Rematar Clausewitz

Rematar Clausewitz

Dr. Domingo González

Universidad CEU — San Pablo

dgonzalez@ceu.es

Artigo publicado originalmente na revista Xiphias Gladius

Rematar Clausewitz, a última grande obra de René Girard, é o fruto mais recente da ambição interdisciplinar do criador da teoria mimética, que chega à arena política convencido de que as leis e as teorias do político podem ser subsumidas à grande legalidade universal e intemporal da antropologia mimética. Para realizar essa empreitada, Girard nos oferece nessa longa entrevista uma releitura da obra de Carl von Clausewitz, o grande estratego militar contemporâneo de Napoleão, que quis fazer da guerra, como se diz, “a continuação da política por outros meios”, frase que fez correr rios de tinta e que Girard interpreta à sua maneira, com a particular ênfase apocalíptica que colore o último giro de uma obra que começou no terreno da cultura literária há cinquenta anos. De fato, desde a publicação em 1962 de Mentira Romântica e Verdade Romanesca, a teoria mimética não deixou de ampliar seu horizonte de análise teórica, infiltrando-se no âmbito da antropologia cultural e, posteriormente, no conjunto das chamadas ciências humanas. Essa marcada revolução epistemológica é a consequência natural de uma teoria antropológica omni-abrangente e totalizadora, que se desenvolve a partir da “hipótese fecunda” do desejo mimético. Rematar Clausewitz significa, pois, não apenas reconhecer em que medida o trabalho desse general prussiano foi premonitório, mas levar seu raciocínio até o limite apocalíptico de suas possibilidades, fronteira que, segundo Girard, Clausewitz não quis (nem pôde) vislumbrar, em razão da música racionalista de sua época. Claro, diz-nos Girard, pois se trata de uma fronteira em que somente a bússola da Revelação nos oferece uma orientação adequada. Rematar Clausewitz significa portanto dar um sentido religioso à revelação humana sobre a violência, sentido que só pode encontrar sua verdadeira dimensão nos textos apocalípticos em que se descreve aquilo que começamos a viver em nossos dias, nós que sabemos que somos a primeira civilização passível de autodestruir-se de maneira absoluta e de desaparecer.

O desafio da construção de uma teoria política devedora dos princípios do mecanismo mimético coloca a obra girardiana diante de um de seus mais imponentes desafios, mas também diante de suas debilidades e tentações mais recorrentes. A leitura girardiana do texto clausewitziano acaba por derivar na absorção do fato político e de sua teoria no ocenao da violência e do sagrado. Em vez de propor nesta obra as linhas mestras de uma eventual teoria mimética do político, Girard encerra definitivamente a era do político, vendendo-nos o arsenal de uma obra de demolição. É uma lástima, pois o pensamento de Girard contém os melhores argumentos antropológicos para desenvolver aquilo que Julien Freund, grande pensador político francês de ascendência schmittiana, chamou de “essência do político”: a sociabilidade (pela afirmação do mimetismo, sólido fundamento da natural condição relacional do homem) e o conflito (pela afirmação da rivalidade ineludível e ontológica que acompanha o humano, e que, em Girard, culmina no bode expiatório, pedra angular da unanimidade sobra a qual é construída a ordem social e política). No entanto, a política e a guerra não são idênticas, ainda que outra coisa sugira uma leitura superficial da intuição clausewitziana. A violência também não é equivalente ao poder, como soube observar magistralmente Hanna Arendt, mas é o fracasso do poder que degenera em violência. A política “contém” a violência, é verdade, mas nos dois sentidos do verbo conter, no de fechar dentro de si uma coisa, e no de submeter o impulso de um corpo reprimindo sua tendência inata. Girard só parece presumir o primeiro desses sentidos e, sem ignorar o segundo, parece estar convencido de sua incapacidade para continuar desenvolvendo seus efeitos no mundo atual. De fato, Girard parece situar no período da Guerra Fria da dissuasão nuclear o último momento em que a política ainda conservava um sentido, isto é, a capacidade para conter uma violência cada vez maior (nacional, política, étnica, cultural, ideológica e militar). Desde então, para Girard, a política foi superada, e a ciência política já não terá qualquer utilidade, pois a escalada da violência (“a tendência para os extremos” clausewitziana) terá derrubado os últimos diques políticos de contenção da maré de reciprocidade violenta, hoje planetária. Nosso último Girard, possuído por fervor escatológico, desperdiça nesse trabalho suas admiráveis intuições sobre a doutrina paulina do kátechon, barreira histórica permanente que se opõe à ameaça satânica da dissolução pela violência social.

O político se situa, na era cristã, precisamente nesse incômodo lugar intermediário, entre Cila e Cáribdis, dois monstros marinhos da mitologia grega situados nas bordas opostas de um estreito canal de água, tão perto que os marinheiros que tentassem evitar Cáribdis passariam muito perto de Cila e vice-versa. Como soube resumir magistralmente Octavio Paz, a política faz limite de um lado com a filosofia e de outro com a guerra. Este lugar da política revela a paciência messiânica do “ainda não” quanto à Parusia, tensão escatológica visível de uma ordem política que se opõe com essa mesma graça sobrenatural, na qual convergem as forças do sagrado arcaico e do Reino de Deus, às forças da suprema decadência, visão profética que tanto nutriu os escritos teológico-políticos de nosso Donoso Cortés e de seu exegeta Carl Schmitt. É precisamente este o fundamento ontológico em que repousa a “autonomia do político”, que Girard tende a ignorar como consequência de sua disposição e de sua impaciência apocalípticas para esboçar um maniqueísmo irreversível entre o Amor e a Violência, entre o Reino de Deus e as forças renovadas, sob roupagens cristãs, do Adversário. Caberia contrapor as fortes razões que levam a Girard fortalecer sua decidida posição impolítica e antipolítica. Sem dúvida, o “crescimento natural do Poder” (Jouvenel) é uma consequência do vaso comunicante que alimenta da dinâmica totalitária do Estado com o crescimento moderno da violência indiferenciadora, e qu eo mesmo Donoso Cortés descreveu com sua célebre lei dos termômetros invertidos no Discurso da Ditadura de 1848. E o aparato estatal, que cresceu com uma lógica análoga à da reciprocidade mimética e violenta (tanto como consequência das guerras como das lutas pelo prestígio de seus modelos sociais de bem-estar) torna-se cada vez mais impotente para resolver as problemáticas sociais de que se nutre para justificar a legitimidade de sua presença. Trata-se da famosa “ilusão política”, sobre a qual escreveu Jacques Ellul. A ilusão de pensar que o homem domina as engrenagens políticas do Estado, quando são elas que o dominam. A ilusão, também, de crer que qualquer problema humano ou social pode ser resolvido ou neutralizado pela mediação salvífica da política. Essas ilusões certamente revelam cada vez mais sua natureza íntima e começam a expressar-se (diante do apoio institucional e ideológico que dão cobertura midiática à ilusão política) num lúcido ceticismo político que sempre foi, certamente, de profunda raiz cristã, ao qual Girard dá um último esteio ao proclamar a iminência apocalíptica. Anúncio esse que não é novo, pois lembra, ainda que colorido com tons de pessimismo, as filosofias progressistas da História, que, como é bem sabido, alimentavam seus meta-relatos com uma leitura secularizada da mesma tensão messiânico-apocalíptica com que Girard constrói o seu. Porém, se a política dissolve sua essência num fim utópico-escatológico, ela cai na órbita de influência das ideologias, a forma mais perversa e destrutiva de “impolítica”, fórmula predileta de Julien Freund, com a qual o pensador designava a falsa crença de que os fins do político podem ser determinados por categorias que são completamente estranhas, sejam econômicas (como, por exemplo, no marxismo), estéticas, morais ou religiosas. Impolítica é também a ideia de que a política tem por missão realizar qualquer fim supremo da humanidade (como sucede às filosofias modernas da história), seja este a felicidade, a liberdade, a igualdade, a justiça ou a paz universal, sem atender à finalidade específica e concreta que deriva da essência do político, e que não é outra além de cuidar da sobrevivência e da estabilidade de uma comunidade política ameaçada ontologicamente pelo conflito.

Rematar Clausewitz abriu um debate entre os intérpretes da teoria mimética. Por sua própria natureza, a antropologia mimética estava convocada a desenvolver suas implicações no campo das ciências humanas e sociais. No entanto, a abertura abrangente de seu olhar questiona seriamente a legitimidade dos saberes regionais distintos, destinados inapelavelmente a desaparecer sob a influência de uma antropologia totalizadora. Essa controvertida questão se apresenta de maneira privilegiada no seio do desenvolvimento político da teoria mimética, que hoje ocupa grande parte das discussões girardianas. Não se deve estranhar que pensadores políticos como Pierre Manent e Alain de Benoist censurem o extremismo impolítico de Girard. De qualquer modo, a questão parece prometer um grande desenvolvimento antes de ser definitivamente encerrada. Os últimos trabalhos de Jean-Michel Oughourlian (Psychopolitique, com Trevor Merrill) e de Paul Dumouchel (Le Sacrifice Inutile) parecem anunciar a fertilidade de um terreno, o da teoria mimética do político, particularmente promissor, como também parece demonstrar o anúncio de publicação, antes do fim do ano, de um dossiê especial da revista francesa de pensamento político Cités com o tema René Girard politique. No entanto, não parece que essa profusão de estudos políticos inspirados pela teoria mimética vá, no momento, fixar uma ortodoxia política do pensamento de Girard. O próprio fundador da teoria mimética, que se congratula por seu dinamismo teórico irrefreável tanto neste como em outros terrenos, parece rechaçar qualquer versão canônica de seu pensamento em seus desenvolvimentos parciais, fruto de seu diálogo com os distintos saberes regionais. Construir uma teoria mimética do político é uma tarefa que Girard incentiva seus discípulos a realizar, mas sem qualquer amarra ou apriorismo. Rematar Clausewitz não é, nesse sentido, uma obra definitiva, mas um chamado decidido a avançar no campo da filosofia política com a bússola da antropologia mimética. Com ele ou contra ele, Girard nos desafia a “rematar Girard”.