Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

Notas sobre a méconnaissance segundo Paul Dumouchel

René Girard produziu sua obra de maneira eminentemente ensaística. Apesar da existência de um dicionário com termos girardianos, ainda cabe aos estudiosos da obra do pensador francês perguntar-se sobre o uso que se faz de certos termos, seja para conhecer pontos de discordância ou com concordância, seja para apenas demarcar uma certa continuidade. É com esse espírito que pretendemos apresentar notas sobre a parte teórica do artigo de Paul Dumouchel De la méconnaissance (apesar do título em francês, o texto é em inglês; basta clicar abaixo de “full text”). O artigo tem mais duas partes, com discussões de exemplos, que não serão tratadas aqui.

Dumouchel começa fazendo uma observação para os leitores de língua inglesa, ainda mais pertinente para os leitores de língua portuguesa: a rigor, não existe um termo que traduza o francês méconnaissance. O substantivo, derivado do verbo méconnaître, costuma ser traduzido como “não conhecer” ou como “ignorar”, mas, como observa Dumouchel, seria mais preciso entender que ele indica “não reconhecer”. O próprio dicionário Grand Robert o confirma, acrescentando: “não identificar”. A própria palavra méconnaissance, portanto, não diz respeito a um puro e simples desconhecimento, a uma mera ignorância, mas a não reconhecer algo que no entanto se esperava ou se devia reconhecer.

Se connaissance é knowledge ou conhecimento, em inglês seria possível criar o neologismo mis-knowledge, mas o português não dispõe de um equivalente do prefixo anglo-germânico mis-, que foi herdado pelo francês moderno na forma mé-. O mais próximo que temos é o uso de “mal-“ na palavra malentendido, que indica não uma ignorância, mas que algo foi entendido sim, ainda que de modo enviesado. Porém, como a correspondência entre o francês “mé-”, o inglês “mis-”, e o português “mal-“ é uma aproximação bastante imperfeita, não parece recomendável propor o neologismo “malconhecer”.

Ficamos assim de certo modo forçados a contrapor méconnaissance a connaissance, ou conhecimento. Paul Dumouchel observa que, ao menos na tradição anglo-saxônica para a qual está escrevendo, costuma-se entender “conhecimento” como “crença verdadeira, justificada”. Nesse sentido, nem se pode falar em “conhecimento falso” sem cair em flagrante autocontradição. Se a méconnaissance, porém, não é uma ignorância, um desconhecimento, nem exatamente algo de todo falso, o que é?

Paul Dumouchel traz a noção utilitária de Karl Popper do conhecimento como algo objetivo, um “artefato exossomático”, que existe fora dos indivíduos e pode ser apreendido por eles com diversos fins, ou segundo diversas maneiras de agir sobre o mundo. Nesse sentido, pode-se falar de um conhecimento melhor ou pior, isto é, que permite uma ação mais ou menos precisa sobre o mundo.

Acrescenta-se a isso a noção de que a méconnaissance é uma espécie de mentira contada a si mesmo. Existem, é claro, espécies diversas de mentiras. Primeiro pensamos naquela espécie em que conhecemos o mundo e pretendemos manipular o entendimento de outras pessoas a seu respeito. Guardei o doce no lugar X e digo que acabou para não ter de dividi-lo. Porém, como bem observa Dumouchel, podemos mentir para nós mesmos, aproximando-nos da mauvaise foi de Sartre, querendo que o mundo seja diferente. O exemplo dado no artigo é o seguinte: vejo indícios claros de que minha esposa está sendo infiel; contudo, prefiro interpretar esses indícios de modo a sugerir que ela continua fiel. O que está em jogo é a maneira como escolho organizar esses dados, e isso, por sua vez, também permitira a “conversão romanesca”, que é a visão dos mesmos dados sob uma nova luz, e não o acréscimo de outros dados.

Sempre segundo Dumouchel, a méconnaissance reside portanto na intenção, ou na direção da atitude em relação ao mundo. O conhecimento teria a verdade como instância reguladora, buscando ajustar-se ao mundo. A méconnaissance buscaria ajustar o mundo a ela própria, recorrendo portanto à violência.

É importante fazer duas observações aqui.

Primeira, Dumouchel recorda que Girard diz repetidas vezes que a méconnaissance cresceria junto com o conhecimento. Se entendermos conhecimento como um artefato que permite agir sobre o mundo, não é difícil entender o que Girard quer dizer. Novas maneiras de agir sobre o mundo abrem novas possibilidades de conhecimento e de méconnaissance.

Segunda, e esta não está no artigo de Dumouchel: na nota de rodapé incluída no volume De la Violence à la Divinité, que já traduzimos no blog, bem como no trecho de Evolução e Conversão que discute a “virada epistemológica”, Girard fala da impossibilidade de se criar um “espaço não-sacrificial” onde possa surgir o conhecimento. O conhecimento, então, depende de uma decisão de sacrificar-se a si mesmo para não cometer violências contra o mundo. A instância reguladora, ética, nunca está ausente no conhecimento.

Voltando ao texto de Dumouchel, temos a observação de que Girard usa a palavra méconnaissance em pelo menos dois sentidos. Podemos ter a méconnaissance como a vontade de não examinar um determinado corpo de conhecimentos, ou a méconnaissance derivada da méconnaissance individual que pretende que o mundo, e especialmente a origem da cultura, não seja de uma certa maneira.

Paul Dumouchel ainda faz algumas observações interessantes na parte teórica de seu texto. Julga que o cristianismo abala a cultura mais por destruir uma unanimidade do que por revelar a inocência da vítima. O cristianismo pode ser a revelação da centralidade da vítima que acaba com a méconnaissance a respeito de sua inocência; porém, seria a quebra daquela “unanimidade menos um”, derivada da revelação, que iria extinguindo progressivamente a méconnaissance a respeito desse ponto específico. Mais ainda, retomando (no entanto, a conexão entre os dois pontos é nossa) o que disse sobre a méconnaissance residir na “direção” da atitude cognitiva em relação ao mundo, para Dumouchel é a atitude de caridade, de reconhecimento da fragilidade e da humanidade do outro, mais do que de sua “inocência”, que vai pouco a pouco neutralizando a méconnaissance.

1 Comment

  1. Muito oportuno este esclarecimento sobre a méconnaissance. Me fizeram recordar duas falas do stárets Zósima, o monge visionário de “Os Irmãos Karamázov”; a primeira, quando ele se dirige ao pai Karamázov dizendo: “Não minta ao senhor mesmo. Aquele que mente a si mesmo e escuta a sua própria mentira chega ao ponto de não mais distinguir a verdade, nem em si, nem em torno de si.”
    A segunda, quase no mesmo sentido, é dirigida a uma mulher que se confessa incrédula, e ele diz: “Vejo que a tua dúvida é honesta, todavia a tens convertido numa mentira para contigo mesma. Observe esta mentira, examine-a a cada instante… O que lhe parece mau e obscuro se iluminará na medida em que a senhora o descobrir em si mesma. Se sentir medo saiba que isso é tão somente uma consequência desta mentira.”
    Sempre tive dificuldade para compreender estas falas. Agora, relendo-os à luz do conceito de méconaissance “como mentira para si mesmo”, creio que começo a perceber melhor seu sentido.

    Obrigado, Pedro.

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