em resumo, Girard oferece a seus leitores e leitoras uma perspectiva nova sobre os textos bíblicos, nos quais evidencia-se um conhecimento sobre o ciclo mimético e a intuição fundamental que nos permite escapar do contágio violento: o reconhecimento da inocência da vítima.

Em seu primeiro livro, Mentira Romântica e Verdade Romanesca (1961), René Girard desenvolve sua primeira intuição: o caráter fundamentalmente mimético do desejo. Nesta fase, Girard lê romances de Cervantes, Flaubert, Stendhal, Proust e Dostoiévski, analisando as relações miméticas entre sujeitos e modelos presentes nas tramas de seus livros. Os escritores que apresentam personagens dotados de um desejo autônomo são considerados românticos, enquanto os escritores destacados por Girard são chamados de romanescos, por descobrirem que o desejo de um sujeito atua em função de um outro, seu modelo, a quem ele admira e imita.

Girard percebe, a partir do mimetismo do desejo humano, o aspecto sombrio da relação entre sujeito e modelo. Uma intensa admiração entre pessoas que estão espiritualmente próximas e se admiram (sujeitos e modelos) pode provocar sentimentos de rancor, de ciúme, de inveja, de ressentimento e, posteriormente, pode escalar para uma ação violenta em um contexto de vingança e hostilidade, pois sujeito e modelo passam a desejar os mesmos objetos e passar a disputá-los. Em uma próxima etapa, o objeto é esquecido e cede lugar à rivalidade entre sujeito e modelo, rivalidade que pode aumentar e levá-los a cometer atos extremos de violência. Essa violência pode escalar, ao ponto da rivalidade contagiar todo o grupo, fomentando e propagando uma violência generalizada que será extinta quando uma pessoa do grupo for escolhida como culpada.2

Em seu segundo livro, A Violência e o Sagrado (1972), o autor francês explica o mecanismo do bode expiatório, analisando uma grande gama de discursos: mitos de fundação de comunidades arcaicas, textos gregos e bíblicos. Girard destaca o surgimento da cultura na perspectiva da necessidade de controle da violência social endógena através de ritos e proibições. O potencial desagregador da violência foi descoberto em seu primeiro livro, Mentira Romântica e Verdade Romanesca; já o mecanismo de controle de crises miméticas, o mecanismo do bode expiatório é o tema de sua segunda obra.

O potencial desagregador de qualquer comunidade é explicado pela possível multiplicação de rivalidades entre seus integrantes. Quando a relação entre sujeitos e modelos exaspera-se pela rivalidade, os dois espelham-se e tornam-se duplos um do outro, competindo pelos mesmos objetos até um ponto em que podem esquecer o objeto em si e concentrar sua hostilidade um contra o outro, beirando o conflito físico, ou mesmo chegando à violência e em casos extremos, ao assassinato.

No interior de grupos humanos, há um potencial violento que precisa ser contido e é controlado através do sacrifício de uma vítima inocente. Em seu terceiro livro, René Girard destaca a crença na culpa da vítima — inscrita no conceito de méconnaissance —, a crença que torna possível sua imolação. Coisas Ocultas desde a Fundação do Mundo (1978) revela, em seu título, que cita o Salmo 28, “uma alusão espantosa à revelação do assassinato fundador” (Girard, 2009, p. 14). Tal alusão encontra-se inscrita na frase de Mateus: “Minha boca pronunciará parábolas, / Ela revelará coisas ocultas desde a fundação do mundo.” (Girard, 2009, p.14) Girard faz distinções entre mitos arcaicos e textos bíblicos em torno da consciência da inocência da vítima. Nos mitos arcaicos, os integrantes das sociedades arcaicas acreditam que a vítima é culpada por uma crise, e essa crença sustenta a eficácia de sua imolação e o retorno da ordem social. Por oposição, nos textos bíblicos, a consciência da inocência da vítima está presente nas parábolas, nos Evangelhos e no episódio da Paixão de Cristo.

Essa síntese, brutal, da teoria mimética, ilumina a importância do livro que ora discutiremos.

Diferença na semelhança

Em Eu via Satanás Cair como um Relâmpago Girard diferencia mitos arcaicos e textos bíblicos, compara textos bíblicos e mitos, aponta as semelhanças entre os dois, e, em seguida, destaca a diferença principal entre mito e cristianismo. Na Introdução, Girard assinala que a assimilação de textos bíblicos e cristãos como mitos foi um erro de etnólogos antirreligiosos da passagem do século XIX para o século XX que não possuíam uma definição clara de mito. O autor francês refuta essa ideia de assimilar textos bíblicos e cristãos como mitos. Em sua demonstração, Girard aponta as semelhanças entre os mitos e o cristianismo para, em seguida, mostrar sob qual aspecto o texto bíblico se diferencia do texto mítico.

O objetivo de Girard em Eu via Satanás Cair como um Relâmpago será demonstrar o caráter irredutível da diferença cristã, o que não significa discutir a fé. Seu objetivo não é fazer uma demonstração os princípios da fé, pois, de modo direto, o objeto de sua demonstração não tem a ver com tais princípios. Em defesa de seu método, Girard assinala que seu raciocínio “refere-se a dados puramente humanos, vincula-se à antropologia da religião, e não à teologia. Repousa sobre o simples bom senso, e só utiliza evidências manifestas.” (Girard, 2012, p.15)

Método girardiano e conversão

Uma das características marcantes do método girardiano é a busca por ater-se a modos simples e concisos (embora reiterados) de elaborar uma enunciação, buscando conceitos claros, capazes de evocar de forma rápida e direta seu significado. O conceito que se refere à vítima sacrificada, bode expiatório, por exemplo, no âmbito do senso comum, tem o mesmo sentido de “vítima acusada indevidamente” (no jargão popular, “aquele que foi pego para Cristo”). Já a crença na culpa da vítima por parte de seus acusadores está embutida no conceito de desconhecimento (méconnaissance), apontando para o desconhecimento da inocência da vítima por parte dos perseguidores que, certos de sua culpa, reúnem-se para a imolação da vítima.

Ao apontar que Girard privilegia a expressão clara de ideias e conceitos, buscamos esclarecer que a teoria mimética não faz uma defesa enviesada do cristianismo, tampouco faz uma apologia do cristianismo desvinculada do conhecimento científico. Girard identifica as especificidades de textos bíblicos e dos Evangelhos relacionando-as ao campo da antropologia, apontando o diferencial cristão na interpretação do fenômeno do ciclo mimético.

É possível compreender a leitura girardiana dos textos bíblicos em seu caráter antropológico e cultural, e descobrir o mecanismo do ciclo mimético, reconhecendo a inocência das vítimas para as quais os impulsos violentos de integrantes de comunidades diversas são dirigidos em momentos de crise.

Ao mesmo tempo, o contato com a especificidade do texto bíblico e seu conteúdo pode levar o leitor de Girard a uma conversão3 ética, no sentido de levar um sujeito a observar seu próprio comportamento em relação a seus modelos, de forma a evitar conflitos acirrados com os mesmos. Em síntese, Girard assume ser um teórico católico, mas não substitui a antropologia por uma fé católica.4
Desse modo, Girard faz uma leitura dos textos bíblicos indicando de que forma, com seu conteúdo, os textos bíblicos alertam seus leitores e leitoras para o funcionamento da rivalidade mimética, do ciclo mimético e de suas consequências. A leitura girardiana mostra como o ciclo mimético está inscrito nos textos bíblicos, como a rivalidade mimética aparece de forma identificável nesses textos, e ilumina um diferencial fundamental dos textos bíblicos: apontar para a inocência da vítima, diferentemente do que acontece com os autores dos mitos.

Atento ao nível lexical e semântico dos textos analisados, Girard explicará o significado da figura de Satanás, as metamorfoses de Satanás como sedutor e como adversário, as fórmulas como Satanás expulsa Satanás e a relação entre Satanás e o escândalo, além de abordar o significado da derrota de Satanás no episódio da Paixão de Cristo. O tema principal dessas discussões não é propriamente a figura de Satanás, mas o que ela significa no contexto da rivalidade mimética e da violência que assombra as comunidades. Ou seja, Satanás é discutido no livro não como um “sujeito”, mas como o mecanismo acusatório que implica separação entre integrantes de um grupo, a rivalidade exacerbada, o esquecimento do objeto, a acusação, a perseguição, o escândalo, a reunião de pessoas em torno de uma vítima inocente.

Mitos e textos bíblicos: aproximações e distinções

Na análise de textos judaicos e cristãos, Girard busca demonstrar que os textos bíblicos não podem ser resumidos a mitos. Apesar de parecer simples, essa distinção é desafiadora para o olhar contemporâneo e possui desdobramentos significativos. A análise de Girard sobre os textos bíblicos atualiza significados discursivos dos próprios textos bíblicos, o que permite uma reflexão sobre a atualidade desses textos. Uma nova perspectiva sobre os textos bíblicos é oferecida aos leitores, contribuindo para reflexões sobre a violência em nível interdividual e coletivo, social, histórico e cultural.

A análise girardiana retoma a religião no campo da antropologia, mostrando que o nascimento da cultura e das instituições está ligado a um ciclo de violência controlado com a criação de ritos e proibições que sinalizam os primórdios da cultura. Esse mecanismo de controle da violência humana está inscrito nos textos bíblicos através de suas parábolas, mandamentos e Evangelhos. A leitura de Girard mostra-nos que há um saber que percorre os textos bíblicos, alguns romances modernos, vários mitos, que é o conhecimento da rivalidade mimética, mas que, nos textos bíblicos é revelado, não encoberto, pois a inocência da vítima é reconhecida.

Girard compara textos de épocas diversas (mitos fundadores, tragédias gregas, romances modernos, textos bíblicos) sob a mesma perspectiva — a da violência mimética — e o resultado dessa comparação levou-o a conclusões que podem demonstrar seu objetivo: explicar a distinção entre mito e cristianismo. Girard lança mão de comparações e assinala: “é preciso fazer as pazes se não com o velho método comparativo, ao menos com a ideia de comparação”. (Girard, 2012, p.15–16). Ele refere-se aos velhos etnólogos antirreligiosos do passado que recorreram ao método comparativo fazendo dele um uso de mão única (Girard, 2012, p.16). O método comparativo, portanto é retomado por Girard e utilizado em sua análise sobre mito e cristianismo.

Girard procura definir com precisão o que é o mito, tarefa que não foi, segundo ele, realizada pelos etnólogos da passagem do século XIX para o XX. O procedimento é invertido: parte-se da Bíblia e dos Evangelhos, não para favorecer a tradição judaico-cristã ou considerar demonstrada sua singularidade, mas para tornar as semelhanças entre mito e a Bíblia judaica e o Evangelho mais precisas (Girard, 2012, p. 16).

Na primeira parte de Eu Via Satanás Cair como um Relâmpago, referente aos capítulos I – III, intitulada “O saber bíblico sobre a violência”, Girard analisa textos do Antigo e do Novo Testamento.

Na segunda parte, intitulada “O enigma dos mitos resolvido”, que abarca os capítulos IV – VIII, o autor trata dos mitos, mostrando que por trás de comparações e aproximações entre Bíblia judaica, os Evangelhos e os mitos existe “uma realidade extratextual” (Girard, 2012, p.16). Um mesmo processo ocorre nos mitos e nos textos bíblicos, um processo violento resolvido a partir do sacrifício de uma vítima: “o mesmo processo coletivo, um fenômeno de massa específico, uma onda de violência mimética, unânime, que deve se produzir nas comunidades arcaicas no paroxismo de certo tipo de crise social” (Girard, 2012, p. 16–17).

Já na terceira e última parte do livro, “O triunfo da cruz”, Girard aborda a singularidade do Antigo Testamento e dos Evangelhos, e remata sua discussão revisitando elementos bíblicos à luz da teoria mimética e aborda temas como “O cuidado moderno com as vítimas” e “A dupla herança de Nietzsche”.

Ao invés de ater-se estritamente às diferenças entre mitos e textos bíblicos, Girard encontra semelhanças entre esses dois grupos de textos. A semelhança principal entre eles é a presença de um ciclo de violência, central nos mitos arcaicos, análoga a muitos relatos bíblicos e presente especialmente na Paixão de Cristo (Girard, 2012, p.17). Nos mitos, de forma geral, ocorre uma espécie de linchamento espontâneo, que teria incidido também sobre Cristo, sob a forma de lapidação, se não houvesse a intervenção de Pilatos, que ordena a crucificação “legal” de Jesus. Portanto, há um certo tipo de conflito entre os homens que é universal: as rivalidades miméticas, chamadas por Jesus de escândalos. (Girard, 2012, p.17).

A singularidade dos textos bíblicos

A sequência de fenômenos que configura o ciclo mimético reproduz-se de forma incessante nas comunidades arcaicas, e, para identificá-la, segundo Girard, os Evangelhos são indispensáveis, pois somente nos Evangelhos o ciclo mimético é descrito de modo inteligível, e sua natureza é explicada (Girard, 2012, p.17). Enquanto os relatos míticos apresentam as vítimas da violência como culpadas, sendo portanto falsos, ilusórios e mentirosos, os relatos bíblicos e evangélicos representam as mesmas vitimas como inocentes, e por isso, para Girard, “São essencialmente exatos, confiáveis, verídicos” (Girard, 2012, p.18).

Girard explica que, de modo geral, tomados de maneira direta, os relatos míticos são fantásticos demais para serem legíveis, e escondem a lógica da violência mimética, de seu arrebatamento e contágio. As comunidades que elaboram relatos míticos são dominadas pelo contágio violento do ciclo mimético, por um arrebatamento mimético que as convence de que seu bode expiatório é culpado; por isso, o arrebatamento reconcilia a comunidade contra o bode expiatório. A reconciliação leva a um segundo momento, em que a vítima é divinizada, percebida como responsável por promover o retorno da paz.

No entanto, a paz advinda da imolação da vítima encobre o fato de que a própria vítima foi o veículo por meio do qual todos os integrantes da comunidade (contaminados por disputas advindas da natureza mimética do desejo e de um tipo de mediação potencialmente conflituosa, a mediação interna) puderam expurgar suas violências represadas em uma vítima culpada coletivamente. Faltou aos etnólogos perceber “o fenômeno de massa por detrás da violência mítica” (Girard, 2012, p.19).

O diferencial dos textos bíblicos e evangélicos reside no fato de seus autores terem percebido e superado a ilusão da méconnaissance, da crença na culpa da vítima. Mesmo inicialmente seduzidos pelo contágio mimético, como os autores dos mitos, os autores bíblicos, segundo Girard, perceberam o erro, e essa experiência única lhes permitiu identificar, por trás do contágio mimético que os enganou, a inocência da vítima (Girard, 2012, p.19).

Para a compreensão dos textos do Antigo Testamento e dos Evangelhos, Girard assinala a importância de abandonarmos determinados preconceitos modernos contra certas noções deles, e retoma a figura de Satanás nos Evangelhos sinóticos, ou seja, o diabo no Evangelho de João. Satanás é uma personagem que desempenha um papel capital no pensamento cristão sobre os conflitos e sobre a gênese das divindades mitológicas, ligadas ao mimetismo violento. Girard afirma: “Os mitos invertem sistematicamente a verdade. Eles inocentam os perseguidores e condenam as vítimas” (Girard, 2012, p. 20).

Na terceira e última parte, que se refere aos capítulos IX – XIV, “a singularidade absoluta do cristianismo, não apesar, mas por causa de sua simetria perfeita com a mitologia, é plenamente confirmada” (Girard, 2012, p.20). A divindade dos heróis míticos é comparada à divindade atribuída a Jesus e diferenciada dela.

Enquanto a divindade dos heróis míticos “resulta da ocultação violenta da violência”, a divindade atribuída a Cristo “enraíza-se na potência reveladora de suas palavras e em especial em sua morte livremente consentida” (Girard, 2012, p. 20), tornando sua inocência manifesta e também a inocência de todos os “bodes expiatórios” do mesmo tipo (Girard, 2012, p.20).

Girard sustenta, sem sair do domínio da antropologia, mas expondo sua filiação à doutrina católica que, em última análise, Eu via Satanás Cair como um Relâmpago constitui o que era antigamente chamado de uma apologia do cristianismo, pois “Longe de dissimular tal aspecto, eu o reivindico sem qualquer hesitação”5 (Girard, 2012, p. 21).

Desejo e rivalidade

Na primeira parte de Eu via Satanás Cair como um Relâmpago, intitulada “O saber bíblico sobre a violência”, Girard principia sua análise destacando o relato da Queda no Gênesis6, ou a segunda metade do Decálogo, reservada à proibição da violência contra o próximo, buscando evidenciar que existe uma “concepção original e ignorada do desejo e seus conflitos” (Girard, 2012, p. 25) nesses textos.

O décimo mandamento diz:

Não cobiçarás a casa do teu próximo, não desejarás a sua mulher, nem o seu carro, nem a sua escrava, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença a teu próximo. (Ex 20–17)

Para Girard, “O décimo mandamento deve tratar do desejo de todos os homens, do próprio desejo.” (Girard, 2012, p. 26) Assim, quando o décimo mandamento condena “o desejo dos bens do próximo” (Girard, 2012, p. 27), trata do desejo mais comum de todos. Girard nega que as proibições sociais sejam todas inúteis, assinalando que esse pensamento tem como base pressupor a autonomia total dos indivíduos, ou seja, a autonomia de seus desejos. Os homens, no entanto, desejam os bens do próximo, e é por isso que essa proibição existe. A competição pelos bens do próximo pode desagregar uma comunidade, já que as relações entre sujeitos e modelos passam pelo desejo do sujeito pelos objetos que seu modelo possui ou deseja possuir. Esse conflito, multiplicado, em nível social, provoca uma erupção de rivalidades que serão resolvidas com o sacrifício de uma única vítima.

Assim, no interior dos grupos humanos existe uma tendência muito forte para os conflitos originários de rivalidades, já que os indivíduos tendem naturalmente a desejar as posses de seus próximos ou aquilo que seus próximos desejam (Girard, 2012, p.27). Nas sociedades arcaicas, o legislador proíbe que as pessoas desejem os bens do próximo, pois está tentando resolver o problema principal de toda comunidade humana: a violência interna. (Girard, 2012, p. 28) De forma análoga, no décimo mandamento, o legislador busca proibir os objetos geralmente disputados, e apresenta uma lista que inclui sua mulher, seu carro, sua escrava, seu boi, seu jumento e termina proibindo tudo o que pertence ao outro; afinal, são os objetos pertencentes ao outro que suscitam as disputas. O desejo, desse modo, não é objetivo ou subjetivo, mas situa-se num outro que valoriza esses objetos, o próximo. (Girard, 2012, p. 29) “O próximo é o modelo de nossos desejos. É isso que chamo de desejo mimético” (Girard, 2012, p. 29).

O desejo mimético nem sempre é conflituoso, mas com muita frequência torna-se conflituoso porque o sujeito tende naturalmente a desejar o que o seu modelo possui ou o que seu modelo também deseja. O sujeito elege um modelo e deseja os objetos que o modelo deseja conservar ou reservar para si próprio, enquanto o modelo não permite que outros se apropriem desses objetos sem conflito. (Girard, 2012, p. 29) Para o pensador francês, em 90% das vezes, o desejo contrariado vai emperrar e fortalecer-se, “imitando mais do que nunca o desejo do seu modelo” (Girard, 2012, p. 29).

Na maior parte das vezes, “A oposição exaspera o desejo, principalmente quando provém daquele ou daquela que inspira esse desejo” (Girard, 2012, p.29). Contrariado, o desejo do sujeito fica mais forte, e o sujeito imita ainda mais o desejo de seu modelo. A imitação do desejo do modelo, o próximo, gera a rivalidade, e a rivalidade, em contrapartida, gera a imitação. (Girard, 2012, p.29). Ao imitar o desejo do modelo, o sujeito confirma ao modelo que o modelo tem razão em possuir o que possui, ou em desejar o que deseja, redobrando a intensidade do desejo (Girard, 2012, p.29–30)

Desejar algo e expor esse desejo é incitar o mesmo desejo em outra pessoa, fornecer um modelo a meu próprio modelo. Girard dá o exemplo de um homem cuja mulher ele deseja. Esse homem, talvez, com o tempo, tivesse deixado de desejar a esposa. Seu desejo estava morto, mas em contato com o desejo de um outro, que está vivo, ele também retorna à vida, movido pela dinâmica das relações miméticas. A percepção do agravamento do conflito pela intensificação de desejos contrariados nos leva a pensar que “A natureza mimética do desejo revela o mau funcionamento habitual das relações humanas” (Girard, 2012, p. 30).

As ciências sociais, segundo Girard, viram na discórdia humana algo de acidental, uma situação imprevisível demais para ser considerada no estudo da cultura. No entanto, a discórdia revela o processo mimético comum a todas as diferentes comunidades já organizadas no planeta. Cada comunidade desenvolveu mecanismos de controle de suas violências sociais endógenas.

Girard não quer lançar uma fórmula exata para o desenvolvimento da cultura e observa o paradoxo que acompanha o mimetismo. O mimetismo embasa a aquisição da linguagem e das formas de convivência social, portanto, possui um efeito construtivo, e ao mesmo tempo, o mimetismo está implicado na desintegração de grupos sociais, quando associado à multiplicação de rivalidades mimeticamente engendradas na comunidade.

Estimular e celebrar a expressão e a busca dos desejos é desconsiderar o perigo da rivalidade mimética, do ciclo mimético que principia com a tensão entre um sujeito e seu modelo. Hipostasiar os desejos significa desconsiderar a idolatria do próximo, “que é necessariamente associada à idolatria de nós mesmos, mas que se conjuga mal com esta última” (Girard, 2012, p. 30). Para Girard, a principal fonte da violência humana constitui-se de conflitos resultantes de nossa dupla idolatria, a idolatria do modelo e a idolatria de nós mesmos (Girard, 2012, p.30).

Podemos concluir que as sociedades emergem de ciclos violentos porque seus integrantes desejam os objetos do próximo. Leis, proibições e rituais são criados para organizar possíveis linchamentos fundadores que trouxeram a ordem de volta para as comunidades depois que seus integrantes descontaram sua violência em uma vítima inocente condenada por todos. O décimo mandamento trabalha para conter a eclosão de outro ciclo mimético, e para impedir o sacrifício de mais um inocente, proibindo que o que pertence ao outro seja desejado.

A principal fonte de violência entre os homens é a rivalidade mimética. Ela não é acidental, mas tampouco é fruto de um “instinto de agressão” ou de uma “pulsão agressiva”.

As rivalidades miméticas podem se tornar tão intensas que os rivais chegam a se injuriar reciprocamente, roubam as posses um do outro, corrompem as respectivas esposas e, finalmente, não recuam nem mesmo diante do assassinato. (Girard, 2012, p.31)

Jesus e Deus pai: a via não-reativa

René Girard lê os Evangelhos e os textos do Antigo Testamento demonstrando que eles possuem um saber sobre as dinâmicas e mecanismos da violência e que propõem soluções, no sentido de mostrar uma via existencial contrária à rivalidade, uma via de amor e compaixão, não reativa.

Quando Girard destaca Jesus como vítima inocente que é sacrificada, reconhecida como inocente pelos textos bíblicos e alvo de rivalidades internas da comunidade, Jesus aparece como um modelo que aponta para Deus, o modelo ideal por excelência. Jesus convida-nos, segundo Girard, a imitarmos não seu próprio desejo, mas a imitar o impulso não-reativo, “o impulso que o conduz à meta que ele mesmo se fixou: assemelhar-se ao máximo a Deus pai.” (Girard, 2012, p.33)

Jesus não age como os sujeitos e modelos em rivalidade: “Seu objetivo é tornar-se a imagem perfeita de Deus” (Girard, 2012, p.34) e convida-nos a imitá-lo, ou seja, a imitar sua própria imitação, assemelharmo-nos a um Deus pai que é amor, o oposto ao ódio que movimenta o ciclo mimético.

Para impedir os conflitos humanos, é necessário estabelecer proibições, mas diante de nossa tendência mimética para transgredir e desobedecer as leis, não é suficiente contar com as leis e com os mandamentos. A violência deve ser prevenida, e para isso, além das leis, é preciso que os homens, que estão sempre presos às tramas da mediação, possuam um modelo que não irá atraí-los para a rivalidade e sim protegê-los delas (Girard, 2012, p.35).

Qualquer modelo que não seja Jesus, que é aquele que aponta para o objetivo de tornarmo-nos semelhantes a Deus pai, é segundo Girard um mau modelo, porque nos arrasta para o mimetismo, para a rivalidade e para o conflito. A proposta dos Evangelhos, nesse sentido, é trocar a confiança que possuímos em nossa própria autonomia pelo desejo de assemelhar-se a Deus. Nossa autonomia, sem esse parâmetro, leva-nos a imitar os outros e a rivalizar com eles, e os textos bíblicos orientam-nos para uma consciência sobre nossa violência intrínseca, para o risco de perseguir inocentes, oferecendo a busca por uma atitude não reativa e mais amorosa, característica do Deus Pai.

Caim e Abel

O assassinato de Abel por seu irmão Caim, presente no Gênesis é lido por Girard dentro da perspectiva do conhecimento do ciclo mimético:

A doutrina do assassinato fundador não é apenas mítica, mas bíblica. No Gênesis, ela se encontra no assassinato de Abel por seu irmão, Caim. O relato desse assassinato não é um mito fundador, mas a interpretação bíblica de todos os mitos fundadores. Ela nos conta a fundação sangrenta da primeira cultura e as consequências dessa fundação, que constituem o primeiro ciclo mimético representado na Bíblia. (Girard, 2012, p.128)

Assim, a leitura das obras girardianas vai compondo um panorama novo, em que os Evangelhos, os mandamentos, as parábolas e os personagens da Bíblia podem ser compreendidos com melhor clareza sob a perspectiva da violência e do controle e prevenção da violência.

A disposição metodológica de buscar prioritariamente semelhanças – e não diferenças entre os diversos textos produzidos em épocas e culturas diversas – fez com que Girard obtivesse cada vez mais confirmações da existência do ciclo mimético e de sua dinâmica, pois essa dinâmica foi compreendida por diversos sujeitos ao longo da história humana, principiando pelos integrantes das primeiras comunidades de hominídeos e seus ritos e sacrifícios, passando pelos textos gregos, pelos romances modernos e por um tratado sobre a guerra redigido pelo general Clausewitz no século XX7.

Girard destaca Caim, que, após matar seu irmão Abel, afirma: agora que matei meu irmão, “o primeiro que me encontrar me matará” (Gênesis, 4, 14, apud Girard, 2012, p. 129) considerando que a palavra Caim “designa a primeira comunidade reunida pelo primeiro assassinato fundador” (Girard, 2012, p.129). “Deus promulga a primeira lei contra o assassinato: “Quem matar Caim será vingado sete vezes” (Gênesis, 4, 15, apud Girard, 2012, p. 129) Para Girard, “A lei que surge da pacificação suscitada pelo assassinato de Abel é a matriz comum de todas as instituições” (Girard, 2012, p.130).

Desde a fundação do mundo, ou seja, desde a fundação violenta da cultura, ocorrem assassinatos movidos por rivalidades miméticas instaladas no interior das comunidades, fundadas sobre o mimetismo e análogos à crucificação de Cristo no episódio da Paixão. Trata-se assim de “assassinatos fundadores, em razão do mal-entendido a respeito da vítima, causado pelo mimetismo.” (Girard, 2012, p.132)

Satanás: significado e queda

Após os esclarecimentos realizados anteriormente, podemos compreender a figura de Satanás dentro da perspectiva da teoria mimética. Segundo Girard, Satanás ou o diabo é “uma espécie de personificação do ‘mau mimetismo’” (Girard, 2012, p.133) tanto em seus aspectos desagregadores como reconciliadores:

Satanás, ou o diabo, é alternadamente aquele que fomenta a desordem, o semeador de escândalos e aquele que no paroxismo das crises que ele mesmo provocou, coloca bruscamente um fim a elas, expulsando a desordem. Satanás expulsa Satanás por meio das vítimas inocentes que ele sempre consegue condenar. Como é o mestre do mecanismo vitimário, Satanás é também o mestre da cultura humana que não tem outra origem além do assassinato. Em última análise, é o diabo, ou, em outras palavras, o mau mimetismo, que se encontra na origem não somente da cultura cainita, mas de todas as culturas humanas. (Girard, 2012, p. 134)

Nesse momento de nossa reflexão, podemos compreender o significado do título do livro de Girard, pois o autor explica que, no Evangelho de Lucas, o Cristo vê Satanás “cair como um relâmpago”, ou seja, caindo sobre a terra, Satanás não vai permanecer inativo. Assim, Jesus não anuncia seu fim imediato, mas “o fim de sua transcendência mentirosa, de seu poder de restabelecer a ordem” (Girard, 2012, p. 261).

As reflexões suscitadas pelos livros de René Girard apontam para um trabalho sofisticado de leitura que privilegiou o conflito humano e conseguiu identificá-lo em textos diversos. Girard principiou com uma investigação com romances modernos e passou para a descoberta um mecanismo comum a todas as culturas humanas que vem se repetindo desde a fundação do mundo. Trata-se do mecanismo do bode expiatório.

A crucificação de Jesus por um breve momento satisfez a sede de violência representada por Satanás (definido como uma espécie de mau mimetismo) e, ao mesmo tempo, foi uma situação que permitiu a revelação do mecanismo vitimário (Girard, 2012, p. 265) Na Paixão de Cristo, Girard destaca não apenas a unanimidade que persegue a vítima, como acontece nos mitos, mas a minoria que é testemunha de uma injustiça, os apóstolos, os seguidores de Jesus e demais pessoas que não se comportaram como acusadores, mas testemunharam o sacrifício.

Girard finaliza a comparação entre mito e texto bíblico sem deslegitimar a função dos rituais nas sociedades arcaicas. O contágio violento foi divinizado nestas últimas. A religião arcaica possuía boas razões para considerar a unanimidade violenta como divina (Girard, 2012, p. 266), pois havia, efetivamente, um retorno da ordem quando uma vítima inocente era sacrificada, sendo alvo de todas as violências dos integrantes das comunidades e encerrando momentaneamente as rivalidades engendradas.

Na direção oposta, os Evangelhos e os textos bíblicos apontam a inocência da vítima. Há um sacrifício de um inocente acusado, perseguido e condenado como culpado (mecanismo do bode expiatório) — Jesus Cristo na Paixão — um inocente imolado injustamente desde o início da cultura, utilizado para contar rivalidades miméticas que se exasperaram no seio de uma comunidade devido ao mau mimetismo (Satanás) e ao caráter mimético do desejo humano. Esse sacrifício poderia ser evitado se os participantes do sacrifício não acreditassem na culpa da vítima (méconnaissance), envolvidos na zona sombria da mediação.

Em Mentira Romântica e Verdade Romanesca, Girard discute as tramas da mediação, ressaltando o caráter mimético do desejo humano. Em A Violência e o Sagrado, a rivalidade mimética é descrita no interior das sociedades arcaicas e o mecanismo do bode expiatório é apresentado. Em Coisas Ocultas desde a Fundação do Mundo o diálogo com os textos bíblicos entra em cena.

Por sua vez, em Eu via Satanás Cair como um Relâmpago (1999), Girard inclui os conceitos principais da teoria mimética e estabelece um diálogo específico com os textos bíblicos. Satanás remete ao mau mimetismo e à violência mimética, Jesus é considerado a vitima inocente por excelência e fornece a revelação do mecanismo vitimário a partir de sua Ressurreição, e os Evangelhos e mandamentos são apresentados como parte de um saber sobre o ciclo mimético. A Bíblia revela saberes, alertas e descrições de bons e maus mimetismos, e apresenta uma visão sobre as dinâmicas dos relacionamentos humanos.

Como já mencionamos anteriormente, o livro de Girard apresenta reflexões a respeito dos Evangelhos e dos textos bíblicos que estão ancoradas no campo da antropologia. O autor faz uma leitura dos textos bíblicos relacionada ao mecanismo mimético, sem intenções ocultas. Não se trata de fornecer uma via de conversão religiosa reunindo provas. Crentes e ateus podem compreender o texto bíblico nessa chave da teoria mimética, pois as mesmas relações de inveja, de ressentimento de ciúme presentes na história de Caim e Abel aconteceram entre personagens de romances modernos, em tragédias gregas, e foram decifradas por Girard em uma multiplicidade de textos.
A ressurreição de Cristo aparece como o evento-chave que mostra que o homem é capaz de condenar outros homens e de condenar o filho de Deus, aquele que aponta a verdade sobre o caráter perseguidor inerente a cada um de nós e que se sacrificou e evidenciou essa revelação. Somos expostos à consciência de nossa própria capacidade de comportarmo-nos como perseguidores e de ignorar um fato capital: a violência infligida ao outro, considerado culpado coletivamente é na realidade uma violência que carregamos em nosso interior, que não veio da ira de um deus ou da culpa de um estrangeiro, mas foi infligida contra vítimas inocentes, repetida em um mecanismo de controle da violência social em diferentes grupos e épocas da história humana.

Como resposta aos efeitos nocivos do ciclo mimético, Girard recorre a um argumento propriamente teológico, embora considerado antropologicamente. Por isso, o Espírito Santo, o Espírito de Deus aparece ao final do livro e oferece uma alternativa reflexiva e existencial ao mimetismo violento. São destacadas duas conversões: o aprofundamento da conversão de Pedro, seu arrependimento após negar Cristo três vezes, mesmo acreditando estar imunizado contra toda a infidelidade a Jesus. De igual modo, a conversão de Saulo, que cavalgava a caminho de Damasco perseguindo os discípulos de Jesus é destacada. As duas conversões aparecem como tomada de consciência, como uma percepção do contágio mimético a que Pedro e Paulo estavam sucumbindo em momentos diferentes.

Pedro e Paulo percebem que estavam possuídos pelo gregarismo violento, percebem “o mimetismo que faz com que todos nós participemos da crucificação.” (Girard, 2012, p. 269). Girard destaca o momento em que Paulo pergunta: “Quem és, Senhor? — Eu sou o Jesus a quem tu estás perseguindo” (Atos, 9,1–5). Para Girard, “A conversão cristã é sempre essa pergunta feita pelo próprio Cristo” (Girard, 2012, p.269), pois somos cúmplices da crucificação, ao vivermos em um mundo estruturado pelos processos miméticos e vitimários dos quais nos beneficiamos sem saber (Girard, 2012, p. 269).

A ressurreição faz com que Pedro, Paulo e todos os crentes aprendam que quando nos enclausuramos na violência sagrada cometeremos uma violência contra o Cristo: “O homem não é jamais vítima de Deus. Deus é sempre a vítima do homem” (Girard, 2012, p.269–270).

Girard aponta uma reformulação de nossa concepção da origem da cultura evidenciando o conflito mimético como peça-chave do início da cultura, ao lado do fator religioso: tanto o religioso arcaico que estabeleceu regras e ritos visando evitar os conflitos miméticos quanto o religioso relacionado a Cristo, que revelou nossa natureza mimética conflituosa e que apresenta mandamentos para contorná-la.

Coda

A leitura da teoria girardiana leva-nos a uma reformulação de pensamentos e de ações, inscrita no conceito de conversão entendido como uma observação do próprio comportamento, visando evitar conflitos miméticos. Há uma reavaliação ética que se depreende dos estudos do mimetismo conjugado aos textos bíblicos no sentido de propor que nos afastemos cada vez mais dos mecanismos vitimários e do ímpeto de rivalizar com o próximo (ímpeto esse evidenciado na figura de Satanás) e condená-lo, acreditando em sua culpa (méconnaissance).

Eu via Satanás Cair como um Relâmpago traz uma leitura dos textos bíblicos em que a antropologia tem um papel central, já que tanto nos mitos quanto nos textos bíblicos a violência mimética está presente. Ao mesmo tempo, em Coisas Ocultas desde a Fundação do Mundo (1978), o terceiro livro de René Girard, a religião cristã entra em cena, completando as reflexões sobre mitos arcaicos e a centralidade do religioso na origem da cultura realizadas no livro anterior, A Violência e o Sagrado (1972).

Por esse motivo, nossa próxima resenha discutirá Coisas Ocultas desde a Fundação do Mundo (1978) retomando a antropologia, os textos judaico-cristãos e os diálogos e confrontos com a psicanálise propostos por Girard através de uma psicologia interdividual.

Referências

GIRARD, René. Eu via Satanás cair como um relâmpago. Trad. Martha Gambini. São Paulo: Paz e Terra, 2012.

_____. Evolução e Conversão. Trad. Bluma Waddington Vilar e Pedro Sette-Câmara. São Paulo: É Realizações, 2011.

ROCHA, João Cezar de Castro. Culturas shakespearianas?: Teoria mimética y América Latina. México: Sistema Universitario Jesuita: Fideicomiso Fernando Bustos Barrena, 2014.


  1. João Cezar de Castro Rocha, em Culturas Shakesperianas? Teoria Mimética e América Latina (2014) recuperando um método proposto por Michael Kirwan em Discovering Girard (2004) refere-se aos três primeiros livros de René Girard, Mentira Romântica e Verdade Romanesca (1961), A violência e o sagrado (1972) e Coisas ocultas desde a fundação do mundo (1978) como “libros-hito”, ou seja, “livros-evento”, pois cada um deles apresenta uma intuição girardiana fundamental para as reflexões do autor (Rocha, 2014, p. 43).

  2. Em Evolução e Conversão (2011) René Girard pontua que a crise que se instala em uma comunidade pode ser uma catástrofe objetiva, mas também implica o desejo mimético e as rivalidades que podem proliferar de relações de rivalidade miméticas: “A crise poderia ter sua origem em um acontecimento catastrófico objetivo: uma epidemia, uma escassez de alimentos, uma enchente. Mas esse acontecimento objetivo transforma-se em uma crise mimética que, como explicado, tem grandes chances de gerar bodes expiatórios. Não haveria bode expiatório se a comunidade não passasse da mímesis do objeto desejado, que divide os imitadores, à mímesis de antagonismo, que permite todo tipo de aliança contra a vítima. O mecanismo inteiro está contido nessa passagem. O crucial para a resolução dessa crise é a passagem do desejo pelo objeto, que divide os imitadores, para o ódio pelo rival, que, quando o ódio é dirigido a uma única vítima, tem poder reconciliador. A mímesis de rivalidade e de conflito é espontânea e automaticamente transformada e mímesis reconciliadora. Se é impossível aos rivais chegar a um acordo quanto ao objeto que todos querem, por outro lado chega-se rapidamente a esse acordo contra a vítima que todos detestam.” (Girard, 2011, p. 90)

  3. Na introdução de Mentira Romântica e Verdade Romanesca (1961), João Cezar de Castro Rocha reserva um trecho sob o título “Formas de mediação – Conversão” (Girard, 1961, p. 18–20) para assinalar que no âmbito do referido livro, o conceito de conversão possui uma acepção própria sem se confundir necessariamente com o gesto religioso: “Ou seja, no momento em que me torno consciente da natureza mimética do meu próprio desejo, e não apenas do desejo numa formulação puramente teórica, reconheço que a mentira romântica deve ser substituída pela verdade romanesca (…) Esse reconhecimento epistemológico importa uma atitude ética: na medida do possível, buscarei evitar as rivalidades decorrentes do desejo mimético. Pelo menos, tentarei driblar suas conseqüências mais sombrias: o acirramento das tensões e o confronto direto com meu antigo modelo” (Girard, 1961, p. 20).

  4. Na introdução da obra Evolução e Conversão (2011), Michael Kirwan assinala que Girard dá duas “más notícias” em sua teoria, a primeira refere-se ao desejo mimético e sua potência de provocar rivalidades e assassinatos, e a segunda ao uso que fazemos do mecanismo do bode expiatório para estabelecer e preservar a ordem social à custa da vítima imolada. A Boa Notícia, segundo Kirwan é “a força desmascaradora das escritoras judaico-cristãs” (Girard, 2011, p. 24) Kirwan prossegue assinalando: “Cristo, ao proclamar o Pai Amoroso, e ao assumir o papel do Servo Sofredor, expôs o funcionamento do mecanismo do bode expiatório. Pela morte e ressurreição de Jesus, a inocência da vítima foi para sempre declarada, e mostrou-se que o Pai não tem nada a ver com essa ação violenta. É por isso que a ideia de “conversão” é parte crucial do projeto girardiano, e não apenas um exagero de linguagem. Em seu primeiro livro, Girard mapeia a intensa experiência de transformação moral e intelectual por que passaram a vida e a obra dos romancistas discutidos (Cervantes, Stendhal, Flaubert, Proust e Dostoiévski) quando eles “descobriram” o desejo mimético – uma experiência que para alguns, ainda que não de todos, tem consequências religiosas. Ao preparar essa obra, em 1959, o próprio Girard passou por uma conversão paralela à que detectara nos romancistas, e isso o levou a retornar à Igreja Católica após longa ausência. Como diz na introdução. ‘a conversão não é simplesmente um acontecimento existencial, mas também epistêmico.’ Ela compreende uma crítica explícita do sujeito autônomo, uma rejeição do individualismo metodológico nas ciências sociais e também da falsa dicotomia entre sujeito e objeto. Para a teoria mimética, a experiência pessoal do sujeito cognoscente está subentendida a qualquer investigação. Isso nos leva a caracterizar a teoria mimética como uma “espiral”, considerando a história humana uma oscilação entre evolução e conversão, entre permanência e progresso” (Girard, 2011, p.24).

  5. Em Evolução e Conversão (2011), questionado sobre sua conversão, René Girard responde: “O que eu queria dizer é que foi meu trabalho que me orientou para o cristianismo e me convenceu de sua verdade. Não é por ser cristão que penso do modo como penso; foi por causa de minhas pesquisas que me tornei cristão. Também questiono a distinção entre conversão intelectual e conversão emocional. Para mim, a palavra “espírito”, assim como para São Paulo, inclui tanto o lado emocional quanto o lado intelectual de um ser humano; e, mais do que “intelectual”, a expressão “a vida da alma” deveria ser usada nesse caso. A conversão é uma forma de inteligência, de entendimento” (Girard, 2011, p. 77).

  6. R. Schwager, Brauchen wir einen Sindenbock, Munique: Kösel, 1978, p. 89; Jean Michel Oughourlian, Un Mime nommé désir, Paris: Grasset, 1982, p. 33–34.

  7. Em 1819 o general prussiano Carl Von Clausewitz (1780–1831) começa a redação de um livro em que reflete sobre sua experiência em batalhas da era moderna e sobre o sentido mais geral do fenômeno da guerra. Em 1827, Clausewitz começa a revisão do texto visando sua publicação realizada postumamente com a dedicação de sua viúva. Um ano após a morte de Clausewitz, em 1832, o tratado Vom Kriege (Da Guerra) foi publicado e posteriormente tornou-se uma obra clássica retomado por estudiosos interessados na arte da guerra e no entendimento moderno do conflito. René Girard retoma esse texto na obra Rematar Clausewitz: além Da Guerra – Diálogos com Benoît Chantre publicado em 2007 e lançado pela editora É realizações em 2011. Nesta obra, como explicita João Cezar de Castro Rocha na introdução, Girard investiga as premissas de Clausewitz, articulando-as à teoria mimética e ao campo da história refletindo sobre as consequências violentas da guerra e discutindo os fenômenos contemporâneos como o terrorismo, o fundamentalismo religioso, os efeitos da globalização e do consumismo ilimitado (Rocha, 2011, p. 12).