por Mark Anspach*

Nota do tradutor (PSC): o artigo foi escrito em 2011.

Líderes árabes prontos para o abate

O poderoso líder desfila diante do povo, trajando as vestes do poder. Seu nome é Gaddafi, Mubarak, Ben Ali.

De repente, uma voz de criança grita: “Olha, ele está sem roupa!”

Outra voz repete o estribilho, e mais outra. Logo o mesmo grito ecoa pela multidão: “Ele está sem roupa!” E todo mundo pode ver que é verdade.

A aceleração dos acontecimentos no mundo árabe pegou os observadores de surpresa. Como poderiam autocratas todo-poderosos perder tão rápido sua aura de autoridade? E por que um levante que começou na Tunísia espalhou-se tão rápido para tantos outros países?

“É improvável que a insurreição na Tunísia gere copycats”, escreveu o infeliz Tony Karon na Time.com em 18 de janeiro de 2011. A previsão estava errada, mas a metáfora era adequada. Em vez de falar em efeito dominó — a Tunísia e o Egito não são vizinhos, então como poderiam ser dominós? —, é seguramente mais correto falar em efeito copycat. Aquilo que a maioria dos comentadores subestimou foi o poder da imitação enquanto força nos acontecimentos humanos. Se um efeito copycat pode abalar até mesmo as fundações de regimes aparentemente inexpugnáveis, é porque toda autoridade política em última instância baseia-se na mesma força.

Na fábula de Hans Christian Andersen, cada pessoa aplaude a esplêndida roupa nova do imperador enquanto cada outra pessoa aplaude-a também. O efeito copycat é forte o bastante para fazer com que a multidão faça vista grossa para aquilo que tem diante dos olhos. Porém, assim que uma criança dispara a verdade, a maré da imitação muda, e a unanimidade de vivas dá lugar a uma unanimidade de insultos.

Apesar da virada, uma coisa permanece a mesma: a unanimidade da multidão. Primeiro o governante é maravilhoso de ver — estão todos dizendo! Depois, é um tolo gabarola — estão todos dizendo! Na Tunísia, aqueles que um dia cantaram os louvores de Ben Ali passaram a trombetear seu desprezo por ele. Claro que talvez antes eles ocultassem seus verdadeiros sentimentos por medo da polícia. Porém, agora até a polícia entrou na dança. Segundo uma pichação vista nas ruas de Túnis, “Ben Ali, a polícia cospe em você!”

O próprio medo está submetido ao efeito copycat. Cada pessoa terá medo de rebelar-se contra um tirano maligno enquanto todas as outras tiverem. Porém, se todas perderem o medo ao mesmo tempo, podem perfeitamente descobrir que, juntas, têm o poder de afugentar o Lobo Mau. E então elas podem perguntar-se por que um dia chegaram a curvar-se à sua autoridade.

É este o mistério perene do poder político, o paradoxo da servidão voluntária.1 O colapso estonteantemente rápido de Ben Ali e de Mubarak nos lembra de uma verdade fundamental: todo governo em última instância depende do consentimento dos governados. Um Estado policial impiedoso pode dominar seu próprio povo pela força das armas, mas até os homens que empunham essas armas saem das fileiras da população. Se, como no Egito e na Tunísia, eles se recusarem a massacrar seus concidadãos, o governante logo vai descobrir que está nu. Assim, o que foi que fez as pessoas cederem o poder a um homem e permitir que ele as governasse?

A resposta clássica a essa pergunta é aquela proposta por Thomas Hobbes. Escrevendo durante a sangrenta Guerra Civil inglesa do século XVII, Hobbes afirmava que, na ausência de uma autoridade estatal forte, os homens tendiam a ameaçar-se uns aos outros como lobos. A única solução é eles reunirem sua violência e cederem-na a um único indivíduo, efetivamente definindo-o como o Lobo Mau que vai manter todo mundo na linha.

Esse argumento racional de submissão a um governante estabelecido levanta a questão de como a instituição da realeza pôde surgir um dia. Se os homens são tão propensos ao conflito quanto afirma Hobbes, como poderiam concordar quanto ao rei escolhido? Cada qual não iria lutar pelo privilégio de mandar nos outros? Para adentrar o mistério do poder político, seria preciso identificar algum mecanismo primitivo que permitisse às pessoas unirem-se em torno de um único indivíduo.

Numa obra revolucionária de pensamento social intitulada A Violência e o Sagrado, René Girard, teórico da cultura, propôs uma solução original para o mistério de como o poder político surgiu junto com a própria religião. Para Girard, assim como para Hobbes, a sociedade humana não é possível sem que o problema da violência interna seja superado. Porém, em vez de imaginar um contrato social em que as partes reúnem figurativamente sua violência e confiam-na a um soberano, Girard toma como seu ponto de partida um colapso social em que os membros de uma turba reúnem literalmente sua violência e a dirigem contra um bode expiatório. As pessoas naturalmente tendem a imitar umas às outras ao atacar o mesmo algo: é isso que Girard denomina mecanismo do bode expiatório.

Não há nada de fantasioso nessa conjetura. Na ausência da autoridade estatal, as crises e os conflitos muitas vezes levam a linchamentos.2 Girard encontra vestígios desses acontecimentos em muitos mitos pagãos. Sua hipótese é que os ritos sacrificiais começaram como reencenações deliberadas de episódios em que a unidade do grupo era restaurada por meio de um ato espontâneo de violência coletiva contra uma única vítima. Posteriormente, a vítima pode ter sido celebrada como herói ou como deus por miraculosamente trazer a paz a uma comunidade em conflito. Novas vítimas seriam preparadas para assumir a mesma grave tarefa. Foi aí que entraram os primeiros reis. Eles não eram sob nenhum aspecto governantes em sentido moderno, mas vítimas à espera, que, numa longa evolução, conseguiram transformar o prestígio de sua posição em autoridade política real.

Em The Golden Bough (O Ramo de Ouro), James Frazer mostrou que os primeiros reais serviam primariamente como bodes expiatórios para acontecimentos além de seu controle. Entre as tribos do Nilo superior, por exemplo, o principal dever do rei é impedir as secas. Enquanto a chuva cair e as culturas florescerem, as pessoas estão satisfeitas por ele estar fazendo seu trabalho. Porém, quando as nuvens secam, os raivosos súditos do rei culpam-no por recusar-lhes a chuva. “Adorado um dia como um deus”, escreve Frazer, “ele é morto no dia seguinte como criminosos”.

Frazer explicava essa conduta puramente a partir das exóticas crenças religiosas que as cercavam. O que Frazer não percebia era o papel social crucial desempenhado por um rei bode expiatório em tempo de crise. Quanto mais tempo durar uma crise como uma seca, observa Girard, mais tensões vão surgir. Não é culpa do rei, nem de ninguém, mas um estômago vazio vai deixar as pessoas com raiva mesmo quando a culpa não for de ninguém. Dirigir a raiva para o rei pode ser uma boa maneira de os súditos evitarem descontar suas frustrações uns nos outros.

Fazendo trabalho de campo entre as tribos do Nilo no sudeste do Sudão na década de 1980, o antropólogo holandês Simon Simonse estudou reis manda-chuvas que estavam no meio do caminho evolutivo proposto por Girard: eles são bons em tirar vantagens de sua posição, mas ainda podem enfrentar a morte nas mãos do grupo se uma seca durar muito tempo. Mesmo quando as relações são cordiais, “a possibilidade de um ataque ao rei nunca está totalmente ausente das cabeças dos súditos”.3

O rei serve como inimigo favorito de todo mundo, atraindo para si as tensões que surgem de rivalidades entre clãs, entre aldeias e entre gerações. No que diz respeito a essas rivalidades, ele “é o fator unificante, um foco compartilhado de atenção, um centro”, escreve Simonsen. Sem o Rei para levar uns chutes, “o centro não se mantém e a sociedade entra em colapso, revertendo para seus segmentos constitutivos”. Na morte de um rei, o povo shilluk diz: “O país não existe mais.”4

No Egito, Mubarak conseguiu unir os elementos mais díspares da sociedade contra ele. Eis aqui a maneira como um jornalista francês descreveu a cena na praça Tahrir durante a revolta:

Jovens, intelectuais, militantes dos anos 1970, tipos corporativos, desempregados, burgueses elegantes, mendigos ou militantes islâmicos barbudos, homens, mulheres muitas vezes de véu, idosos e famílias inteiras, estão todos aqui. O inimigo comum está em todos os cartazes: “Fora, Mubarak!”5

Após a abrupta saída de seu inimigo, alguns egípcios sentiram-se estranhamente vazios. “O país inteiro é Hosni Mubarak”, disse um homem numa esquina do Cairo a um repórter dois meses depois de sua derrubada. “É por isso que é difícil tirar Hosni Mubarak do Egito.” Outro deu voz a ideias parecidas. “Ele era como um Deus, e continuamos a dizer que ele governa o Egito, mesmo estando preso.” Durante seus quase 30 anos no poder, explica o repórter, Mubarak “trabalhou a alquimia de um típico autocrata, transformando sua identidade mortal na de uma quase-divindade — ou, no contexto egípcio, de um faraó.”6

No Egito antigo, o soberano morto era equiparado ao deus dilacerado Osíris, cujos membros estavam espalhados pela terra como sementes e que ressusictava todo ano com a cheia do Nilo.7 Milhares de anos depois, o reino dos governantes do Egito ainda depende de sua capacidade de dar cereais ao povo. O pão subsidiado, ao preço de um centavo por unidade, “é a coisa mais importante que o governo dá ao povo”, segundo o economista egípcio Mohamed Abu Pasha.8 Desde Nasser, os líderes do Egito deram pão subsidiado como o maná dos céus.

Outrora autossuficiente em trigo, o Egito é hoje seu maior importador. Sua oferta de pão depende menos da cheia do Nilo do que de um mercado internacional em que o preço do trigo dobrou desde 2005.9 Os governos da região enfrentam o mesmo desafio. A Argélia, o Marrocos, o Iêmen, a Arábia Saudita, a Líbia e a Tunísia estão todos entre os vinte maiores importadores de trigo do mundo. Contudo, o problema está menos na fome pura e simples — os regimes fizeram o que podiam para manter os subsídios — do que o ressentimento que o povo sente ao ver o governante e seus compadres enriquecerem enquanto outros sufocavam em enormes filas de pão.10 Foi isso que deu origem às revoltas.

Se todos os súditos unem-se ao mesmo tempo contra ele, o Lobo Mau revela-se um lobo de mentirinha. Ele subitamente passa de predador a vítima, metamorfose encenada ritualmente na sagração de um rei do Nilo. Após capturar o novo rei no mato como se fosse um feroz animal selvagem, os lokoya transformam-no em bicho de pasto. Os lulubo comparam um novo manda-chuva a um animal doméstico marcado para o sacrifício, descrevendo-o como “levado ao abate”. 11

Essas observâncias rituais prenunciam o destino último desses governantes. Quando as nuvenss ecarem — ou quando os preços das commodities nos mercados internacionais forem às alturas — a culpa recairá sobre eles. Sem sua pele de lobo, ficarão desnudados como cordeiros sacrificiais.

Isso nos traz à foto que acompanha este artigo.12 Tirada na praça Tahrir em 18 de março de 2011, ela mostra um cartaz que retrata (da direita para a esquerda) Mubarak, Ben Ali, Gaddafi, e Saleh, do Iêmen, como cordeiros num pasto. Por que cordeiros? Dê uma olhada no canto inferior direito. A primeira coisa que você vê pode ser um telefone celular estendido — alguém está registrando o cartaz usando a tecnologia digital que desempenhou um papel tão importante nas revoltas árabes. Porém, logo atrás do celular, temos um recuo para uma tecnologia muito mais antiga: um cutelo de açougueiro. O cutelo deixa claro o sentido do pôster: os ditadores, outrora poderosos, são cordeiros sacrificiais esperando “o abate”.

Mas quem irá abatê-los? No Egito, quando o “Velho” recusou-se a sair discretamente, o exército abandonou-o. Ao não curvar-se à pressão popular, Mubarak deu ao exército a oportunidade de posicionar-se como salvador do povo. O exército, porém, só o sacrificou para salvar o regime.

Frazer descreve “um costume árabe moderno, mas sem dúvida ancestral, de enterrar ‘o Velho’, isso é, uma espiga de trigo, no campo da colheita, e rezar para que ele retorne dos mortos.” Os heroicos jovens egípcios que plantaram as sementes da revolta obtiveram uma colheita amarga: um conselho regente de velhos de uniforme dedicados a preservar a domínio político dos militares, que já se estende por seis décadas. Ao astutamente sacrificar Mubarak, eles consolidaram seu próprio prestígio. Segundo uma pesquisa recente da Pew, o homem mais popular do Egito hoje é o marechal Mohamed Tantawi, líder da junta militar, que preparou unilateralmente mudanças constitucionais e forçou-as goela abaixo num referendo expresso em que Mohamed El Baradei, líder da oposição, foi afugentado de sua zona eleitoral por uma multidão que o apedrejava.

Ainda que Mubarak seja um cordeiro sacrificial, isso dificilmente faz dele um cordeiro inocente. Ele é um governante cujo castigo foi mais do que merecido. Porém, será ele mais culpado do que os homens que hoje governam o Egito? Maikel Nabil, um jovem blogueiro ativo na praça Tahrir, publicou testemunhos pessoais e informações de grupos de direitos humanos sobre o tratamento brutal dispensado aos manifestantes pelo exército, bem como sua tortura dos detidos. No fim de março, o exército o prendeu. Em 8 de abril, milhares de manifestantes voltaram à praça Tahrir. Para pedir a libertação de Nabil? Não, para pedir que Mubarak fosse a julgamento. Exatamente como nos velhos tempos…

Enquanto isso, o exército considerou Nabil culpado com velocidade recorde. Demonstrando o “formidável profissionalismo” tão admirado por Roger Cohen13, o exército dispensou os argumentos da defesa e foi direto ao ponto, condenando Nabil a três anos de prisão por espalhar falsas notícias e por insultar as forças armadas. Um pacifista secular de uma família cristã copta, Nabil era um alvo fácil. Isso basta para prendê-lo?

Os líderes militares do Egito compreendem o “mecanismo do bode expiatório” e como manipulá-lo para gerar consenso. A mídia ocidental demorou a reconhecer seu sucesso. Por quê? Os jornalistas não são imunes ao efeito copycat. Ninguém quer ser o primeiro a dizer que a revolução egípcia está nua.

  1. Sobre a relevância do Discurso sobre a Servidão Voluntária de La Boétie, publicado no século XVI, para a violência praticada pelos Estados contra suas próprias populações hoje, ver o importante novo livro do filósofo franco-canadense Paul Dumouchel, Le Sacrifice Inutile (Flamarion, 2011). ↩︎
  2. Durante os protestos da praça Tahrir, os indivíduos acusados de serem informantes da polícia com grande frequência apanhavam impiedosamente da multidão. “Alguém aponta o dedo para qualquer pessoa que pareça remotamente suspeita e em segundos a multidão reage”, escreve Jason Koutsoukis num instrutivo relato de um quase-linchamento. ↩︎
  3. Simon Simonse, Kings of Disaster: Dualism, Centralism and the Scapegoat King in Southeastern Sudan, Leiden, Brill, 1992, p. 360. ↩︎
  4. Ibid., pp. 214, 281. ↩︎
  5. 5 Jean-Paul Mari, “Huit jours qui ont fait basculer l’Egypte”, Le Nouvel Observateur, 3-9 de fevereiro de 2011, p. 42. ↩︎
  6. Michael Slackman, “Mubarak Leaves an Air of Wistfulness”, The New York Times, 20 de abril de 2011. ↩︎
  7. 7 Simonse, Kings of Disaster, p. 397. Fazer discute longamente Osíris em The Golden Bough. ↩︎
  8. Hamza Hendawi (AP), “Russia’s grain ban showcases Egypt’s love of bread”, thedailynewsegypt.com, 19 de agosto de 2010. ↩︎
  9. Charles J. Hanley, “Egypt’s Cost of Bread Could Triple If Subsidies End”, huffingtonpost.com, 28 de março de 2011. ↩︎
  10. Annia Ciezadlo, “Let Them Eat Bread: How Food Subsidies Prevent (and Provoke) Revolutions in the Middle East”, foreignaffairs.com, 23 de março de 2011. ↩︎
  11. Simonse, Kings of Disaster, pp. 374, 377. ↩︎
  12. Foto de Mohamed Abd el-Ghany (Reuters). ↩︎
  13. Em “Hosni Mubarak Agonistes” (The New York Times, 13 de fevereiro de 2011), Cohen escreveu: “O exército egípcio demonstrou um profissionalismo formidável. Ele pode ser o avalista de uma transição ordeira.” ↩︎

*Mark Anspach é autor de Anatomia da Vingança — Figuras Elementares da Reciprocidade e de Édipo Mimético, ambos publicados pela É Realizações. Este artigo foi publicado originalmente no site da Fundação Imitatio.