Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

Filósofo francês René Girard foi um conservador revolucionário

por João Cezar de Castro Rocha*

René Girard nasceu em 1923, na França, e morreu na quarta-feira (4 de novembro de 2015), nos Estados Unidos. Lida pelo avesso, essa frase, mera transmissão de dados biográficos, revela um traço inquietante.

Seguindo os passos paternos formou-se paleógrafo e arquivista – e, como o pai, deveria assumir o cargo de curador da Biblioteca e do Museu de Avignon.

Num gesto de distanciamento, definidor de sua personalidade, Girard reinventou-se, deixando a França em 1947 para iniciar um doutorado em história nos EUA. Depois da tese "American Opinion on France, 1940-1943", seguiu carreira no país que adotara.

Novo desvio: professor de literatura comparada, ele publicou seu primeiro livro, Mentira Romântica e Verdade Romanesca (1961). Nesse brilhante exercício crítico, intuiu a categoria que marcou sua obra: o desejo mimético, isto é, a centralidade do outro na determinação do eu.

Girard radiografou as metamorfoses do desejo mimético na obra de Cervantes, Stendhal, Flaubert, Dostoiévski e Proust. Em lugar da diferença absoluta, a repetição relativa. Porém, na teoria girardiana, a mimese é matriz de rivalidade e conflito.

Noção aprofundada em seu segundo livro-chave, A Violência e o Sagrado (1972). Formado durante a Guerra Fria, o francês voltou a remar contra a corrente. Muitos pensadores defendiam formas não violentas de organização política. Ao contrário, Girard afirmou a onipresença da violência nos primórdios da cultura; daí a conjunção aditiva: violência e sagrado.

Mais: Girard ampliou radicalmente seu horizonte disciplinar, apropriando-se da antropologia. Contudo, valorizou a associação, à época desacreditada, entre emergência da cultura e manifestação do fenômeno religioso.

Em seu terceiro livro fundamental, Coisas Ocultas Desde a Fundação do Mundo (1978), a rebeldia manteve-se viva. O autor afirmou a singularidade ética e epistemológica do cristianismo, em sua defesa da vítima, do menos favorecido.

Cristão praticante (mas que acolheu a mim, um estudante brasileiro ateu, sem reservas), ele poderia ter dito: “Só me interessa o que não é meu”. Afinal, propôs: “Devemos concordar com os que dizem ser a Eucaristia oriunda do canibalismo arcaico”.

Crítico literário, Girard apostou na repetição e não na diferença; antropólogo, buscou o mecanismo matriz da cultura e não a irredutível particularidade das culturas; filósofo cristão, privilegiou a especificidade antropológica e não teológica das Escrituras. Pensador inclassificável, adversário de binarismos, ele foi um conservador revolucionário, um rebelde sereno. Em suas palavras: “Posso ser definido como uma espécie de outsider”.

No Brasil de hoje, cindido por uma intolerância sempre mais míope porque a cada dia mais dicotômica, a leitura da obra girardiana reveste-se de inesperada urgência. Atenção: uma urgência sem pressa –como os tantos paradoxos da vida e da obra de René Girard.

João Cezar de Castro Rocha é professor de literatura comparada da UERJ. Este artigo foi originalmente publicado na Folha de São Paulo em 6 de novembro de 2015.

1 Comment

  1. Despertou ainda mais o interesse em ler as obras de René, Parabéns pela explanação Professor João Cezar de Castro Rocha

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

© 2019 Miméticos

Theme by Anders NorenUp ↑