Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

Os super-heróis, esses bodes expiatórios

Days of Future Past

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O blog Miméticos não terá qualquer problema em discutir a cultura pop — nem isso seria muito recomendável, pois a quantidade de exemplos escancarados que ela nos oferece é enorme.

Se você tem alguma familiaridade com a ideia girardiana de bode expiatório, então, é difícil não ver o quanto a dramaturgia faz uso dessa figura, ou desse tipo (certamente não estamos falando agora no sentido que Auerbach dá ao termo “figura” em seu ensaio de mesmo nome1). Agora, como diz Agustín Fernandez2 logo no resumo de seu trabalho “Descripción y fases del mecanismo del chivo expiatorio en la teoría mimética de René Girard, Girard não chegou a apresentar essa noção numa versão sintética, e foi isso que motivou o próprio Agustín (no texto linkado) a tentar seu próprio resumo.

Uma boa maneira de apresentar o bode expiatório é pensar naquele que sabemos ser um bode expiatório: Jesus Cristo. Um ponto fundamental do pensamento girardiano está na mudança de ponto de vista que teria sido operada pela tradição judaico-cristã, começando no Antigo Testamento e escancarando-se nos Evangelhos: enquanto os mitos arcaicos seriam as versões narradas pelos perseguidores de violências praticadas pelos próprios perseguidores, os Evangelhos trariam a perspectiva das vítimas.

O post anterior foi sobre um livro introdutório à teoria mimética. Em seu prefácio, João Cezar de Castro Rocha destaca, na obra de René Girard, a maneira como o próprio Girard chegou ao mecanismo do bode expiatório. Se hoje lemos relatos de perseguição a bruxas ou a judeus na Idade Média e sabemos que eles eram inocentes, então podemos aplicar esse método à leitura dos mitos — e descobrir que existe uma vítima que é inocente do crime que lhe é atribuída.

Aqui já temos um dos traços do bode expiatório, aquele que é confirmado pelo entendimento que o senso comum tem da expressão: a inocência quanto ao crime que acaba por defini-lo. Outro traço, de certa forma já mencionado, está nos sinais vitimários (discutidos em “Estereótipos da perseguição”, o segundo capítulo do livro O bode expiatório, publicado no Brasil pela Paulus): traços que distingam as pessoas da comunidade em que vivem, como pertencer a uma minoria (judeus, por exemplo). Pertencer a categorias fisicamente vulneráveis também favoreceria a posição de bode expiatório. E quando um bode expiatório é necessário? Sem nos alongar neste momento, quando as rivalidades dentro de um grupo humano se tornaram tão grandes que precisam ser canalizadas para uma única vítima. Do contrário, as pessoas do grupo correm o risco de matar-se umas às outras.

Um alquebrado bode expiatório

Esses dois traços são traços que verificamos desde o nosso ponto de vista, a partir do qual enxergamos a perseguição como perseguição.

Podemos usar essa questão do ponto de vista para mencionar outro atributo do bode expiatório: o poder, que lhe é atribuído, de desestabilizar a sociedade a que pertence e o de, com sua morte, re-estabilizá-la. Notemos que a inversão de ponto de vista é denunciada pela escolha do verbo: para nós, esse poder é atribuído ao bode expiatório; para os membros da cultura mítica, o bode expiatório efetivamente possui esse poder.

Essa explicação estrutural deve bastar para que pensemos na figura contemporânea do super-herói. Seus superpoderes podem desestabilizar as comunidades em que eles estão inseridos, e, se a comunidade está em perigo, é exatamente a esses poderes que ela vai recorrer. Eles têm, na sua maioria, identidades secretas, justamente para não virarem objetos de perseguição. Se eles não têm identidades secretas, como no caso dos X-Men, a questão da perseguição se torna ainda mais premente.

Todas as questões, enfim, que parecem mover a dramaturgia ligada aos super-heróis vêm do bode expiatório como tema. Como vamos rejeitar aquele que nos salva? Vamos perseguir uma pessoa apenas porque ela se distingue de maneira extraordinária? Vamos, enquanto público de histórias, desejar que o super-herói possa gozar da sua “vida normal” (que afinal já é bastante idealizada) ao mesmo tempo que invejamos seus superpoderes?

Esperamos em breve discutir melhor exemplos específicos — e contamos com a participação dos leitores.

NOTAS


  1. AUERBACH, Erich. “Figura”. In: Scenes from the Drama of European Literature. Vários tradutores. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1984, p. 11-78. O fundamental ensaio “Figura” foi traduzido por Ralph Mannheim e publicado originalmente na Neue Dantestudien (Istambul, 1944, p. 11-71)..

  2. ENDOXA. Series Filosóficas, no 32, 2013, pp.191 – 206. UNED, Madrid

4 Comments

  1. Parece-me que há uma evolução sobre o tratamento do problema na história dos quadrinhos norte-americanos. Os super-heróis da Era de Ouro (Super-Homem, Mulher-Maravilha, Capitão Marvel), surgidos nos anos 30, 40 e 50, são figuras quase divinas (o Batman é a exceção, mas ele estava mais próximo das tiras policiais). Nos anos 60, o Stan Lee, o Kirby e o Ditko criaram uma série de heróis que vivem o drama de proteger uma sociedade que os persegue: Homem-Aranha, Hulk e os X-Men são malditos. Interessante notar que os especialistas em quadrinhos consideram que Lee e companhia criaram uma revolução ao apresentar pela primeira vez um realismo consistente nos gibis de super-heróis. E os mesmos estudiosos apresentam o Alan Moore como principal nome de uma geração que aprofundou ainda mais esse realismo nos anos 80. Quanto mais realistas, mais a exploração do tema do bode dirige-se para o centro das narrativas.

    A mini-série Watchmen, do Allan Moore, apresenta um elevado grau de consciência sobre a figura do super-herói como um bode expiatório. O mecanismo está exposto na greve dos policiais que culmina na lei que proíbe as atividades dos mascarados e obriga-os a revelarem suas identidades secretas; na execração pública do Dr. Manhattan (o único que tem super-poderes, o que é comparado a um deus, o que serviu ao país) ao vivo na tevê; principalmente, no plano do vilão para conseguir a paz mundial. A versão cinematográfica difere na solução conclusiva do vilão, e foi mal-recebida pelos fãs justamente porque, parece-me, os roteiristas do filme não tinham essa consciência que o Moore apresentou no quadrinho sobre o que poderia provocar, em um nível mundial, o encerramento de conflitos internacionais em favor da união dos países em uma causa em comum.

    • Christiano Galvão

      7 de março de 2015 at 17:49

      Este post nos levaria longe… Fiquei pensando no Magneto, ele é o reverso da moeda persecutória, o porta-voz do ressentimento mutante (porque as vítimas também se vingam, sobretudo quando descobrem que, apesar de minoritárias, têm força e poder). E sabemos que Magneto tenta arregimentar todos os mutantes numa guerra eugênica contra seus antigos perseguidores, tendo como alegação insofismável esta perseguição que, de sua perspectiva, deve ser resolvida em favor do mais forte, no caso eles. Acredito que Nietzsche, caso tivesse lido estas histórias, ficaria num impasse quanto a esses mutantes vingativos, pois veria neles expressões da moral do seu super-homem (segundo a qual a vontade do mais forte prevalece, ainda que seja minoria), ou diria que são mais uma expressão da moral do ressentidos? Poderiamos encarar Magneto como um exemplo da leitura equívocada de Nietzsche sobre poder, moral e ressentimento?

      • Robson Braga Marques

        10 de março de 2015 at 10:34

        Interessante essa interpretação dos quadrinhos de super-heróis, nunca havia associado de imediato a teoria mimética ao universo dos quadrinhos que conheço tão pouco.

        Essa reflexão sobre o personagem Magneto como contraponto a moral dos escravos de Nietzsche me levou a pensar também em Marx. Antes de conhecer a teoria mimética eu era um marxista convicto, mas desde aquela época já desconfiava do conceito de luta de classes, e creio que essa desconfiança foi crucial para que eu pudesse, depois, assimilar o conceito do desejo mimético.

        Desconfiava que esse sonhado potencial revolucionário de uma classe contra certa burguesia não existia. Na verdade, a classe trabalhadora se sente muito à vontade dentro do sistema em que ela está inserida. Marx está equivocado em propor essa diferenciação entre duas classes; trabalhadores e “burgueses” são duplos miméticos, todos almejam os mesmos objetivos, as mesmas aspirações. O que realmente define o capitalismo é a capacidade de manter certa narrativa, certa publicidade, em que todos os sonhos podem ser realizados. O sonho da ascensão social, do empreendedorismo, de se tonar ele mesmo um burguês castraram qualquer potencial revolucionário que Marx pudesse ver no proletariado. O capitalismo é uma grande máquina mimética que incita a todos a darem vazão a seus impulsos desejosos, mantem a todos presos numa narrativa de que todos os sonhos e realizações miméticas são possíveis. Não só incita os sonhos como mantem uma estrutura econômica em que dá a sensação de que eles são possíveis, mantem uma hierarquia de camadas sociais onde a ascensão social é até certo ponto possível e encorajada.

        Não há potencial revolucionário no proletariado por que eles querem se tornar burgueses, em Marx a moral dos escravos se aplica devidamente, e por trás do ressentimento existe o motor de todos os comportamentos humanos que é a mimésis . Olhando o caso de Magneto acredito que o erro de Nietzsche é tentar diferenciar fortes e fracos, senhores e escravos. Não existem tais diferenças, todos são escravos, o caso de Magneto é o melhor exemplo disso: os super-homens também são escravos do ressentimento.

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