Durante um show no Hollywood Bowl em 2007, logo antes de cantar The Boy with the Thorn in His Side, Morrissey cede o microfone a uma senhora da plateia, aparentemente da mesma geração que ele. Ela lhe faz elogios rasgados. Ele, sem demonstrar a menor emoção, simplesmente diz: “Eu paguei para que ela dissesse isso” (I paid her to say that). A plateia não ri. A banda começa a tocar. A música fala de um garoto com um espinho cravado no lado do corpo, que deseja desesperadamente ser amado.

Fui relembrar Morrissey após ficar ouvindo The Smiths, sua antiga banda, num restaurante. As letras me falavam do sujeito mais coitado do mundo — o sujeito desejante que, em tempos de mediação interna muito avançada, não tem qualquer referência externa. Afinal, como diz o título do mais famoso disco dos Smiths, The Queen Is Dead, a rainha está morta, isto é, não é mais possível crer na transcendência da ordem social, nem nas regras e tabus que continham, dirigiam e sublimavam o desejo. A posição social já não vale mais nada: seja você ferreiro ou rainha, precisa impressionar os outros, ao mesmo tempo em que demonstra não se impressionar assim tão facilmente com qualquer um.

Ou, para relembrar o título de um dos capítulos de Mentira Romântica e Verdade Romanesca, se os homens serão deuses uns para os outros, há muita vergonha em não ser um deus.

Já pode ir embora?

O sujeito que chega a esse cenário tem toda razão de ficar intimidado. Por isso Morrissey cantava em “How Soon is Now”: “eu sou o filho e o herdeiro de uma timidez criminosamente vulgar, sou o filho de nada em particular”. É melhor declarar que você não é ninguém antes que outro o faça. Porém, demonstrando o melindre do sujeito hipersensível, a letra muda de tom, e começa o fricote: “Cale a boca, como é que você pode dizer que eu faço tudo errado? Eu sou um ser humano que precisa ser amado, igual a todo mundo.” (Ainda resta uma tese de doutorado por fazer sobre a santarronice na cultura de massas.)

Mais uma mudança de voz: “Tem uma boate, se você quiser ir; vai que você encontra alguém que te ame de verdade.” E o tímido vulgar responde: “Aí você vai, fica sozinho, volta para casa sozinho, chora, e tem vontade de morrer.”

(Já não falavam em kidults nos anos 1980?)

O que também nos faz pensar na letra de “Unloveable”: “Eu sei que é impossível gostar de mim, não precisa me dizer…”

Uma luz que nunca se apaga

Em tempos de streaming, o usuário do Spotify que buscar “The Smiths” receberá imediatamente a informação de que a versão remasterizada “There Is a Light That Never Goes Out”, também de The Queen Is Dead é a música mais tocada da banda — no momento em que escrevo, em 8 de julho de 2016, são 49.917.386 execuções.

E do que fala a música? “Me leve para sair hoje à noite / Onde haja música, e gente jovem e viva”. É a mesma repetição do mesmo tema vinda do mesmo sujeito que contempla a sua total miséria. No entanto, sem que a letra dê qualquer sinal de que o sujeito saiu de casa, ele já começa a contemplar a própria morte: “E se um ônibus de dois andares bater em nós… Se um caminhão de dez toneladas bater na gente…”

Para quem passou a adolescência cercado por essas músicas, difícil não lembrar do que deve ter sido a única canção em que Morrissey pareceu ter consciência do buraco em que se metera: “Ask”. A letra diz: “A timidez pode impedir você de fazer as coisas que você quer.”

Impossível não imaginar a tia cuidadosa dizendo isso para o sobrinho de “How Soon is Now?”,

Estou cansado, quero dormir

Seria possível abrir uma discussão sobre a pertinência da “mentira romântica” para a cultura de massas. Por exemplo, no recente mega-sucesso editorial 50 Tons de Cinza, o leitor é informado desde o primeiro capítulo que o futuro objeto de amor da mocinha é admiradíssimo… pela melhor amiga da mocinha. Em momento nenhum o leitor é convidado a ligar uma coisa e outra, ao passo que quem tenha lido as primeiras dez páginas de Mentira Romântica e Verdade Romanesca enxergará isso de imediato.

Igualmente, nas letras pesquisadas dos Smiths, não existe qualquer consciência do papel do mimetismo, e talvez por essa razão as letras falem tanto de um sujeito que se debate sem saída. Ainda em The Queen Is Dead, Morrissey canta, em “I Know It’s Over”: “Eu sei que acabou, mas ainda me prendo”. Em “Asleep”, lado b do compacto de “The Boy with the Thorn in His Side”, Morrissey chega a desistir: “Estou cansado, quero dormir. / Cante para eu dormir.”

Ou ainda, como aparece na terceira canção mais executada dos Smiths no Spotify, já executada 31 milhões de vezes: “Please, please, please, let me get what I want”. “Por favor, por favor, por favor, deixe-me obter o que eu quero.”

Para quem escreveu, em “Cemetery Gates”, de The Queen Is Dead, que Oscar Wilde ganhava de William Butler Yeats, estamos muito, muito longe do dandismo; estamos já bem longe dos imitadores dos dândis.