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Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

Mito e teoria mimética, de Richard Golsan

Mito e teoria mimética

Acaba de ser publicado pela É Realizações Mito e teoria mimética, de Richard Golsan. Escrito em 1993, o livro é uma introdução ao pensamento de René Girard tal como apresentado até a época — depois viriam mudanças importantes, como salienta no prefácio (p. 19) o professor João Cezar de Castro Rocha, coordenador da Biblioteca René Girard. O livro foi escrito para a série “Theorists of Myth”, como explica em nota (p. 23) o tradutor Hugo Langone.

Essas mudanças importantes merecem um post à parte, por isso vamos deixá-las para depois. Por ora salientemos que o texto realiza muito bem aquilo que pretende realizar, oferecendo um resumo da teoria. A primeira parte é dedicada à teoria do desejo mimético e apresenta em itens as abordagens girardianas de pontos como o complexo de Édipo, o narcisismo, o sadismo e o masoquismo etc. desde a perspectiva mimética. No segundo, dedicado ao tema do bode expiatório, também a partir de itens, seguimos um itinerário que vai da análise antropológica do bode expiatório à análise literária, passando por autores como Sófocles, Shakespeare e Céline, passando em seguida aos comentários girardianos de textos bíblicos. Talvez seja justo dizer que o mero fichamento do livro de Golsan resultaria num índice pessoal da obra girardiana produzida até a época.

Vale ainda destacar outros dois capítulos.

O primeiro (o quarto do livro) é a entrevista de Golsan com Girard. Em quase 30 páginas de (p. 179–205), René Girard responde as acusações de ser um apologista disfarçado do cristianismo (sem jamais ocultar que é católico romano) e afirma sua admiração por Virginia Woolf. Para Girard, seu romance As Ondas, “a exemplo de Em Busca do Tempo Perdido, e, de maneira distinta, também, de Ulisses, As Ondas são o romance definitivo e supremo, um romance que põe fim ao gênero do romance (…).”

(Não me parece descabido observar que o romance de Proust tem milhares de páginas e se estende por sete volumes, e o de Joyce, ainda que não tão grande, é mesmo assim monumental; já a edição da Wordsworth Classics para o original de As Ondas tem apenas 192 páginas, e o romance, há poucos anos em domínio público, foi traduzido no Brasil por Lya Luft.)

O segundo (o quinto do livro) é a apresentação das posições de nove críticos de René Girard ao longo de quatorze páginas (p. 157–171). Ei-los, com as respectivas objeções que fizeram-lhe:

  • Hayden White rejeita sua crítica da modernidade;
  • Sarah Kofman critica sua abordagem do narcisismo;
  • Toril Moi ataca sua concepção “orgulhosa, patriarcal e monolítica” do desejo;
  • Robert Greer Cohn considera que Girard esquematiza excessivamente o desejo;
  • Françoise Meltzer acha que Girard é capaz de distorcer qualquer texto para adaptá-lo a suas teorias;
  • Elizabeth Traube afima que o sistema interpretativo de Girard comprometeria evidências antropológicas obtidas diretamente;
  • James Williams considera que a teoria mimética não sobrevive ao critério de falseabilidade de Karl Popper;
  • Richard Kearney pondera que o mito passa a ser um bode expiatório;
  • Burton Mack, biblicista, diz que “a academia não precisa dos Evangelhos;
  • por fim, Lucien Scubla questiona a desvalorização do sacrifício como atributo distintivo do cristianismo.

    Imediatamente depois, capítulo ainda dedica quatro páginas ao trabalho de girardianos (p. 171–175).

    Estão disponíveis para leitura o prefácio completo de João Cezar de Castro Rocha, a introdução e parte do primeiro capítulo.

1 Comment

  1. Há uns 18 anos atrás me chegou às mãos “a Violência e o Sagrado” (Paz e Terra). Inegável o valor da Teoria do Desejo Mimético e a argumentação de Girard acerca da violência intestina nos homens (portanto inerente ao ser humano – em decorrência do Queda na tradução judaico-cristã e da Avidya/Ignorância na tradução hindú-budista – cabendo a referida ser resolvida individualmente, em cada pessoa que vem a este mundo). As intuições/percepções de Girard são não apenas geniais, mas fundamentadas e verificáveis.

    Em relação aos críticos de Girard não é que eu seja assim incultural, mas meu envolvimento se posiciona mesmo no estudo das grandes tradições espirituais ortodoxas.
    Porém eu tive oportunidade de ler “A sociedade aberta” de Karl Popper e, se se levar em conta as posições e ponderações sustentadas pelo Sr. Poper por ali, eis que a “sociedade aberta” , com efeito, trata-se de uma concepção bem fechada e com sua carga de imposição racionalista.

    “A violência e o sagrado” me trouxe um ensinamento não apenas abrindo uma nova trilha mas benigno e que eu posso verificar e por à prova por mim mesmo.
    A desejo é mimético quando a consciência individual se deixa encaminhar, primeiramente, por avaliações comparativas de A com B e C, etc. porém, ao invés de estar com as situações e coisas como elas são, viver com o que é, num estado de atenção consciente, a consciênciam deixa de estar atenta e se deixa conduzir pelo desejo mimético. -“Minha vizinha casou-se na Igreja Nossa Senhora do Brasil eu quero me casar lá também.” . Não há uma indagação sobre a origem e motivação do desejo nem sobre o sujeito (“quem – ou o quê – sou eu?”). diria que o desejo passa “sem revista”, sem questionamento ou interação consciente com os motivos – e quem seria o “revistador”? – …

    Sir Karl Popper com sua “A sociedade aberta” me trouxe mais um discurso respeitável de como o mundo pode e deve ser ou como ele ficaria melhor observando o critério exclusivamente racionalista – não sou mais criancinha para acreditar nisto…

    A fechada “sociedade aberta” é só mais uma construção conceptual para quem quiser validá-la e comprá-la… nada mal para quem está convicto de ser o estômago o limite da possibilidade humana e a razão o único verificador válido…

    O mundo violento e condicionado pela mimese nos homens (quando os homens não estão cônscios da mesma) de Girard é uma tradução do mundo real, com suas tortuosidades/sinuosidades, aflições e males.

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