Tenho recebido diversas perguntas e creio que vale a pena insistir no tema do bode expiatório. Não preciso repisar o clichê que fala de como vamos refinando nossas ideias na discussão com os outros, mas talvez caiba enfatizar que esse refinamento só é possível quando a rivalidade não dá o tom de uma discussão. Provavelmente, e este é um tema que merecia ser explorado, o caminho do discurso científico, do diálogo platônico à escolástica medieval e à formalização lógica, é o caminho da remoção da rivalidade do campo do discurso. (O que, é claro, não exclui a possibilidade de que os cientistas e filósofos sejam movidos pela rivalidade; eles apenas não podem formular seus discursos como discursos de rivalidade porque precisam atender a diversos protocolos consensuais.)

Voltando, então, ao tema do bode expiatório, falemos sobre a confusão que há no próprio termo “bode expiatório”.

Um homem chega em casa irritado e dá um chute no cachorro e briga com a mulher. O cachorro e a mulher são bodes expiatórios, e ninguém precisa de René Girard para entender isso. Esse é o sentido comum e corrente da expressão “bode expiatório”, que tem equivalentes na língua, como “boi de piranha” ou “ser pego para Cristo”. Qualquer pessoa sabe que esses bodes expiatórios são alvos da violência que servem para apaziguá-la enquanto a verdadeira causa das rivalidades permanece intocada.

Imagine agora que você perceba que existem classes inteiras de pessoas que tradicionalmente são os “bois de piranha” das situações de que participam. Imagine ainda que você perceba que essas pessoas possuem certas marcas que estão correlacionadas com a perseguição. Essas pessoas são bodes expiatórios em sentido corrente. Mas não são bodes expiatórios no sentido de serem vítimas sacrificiais, pela simples razão de que nem toda violência é um sacrifício.

O sacrifício, dentro da teoria girardiana, é a reencenação do assassinato fundador. Se um marido, num acesso de fúria, mata sua esposa indefesa, nem por isso ela se torna uma vítima sacrificial. Seria preciso de certo modo envolver toda uma comunidade nesse assassinato e convencê-la da necessidade de matar outra mulher do mesmo jeito para que essa segunda mulher fosse uma vítima sacrificial. A primeira vítima teria sido a vítima do assassinato fundador.

Se hoje em dia vemos o tempo todo fenômenos como linchamentos virtuais e assassinato de reputações, o que temos são instâncias de perseguição, não de “sacrifício”. Para que houvesse sacrifício, seria preciso que uma coletividade acreditasse no caráter ambíguo da vítima, que seria transgressora e pacificadora ao mesmo tempo. E, no entanto, os perseguidores modernos não ficam em paz. Não seguem rigorosas prescrições rituais que pretendem afastar a culpa da comunidade e manter o clima de “nothing personal, just business” do sacrifício. Antes, se alguém der uma declaração infeliz qualquer, essa pessoa perderá, para seus perseguidores, os direitos mais básicos. Exatamente como uma mulher perde as liberdades mais básicas quando está nas mãos de um marido violento.

Não se trata, ainda, de falar em “resquícios do arcaico” na sociedade moderna, mas de pensar que o ser humano é violento. Pela teoria mimética, somos miméticos; sendo miméticos, queremos o que o outro possui e, em última instância, o próprio ser do outro. Por isso estamos dispostos à violência. Agora, essa violência seguia um caminho: se uma perseguição trazia paz a uma comunidade, poderia ser formalizada como ritual. As escrituras judaico-cristãs parodiaram os mitos, que são as violências contadas desde o ponto de vista dos perseguidores, e assim revelaram a inocência da vítima.

Agora, o nosso já famoso marido que chega em casa irritado não culpa a mulher diretamente pelo que aconteceu fora de casa. Vai dizer que ela não fez X, que ela é Y, ou que fez Z que o deixou assim e assado e portanto ele virou vítima da situação ruim que o deixa irritado. O marido sinceramente crê na culpa da esposa. As escrituras judaico-cristãs dizem: você é um perseguidor e deve abdicar da violência. Analogamente, se há um ritual sacrificial, as escrituras dizem: Deus não quer o sacrifício de vítimas inocentes. E, aliás, como essa vítima era inocente, você não pode culpá-la.

O paradoxo apocalíptico é termos permanecido violentos ao mesmo tempo que as justificativas tradicionais da violência perderam credibilidade. As perseguições não podem transformar-se em rituais porque sabemos que são perseguições, não eventos misteriosos, “míticos”, que marcam o momento em que as rivalidades internas das comunidades se dissiparam.

Com isso não tudo não vamos censurar a linguagem corrente por usar termos como “sacrifício” e “bode expiatório” sem rigor. Aqui, porém, pretendemos ser rigorosos, e realmente entender o que se passa. Para isso é preciso fazer diversas discriminações entre os usos dos termos.