Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

A Nostalgia do Obstáculo Bondoso (um pouco de Downton Abbey)

Um dos grandes produtos culturais de exportação da Inglaterra é a série televisiva de época, que lá é chamada de period drama, drama de época, ou de costume drama, drama de figurino. A expressão “drama de figurino”, por sua vez, vale uma pequena meditação sobre a razão do sucesso desses dramas.

Vestidos com armações e espartilhos; fraques e cartolas; mais do que isso, a conveniência nada desprezível, assim que a situação econômica permite, de ter um criado que ajude você a se vestir. O traje das pessoas, jamais ditado apenas pela conveniência, aponta para a necessidade de fazer figura o tempo todo. Fazer figura, representar um papel sem a menor sensação de que se está apenas representando: papéis de mãe, pai, esposa, marido, filha, filho, com regras bastante claras.

Regras praticamente inquebráveis. E se você for quebrar uma regra… melhor ter um romancista para defender você, para explicar como a regra X foi quebrada mas na verdade foi para atender à regra Y que lhe é superior. Por exemplo: casar-se estritamente por amor.

O drama por trás dessa regra não é estruturalmente distinto de outros dramas menores. O espectador de Downton Abbey certamente tinha entre seus personagens favoritos Carson, o mordomo que guardava todas as regras. Quem não se lembrará de que, para Carson, era impensável que uma ajudante de cozinha — ou qualquer mulher — servisse a mesa junto com lacaios (footmen). Para essa regra ser quebrada, seria preciso uma situação realmente extraordinária.

Em cada situação social, havia, desde o ponto de vista moderno, inúmeros nãos: não falar certas palavras, não sentar-se de certo modo, e, para uma mulher, nem sequer sair desacompanhada!

Se a enunciação dessas regras de convivência pode causar até um certo escândalo, por que gostamos tanto de assistir a séries em que os personagens aceitam de bom grado submeter-se e elas, mesmo quando ameaçam não simplesmente sua felicidade, mas até sua tranquilidade?

No romance Middlemarch, por exemplo (também adaptado como costume drama pela BBC…), Dorothea Brooke acha que fez um péssimo negócio ao casar-se. Pior ainda, apaixona-se pelo cunhado. O que ela faz? Espera pacientemente o marido… morrer. E, depois da morte, ela e o cunhado têm sérios pudores quanto a verbalizar abertamente e entre eles próprios algo que sabem muito bem.

Para que meu argumento fique claro, convido o leitor ou a leitora ao seguinte exercício: se esse cunhado estivesse com uma camisa desabotoada no peito e mocassim, se essa senhora estivesse com um vestido solto e confortável, mas que demarca suas formas enxutas e cuidadas pelo personal trainer, se o cenário fosse o interior inglês de hoje, e “hoje” estivesse marcado por um modelo recente de BMW estacionado em frente à mansão… Esse drama seria aceitável? Por que essa mulher pelo menos não se divorciou? Ela nem era pobre…

Coloquemos de volta o figurino, em sentido amplo, e o drama se restabelece. Torcemos pelo amor de Dorothea e de seu cunhado, mas também torcemos para que o mundo em que eles vivem permaneça exatamente igual, e para que pessoas como eles continuem existindo.

A essa altura não é preciso acrescentar a primeira lição, que é óbvia e arquiconhecida: o obstáculo aumenta o desejo. Os sentimentos dos personagens-figurinos parecem mais intensos do que os sentimentos de personagens de jeans e tênis porque os primeiros estão submetidos a trocentas regras e os segundos podem fazer o que bem entendem. Por poderem — podermos — fazer o que bem entendem, seus principais sentimentos são angústia de não saber o que fazer e o tédio por já ter experimentado inúmeras coisas.

Isso explica o interesse das séries: qualquer pessoa prefere dedicar uma hora do seu dia a uma realidade que lhe parece mais intensa do que a sua própria do que a uma realidade que parece ter a mesma intensidade (não muita).

Agora, por que não existe revolta contra as regras que, se fossem aplicadas a nós mesmos, seriam consideradas intoleráveis?

Porque, em termos girardianos, são regras de mediação externa, nas quais as pessoas realmente acreditam. Elas têm antes de tudo a esperança de estar à altura dos papéis modelares que lhes foram reservados. O cunhado de Dorothea Brooke não veria o irmão como um rival; ele veria a situação toda como algo impensável. Mesmo Dorothea acharia que deve conter seu ressentimento do marido por causa de seus deveres de esposa, por ter desejado aquele casamento. A esperança de cada personagem é encontrar seu lugar numa ordem que lhes parece perfeitamente clara e boa, ordem essa na qual eles próprios acreditam.

Não por acaso Downton Abbey documentou certas mudanças na sociedade inglesa, mudanças trazidas sobretudo pela Primeira Guerra Mundial, mas apresentou seu último capítulo antes que as coisas mudassem demais. Os roteiristas e o público sabem perfeitamente que Carson têm razão: na hora em que se permitir que uma ajudante de cozinha sirva a mesa de um jantar aristocrático, onde é que esse mundo vai parar? Vai parar num lugar onde não se acredita mais que um obstáculo ao seu desejo possa ser um bem, e toda uma gama de possibilidades dramáticas extinguiu-se. A menos que a cena recomece em outro castelo, em outra região…

Porém, a situação é um pouco mais complicada. Retornaremos ao tema.

2 Comments

  1. Há alguns dias eu vinha tentando encontrar uma “perspectiva” que me auxiliasse na análise de um romance que tem me intrigado bastante. E acabei de encontrá-la neste artigo providencial, precisamente na questão do “obstáculo”. Foi como se tivessem ligado um interruptor clareando tudo. Acho até que vai me render uma resenha.

    Muitíssimo obrigado, meu caro.

  2. Amei, estão de parabens!

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