Um trecho “inédito” de Mentira Romântica e Verdade Romanesca | Miméticos

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Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

Um trecho “inédito” de Mentira Romântica e Verdade Romanesca

O leitor que se dirigir à página 26 da tradução brasileira de Mentira Romântica e Verdade Romanesca publicada pela É Realizações encontrará, ao fim da página, dois parágrafos que começam com “A linha reta…” e “No romance de Cervantes…”. Essa ordem de parágrafos corresponde perfeitamente à edição original francesa do livro, e também pode ser encontrada em De la Violence à la Divinité, a grande compilação das quatro primeiras obras de Girard publicada em 2007 pela Grasset, que traz a inclusão de uma nota muito importante em outro trecho. Com isso quero dizer: Girard, vivo, achou por bem inserir uma nota na reedição de seus textos, mantendo algum controle sobre eles.

No entanto, a tradução de Mentira Romântica… publicada em inglês contém, ao menos nessas primeiras páginas, um parágrafo de imenso valor, que não consta do original francês. A importância deste parágrafo está em ressaltar a complexidade da teoria mimética, que pode ser perdida de vista num primeiro momento por causa da simplicidade de seus conceitos.

Nessa tradução inglesa, intitulada Deceit, Desire and the Novel [O Engano, o Desejo, e o Romance], o parágrafo aparece entre os dois parágrafos mencionados anteriormente.

O triângulo não é uma Gestalt. As estruturas reais são intersubjetivas. Elas não podem ser localizadas em lugar nenhum; o triângulo não tem qualquer realidade; ele é uma metáfora sistemática, buscada sistematicamente. Como mudanças de tamanho e de formato não destróem a identidade dessa figura, como veremos depois, é possível ilustrar simultaneamente a diversidade e a unidade das obras. O propósito e as limitações dessa estrutura geométrica dessa geometria estrutural podem ficar mais claras por meio de uma referência a “modelos estruturais”. O triângulo é uma espécie de modelo, ou melhor, uma família inteira de modelos. Porém, esses modelos não são “mecânicos” como os de Claude Lévi-Strauss. Eles sempre aludem ao mistério, transparente, ainda que opaco, das relações humanas. Todos os tipos de pensamento estrutural presumem que a realidade humana é inteligível; ela é um logos, e, como tal, uma lógica incipiente, ou degrada-se numa lógica. Assim, ela pode ser sistematizada, ao menos até certo ponto, por mais assistemática, irracional, e caótica que pareça até para aqueles que operam o sistema — ou especialmente para esses. Um argumento básico deste ensaio é que os grandes autores apreendem de maneira intuitiva e concreta, através do meio que é sua arte, ainda que não formalmente, o sistema em que estavam originalmente presos junto com seus contemporâneos. A interpretação literária precisa ser sistemática porque é a continuação da literatura. Ela deve formalizar sistemas implícitos ou já semi-explícitos. Afirmar que a crítica nunca será sistemática é afirmar que ela nunca será conhecimento real. O valor de um pensamento crítico depende não da esperteza com que ele consegue disfarçar sua própria natureza sistemática, nem de quantas questões fundamentais consegue evitar ou dissolver, mas de quanta substância literária ele realmente abraça, abrange, e torna articulada. Esse objetivo pode ser ambicioso demais, mas não está fora do escopo da crítica literária. Ele é a essência mesma da crítica literária. Não atingir esse objetivo é algo que pode ser criticado, mas não a tentativa de atingi-lo. Tudo o mais já foi feito.

1 Comment

  1. A beleza na teoria do desejo mimético está na aceitação do mistério inerente à realidade da intuição e da concreção da experiência intersubjetiva, que é o encontro dos sujeitos enlaçados na objetividade do mundo.
    Creio que o Girard teria um feliz encontro intelectual com a concretude e a positividade de um Mário Ferreira dos Santos, pois ambos são admiradores da objetividade e do mistério que o mundo encerra.

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