por Mark Anspach*

Os líbios não entendiam.

Com todos de acordo que Kadáfi era um monstro, a revolta com a maneira como ele morreu pegou os rebeldes de surpresa. Um membro do Conselho Nacional de Transição punha de lado as críticas. “Eles bateram muito nele, e depois mataram”, disse. “É a guerra.”1

Quando os vídeos mostraram os rebeldes brutalizando sua presa atônita e ensanguentada, os novos governantes da Líbia curvaram-se às exigências de uma investigação, mas ficou a impressão de que eles realmente não entendiam qual era o problema.

Digamos que fosse um mal-entendido cultural. Seria culpa dos líbios não perceberam o que há de errado com um bom e velho linchamento? Talvez devêssemos inverter a pergunta e perguntar por que as imagens dos últimos instantes de Gaddafi nos deixam tão desconfortáveis.

Um comentário do primeiro jornalista ocidental que chegou à cena traz uma pista escondida. Ao descrever a filmagem feita com celulares da captura de Gaddafi nos arredores de Sirte, ele escreveu que o idoso ditador que um dia sonhara unir a África “não tinha mais qualquer semelhança com um auto-proclamado ‘rei dos reis’”.2

À primeira vista, essa afirmação parece de uma verdade auto-evidente. Mas será mesmo?

Vamos esquecer a Líbia por um instante e imaginar a cena seguinte. Soldados cercam um prisioneiro, arrancam suas roupas, zombam dele, atormentam-no e, enfim, matam-no. A vítima da execução é uma figura lastimável, ensanguentada e e indefesa diante de seus captores — e no entanto, 2000 anos depois, seus seguidores ainda o chamam de Rei dos Reis.

A centralidade dessa história em nossa cultura nos treinou para desconfiar toda vez que vemos alguém tratado como Jesus nas mãos dos soldados romanos. Isso é verdade não importando quem seja a vítima, nem o que ela possa ter feito para merecer esse destino.

Obviamente, ninguém confundiria Muammar Gaddafi com um Príncipe da Paz, mas não é essa a questão. O fato mesmo do linchamento, em si e por si, é o que nós achamos inaceitável. Como René Girard, teórico da cultura, vem dizendo há muito tempo, a crucifixão de Jesus deu má fama ao linchamento.

Não que as sociedades ocidentais tenham permanecido imunes à violência das multidões — longe disso. Sabemos que em nosso próprio país, os Estados Unidos, entre o fim do século XIX e a década de 1960, milhares de cidadãos negros foram linchados. E somos hoje culpados por nos calarmos diante de notícias constantes de que negros são atacados por turbas rebeldes na Líbia.3

Mesmo assim, em nossa cultura, a história da crucifixão existe para servir de modelo de oposição a qualquer tipo de linchamento. A autora afro-americana Gwendolyn Brooks expressa essa ideia energicamente nos versos finais de seu poema ”The Chicago Defender Sends a Man to Little Rock — Fall, 1957” (“O jornal Chicago Defender Manda um Repórter à Cidade de Little Rock — Outono de 1957”):

The lariat lynch-wish I deplored.
The loveliest lynchee was our Lord.

[O desejo de linchar que os enlaçava eu deplorei.
O linchado mais lindo foi nosso Senhor.]4

O resto do poema enfatiza a desarmante banalidade das pessoas numa cidadezinha do sul dos Estados Unidos, onde crianças negras enfrentavam violências racistas quando tentavam frequentar uma escola branca. Para o repórter visitante de um jornal negro do norte, essa banalidade é um enigma:

The biggest News I do not dare
Telegraph to the Editor’s chair:
“They are like people everywhere.”

[“A principal notícia eu não ouso
telegrafar ao editor:
‘É gente igual à de qualquer lugar.’”)

Ao longo da história, as pessoas de qualquer lugar foram suscetíveis a acessos de violência como aqueles que marcaram a guerra civil na Líbia. O verdadeiro enigma, talvez, é como a raça humana conseguiu sobreviver a isso.

Para René Girard, a resposta está na capacidade paradoxal da própria violência de reconciliar as pessoas unindo-as num ataque conjunto a uma vítima comum, ou bode expiatório. A eliminação catártica de um indivíduo que se julga que encarne todos os males que afetam o grupo restaura temporariamente a unidade e possibilita a fundação de uma nova ordem.

“Todos os males desapareceram do nosso amado país”, proclmou Mahmud Jibril, primeiro-ministro da transição, ao anunciar o assassinato de Gaddafi. “É hora de começarmos uma nova Líbia, uma Líbia unida, um povo, um futuro.”5

Por mais mal que Gaddafi tenha causado, ele não pode ter sido o único vilão do país. Dizer o contrário é fazer dele bode expiatório. De fato, apesar daquilo que se pode pensar, um bode expiatório não precisa ser inocente. Pelo contrário, quanto mais culpado ele for, mais convincentemente poderá representar todas as outras partes culpadas e ser sacrificado em seu nome.

“É importante cultivar o suposto potencial maligno da futura vítima, fazer dela um monstro de iniquidade”, escreve Girard. Isso explica certos misteriosos rituais reais africanos, em que o futuro rei precisa cometer atos sexuais proibidos ou crimes violentos: o próprio regente está sendo colocado no papel de bode expiatório, que precisa parecer “merecer” a punição.

O rei bode expiatório une seus súditos em torno de si ao uni-los contra ele. Insultado pela multidão durante a sagração, ele pode até enfrentar um ataque de mentirinha do exército real. Ainda que não seja efetivamente morto no começo de seu reinado, ele muitas vezes é morto no final. Originalmente, o “rei só reina em virtude de sua futura morte”, escreve Girard. Ele “não passa de uma vítima que aguarda o sacrifício”.6

Num artigo anterior sobre as revoltas árabes, dissemos que a queda de governantes como Mubarak devolve-lhes o papel imemorial de reis bodes expiatórios. A fotografia que ilustrava nosso texto mostrava um cartas na praça Tahrir que mostrava Mubarak, Gaddafi e outros ditadores árabes como ovelhas aguardando o sacrifício.

No caso do líder líbio, a foto mostrou-se profética. Por uma virada do destino, Gaddafi acabou sendo encontrado numa galeria de esgoto que “ia dar num aglomerado de currais de ovelhas vazios”.7 Ao tratá-lo como cordeiro sacrificial8, seus captores por um momento o devolveram àquela posição central que ele fora perdendo pouco a pouco durante a guerra.

Após seu cadáver sem camisa ter sido exibido em Misurata, milhares de líbios de perto e de longe fizeram a peregrinação até a fortaleza rebelde. Parafraseando Ricardo II, de Shakespeare, eles estavam ansiosos para ver “o pomposo corpo de um rei, sem ornamentos” — e para capturar a imagem com seus celulares, levando-a consigo como o equivalente high-tech de uma relíquia sagrada.

Por quatro dias, a procissão sem fim de observadores passou pelos restos mortais de Gaddafi. Um repórter disse que a cena era “uma sinistra paródia do velório que se costuma fazer para líderes falecidos”.9 Mesmo quando os ex-súditos de Gaddafi foram amaldiçoá-lo, era difícil evitar pensar que eles também estavam prestando-lhe um perverso tipo de homenagem.

A ambiguidade da situação tem suas raízes na natureza dupla do bode expiatório. Se sua morte parece fazer com que todos os males desapareçam, então ele realizou um milagre, pelo qual as pessoas só podem sentir gratidão. Ao atrair todo o ódio para si, ele se tornou uma fonte mística de unidade. Por essa razão, Girard sugere, não devíamos ficar surpresos por vê-lo transformado numa “espécie de objeto de culto” e “cercado por uma aura quase-religiosa de veneração”10.

O dono de uma casa onde o corpo de Gaddafi foi exposto como objeto de culto disse: “Esta foi a oportunidade da minha vida. Se eu morrer amanhã, morro feliz.”11 Porém, os observadores com mais conhecimento temem que a alegria dos líbios não vá durar muito. Sua terra natal está “repleta de rivalidades, de ciúmes e de dívidas de sangue”, observa Tarak Barkawi, da Universidade de Cambridge. “Agora ela perdeu a única coisa que unia boa parte do país: o ódio pelo coronel Gaddafi e por seu regime.”12

O problema de como livrar-se do corpo do coronel provocou discussões indecorosas nos bastidores. No fim, a solução encontrada veio direto do Levítico: como o bode expiatório bíblico, o ditador morto foi mandado para o deserto. Porém, é muito difícil que ele tenha levado consigo os males do país.

O “rei dos reis” hoje repousa em paz numa tumba anônima. Porém, os arraigados conflitos que dividem a Líbia — entre leste e oeste, entre tribos rivais, entre árabes e negros — provavelmente vão voltar com toda a força. Não vai ser tão fácil enterrá-los debaixo da areia.

  1. Gordon Rayner, “Rebels accused of executing former Libyan leader and son Mutassim”, The Telegraph, 21 de outubro de 2011. ↩︎
  2. Ben Farmer, “Col Gaddafi killed: no mercy for a merciless tyrant”, The Telegraph, 20 de outubro de 2011. ↩︎
  3. David Zucchino, “Libyan rebels accused of targeting blacks”, Los Angeles Times, 4 de março de 2011; Kim Sengupta, “Rebels settle scores in Libyan capital”, The Independent, 27 de agosto de 2011; Ruth Pollard, “Joy of liberation soured by racist attacks”, Sydney Morning Herald, 2 de setembro de 2011. ↩︎
  4. Para um comentário girardiano do poema, ver a contribuição de Matthew R. Kratter’s contribution to the 1999 meeting of the Colloquium on Violence & Religion: http://www.religion.emory.edu/affiliate/COVR/kratter.html ↩︎
  5. “Col Gaddafi killed”, The Telegraph, 20 de outubro de 2011. ↩︎
  6. René Girard, Violence and the Sacred, Baltimore, Johns Hopkins, 1977, pp. 104-107. ↩︎
  7. “Col Gaddafi killed,” The Telegraph, Oct. 20, 2011. ↩︎
  8. Os líbios celebraram a festa muçulmana do sacrifício, Eid al-Adha, em 6 de novembro. “Este Eid é diferente — matamos Gaddafi”, riu um habitante de Misurata. “Agora vamos todos para casa matar nossos cordeiros” (Alastair Macdonald, “Joy, grief and hope at Libya’s feast of sacrifice” Reuters, 6 de novembro de 2011). ↩︎
  9. Rania El Gamal, “Libya ends public showing of Gaddafi’s body”, Reuters, Oct. 24, 2011. ↩︎
  10. Violence and the Sacred, p. 95. ↩︎
  11. Kareem Fahim, “After Making Capture in Pipe, Displaying the Trophies of War” New York Times, 20 de outubro de 2011. ↩︎
  12. “Peace may be war in post-war Libya” Al Jazeera, 21 de outubro de 2011. ↩︎

*Mark Anspach é autor de Anatomia da Vingança — Figuras Elementares da Reciprocidade e de Édipo Mimético, ambos publicados pela É Realizações. Este artigo foi publicado originalmente no site da Fundação Imitatio.