Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

Heróis Perseguidos, 4: O Guarani

Desvalorização e valorização do índio

O Guarani (1857)1, o primeiro romance mais longo de José de Alencar, publicado originalmente como folhetim, tem como um de seus protagonistas o índio Peri. À época, o índio era uma figura absolutamente marginalizada na sociedade e até na literatura brasileira, mas já vinha passando por um processo de valorização. No contexto do projeto alencariano de fundação da literatura nacional, podemos usar uma referência bíblica: tratava-se de fazer com que “a pedra que os construtores rejeitaram” passasse a ser a “pedra angular” (Mateus 21, 42).

A analogia talvez naufrague na medida em que certos autores mais antigos do que Alencar, radicados no Brasil, simplesmente não estivessem tentando “construir” uma literatura nacional.

Isso não nos impede de observar que a obra de um autor que costuma ser colocado no começo da literatura feita no Brasil, Gregório de Matos, não possa ser usada como testemunho da marginalização do índio na incipiente sociedade brasileira.

Chama a atenção o mau tratamento que Matos dispensa aos índios em dois de seus sonetos, selecionados justamente por isso. Do primeiro, intitulado “Aos principais da Bahia, chamados os Caramurus”, vale a pena citar o quarteto inicial:

Há coisa como ver um Paiaiá
Mui prezado de ser Caramuru,
Descendente do sangue do tatu,
Cujo torpe idioma é Cobepá?2

Sendo um “Paiaiá” um pajé que se julga homem branco (“Caramuru”)3 ainda que seja “descendente do sangue do tatu, / cujo torpe idioma é Cobepá” (Cobepá: a língua — pá — dos índios cobés), clara fica a rejeição do autor do poema aos índios que então ousavam imiscuir-se em sua sociedade.

O segundo soneto merece ser citado integralmente:

Um calção de pindoba, a meia zorra,
Camisa de urucu, mantéu de arara,
Em lugar de cotó, arco e taquara,
Penacho de guarás, em vez de gorra.

Furado o beiço, e sem temor que morra
O pai, que lho envasou c’uma titara,
Porém a Mãe a pedra lhe aplicara
Por reprimir-lhe o sangue que não corra.

Alarve sem razão, bruto sem fé,
Sem mais leis que a do gosto, quando erra,
De Paiaiá tornou-se em abaité.

Não sei onde acabou, ou em que guerra:
Só sei que deste Adão de Massapé
Procedem os fidalgos desta terra.

Mal sabia Gregório de Matos que os “fidalgos” a que ele se referia com tanto desprezo e jocosidade viriam a compor, menos de dois séculos depois, os spoudaioi, os zelosos heróis da trilogia indigenista de José de Alencar.

Porém, antes mesmo do romancista do Ceará, o maranhense Gonçalves Dias já tinha escrito poemas em que o índio era valorizado. O grande destaque sem dúvida é I-Juca Pirama, um pequeno épico que busca adotar o ponto de vista indígena e não emitir um juízo de valor cultural sobre o costume de certas tribos que mais valia aos índios em geral a acusação de desumanidade: o canibalismo.

Nos famosos versos 112 a 117, o índio celebra a sua própria bravura, sua própria fidalguia:

Meu canto de morte,
guerreiros, ouvi:
Sou filho das selvas,
nas selvas cresci,
Guerreiros, descendo
Da tribo Tupi.

E é com esse brio guerreiro que chegamos ao fascinante personagem do índio Peri.

O Guarani

Se, dentro do contexto do romantismo brasileiro, buscava-se valorizar o índio por ele ser o elemento autóctone do Brasil, dando-lhe um passado e uma natureza grandiosas, José de Alencar, porém, não se furtou a recapitular em seu primeiro romance indianista a atitude de desprezo aos índios, atitude essa que, da mera enumeração de sinais que justificariam uma discriminação, passa à perseguição pura e simples, por meio da personagem de Dona Lauriana.

No entanto, graças ao contexto sentimentalista, o objetivo de Alencar é exatamente contrário ao objetivo de um Gregório de Matos. O que ele pretende é gerar no leitor a simpatia pela figura nativa do Brasil.

Assim, o índio recebe a dignidade de ser perseguido pela mais imerecida das razões. Assim como o Couto de Lucíola persegue Lúcia após ter servido-se dela, Dona Lauriana, esposa de Dom Antônio de Mariz, uma espécie de senhor feudal isolado no Brasil, insiste em manter sua má disposição quanto a Peri, mesmo depois de ele ter salvado a vida de sua filha. Dona Lauriana, porém, tem uma má disposição contra o índio em geral, o que fica evidente no quarto capítulo da primeira parte, em que ela minimiza nada menos do que o assassinato acidental de uma índia por seu filho, alegando que “é preciso ver que casta de mulher é esta, uma selvagem”4, o que antecipa sua atitude em relação a Peri.

Assim, mesmo devendo a Peri a vida da filha, Dona Lauriana deseja vê-lo fora de sua casa quase a qualquer custo, como vemos no episódio da onça que Peri trouxe viva para mostrar a Ceci. Assim como o Couto veio como líder da multidão, Dona Lauriana pretende incitar a todos para obter uma unanimidade.

Era o corpo de delito, sobre o qual pretendia basear o libelo acusatório que ia fulminar contra Peri.

Por diferentes vezes a dama tinha procurado persuadir seu marido a expulsar o índio que ela não podia sofrer, e cuja presença bastava para causar-lhe um faniquito.

Mas todos os seus esforços tinham sido baldados; o fidalgo com a sua lealdade e o cavalheirismo apreciava o caráter de Peri, e via nele embora selvagem, um homem de sentimentos nobres e de alma grande. Como pai de família estimava o índio pela circunstância a que já aludimos de ter salvado sua filha, circunstância que mais tarde se explicará.

Desta vez porém, D. Lauriana esperava vencer; e julgava impossível que seu marido não punisse severamente esse crime abominável de um homem que ia ao mato amarrar uma onça e trazê-la viva para casa. Que importava que ele tivesse salvado a vida de uma pessoa, se punha em risco a existência de toda a família, e sobretudo a dela?5

Porém, na segunda parte, no capítulo “Despedida”, quando Dom Antônio de Mariz enfim concorda que Peri não deve mais frequentar a casa, é o próprio Dom Antônio que vem a interceder pelo índio. Dona Lauriana, ao ser informada de que Peri tinha salvado a vida de sua filha Ceci pela segunda vez, enfim renuncia à violência contra o índio:

D. Lauriana, tirados os seus prejuízos, era uma boa senhora: e quando o seu coração se comovia, sabia compreender os sentimentos generosos. As palavras de seu marido acharam eco em sua alma.

— Não, disse ela levantando-se e dando alguns passos; Peri deve ficar, sou eu que vos peço agora esta graça, Sr. D. Antônio de Mariz; tenho também a minha dívida a pagar. 6

Vale a pena notar um elemento textual. A palavra “prejuízo” (algo próximo de preconceito, mas não exatamente) é usada quatro vezes em O Guarani. Em todas elas, a palavra se refere a Dona Lauriana. Ela é a pessoa que, em todo o romance, menos se aventura fora de casa. Quando sai, está acompanhada por toda a família.

Assim, essa atitude de D. Lauriana sugere que Alencar deseja oferecer uma chave para a revisão da figura do índio na literatura brasileira. Como elemento de identificação com o leitor branco que não se identificava com a cultura nativa do terra que veio a ser o Brasil, Dona Lauriana passa da rejeição pura e simples ao reconhecimento de uma dívida. Um coração, que, mesmo pertencendo a “uma boa senhora”, era tão duro que necessita ver a vida da filha salva duas vezes para comover-se. As atitudes dela claramente repetem a diferença que há entre a maneira como o índio é ridicularizado nos poemas de um Gregório de Matos para sua exaltação nos poemas de Gonçalves Dias.

No quarto capítulo da quarta parte, os índios aymorés estão cercando a casa da família de Dom Antônio de Mariz para vingar-se da morte daquela índia. O capítulo significativamente se chama “Revelação” — o mesmo que ἀποκάλυψις (apokálypsis) ou “apocalipse” — e, nele, temos uma quase passagem do bode expiatório como vítima de perseguição para o bode expiatório como vítima sacrificial: Peri pretendia, após derrotar alguns aymorés para ser saudado por eles como inimigo respeitável, entregar-se para que eles comessem seu corpo envenenado com curare.

Ao falar do plano que o índio fez para sacrificar-se e salvar os amigos, como um Cristo que salva a humanidade (branca), além de exaltar o “heroísmo” do nosso spoudaios, o narrador exalta nada menos do que o λόγος (lógos) de Peri, “o pensamento superior que ligara tantos acontecimentos, que os submetera à sua vontade”, e, no mesmo fôlego, seu outro atributo divinal, a onipotência, “que os submetera [os acontecimentos] à sua vontade, fazendo-os suceder-se naturalmente e caminhar para um desfecho necessário e infalível.”7

Curiosamente, se o plano de Peri tivesse dado certo, ele teria feito do ritual do canibalismo dos aymorés um verdadeiro apocalipse em nosso sentido atual, de destruição completa. Ao envenenar o próprio corpo, a exaltação da violência por parte dos canibais chegaria a termo definitivo: a morte generalizada. O impedimento da parte final plano de Peri faz dele um Cristo abortado.

Sem dúvida, um índio perfeito, irreal, programado para despertar a nossa máxima compaixão, smithianamente preparado para evocar a máxima simpatia, pretendendo efeitos que transcenderiam a própria literatura.

Efeitos esses que não foram obtidos. Aí, porém, já temos outra questão.


  1. Utilizamos a edição da Ateliê Editorial (São Paulo, 2014) Todas as referências de páginas remetem a ela.

  2. Os poemas de Gregório de Matos são apresentados com muitas variações. Por exemplo, ora aparece “descendente do sangue tatu”, ora “descendente do sangue de tatu”; tanta variação fez-nos optar por “descendente do sangue do tatu” primeiro pela sílaba métrica necessária que a preposição proporciona; segundo, porque quem descende descende de alguém específico: o tatu, com artigo definido, mesmo que “o tatu” gramaticalmente especificado indique logicamente os tatus e o reino animal como um todo, marcando a proximidade do índio com a natureza.

  3. O dicionário Houaiss, na sexta acepção, dá “europeu” para caramuru; contudo, a palavra também é interpretada como “mestiço”. A nosso ver, faz mais sentido a acepção do Houaiss, pois supõe a “empáfia" do índio em supor-se branco ou igual ao branco.

  4. P. 88 (Parte I, Cap. VI: “A volta”).

  5. p. 140 (Parte I, Cap. XII: “A onça”).

  6. P. 254.

  7. P. 428–9.

1 Comment

  1. Ótimo artigo.

    Me interessou particularmente a forma que José de Alencar usa o comportamento de D.Laurina para representação do brasileiro separado e hostil ao nativo.
    Você acredita que isso, além das inconsistências de Peri descritas no penúltimo parágrafo, possa ter tornado o romance excessivamente simbólico e reduzido seus méritos literários?

    Quanto à falha de José de Alencar, seu motivo é o mesmo da falha na tentativa de usar pícaros como modelos de Cristo: por termos a história de Cristo como real, não recebemos bem suas imitações.

    Sobre o sacrifício de Peri, tenho uma discordância.

    Parece haver uma diferença fundamental entre Cristo e um hipotético Peri sacrificado; a morte de Cristo não produz qualquer sentimento catártico, o sacrifício de Peri, por outro lado, buscaria exatamente esse efeito.

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