por Christiano Galvão

Se o universo romanesco – no sentido girardiano do termo – é um universo de possessos1, o romance “Até você saber quem é2, livro de estreia do escritor paranaense Diogo Rosas G., parece se inserir nesta categoria literária, na qual é possível vislumbrar as forças irreprimíveis e obsedantes do desejo transmudarem-se numa presença sombria, num outro, que se exterioriza, se personifica, até assumir aspectos demoníacos. Ainda que o autor alegue ter pouco a nos oferecer – dizendo que sua narrativa não é uma reportagem investigativa nem uma biografia, mas apenas o testemunho de um amigo, ou melhor, de um sobrevivente! – aquilo que ele narra, com precisão, sem excesso nem míngua, basta para revelar a fundura do terreno movediço pelo qual nos conduzirá.

Esse terreno são as lembranças de Roberto, a testemunha sobrevivente da perigosa e brilhante trajetória do escritor Daniel Hauptmann, seu amigo de convívio mais longo e íntimo. Numa narrativa que é, ao mesmo tempo, envolvente e sinistra, Roberto nos conta como Daniel, um precoce gênio literário, muito consciente de suas possibilidades, tanto quanto de sua torturante insignificância, empenha-se angustiadamente numa realização pessoal, e, como um Fausto contemporâneo, acaba por buscar no Maligno uma autoafirmação cínica de si mesmo. Porém, sem recorrer à magia romântica de Goethe, o autor aqui tem a sutileza de mostrar um homem que é já um possesso antes mesmo de se fazer pactário. E expõe a experiência de uma “queda” que, como bem observa Girard, possui uma força prodigiosa no plano da criação romanesca, por reverberar com toda a intensidade das crises existenciais3.

Obviamente, a força criadora do romancista também é determinante para a escolha desses temas e, sobretudo, para sua reconfiguração ficcional. E isso fica patente na agilidade fascinante, e capciosa, com que o autor maneja as memórias de Roberto, interligando temporalidades diversas, para delinear a personalidade intrigante de Daniel Hauptmann. Nesta sobreposição de perspectivas, nos deparamos com um jovem frustrado, insatisfeito, desesperado por não saber empregar seus talentos; e que padece a incerteza de uma chance, de um reconhecimento, tanto quanto o descrédito dos amigos e as cobranças intransigentes dos familiares. Circunstâncias que inoculam nele um ressentimento que se apura e, posteriormente, o possui.

Ressentido, Daniel Hauptmann odeia a faculdade de direito para a qual foi empurrado, desviando-se de seus propósitos; odeia a sua cidade natal, Curitiba, como um lugar de gravitação aprisionante que a todos paralisa e embota… Aliás, a ênfase que o autor dá ao ressentimento revela uma intuição estupenda da natureza do desejo que fervilha nesse personagem e, por vezes, denuncia-se na fúria gratuita de um gesto ou de um olhar:

Daniel olhava pra o céu azul através da janela aberta. Seu rosto, a princípio sereno, retesou-se devagar numa feia careta, sobrancelhas franzidas, com intensidade. Sem perceber que estava sendo observado, ele respirava pesadamente pelo nariz e projetava diante de meus olhos um filme mental de memórias de ódio e angústia4.

Essas expressões, tão repentinas quanto medonhas, deixam entrever aquilo que o habitava e que um dia se manifestaria violentamente. Antes disso, porém, Daniel buscava experiências compensatórias, e que pudessem introduzi-lo no mundo literário. Torna-se então tradutor, juntamente com Roberto – atividade que o contentaria, mas sem o apaziguar. Afinal, são pelas traduções casuais de poemas e tratados antigos que ele se depara com obras cujo tema é o “mistério da iniquidade”. Aos poucos, Daniel começa a perceber acenos furtivos do Demônio: quer seja nos versos de uma música que alguém canta, no número da rua onde sua namorada reside, ou até mesmo na fatalidade de um acidente de carro. Seus sentidos estão mais atentos, ou sugestionáveis, e captam, por toda parte, analogias possíveis que, pouco a pouco, o aproximam da realidade do Mal.

As lembranças de Roberto deixam a impressão de que foi a contemplação dessa realidade escusa que induziu Daniel a provar sua eficácia, e tentar obter dela algum benefício. É quando então lhe ocorre a ideia, radicalmente mimética, de emular o grande clássico da literatura nacional protagonizado pelo Demônio: Grande Sertão: Veredas!

A empreitada surte o efeito desejado. Daniel apropria-se do tema e consegue criar um romance ainda mais insólito – Os Diálogos do Castelo – que logo vira um best-seller e o eleva ao cume da carreira que tanto cobiçava. Roberto, que se torna seu agente literário, conta-nos como, a partir dali, Daniel usufruiu do prestígio mais irrestrito; como se tornou brilhante, vaidoso, promíscuo, espirituoso, caprichoso, altivo, apaixonado por si e pela sua obra. Depois de ter sofrido com a mediocridade como quem sofre a privação de um sentido, ele viu-se transformado no centro atrativo de todas as estimas, favores e elogios. Uma situação que concretizava a imagem de domínio e elevação denotada em seu sobrenome alemão: Hauptmann.

Porém, Roberto lembra também os requintes de soberba que ele demonstrava no trato com algumas pessoas, ora afetando indiferença ou antipatia, ora sendo francamente hostil. Essas atitudes levantam a suspeita de que Daniel estaria assimilando os procedimentos daquele em quem se tornara perito. E ele próprio parece sugerir isso numa das frases de seu tenebroso best-seller:

A inteligência, a sensibilidade e a espiritualidade  de Satã são sempre exatamente proporcionais à inteligência, à sensibilidade e à espiritualidade do indivíduo sobre quem ele está trabalhando.5

Essa sentença alude à reciprocidade vinculante que caracteriza o fenômeno dos duplos, e nos leva a questionar: quem estaria possuindo quem? Fica a impressão de que Daniel reforça e ostenta sua conduta antissocial com o fim de tornar mais convincente a figuração do Maligno em sua obra. Era como um empréstimo, ou permuta, pela qual ele canalizava seus ímpetos violentos e os objetivava no protagonista de Os Diálogos do Castelo. Mas de tanto dar voz e feição ao Tentador, Daniel, inopinadamente, começa a pressentir que aderir ao Mal é, a rigor, aderir ao Nada.

Talvez isso explique as oscilações bruscas de humor que, gradativamente, vão se agravando e desbotando o valor de todas as suas conquistas. Roberto nos fala então de um Daniel insone e outra vez frustrado em razão de algo que nem ele mesmo sabe o que seja, mas cuja ausência lhe é insuportável. O sucesso, que lhe trouxe tudo, parece tê-lo precipitado numa apatia em que seus desejos já não têm onde se fixar, e passam a vigorar num nível metafísico que o impeliria para qualquer obstáculo.

Tal como a figura bíblica do demônio que reencontra sua antiga morada em ordem e traz outros piores do que ele para ali habitar – o ressentimento retorna e o enreda num jogo de reciprocidades que se pervertem progressivamente. Daí a pouco, percebe-se que Daniel já não consegue mais dominar ou mesmo dissimular tal situação, mas que é ela que o domina. Nesse pormenor, faz-se ainda mais notável a intuição romanesca de Diogo Rosas G., que apreende esse fenômeno e confere aos obstáculos que ele demanda o aspecto simbólico que, de Goethe a Dostoiévski, de Thomas Mann a Guimarães Rosa, aparece como o “espírito que obstinadamente nega”!… Um espírito contra o qual, diz-nos Girard, todos os possessos se chocam, porque com ele se identificam, e nele querem se transformar6.

Desta perspectiva, a descrição do pacto de Daniel Hauptmann, tal como o autor a concebeu, é absolutamente genial. Sem entrar nos detalhes da cena arrepiante, basta dizer que nela podemos compreender o mistério do Mal como uma interação destrutiva entre duplos. Tema que, aliás, está presente em todo o romance, mas, sob formas tão variadas e esquivas, que só aos leitores mais atentos tornam-se perceptíveis.

Se o diabo – como diz o adágio – mora nos detalhes, ninguém deve se deixar levar pela fluidez e concisão deste romance singular. A cada página, Diogo Rosas G. desafia nossa capacidade leitura e usa as memórias de Roberto para mostrar mais do que conseguimos enxergar. Reparando então não somente no que está sendo dito, mas também no que é silenciado, talvez o leitor consiga corresponder à provocação expressa no título. Afinal, em suas páginas lê-se não apenas um, mas dois romances, com relatos e pontos de vista justapostos, dizendo de uma pessoa que acredita, segue e compactua violentamente com uma alteridade literária que ela própria promoveu. Trata-se, portanto, de um ardiloso jogo de duplos que põe em debate a verdadeira identidade do Maligno, e pode exigir mais de uma leitura “até você saber quem é”.

NOTAS

  1. GIRARD, René. Mentira Romântica e Verdade Romanesca. Trad. Lilia Ledon da Silva. São Paulo: É-Realizações, 2009. p. 341. ↩︎
  2. ROSAS G., Diogo. Até Você Saber Quem É. Rio de Janeiro: Record, 2016. ↩︎
  3. GIRARD, René. A Crítica no Subsolo. Trad. Martha Gambini. São Paulo: Paz e Terra, 2011. p. 23. ↩︎
  4. ROSAS G., Diogo, op. cit. p. 55. ↩︎
  5. Ibid., p. 67. ↩︎
  6. GIRARD, René. A Crítica no Subsolo. Trad. Martha Gambini. São Paulo: Paz e Terra, 2011. p. 110. ↩︎