Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

René Girard discute o terrorismo

Rematar Clausewitz

Rematar Clausewitz

Cinthia Haven, em seu blog, já havia destacado, por ocasião dos atentados ao Charlie Hebdo em janeiro, um trecho de Rematar Clausewitz, publicado em 2007 na França por René Girard. Com os atentados de sexta em Paris, reproduzimos o mesmo trecho, sem no entanto fazer os cortes feitos por ela.

Além disso, vale a pena observar que, aqui no blog, já reproduzimos textos de Mark Anspach que de certo modo iniciam os esforços sugeridos por Girard no trecho abaixo:

  1. O 11 de setembro e o mito do martírio
  2. Para compreender Breivik

A tradução de Rematar Clausewitz foi uma dos momentos de maior intensidade intelectual da minha vida. Trata-se de um livro indispensável para começarmos a formar categorias para compreender a nova era de violência planetária.

Trecho de Rematar Clausewitz

Não vi nenhum livro sobre Atta [Nota de PSC: ver o primeiro artigo de Mark Anspach relacionado acima], o chefe do grupo de 11 de setembro, que pilotou um dos dois aviões. Ele era filho de um burguês egípcio. É estarrecedor pensar que ele passou as três noites anteriores ao atentado em bares com seus cúmplices. Há um lado misterioso e interessante nesse fenômeno. Quem aborda o problema da alma desses homens, daquilo que eles são, de suas motivações? O que o islã significa para eles? Qual o sentido de matar-se por essa causa? O número crescente de atentados no Iraque é impressionante. Acho estranho que haja tão pouco interesse por esses fenômenos que dominam o mundo, assim como a Guerra Fria dominava anteriormente. Ninguém teria imaginado, após a queda do Muro de Berlim, que estaríamos aqui, quase vinte anos depois. Isso abala nossa visão da história, tal como foi escrita a partir das revoluções americana e francesa, e que não leva em conta o fato de que o Ocidente inteiro foi desafiado e ameaçado por isso. Somos obrigados a dizer “isso” porque não sabemos o que isso é. A revolução islâmica foi reativada com atentados a duas embaixadas na África, durante o governo de Bill Clinton. Procuramos bastante, mas não achamos nada. Também não sabemos nem se Bin Laden é uma pessoa real. Será que as pessoas imaginam em que história entraram e de que história saíram? Não tenho muito o que dizer a partir daqui, porque essa realidade é desconhecida demais, e nossa reflexão aqui atinge seus limites.

Sinto-me, diante disso, um pouco como Hölderlin diante do abismo que o separava da Revolução Francesa. Mesmo no fim do século XIX, ainda havia a percepção de que alguma coisa extraordinária estava acontecendo. Estamos assistindo a uma nova etapa da escalada para os extremos. Os terroristas deixaram claro que têm todo o tempo do mundo, que sua noção de tempo não é a mesma que a nossa. Esse é um sinal claro do retorno da religião arcaica: um retorno aos séculos VII, VIII e IX, o que em si mesmo é significativo. Mas quem se ocupa dessa importância, quem toma sua medida? Será esse um trabalho para o Ministério das Relações Exteriores? É preciso estar atento a muitas coisas imprevistas no futuro. Assistiremos a coisas que certamente serão piores. As pessoas não vão mais continuar surdas.

No momento do 11 de setembro, houve um abalo, mas rapidamente a paz voltou a reinar. Houve um clarão de consciência, que durou algumas frações de segundo: percebemos que alguma coisa estava acontecendo. E um manto de silêncio veio nos proteger contra essa rachadura introduzida em nossa certeza de segurança. O racionalismo ocidental funciona como um mito: sempre fazemos um esforço maior para não ver a catástrofe. Não conseguimos nem queremos ver a violência tal como ela é. Contudo, só conseguiremos responder ao desafio terrorista mudando radicalmente nosso modo de pensar. Mas quanto mais os acontecimentos se impõem a nós, mais a recusa de tomar consciência deles se reforça. Essa configuração histórica é tão nova que não sabemos por onde começar a examiná-la. Ela é certamente uma modalidade daquilo que Pascal percebeu: da guerra da violência contra a verdade. Pensemos na pobreza daquelas vanguardas que pregavam a inexistência do real!

É preciso que entremos numa maneira de enxergar o tempo em que a batalha de Poitiers e as Cruzadas estão muito mais próximas de nós do que a Revolução Francesa e a industrialização do Segundo Império. Os pontos de vista dos países ocidentais constituem para os islamistas um detalhe sem importância. Eles pensam o mundo ocidental como algo que deve ser islamizado o mais rápido possível. Os analistas tendem a dizer que essas são minorias isoladas, muito alheias à realidade de seu país. No plano da ação certamente, mas e no plano das ideias? Não haveria aí, apesar de tudo, alguma coisa essencialmente islâmica? É preciso ter coragem de fazer essa pergunta, ainda que não se dispute que o terrorismo é um fato brutal que deturpa em seu próprio interesse os códigos religiosos. Ele não teria, porém, adquirido uma eficácia tão grande nas consciências se não tivesse atualizado alguma coisa desde sempre presente no islã. Este último, para grande surpresa dos republicanos leigos, ainda é muito vivo no plano do pensamento religioso. É inegável que hoje reencontramos certas teses de Maomé.

Assim, é preciso mudar radicalmente nossas maneiras de pensar, e tentar compreender sem preconceitos esse acontecimento com todos os recursos que a islamologia pode nos oferecer. A tarefa precisa ser realizada, e é imensa. Pessoalmente, tenho a impressão de que essa religião apoiou-se na Bíblia para recriar uma religião arcaica mais

forte do que todas as outras. Ela ameaça tornar-se um instrumento apocalíptico, o novo rosto da escalada para os extremos. Como agora não existe mais religião arcaica, é como se tivesse surgido uma outra, construída sobre a Bíblia, de uma Bíblia um pouco alterada. Seria uma religião arcaica reforçada por contribuições da Bíblia e do cristianismo, porque a religião arcaica evaporou diante da revelação judaico-cristã. Como o cristianismo acaba com o sacrifício onde quer que chegue, o islã parece sob muitos aspectos situar-se antes dessa expulsão.

É verdade que em sua atitude há ressentimento em relação à tradição judaico-cristã e ao Ocidente. Mas trata-se também de uma religião nova, isso é inegável. A tarefa que cabe aos historiadores das religiões, e até aos antropólogos, será mostrar como e por que ela surgiu. Porque em certos aspectos dessa religião há uma relação com a violência que não compreendemos e que por isso mesmo é mais inquietante. Para nós, estar disposto a pagar com a vida pelo prazer de ver o outro morrer não quer dizer nada. Não sabemos se esses fenômenos se relacionam ou não a alguma psicologia particular. Nossa incapacidade é total, não conseguimos falar disso, e também não podemos documentar o que acontece, porque o terrorismo é uma situação inédita que se vale dos códigos islâmicos, mas que não tem nada a ver com o islã clássico. O terrorismo atual é novo, até de um ponto de vista islâmico. Ele é um esforço moderno para contrapor-se ao instrumento mais poderoso e mais sofisticado do mundo ocidental: sua tecnologia. Ele faz isso de um jeito que não entendemos, e que talvez o islã clássico também não entenda.

Não basta, assim, condenar os atentados. O pensamento defensivo que opomos a esse fenômeno não é necessariamente um desejo de compreensão. Muitas vezes, ela é um desejo de incompreensão, ou vontade de conforto. Clausewitz é mais fácil de integrar a um desenvolvimento histórico. Ele nos fornece um instrumental intelectual para compreender a escalada da violência. Mas onde encontramos essas ideias no islamismo? O ressentimento moderno, de fato, nunca chega ao suicídio. Não temos, portanto, as cadeias analógicas que nos permitiriam entendê-lo. Não digo que elas não sejam possíveis, que elas não vão aparecer, mas confesso minha incapacidade de apreendê-las. É por isso que as explicações que damos muitas vezes não passam de propaganda enganosa contra os muçulmanos.

4 Comments

  1. “o cristianismo acaba com o sacrifício onde quer que chegue, o islã parece sob muitos aspectos situar-se antes dessa expulsão”?
    Acho que falta a Girard um pouco de análise histórica em sua crença na eliminação do que chama de “religião arcaica” pelo cristianismo. O que aconteceu na península ibérica, por exemplo, talvez pudesse fazê-lo repensar esta afirmativa. Os muçulmanos tiveram um período de cinco séculos de domínio sobre total esta região e os cristãos somente a retomaram no final século XV. Os relatos históricos mostram que o período árabe foi marcado pela convivência tolerante de culturas e não houve imposição do culto islâmico. Na retomada cristão, os árabes (apelidados de mouros) foram escravizados e violentamente perseguidos, tendo servido de primeiras vítimas das fogueiras do obscuro período da Santa Inquisição.
    Em outros textos, o próprio Girard relata que a teologia cristã tradicional não compreendeu a resignificação que sua teoria mimética foi capaz de (convincentemente) emplacar na paixão de Cristo. Então, soa para mim incompreensível que em outros textos ele manifeste tão cegamente esta crença no cristianismo sem diferenciá-lo do que a Igreja Católica fez dele e condenando tão peremptoriamente outras religiões.
    Será que Girard não enxerga que a condenação de grupos de pessoas com base em critérios de crença, por exemplo, é o próprio alimento da eleição dos bodes expiatórios?

    • Pedro Sette-Câmara

      18 de novembro de 2015 at 21:01

      Caro Claudio, creio que Girard tinha bastante consciência das ambiguidades históricas da Igreja Católica; podemos ver, por exemplo, seu comentário à negação de Pedro, à qual dedica um capítulo de O Bode Expiatório. Além disso, algumas das críticas que você faz já aparecem na influência de Raymund Schwager sobre Girard. Quando ele fala aqui de “cristianismo”, creio que está falando de uma atitude epistemológica de presunção de inocência da vítima sacrificial, e não “a Igreja Católica, onde quer que chegue…” Interessa-me muito, por exemplo, o caso de Joana d’Arc: a Igreja condenou e depois canonizou.

      • Entendo, Pedro.
        Concordo que o cristianismo que emerge da releitura dos evangelhos pelo prisma da teoria mimética de Girard realmente acaba com o sacrifício, uma vez que Cristo não morre pela expiação dos nossos pecados, como a teologia cristã ainda insiste em apregoar, mas para expor que a vítima sacrificial é inocente e que, portanto, o pacto que resolve o conflito mimético (nas religiões arcaicas) é ilusório.
        É nisto eu vejo o conteúdo revolucionário da teoria girardiana que tem prendido minha atenção recentemente, pois penso que a revelação dessa verdade deve provocar uma revisão das bases de nossa atuação em sociedade, que ainda permanece elegendo e promovendo a violência sobre os bodes expiatórios à toda hora.
        Mas, nesta perspectiva, será que, neste momento de crise, o texto de Girard que parece demarcar um antagonismo entre Islã e Cristianismo seria mesmo uma leitura oportuna?

  2. Chega a ser tristemente ironico que Girard, com todo o seu genio, conhecimento do mimetismo humano, formacao de mitos e mecanismos de manipulacao de massa, nao tenha reconhecido a falacia de mais esse mito, o mito do terrorismo, da ameaca arabe (coincidentemente proveniente dos territorios com as maiores reservas de petroleo do planeta). Mas, na minha opiniao, esse paradoxo so’ vem a reforcar ainda mais o poder da teoria mimetica, e portanto do proprio genio de Girard, por mais paradoxal que possa parecer.
    Para quem ainda nao analisou com profundidade o tema 911, gostaria de recomendar essa apresentacao do teologo David Griffin, de 2006: 911 – MITO E REALIDADE

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

© 2018 Miméticos

Theme by Anders NorenUp ↑