Na coletânea The Wicked Wit of Jane Austen1 (O humor sagaz de Jane Austen), o organizador Dominique Enright conta (pp. 53–54) que James Stanier Clarke — conhecido nos círculos austenianos apenas como Mr. Clarke —, bibliotecário de Carlton House, então a residência londrina do príncipe regente do Reino Unido, escreveu a Jane Austen em nome do príncipe para felicitá-la por seus romances. O príncipe os adorava. Mr. Clarke, “como tantos que trabalham com livros, não conseguiu resistir a tentar participar”, e começou a enviar a Jane Austen sugestões para seus próximos romances. Mas não era só nesse front que Jane Austen estava sendo acossada: “Ao mesmo tempo, os parentes enviavam-lhe seus manuscritos para que ela os comentasse.” Diante de tanto assédio, a autora de Orgulho e Preconceito decidiu aproveitar o material que recebia:

Assim, tendo em mente os excessos dos romances sentimentais e de terror que faziam o gosto do público, e inspirando-se nas ideias deveras impraticáveis de Mr. Clarke, Jane Austen produziu a sátira “Plano de romance”, combinando aspectos da literatura popular com aquele tipo de sugestão que os autores recebem de amigos e parentes…

O texto produzido por Austen, “Plano de romance segundo sugestões de diversas pessoas”, tem para nós duas virtudes. A primeira é aquela que há em toda caricatura: o de exagerar um aspecto da realidade para torná-lo mais patente. Assim, é possível estabelecer uma verdade por meio da generalização; é claro que nem todos os romances populares são assim, mas também é claro que é possível discernir certos traços comuns a eles. A segunda, é claro, é documental. Gostar de comer não significa ser capaz de cozinhar, e analogamente gostar de ler não significa ser capaz de escrever. O que não impede, é claro, que o leitor forme ideias daquilo que mais gostaria de ler a partir de sua experiência de leitor, que pode até ser considerável. Porém, se essa experiência de leitor nunca passou a uma experiência de escritor, é de se esperar que a primeira sugestão desse leitor inexperiente como escritor revele os preconceitos mais irrefletidos. Seria fácil descartá-los como ninharias de amadores; no entanto, como os leitores que nunca tentaram escrever a sério formam a maior parte do público, é razoável pensar que seus preconceitos devem ser levados em conta por autores de ficção que pretendam ser lidos por eles. Retomando a metáfora gastronômica, uma pessoa pode dizer que gosta de muito chocolate, e colocar chocolate demais no seu primeiro bolo; o cozinheiro, por sua experiência, é quem sabe quanto chocolate é uma dose aceitável até para quem diz gostar de muito chocolate. O que muda não são os ingredientes: é a dose.

Com isso em mente, leiamos alguns trechos do breve “Plano”2 :

Cenário rural, Heroína filha de clérigo, alguém que após viver muito tempo no mundo retirou-se dele para um vicariato, com uma pequena fortuna. — Ele, o melhor homem que se pode imaginar, perfeito de caráter, temperamento e maneiras — sem a mais mínima mácula ou peculiaridade a impedir que ele seja a companhia mais agradável possível a sua filha o ano inteiro. — Heroína também personagem sem mácula, — perfeitamente boa, com muita ternura e sentimento, e, claro, muito espirituosa — prendadíssima, compreende as línguas modernas e (de modo geral) tudo que as moças mais prendadas aprendem, mas com um dote especial para a Música — seu passatempo favorito — e toca igualmente bem o piano e a harpa — e canta maravilhosamente. Sua aparência é muito bonita — olhos escuros e rosto rechonchudo [essa era a descrição da própria Jane Austen]. — O livro deve começar descrevendo pai e filha — que, ao conversar, terão falas longas e linguajar elegante — num tom de emoção séria e sublime.

Como vimos, porém, não é a enumeração de qualidades que gera simpatia, mas a narrativa de acontecimentos.

Agora é hora de trazer para a argumentação um autor bem mais distante no tempo: Aristóteles. Sua Poética é um livro de valor extremo, e um dia talvez venham a dizer que é moderna por combinar elementos de análise puramente estrutural com psicologia cognitiva. Ou, em bom português, por tentar explicar porque certas obras suscitam certas reações na plateia. Como sabemos, um dos principais temas de Aristóteles na Poética é a geração de “terror e piedade” na plateia. A “piedade” é o sentimento que aqui nos interessa, por estar diretamente ligado ao bode expiatório (mais em sentido moderno e corrente do que no sentido de “vítima sacrificial de uma sociedade arcaica”). E, antes de prosseguirmos, talvez valha a pena observar que não haverá piedade sem simpatia.

Como, segundo Aristóteles, é gerada a piedade? Quando vemos alguém passar por sofrimentos imerecidos. É exatamente o que está dito no início do trecho 1453a, em que Aristóteles explica que sentiremos “piedade por alguém [que sofreu algo] imerecido” (ἔλεος μὲν περὶ τὸν ἀνάξιον); ou, na tradução de Eudoro de Souza, “a piedade tem lugar a respeito do que é infeliz sem o merecer”3.

Dentro do contexto sentimentalista, a piedade pelo herói perseguido é um componente fundamental.

É daí que Jane Austen tira o segundo ingrediente de seu plano:

Desse começo procederá a história, que conterá uma impressionante variedade de aventuras. A Heroína e seu pai nunca passam mais de quinze dias no mesmo lugar, porque ele é expulso de seu vicariato pelas vis artes de um rapaz sem princípios nem coração, desesperadamente apaixonado pela Heroína, que a persegue com paixão incansável.

É claro que, numa caricatura, o contraste entre os bons e os maus deve ser sempre inequívoco:

— Mal assentam-se num país da Europa e precisam deixá-lo e ir a outro — sempre travando novas amizades, sempre obrigados a deixá-las. — Isso, é claro, exibirá uma grande variedade de personagens — mas não haverá mistura; a cena sempre mudará de um grupo de pessoas para outro — mas tudo que é bom será imaculado sob todos os aspectos — e não haverá qualquer fraqueza ou defeito, exceto nos maus, que serão completamente depravados e infames, sem que reste neles praticamente nenhum indício de humanidade.

Em suma, para citar o título de um bestseller contemporâneo, o que temos são praticamente anjos e demônios.

É claro ainda que a heroína deve, além de possuir uma alma nobre, ser uma mulher irresistível, limitada apenas pelo pudor e pela honra:

— No início da trama, durante seus primeiros deslocamentos, a Heroína tem de conhecer o Herói — alguém obviamente perfeito —, que só será impedido de dirigir-se a ela por algum excesso de polidez. — Onde quer que ela vá, alguém se apaixona por ela, e ela recebe repetidas propostas de casamento — as quais repassa integralmente ao pai, muitíssimo zangado por não ter sido consultado primeiro.

Jane Austen insiste: além de assediada como objeto de desejo, a heroína também precisa ser incessantemente perseguida:

— Muitas vezes raptada pelo Anti-Herói, mas resgatada por seu pai ou pelo Herói — muitas vezes obrigada a sustentar a si e ao pai com seus talentos, e a trabalhar pelo pão; continuamente enganada e ludibriada em seu trabalho, reduzida a pele e ossos, e volta e meia à inanição.

Não é preciso explicar porque é razoável associar ser “continuamente enganada e ludibriada” a uma forma de perseguição, ou ao menos à sensação subjetiva de estar sendo perseguido, como se houvesse uma intenção comum apenas manifestada nas ações de várias pessoas.

Quanto à ideia de que ter de trabalhar é uma espécie de perseguição, antes de descartá-la como preconceito aristocrático, lembremos que ela evoca um anseio mais antigo, talvez mais ancestral, porque, enfim, é no momento da expulsão de Adão e Eva do Paraíso que surge o trabalho, quando Deus diz a Adão: “Comerás o teu pão com o suor do teu rosto” (Gênesis, 3, 19).

O resto do texto, apesar de delicioso, já é redundante para nossos propósitos. O pai morre (sua morte demora cinco horas; são cinco horas de nobres exortações à filha) e, na hora em que seria definitivamente raptada pelo malvado anti-herói, o herói salva a heroína.

Nos próximos posts, traremos para o Brasil a investigação da simpatia pela vítima da perseguição injusta.


  1. Londres: Michael O’Mara Books Limited, 2007

  2. “Plan of a Novel according to Hints from Various Quarters”. AUSTEN 2007, p. 54–56

  3. ARISTÓTELES. Poética. Trad. Eudoro de Souza. São Paulo: Ars Poetica, 1993, p. 67